A Copa Mundial de 1938

O primeiro jogo do Brasil na Copa Mundial de futebol, em1938, empolgou todo o país, e especialmente a molecada da minha idade, em Garanhuns, Pernambuco. Eu tinha então oito anos. A Copa foi para nós um evento extraordinário.
Quem tinha rádio – e na época poucas pessoas possuíam tal artefato – colocava-o na janela da casa com o som mais elevado possível, para que toda a vizinhança pudesse ouvir os jogos. No centro da cidade havia um primitivo serviço de alto-falante, onde o povão podia ouvir a transmissão dos jogos, apesar do som precário, cheio de chiados e longos momentos de silêncio.
Toda a cidade estava em alvoroço, com a possível boa atuação da equipe brasileira. Os lugares onde os jogos iam ocorrer eram dos mais exóticos: Reims, Lyon, Marselha, Strasburg, Bordeaux, Le Havre, e outros que ninguém jamais tinha ouvido falar. Os adultos talvez tivessem, mas a molecada não.
Minha introdução ao futebol ocorrera quando eu tinha quatro anos de idade. Fora na pequena cidade de Gameleira, onde me levaram a um jogo, ocorrido num descampado, pois não havia por lá um campo de futebol. Quase que terminou em tragédia. Uma vaca parida, sem dúvida zangada com a má atuação do juiz incompetente e desonesto, partiu para cima do povo, ameaçando chifradas por todos os lados. Finalmente foi laçada, e retirada para lugar mais seguro.
Tendo a família se mudado para Garanhuns, onde meus pais foram lecionar no Colégio 15 de Novembro, finalmente tomei pleno conhecimento do futebol. Essa escola de missionários americanos, conhecida como “O Quinze”, fora construída à maneira norte-americana, num campus de dois quilômetros quadrados. Além de enormes edifícios, esse colégio tem também quadras de tênis, de voleibol, de basquete e um belo campo de futebol. Era um colégio de Primeiro Mundo funcionando no Terceiro. Dois dos meus jovens tios jogavam na equipe do “Quinze”, e eram meus grandes heróis.
O football – como se escrevia essa palavra desde sua importação da Inglaterra – era considerado jogo de brancos Era esporte da elite. Quando o elitista Clube Náutico do Capibaribe, do Recife, começou a contratar rapazes morenos para sua equipe de futebol, os gaiatos recifenses diziam que esses eram obrigados a usar pó de arroz, para parecerem brancos. O Brasil era então um país ostensivamente racista.
Naquele ano de 1938 tomei conhecimento da Copa Mundial, que ia ser disputada na França. O primeiro jogo do Brasil ocorreu no domingo, dia 5 de junho. Foi um dia eletrizante. O primeiro jogo era contra a Polônia, país que a molecada desconhecia. Exceto que todos conheciam o nome de Apolônio Sales, secretário de agricultura de Pernambuco, muito atuante, cujo nome era freqüentemente mencionado nos jornais e no rádio. Assim, todos sabiam que a disputa seria entre o Brasil e a “Apolônia”.
Mais ainda, todos tinham decorado os nomes dos grandes jogadores nacionais: Leônidas, Perácio, Valter, Batatais, Domingos, Machado, Zezé Procópio, Afonsinho, Lopes, Romeu, Hércules e Patesko. A garotada não tinha a menor dúvida: os brasileiros venceriam os “apolônios”.
Logo naquele primeiro jogo, ocorrido em Marselha, o admirado “negro Leônidas”, como era conhecido por todos, se distinguiu como nenhum outro. Chegou a fazer um gol descalço, pois sua chuteira tinha se rompido. O juiz era um safado, chamado Futrica – pois era assim que entendíamos o nome do juiz suíço Wutrich. Esse juiz bandido proibira Leônidas de jogar descalço, e o brasileiro tivera de colocar uma chuteira nova, que todos sabiam ia lhe doer nos pés, pois assim nos informara o locutor do evento. Nosso coração batia de ódio pelo juiz europeu safado, e de orgulho por aquele “negro brasileiro”, gente nossa.
O resultado não podia ser outro. O Brasil ganhou o jogo: Brasil 6 x “Apolônia” 5. Foi um deslumbramento. O Brasil se impunha ao mundo como uma potência de futebol!
Houve uma passeata patriótica, que caminhou por toda a cidade, culminando em um comício na Praça 15 de Novembro, em frente à sede do Sport Clube. Os oradores gritavam “peço-a-palavra”, e se revezavam no pódio. Entre eles, o estudante Uzzai Canuto, poeta delirante, que fez todos vibrarem com sua palavra fácil e poética. Mas o discurso que realmente marcou o dia foi o do cidadão Antônio Lyra, casado com Dejanira Gueiros Branco. Seu magnífico discurso encontrou eco no coração de todos que vibravam com a atuação extraordinária do “negro Leônidas”, como todos o chamavam. Orador fogoso, Antônio Lyra rendeu a Leônidas os maiores louvores que seu coração racista poderia imaginar:
“Minhas senhoras e meus senhores: hoje o Brasil vibra com sua grande vitória nos campos europeus. E a quem ele deve essa maravilhosa vitória? Ao negro Leônidas, nosso grande herói. Negro, sim, mas um negro de coração branco; negro, sim, mas um negro de alma branca; negro, sim, mas um negro de pés brancos, que nos levaram à vitória. Leônidas, meus senhores, é o negro mais branco de todo o Brasil”.
O orador foi aplaudido delirantemente. O jogador Leônidas subira ao trono da estima nacional, e fora declarado oficialmente “branco” pelo orador Antônio Lyra, que pelas leis de hoje seria denominado “racista”, preso e processado. Na época, livre para falar sem eias nem peias, ele delirava com a vitória da equipe nacional, e rendia o que imaginava serem grandes homenagens ao extraordinário jogador Leônidas. Setenta e quatro anos atrás, o “negro Leônidas”, declarado “branco”, pelo orador garanhuense, se tornara o orgulho de todo o Brasil, e especialmente da molecada de Garanhuns. Foi um dia inesquecível.