Algumas Raízes do Equilíbrio de Poder
A Paz de Westphalia (1648), foi uma tentativa de estabelecimento de equilíbrio num período em que a ordem era estabelecida pelas relações entre os Estados, não se possuindo, então um poder superior às instâncias governamentais dos próprios Estados.
O Tratado assinalou o fim de conflitos religiosos, mas criou uma situação política na Europa, onde por decênios predominou a influencia francesa. Para não ferir o direito de precedência, a paz foi celebrada simultaneamente, em duas cidades da Vestphalia: Münster e Osnabrück., porque franceses e suecos reclamavam o posto de maior destaque nas cerimônias. Assim, embora sem os meios para impor uma determinada conduta, o Tratado sagrou a hegemonia efetiva, mesmo que não duradoura, da França de Luís XIV.
Para suprir esse vazio internacional de poder, os próprios Estados organizados procuraram fazer valer a conduta dos outros Estados em seu próprio favor por meio do direito positivo. Isto ocorria em razão de um Direito Internacional sem judicionário com jurisdição compulsória. As regras e normas de conduta eram estabelecidas pelos próprios Estados, adotando certos atos como foi o Ato de Navegação de Cromwell (1651), pelo qual nenhum navio estrangeiro poderia desembarcar na Inglaterra mercadorias que não fossem do seu próprio país. No caso, produtos das Índias e das Américas só poderiam ser desembarcados em embarcações inglesas. Com isso estimulou a produção de barcos com os fretes garantidos Em represália, a Holanda recorreu a hostilidades navais. Assim, as posições econômicas também foram elementos de poder em política internacional.A proibição de certas formas de comportamento ou especificação das condições para estabelecimento de direitos e obrigações comuns e universais inexistiam.Só contemporaneamente é que a criação da Corte Internacional de Justiça da Organização da Nações Unidas-ONU que possui como antecedente a Conferência de Haia (1907), tem jurisdição que abrange somente os Estados partes.
A Paz de Westphalia, como um equilíbrio de poder, não conseguiu manter a paz por muito tempo. Apesar de ter posto fim às pretensões dos Habsburgos retirando do Imperador da Alemanha a autoridade efetiva sobre os principados que o compunham, transformando-os praticamente em independentes, com exceção da Áustria que pertencia ao próprio imperador, desnivelou a balança de forças, fortalecendo a França. O envolvimento francês em quatro guerras européias como a Devolução que valeu a França onze cidades de Flandres (1668), a dirigida contra a Holanda até 1678 com a vitória francesa e a paz honrosa de 1697, frente a Liga de Augsburgo criada em 1688.
A Raison d´Etat política implantada pelo primeiro ministro da França, o Cardeal de Richillieu (1624-1642), normalizou as desordens na França no reinado de Luis XIII sem restringir o poder dos nobres, reforçou e reorganizou o exército e venceu movimentos armados liderados por vultos da própria nobreza francesa. Richilieu implantou, pois,as condições para a hegemonia francesa. Ao falecer, começavam as vitórias francesas na Guerra dos Trinta anos. Dele as sementes da colocação de um neto de Luis XIV no trono espanhol com o nome de Carlos V, embora, a mobilização militar que levou a Paz de Utrecht (1713) quebrasse a hegemonia desfrutada pela França desde a guerra dos Trinta anos,e a desfalcasse do seu império colonial.
Do ponto de vista político, prevaleceu o absolutismo real e alguns casos de parlamentarismo evoluíram com a monarquia inglesa que desde 1688 não poderia ser chamada de absolutista, porquanto o Parlamento era formado por deputados eleitos por uma ou mais classes do povo. Com a contenção da França, a Grã-Bretanha, estabeleceu novo equilíbrio de poder na Europa através de suas sucessivas alianças.
A paz mediante um frágil equilíbrio de poder segundo Martin Wight aponta pra um problema permanente nas relações internacionais de poder e que consiste na desavença mesma entre as potências sobre a distribuição do poder ser ou não ser eqüitativa, além de que a distribuição do poder não poder permanecer constante por tempo indeterminado.
Para que, o Congresso que vai presidir a restauração européia, o Congresso de Viena (1815), concretizasse outra idéia de equilíbrio de poder na Europa. vários fatos marcaram a evolução mundial. Desde Napoleão com o Código Civil inspirando realizações congêneres, a prática da livre concorrência dentro da França e a criação de uma nova nobreza com base no mérito, até a vitória dos norte-americanos na batalha de Saratoga sobre os ingleses e a Declaração da Independência dos Estados Unidos, todos esses, eventos prenunciaram uma paz que não se modificou nos seus meios tradicionais. A paz da Europa parece ter mudado de sentido, segundo Mauruce Crouzet, após 1813. O chanceler austríaco, Metternich de Coblença e o secretário amigo, Frederico de Gentz que opôs ao ideário francês a velha fórmula da lisonja, predica um equilíbrio de poder que garante o domínio de cada um na sua própria casa e, ao mesmo tempo a conservação do estado social. Não se pode esquecer, que o pacto precedente, o assinado em Chaumont, a primeiro de março de 1814, entre os quatro grandes aliados era específico quanto aos objetivos da guerra contra a expansão napoleônica, o de preservar a tranqüilidade da Europa, mediante o justo equilíbrio de potencias. Segundo o velho direito monárquico, adotou-se o principio da legitimidade, implicando na restituição ao proprietário legítimo de territórios, idênticos ou equivalentes. Isto já porque o conceito de soberania, sob certos aspectos, é um bem patrimonial, uma propriedade incomutável em relação à qual os homens, quer sejam súditos ou príncipes, nada poderão fazer (Maurice Crouzet ). Esses dois princípios desempenham, por igual, um papel conservador. Franceses e aliados invocaram esses dois princípios. Não se levou em conta o desejo das populações dominadas e nem se pensou em transigir com o direito público revolucionário. Os aliados aplicaram a lei do mais forte. Aliás, conforme explicou o tzar russo a Talleyrand “são as conveniências da Europa que constituem um direito”… Ao lado das conveniências da Europa coexistem as conveniências dos Estados e a dos soberanos. Os quatros grandes disputam a Polônia, a Alemanha, a Itália. Passada a dor de cabeça revolucionária, francesa começa o jogo diplomático. A Inglaterra e a Prússia aproximam-se contra a Rússia. A Áustria teme a Rússia e a Prússia a inquieta Em 1814, dá-se uma aproximação Rússia-Prússia, uma anglo-austríaca que envolve a França terminando essas três potências, por assinar um tratado secreto de aliança (3 de janeiro de 1815) .
E quanto ao Congresso de Viena? Ora, de fato, nunca foi oficialmente aberto. Previsto para fins de julho de 1814, adiado para primeiro de outubro e uma vez mais para primeiro de novembro só algumas comissões passaram a funcionar nessa última data.. Nessas comissões trabalharam mais facilmente os diplomatas na elaboração de tratados entre os estados. Em março, os aliados negaram-se a negociar com Napoleão desembarcado. Embora, comparecessem ao Congresso representantes de toda a Europa, advogados de judeus alemães, cavalheiros de Malta, cerca de 216 delegações, as negociações prosseguiram em novembro de 1814 até 9 de junho de 1815. Finalmente, as disposições ditas de um “interesse maior e permanente.” reunidas “num instrumento geral”, tomaram a forma de ata final do Congresso. Ata que, juntamente com os Tratados de Paris (30 de maio de 1814 e 20 de novembro de 1815) derem solução razoável à França e consideraram o mundo restaurado.
Quanto a França, Chateaubriand, no Livro De Bonaparte e dos Bourbonsmanifestou um espírito conciliável com uma sociedade de reis. A vitória aliada surgiu aos franceses tal qual uma lição dos céus, “que castiga, sem nos humilhar”.