O Diário de Hélène Berr

Hélène Berr, uma jovem judia parisiense, de 21 anos, culta, estudante de literatura inglesa da Sorbonne, que sonhava com um futuro promissor ao lado de Jean Morawiecki, seu namorado, começou a escrever um diário, em abril de 1942, interrompendo-o em 8 de março de 1944, quando foi deportada para Auschwitz, com seus pais.
Esses manuscritos, confiados por Hélène à sua cozinheira, para entregá-los ao namorado, permaneceram guardados por seus familiares, durante 50 anos, como um intocável tesouro, até que foram doados ao Memorial da Shoah em Paris.
O nazismo, a segunda guerra mundial e as leis contra os judeus, de Vichy, mudaram tragicamente o destino desta jovem, interrompendo sua vida, cruelmente, no campo de concentração de Bergen-Belsen, em março de 1945.
Mais um depoimento histórico sobre as atrocidades perpetradas pelos nazistas, Hélène Berr Journal, lançado na França, pela editora Tallandier, em 2008, foi comercializado com 85 mil exemplares e vendeu 26 mil, em apenas três dias. Permaneceu durante três meses na lista dos mais vendidos, foi aclamado pelos jornais Liberation e Figaro e teve seus direitos vendidos para mais de 15 países.
Lançado no Brasil pela editora Objetiva, em 2008, “O diário de Hélène Berr” nos toca profundamente por ser um relato surpreendente de uma judia, nascida em 1921, filha de Raymond Berr, vice-presidente da empresa química Kuhlmann, que morreu envenenado pelo médico na enfermaria de Auschwitz e de Antoinette Berr que foi assassinada ao chegar a Auschwitz.
Hélène, além de estudante de música clássica e de literatura inglesa, era bibliotecária voluntária e fazia trabalhos sociais de assistência a crianças judias desamparadas. Lia Paul Valéry, Thomas Hardy, Elizabeth Goudge, entre outros. Em seu diário cita Shelley e Shakespeare e conta que costumava reunir-se com um grupo de amigos para tocar peças de Beethoven, Schubert e Bach, ao violino.
Descreve a vida em Paris, a rotina na universidade com seus amigos, seu romance com Jean, viagens de férias no campo e a simplicidade do amanhecer, no texto escrito em 11 de abril de 1942. “O júbilo que acompanha a ascensão triunfante do sol matinal, a alegria, a cada momento renovada, de uma descoberta, o perfume sutil dos buxos em flor, o zumbido das abelhas, o surgimento repentino de uma borboleta em voo hesitante e um pouco incerto. Fiquei no banco lá em cima sonhando, deixando-me acariciar por essa atmosfera tão suave que fazia meu coração derreter como cera”.
No entanto, aos poucos, a ocupação nazista começou a impregnar sua felicidade. Hélène Berr nos descreve a transformação de sua vida e o desvanecimento de seus sonhos. O namorado deixou Paris para fazer parte da Resistência francesa, seu pai foi detido pelos nazistas, famílias judias foram esfaceladas e suas amigas deportadas.
Mesclado de sua experiência diária, repleto de esperança e desespero, seu texto, de qualidade literária excepcional, nos prende e emociona do começo ao fim. Porém, o verdadeiro inferno vivido por Hélène não pôde ser relatado, pois sua pena foi confiscada pelos nazistas.
De Auschwitz, Hélène Berr foi conduzida, na famosa “marcha da morte”, para Bergen-Belsen, quando quinze mil pessoas morreram ao longo do caminho. Ao liberarem o campo de concentração, em 13 de abril de 1945, os soldados ingleses encontraram dez mil cadáveres e trinta e oito mil pessoas agonizantes. Hélène Berr, Anne Frank e a irmã, Margot, morreram de tifo e maus tratos, poucos dias antes da redenção.