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{"id":61,"date":"2015-03-08T23:19:11","date_gmt":"2015-03-08T23:19:11","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=61"},"modified":"2021-01-21T23:28:58","modified_gmt":"2021-01-21T23:28:58","slug":"linguagem-e-coerencia-na-obra-de-pasolini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2015\/03\/08\/linguagem-e-coerencia-na-obra-de-pasolini\/","title":{"rendered":"Linguagem e Coer\u00eancia na Obra de Pasolini"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><span style=\"color: #000000;\"> \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Pietro Paolo Pasolini (1922 -1975) Lui solo contro tutti<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> This work is na attempt to interpret the Pasolinean\u2019s language. Whithin the neorealist universe. Pasolini was a poet, narrator, director, literature critic and a protogonist of the cultural scene and critics of Italy, as well as a main character of the economic\u00a0 development some say he was a very complex personality.<\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> The object of this article is reproduce him with the big neutrality, with no mora lism and ambiguity condemnations, on the contrary with a huge enthusiasm.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> The main objective of this very article is the sole description of him with no judgement and admiration.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Pasolini nasceu em Bolonha, It\u00e1lia, e na sua inf\u00e2ncia e parte da sua adolesc\u00eancia conheceu o jugo fascista e o que ele significava. Sua fam\u00edlia era origin\u00e1ria do Nordeste da It\u00e1lia, Fruli, onde predominava o dialeto \u201cRhaeto \u2013 Romanic\u201d, ou fruliano que ele mais tarde dominaria com perfei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se relacionava bem com o pai ,oficial fascista, com certeza autorit\u00e1rio e teve v\u00e1rios contratempos com ele.Com respeito a sua sensibilidade n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel admitir a indiferen\u00e7a quando seu pai foi feito prisioneiro de guerra no Kenia, e morreu em 1958.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Contudo, tinha grande admira\u00e7\u00e3o pela sua m\u00e3e, de origem camponesa, cuja fam\u00edlia era proveniente de Veneza. Seus problemas familiares marcaram sua obra e isso \u00e9 uma unanimidade para os seus amigos e bi\u00f3grafos. Pela vida afora, assumiu seu pr\u00f3prio complexo de \u00c9dipo. Expressou sua admira\u00e7\u00e3o e respeito pela figura materna quando escreveu, aos dezessete anos, os poemas no dialeto fruliano, enaltecendo o modo de ser dos campesinos.Embora fosse o primeiro livro de Pasolini: \u201cPoesie e Cosarsa\u201d, deitou clar\u00e3o no tra\u00e7o de rebeldia que sublinharia toda a sua obra. Publicou tamb\u00e9m artigos em Architrave, a revista mensal pol\u00edtico \u2013 liter\u00e1ria dos estudantes.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Dal basso le spinte dialettali o regionali, che in passato agivano assai subordinatamente, accrescono l\u2019incidenza entro la l\u00edngua, denunciano un\u2019investitura per l\u2019uomo della strata.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Si accelera il ricambio fra l\u00edngua e parlate locali secondo un processo nuovo e delicato, per cui non \u00e8 pi\u00f9 tanto lo scrittore a scendere per evasione ling\u00fc\u00edstica a livello dei dialetti (mettiamo Pasolini, Mastrolonardi ecc.), quanto sono i nuovi itenti della l\u00edngua, le nuove reclute a salire, com mentalit\u00e0 e precedenti abitudini dell\u2019ambito dialettale,verso la l\u00edngua, com tutte le future conseguenze del democraticizzarsi del prodotto. Segundo\u00a0 Maria Corti , 1965, p 323.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Assim, rebateu os interesses fascistas de unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia,logo qualquer manifesta\u00e7\u00e3o deveria ser silenciada. Vivia no sub\u00farbio. Passou a maior parte da inf\u00e2ncia no Cosarsa, onde nasceu sua m\u00e3e. Em 1943, ap\u00f3s a queda do regime, viveu no campo com a m\u00e3e e o irm\u00e3o em Corsarsa della Delizia. Chegou mesmo a combater ao lado dos camponeses contra os grandes latifundi\u00e1rios da regi\u00e3o obtendo uma experi\u00eancia pr\u00e1tica e dolorosa com a realidade. Essa conviv\u00eancia \u00edntima com a vida dos mais simples revelou-se numa inclina\u00e7\u00e3o ao marxismo.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> O seu contato com Fruli , constitui-se no ide\u00e1rio de Pasolini, um lugar fechado, protegido das r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es advindas do progresso como se lhe fosse poss\u00edvel parar a Hist\u00f3ria . Sua conviv\u00eancia ali possibilitou\u2013lhe a apreens\u00e3o da consci\u00eancia das desigualdades pol\u00edticas e sociais, fazendo-o conhecer de perto a vida e as dificuldades da luta camponesas, as injusti\u00e7as flagrantes que ao esposar a teoria marxista aceitaria como a hist\u00f3rica luta de classes. O suporte ideol\u00f3gico de seus primeiros romances e filmes s\u00e3o um reflexo de suas viv\u00eancias de ent\u00e3o passados num pano de fundo de um mundo arcaico, religioso, um tipo de vida atribu\u00eddo aos pa\u00edses subdesenvolvidos do chamado Terceiro Mundo.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Durante a II Guerra Mundial, outra tr\u00e1gica experi\u00eancia o marcou de forma singular. Seu irm\u00e3o Guido foi executado pelos membros do Partido Comunista, dentro do quadro de divis\u00e3o da Resist\u00eancia italiana, mas isto n\u00e3o o impediu de admirar Gramsci e de ingressar no Partido Comunista Italiano em 1947. Seus questionamentos cont\u00ednuos e o seu posicionamento, algumas vezes pouco claro em rela\u00e7\u00e3o ao Comunismo parecem fruto de uma \u00edntima dualidade de emo\u00e7\u00f5es. Obedecia a um senso intimo de justi\u00e7a e igualdade e embora nos \u00faltimos dias de sua vida declarasse que era comunista, certamente nunca esqueceu o irm\u00e3o Guido Alberto e o seu desligamento do Partido, de onde foi expulso sob a acusa\u00e7\u00e3o de desvio ideol\u00f3gico. De forma singular, .acreditava que os menos favorecidos, o subproletariado construiria um mundo ausente de corrup\u00e7\u00e3o, com o frescor e a originalidade primeira.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Sua simpatia por Ant\u00f4nio Gramsci (1891\u20131937), era aut\u00eantica. De Gramsci, um l\u00edder pol\u00edtico e co-fundador do partido Comunista , que passou os \u00faltimos dez anos de sua vida na pris\u00e3o, incorporou o conceito de ideologia e o exemplo v\u00edvido a ser seguido, o de intelectual envolvido, de forma direta, com as classes dominadas. Ap\u00f3s sua expuls\u00e3o do PCI-Partido Comunista Italiano ele vai com a m\u00e3e para Roma onde mant\u00e9m contato direto com os subproletariado marxista(1) das borgate(2).Ali na periferia, ganharia a experi\u00eancia direta no seu cotidiano como professor, depois como jornalista e roteirista de cinema. Mant\u00eam presa a figura de Gramsci as raz\u00f5es da ado\u00e7\u00e3o da ideologia comunista revolucion\u00e1ria que contrastava, com a emo\u00e7\u00e3o emotiva e visceral que o identifica com a vida incoerente da massa. (Segundo Frota\u2013Impresso de Confer\u00eancia\u2013p.05).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Assumiu o papel que foi descrito por Gramsci, dentro do r\u00f3tulo \u201cnacional popular\u201d em suas obras, com os romances \u201cIl Songo di Uma Cosa\u201d (1964), \u201cRagazzi di Vita\u201d (1955) e \u201cUma vita violenta\u201d (1959). Nesses tr\u00eas trabalhos, os par\u00e2metros de autenticidade erigidos eram o campon\u00eas fruliano e como n\u00e3o poderia deixar de ser o subproletariado de Roma. Nesse per\u00edodo, Roma era considerada uma cidade no est\u00e1gio e pr\u00e9\u2013industrial, tudo ao contr\u00e1rio do Norte industrializado. Os habitantes da periferia da cidade, os seus habitantes mais humildes, viviam numa pen\u00faria material e moral muito mais pr\u00f3xima da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina do que da Europa que se erguia no p\u00f3s- guerra. Como seria \u00f3bvio, manifestou-se em favor das camadas prolet\u00e1rias, numa escolha advinda das suas pr\u00f3prias inclina\u00e7\u00f5es e op\u00e7\u00f5es de vida e at\u00e9 mesmo do seu idealismo po\u00e9tico. Em sua imagina\u00e7\u00e3o Fruli, assim como o \u201cTerceiro Mundo\u201d \u00e9 para ele um lugar fechado, bem protegido dos golpes que geram mudan\u00e7as abruptas; mudan\u00e7as as mais significativas da hist\u00f3ria humana. No caso, Pasolini revoltava-se com a industrializa\u00e7\u00e3o crescente e os problemas dela oriundos, comuns em todo o mundo. Parece ing\u00eanuo imaginar um Pasolini cr\u00e9dulo o suficiente para acreditar que os pa\u00edses subdesenvolvidos pudessem estar \u00e0 margem deste processo econ\u00f4mico integrativo que se tornaria globalizado. Sua natureza po\u00e9tica fazia evocar o subproletariado como mais pr\u00f3ximos de um momento essencial, de um sentimento de religiosidade ainda intocado. Por isto, na obra pasoliniana, o subproletariado \u00e9 na sua ess\u00eancia uma esp\u00e9cie de met\u00e1fora de um Terceiro Mundo dentro do pr\u00f3prio Primeiro Mundo cujos valores ele renegava. Assim, esses subprolet\u00e1rios pela sua pr\u00f3pria exist\u00eancia significavam um tipo de resist\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 a um tipo de industrializa\u00e7\u00e3o indiscriminada mas ao pr\u00f3prio neocapitalismo. \u00c8 uma recorr\u00eancia em seus trabalhos a tentativa persistente da compreens\u00e3o imposs\u00edvel, da insist\u00eancia de apreender o subproletariado sem a compara\u00e7\u00e3o ou a conjectura de um contexto geral t\u00edpico terceiro mundista.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Na d\u00e9cada de cinq\u00fcenta, trabalhou como ator e .ganhou fama internacional na metade dos anos sessenta. Com a libera\u00e7\u00e3o do movimento \u201dgay\u201d, a comunidade dos novelistas homossexuais atingiu o n\u00edvel internacional, como Cristopher Bram e ele se tornou mais consciente do trabalho de alguns poetas mais jovens e do que significava para eles. Esta influ\u00eancia independe de sua linguagem, da linguagem pasoliniana, onde na \u00f3pera da poesia predomina o dialeto casarsese e romano, enquanto na prosa encontramos uma linguagem neutra na qual se insere como cont\u00ednua, a experi\u00eancia e modos da fala dialetal.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Mas, de fato quem era Pasolini? Qual o significado completo de suas controv\u00e9rsias? Em Ragazzi di Vita e Una Vita Violenta protagonizado pelo subproletariado romano percebe-se muito mais uma vitalidade n\u00e3o enquadrada na l\u00f3gica marxista, mas uma \u00eanfase, numa irredut\u00edvel diversidade daquilo que podia retratar as normas burguesas e cat\u00f3licas. Ele acena com a esperan\u00e7a de uma reden\u00e7\u00e3o em massa em Le Ceneri de Gramsci e em La religione del mio tempo, de 1961. Condena o neocapitalismo que corrompe o proletariado urbano que jamais deveria render-se ao consumismo. Personalidade controvertida e de m\u00faltiplas facetas defendia a vida pois era contra a lei do aborto e criticava os estudantes radicais, tornando\u2013 se impopular nos partidos de esquerda. Embora pare\u00e7a paradoxal, Pasolini agia e produzia com organicidade e coer\u00eancia embora provocasse pol\u00eamicas induzidas pela natureza mesma do seu temperamento.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Foi um g\u00eanio do nosso tempo, ao mesmo tempo escritor, poeta, novelista, ensa\u00edsta, cr\u00edtico, diretor, ator, compositor, cineasta, fot\u00f3grafo, editor ,marxista cat\u00f3lico, homossexual imperscrut\u00e1vel, jornalista, professor ,roteirista de cinema, doutor Honoris Causa, enfim, um dos grandes protagonistas da cena cultural italiana, do boom econ\u00f4mico e da contesta\u00e7\u00e3o (Idem p.07)<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Muitos amigos como, por exemplo, o celebrado cr\u00edtico, Alberto Moravia, achavam que Pasolini era um dos nomes mais importantes da It\u00e1lia intelectual e culta. Moravia prefaciou Ragazzi di Vita de Pasolini , considerando que ele <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Affermava in pubblico che la giovent\u00f9 era immersa in um ambiente criminaloide di massa; ma, in privato, a quanto pare, si illudeva che si potessero essere dele essere delle eccezione a questa regola. La sua fine, ad ogni modo, \u00e8 stata al tempo stesso\u00a0 s\u00edmile all\u00e1 sua opera e dissimile da lui. S\u00edmile perch\u00e9 egli ne aveva gi\u00e0 descritte,\u00a0 nei suoi romanzi e nei suoi film, le modalit\u00e0 squallide e atroci; dissimile perch\u00e9 egli non era uno dei suoi personaggi come qualcuno, dopo la sua morte, h\u00e1 tentato\u00a0 insinuare, bens\u00ec uma figura centrale della nostra cultura, un poeta e um narratore che aveva segnato um\u2019epoca,um regists geniale, um sagista inesauribile.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> De fato, ele representou a voz da sua gera\u00e7\u00e3o t\u00e3o traumatizada e sofrida do p\u00f3s \u2013 guerra. Nos dourados anos cinq\u00fcenta sua fama estava consolidada e nos anos sessenta viajou a \u00c1frica, fazendo estudos para o filme \u201c O \u00c9dipo preto\u201d, que nunca chegou a ser filmado. Pasolini, numa desesperada e pat\u00e9tica tentativa de at\u00e9 certo ponto lan\u00e7ar as suas esperan\u00e7as num sistema de valores em que acreditava, no mito imagin\u00e1rio do Terceiro Mundo, v\u00ea na \u00c1frica a sua alternativa. Seus ataques \u00e0s figuras e valores da civiliza\u00e7\u00e3o; a sua exalta\u00e7\u00e3o, superficialmente levada ao populismo; sua concep\u00e7\u00e3o de subproletariado urbano, ainda n\u00e3o um proletariado, por n\u00e3o se constituir numa v\u00edtima benefici\u00e1ria do colonialismo burgu\u00eas e mais, as suas den\u00fancias relativas de homologa\u00e7\u00e3o de conduta do poder capitalista e de sua campanha de acultura\u00e7\u00e3o s\u00e3o um demonstrativo de sua coer\u00eancia. (Raboni, p. 224).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Pasolini, que polemizou com estudantes no final da d\u00e9cada de sessenta (1968), segue convicto de que o consumismo determinou uma irrevers\u00edvel muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica forjando um novo imagin\u00e1rio coletivo, modelando o comportamento, a linguagem e a mentalidade.O discurso antropol\u00f3gico de Pasolini, n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto a sua coer\u00eancia, al\u00e9m da demonstra\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca de sua organicidade. Temos que lembrar de inserir a obra pasoliniana no experimentalismo, , sob o ponto de vista da forma e do conte\u00fado ,denominado tamb\u00e9m de neoexperimentalismo, vista pelos cr\u00edticos como uma experi\u00eancia solta depois do hermetismo e do neo-realismo.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> O legado de Pasolini, escritor e poeta, parece guardar identidade com o universo de Dante em seu \u201cInferno\u201d: Deixai toda a esperan\u00e7a,vos que entrais, \u00e9 o aviso.Sua pena retratou os lugares mais s\u00f3rdidos de Roma,descrevendo em seus personagens,a desesperan\u00e7a,a desilus\u00e3o e o desencanto da luta pela sobreviv\u00eancia na Roma perif\u00e9rica.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Ele nos leva a ruas mal cheirosas, e as vielas estreitas e tortuosas,a as margens de um rio Tibre de \u00e1guas \u00e1cidas \u201cverdes e podres\u201d. Na fala dos seus personagens,a reprodu\u00e7\u00e3o de uma inf\u00e2ncia triste e corrompida com limitadas perspectivas de ascens\u00e3o social. Ele encontra tamb\u00e9m nos seus cafet\u00f5es, jovens e prostitutas uma maneira de ir mais al\u00e9m da periferia,adentrando aos pontos consagrados nos cart\u00f5es postais da cidade Eterna. Juntos eles comp\u00f5em o universo da escrita de Pasolini transformando em denuncia social.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Em \u201cA Brava Noite\u201d nos leva a digerir uma no\u00e7\u00e3o que lhe parecia fundamental,a lealdade,quase uma constante mesmo que diminu\u00edda no conv\u00edvio da inoc\u00eancia corrompida com a malandragem. Pasolini confere aos tipos explorados uma esperteza e a \u201carte de ser sabido\u201d, como os que negociam um programa com prostitutas mas acabam sendo enganados por elas, furtados que s\u00e3o. Tanto em \u201cA Brava Noite\u201dou como em Accatone, seu primeiro longa metragem, ele fala pela boca do personagem principal,ex\u00edmio na trama para divis\u00e3o da massa com outros colegas na hora de alimentar-se. Cabe-lhe a maior por\u00e7\u00e3o e ele declara triunfante: o mundo \u00e9 dos espertos.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> A id\u00e9ia de uma ascens\u00e3o social parece sempre distante de efetivar-se no mundo de Pasolini. Com certeza, n\u00e3o foi um fornecedor de esperan\u00e7as fartas. Refor\u00e7ando a id\u00e9ia central de uma sociedade desigual e plena de estamentos ,mostra a expressa condena\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9- determinadas dentro de um restrito livre arb\u00edtrio. As personagens desfilam sempre destinadas a um final s\u00edmile a os das trag\u00e9dias gregas. Eles v\u00e3o surgindo grandiosos, dignos, mas sufocados pela adversidade, a impot\u00eancia e a tristeza.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Especificamente, quanto a sua produ\u00e7\u00e3o para o cinema parto da tentativa de abordagem dos princ\u00edpios que nortearam o processo criativo cinematogr\u00e1fico do ator e diretor italiano Paolo Pasolini. A express\u00e3o cinema de poesia, textos e filmes desse artista podem ser analisados,numa releitura das estruturas narrativas recorrentes do denominado cinema independente. Podemos estabelecer a\u00ed como contraponto a experi\u00eancia do cinema industrial como tipo \u201cmade in Hollywood \u201c. Pasolini nitidamente prop\u00f5e uma sistematiza\u00e7\u00e3o de conceitos e caracter\u00edsticas do cinema e da poesia. Segundo Erica Savernini (2004).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> De qualquer forma, consideramos que uma compreens\u00e3o completa do mito Pasolini se constitui ainda numa arrojada tarefa. Todos os seus admiradores e bi\u00f3grafos v\u00eam oferecendo m\u00faltiplas abordagens numa compreens\u00e3o dividida, dir\u00edamos fraturadas, da multiplicidade de sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstico-cultural. Isto se deve a que, em alguns de seus romances h\u00e1 falta de um enredo cont\u00ednuo em todo o seu conte\u00fado, uma estrutura org\u00e2nica que fa\u00e7a atuar o protagonista dentro de um enredo real. Isto porque, ele nos oferece seq\u00fc\u00eancias aut\u00f4nomas e substanciais que confirmam a hist\u00f3ria de vida nos bairros romanos p\u00f3s- Segunda Grande Guerra Mundial e o iniciar da d\u00e9cada de cinq\u00fcenta. Desse ponto de vista,alguns dos seus trabalhos podem ser usados como referencial para os estudiosos de hist\u00f3ria social da It\u00e1lia.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Dentro dessa perspectiva hist\u00f3rica, um bom exemplo dessa assertiva \u00e9 o Ragazzi di Vita (1955) um ensaio documental e aberto dentro de uma proposta muito t\u00edpica dele. Refiro-me a hostilidade \u00e0s conven\u00e7\u00f5es tanto no plano rom\u00e2ntico, como no estrutural e no ling\u00fc\u00edstico. Os Ragazzi salientam a diversidade e divis\u00e3o no mundo dos vagabundos que Pasolini faz atender por nomes grupais como os Piattoletta, os Riacetto, os Lenzetta. Todos parecem movidos sempre para atender os desejos de alimenta\u00e7\u00e3o e sexo, sem uma consci\u00eancia social e pol\u00edtica neles identificadas. Seu cotidiano aparece impregnado de situa\u00e7\u00f5es de burla e grosseria que parecem n\u00e3o absorver como ofensas, pois o que lhes interessa e lhes confere animo \u00e9 a energia vital subliminar que lhes norteia a vida. Numa mescla de altos brados, grosserias e insultos acompanhados de correrias, dar-se \u00e0 sua forma de comunica\u00e7\u00e3o que subtendem as suas necessidades elementares e biol\u00f3gicas j\u00e1 mencionadas. Para ruptura do di\u00e1logo escasso, Pasolini interv\u00e9m com cenas de prote\u00e7\u00e3o e do\u00e7ura aos mais fracos, como os menores e os animais. Ele parece permanecer indiferente \u00e0s possibilidades de ingresso de um de seus vagabundos, obra de sua cria\u00e7\u00e3o ao refinamento de um mundo melhor e mais digno. Passa antes a nos oferecer a id\u00e9ia de marginaliza\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios personagens e mesmo o relegamento e esquecimento deles,como \u00e9 o caso de Ricceto no quinto cap\u00edtulo do livro. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> A influ\u00eancia gramsciniana faz-se sentir ante a vis\u00e3o m\u00edtica que Pasolini tem do povo como seduzido por uma vida prolet\u00e1ria e que tem como foco a sua luta social. Noutras palavras a sua natureza; n\u00e3o a sua consci\u00eancia. Pasolini considerava a vida burguesa como plena de pseudos- valores com um esquema onde a corrup\u00e7\u00e3o da burguesia se contrap\u00f5e \u00e0 sa\u00fade do povo nas suas camadas mais pobres e baixas. Isto parece um atrativo nos seus escritos e filmes permeando um todo incomum. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> As evoca\u00e7\u00f5es de paisagens ricamente l\u00edricas amenizam o ritmo narrativo das grandes pausas que induzem \u00e0 reflex\u00e3o e que,em alguns momentos,refletem lirismo puro aliado a uma flagrante ironia. Pasolini cria uma natureza amb\u00edgua num quadro referente de dualidade na forma de narrar. Ele privilegiou em grande parte de sua obra, tamb\u00e9m uma linguagem emp\u00edrica, com base no dialeto friuliano, que ele t\u00e3o bem dominava,e no qual comp\u00f4s os seus primeiros versos Poesie a Casarsa (1942) e depois edita, La Meglio Giovent\u00f9 (1958).Como autor permite a abstra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade s\u00f3cio-cultural e ling\u00fc\u00edstica,dando ele pr\u00f3prio voz ao povo,estabelecendo oportunidades de contar suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias,suas dificuldades e suas pequenas mazelas.Privilegia a g\u00edria usada nos bairros perif\u00e9ricos de Roma e a reconstr\u00f3i com precis\u00e3o filol\u00f3gica no uso insistente dela,ali\u00e1s o uso deliberado que beira quase a monotonia para quem o l\u00ea e v\u00ea.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Ao usar a narra\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios, facilita o entendimento pois as entona\u00e7\u00f5es da voz do narrador fornecem melhores esclarecimentos aos vieses psicol\u00f3gicos dos personagens,ao mesmo tempo,em que ajuda a enriquecer a quase aus\u00eancia de di\u00e1logos. A linguagem dos personagens,dos vagabundos, toma empr\u00e9stimos l\u00e9xicos de dialetos e g\u00edrias. Pode-se assim perceber,em alguns momentos,a dificuldade mesma de Pasolini em harmonizar o autor culto que foi e o autor que pretende regredir at\u00e9 o ultimo \u00e1timo num mergulho nos personagens de sua obra criadora. Outra vez, fornece elementos dentro de aspectos psicol\u00f3gicos e narrativos,destacando subs\u00eddios b\u00e1sicos no uso da historia oral criada por Allan Nevins em 1945,na Universidade de Col\u00f4mbia (FROTA-1984).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Como poeta e literato Paolo Pasolini \u00e9 tamb\u00e9m inegavelmente contradit\u00f3rio quanto ao uso pleno de exerc\u00edcios estil\u00edsticos e no uso de pequenos fragmentos refletindo tens\u00f5es, polemicas, confrontos mudos e afirma\u00e7\u00f5es e recusas. Em Il Pianto della Scavatrice, O esp\u00edrito po\u00e9tico que o dominava relembra o primeiro impacto sofrido com a realidade e o universo real dos bairros romanos mais miser\u00e1veis. Trata-se da segunda parte de sua primeira obra antol\u00f3gica. Nos anos quarenta Pasolini trabalhou a poesia numa s\u00edntese l\u00edrica e produziu o j\u00e1 mencionado (L\u00ea Ceneri di Granisci (1957) e La Religione del Mio Tempo (1961).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> No advento dos anos sessenta, os anos dourados, ao dar-se o retorno do particularismo e do intimismo na literatura, entra em crise o neo-realismo, e ele sente a dificuldade de restituir aos seus poemas a sua fun\u00e7\u00e3o civil e denunciante. Isto est\u00e1 expresso no seu texto Marginalidade e Conven\u00e7\u00e3o. Essas dificuldades tornam-se maiores pela necessidade mesma de n\u00e3o permitir o esquecimento e a neglig\u00eancia com a hist\u00f3ria de sua pr\u00f3pria vida. Tal pode ser observado nos v\u00e1rios impulsos que brotam de sua vis\u00e3o de mundo, movidos pelas suas preocupa\u00e7\u00f5es internas e dilacera\u00e7\u00f5es intimas de sua alma. As reminisc\u00eancias do seu pr\u00f3prio universo de vida representado pelas suas origens em Friuli, as recorda\u00e7\u00f5es de chegada \u00e0s aldeias romanas, as lembran\u00e7as de Guido Alberto, o irm\u00e3o morto, imolado por divis\u00f5es da pr\u00f3pria resist\u00eancia Italiana faziam com que mesmo sendo um fiel deposit\u00e1rio de uma cultura arcaica e inteira no seu todo brotasse uma fus\u00e3o com a representa\u00e7\u00e3o acusat\u00f3ria do desolado e decadente ambiente suburbano e a poss\u00edvel acess\u00e3o do subproletariado atra\u00eddo pela engrenagem da Hist\u00f3ria. Num processo oposto \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o e endeusamento da sociedade rural arcaica, aquela que viveu na inf\u00e2ncia Fruili se junta na pr\u00e1tica um processo an\u00e1logo e ao mesmo tempo oposto, mitificando o subproletariado urbano. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> De forma provocante, ir\u00f4nica, cr\u00edtica e l\u00facida, na maioria das vezes, Pasolini volta-se como num sonho, para uma uni\u00e3o fict\u00edcia dos dois mundos com o denominador comum de um encontro onde para os marginalizados encena-se quase sempre a pr\u00f3pria marginaliza\u00e7\u00e3o. Aos grandes movimentos inovadores modificadores da Hist\u00f3ria ele parece, \u00e0s vezes ser avesso. Isto aparece bem no confronto de dois mundos, quando funde a marginalidade de ambos, dentro de um senso de marginalidade dele pr\u00f3prio. Foi contudo pelo seu amplo pensamento reflexivo que colheu da vida os frutos do seu sucesso: um grande escrito, poeta, intelectual renomado e cineasta consagrado.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> \u00c9 em Usignolo Della Chiesa Cattolica (1943-1949) que Pasolini respira versos que se refletem em lirismo com elementos narrativos e argumentativos. Trata-se de uma poesia com forte conte\u00fado emocional onde se mesclam paix\u00e3o e ideologia. Neste trabalho percebe-se a influ\u00eancia do simbolismo, do hermetismo e de elementos barrocos, dentre outros. Assim, o formal e o discursivo marcam nesse trabalho uma linguagem com uma estrutura m\u00e9trica quase tradicional e com um retorno respeitoso ao lirismo, na sele\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o dos versos fruilianos, surgindo um multiforme mimetismo.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> O progresso de comportamento e valores consumistas na It\u00e1lia causavam grande rep\u00fadio a Pasolini. Esse comportamento refletiu-se nas radicais s\u00e9ries de interven\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas e nas v\u00e1rias pol\u00eamicas provocadas. Pasolini considerava que a espiral de consumo \u00e9 fruto do cultivo artificial de car\u00eancias dentro do quadro de um pretenso desenvolvimento da sociedade contempor\u00e2nea. Ele acreditava que esta sociedade \u00e1vida e cruel manejava mecanismos que trituravam valores e culturas diferentes. \u00c9 de todo marcante e de grande significa\u00e7\u00e3o que Paolo Pasolini possa ser visto e interpretado como um modelo novecentista &#8211; que encantaria Dante &#8211; e ao mesmo tempo, ter nas m\u00e3os uma chave preciosa no guardado das renova\u00e7\u00f5es l\u00edricas e po\u00e9ticas do s\u00e9culo XX. Segundo Alberto Moravia (1955) p.XXII, ao descobrir que o marxismo era uma coisa diversa do que ele acreditava e dizia ser; a luta de classe, a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria e a ditadura do proletariado divergiam simplesmente do nome revolucion\u00e1rio para cobrir uma inconsciente opera\u00e7\u00e3o anti-revolucion\u00e1ria. Dessa forma, o comunismo irracional de Pasolini, n\u00e3o pode ser mais o mesmo ap\u00f3s essa descoberta. Quando ele permanece fiel a esta utopia ele compreende que n\u00e3o havia mais nenhum reencontro na realidade, portanto, era um tipo de sonho e de contempla\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o mais defender e procurar impor como um projeto alternativo e historicamente justific\u00e1vel e inevit\u00e1vel. A partir desse momento, ele n\u00e3o falou mais em nome do subproletariado contra a burguesia, \u201cma a nome di se stesso contro l\u2019imborghesimento generale. Lui solo contro tutti\u201d. Segundo Moravia idem, ibidem .<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Trata-se de uma interpreta\u00e7\u00e3o equivocada imaginar-se que Pasolini desejava escandalizar a burguesia consumista. A provoca\u00e7\u00e3o existia sim, mas era diretamente dirigida aos intelectuais que pareciam n\u00e3o poder entender, pelo menos as raz\u00f5es de suas cren\u00e7as. Ele sempre admitiu publicamente assumir a defesa e afirma\u00e7\u00e3o das suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es. Lendo-se Pasolini observa-se que nos \u00faltimos anos de sua vida ele trabalhou intensamente dando confer\u00eancias e polemizando sobre a falsa toler\u00e2ncia da sociedade de consumo manifestando-se contra o aborto, os resultados catastr\u00f3ficos do ensino obrigat\u00f3rio e da televis\u00e3o, tudo exercitado pelo novo poder, fruto do homem de id\u00e9ias contempor\u00e2nea que terminava por se render ao mocinho.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Sustentado pela cren\u00e7a da auto-sufici\u00eancia do seu modelo de raz\u00e3o, ele considerava que as pessoas viviam isoladas em suas casas, absorvidas pelas obriga\u00e7\u00f5es e recompensas dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa como a televis\u00e3o. Pasolini considerava estar esquecido o movimento de mergulho nas ra\u00edzes e que todo \u201co resto \u00e9 Real Politik, clinica prevarica\u00e7\u00e3o dos dados factuais e do bom senso enganando jornalistas criando not\u00edcias, mas n\u00e3o aos intelectuais\u201d. (Segundo Pasolini, 1995 p. 179). In\u00fatil dizer que Pasolini foi pol\u00eamico. Ele o era sim. Polemizar para ele era inerente a uma realidade b\u00e1sica de sua exist\u00eancia: o ser um intelectual. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Quase 33 anos ap\u00f3s a sua morte suas preocupa\u00e7\u00f5es cumpriram-se. Uma prova disso foi \u00e0 escolha de Berlusconi, um homem de televis\u00e3o, para primeiro ministro da It\u00e1lia. No jornal Corriere della Sera o Pasolini pol\u00edtico escreveu um artigo \u201cPannella e a Dissid\u00eancia\u201d, uma extensa carta dirigida ao secret\u00e1rio-geral do antigo partido radical italiano. Nessa obra prima Pasolini trata da mudan\u00e7a de sentido das palavras obedi\u00eancia e desobedi\u00eancia. Politicamente, o extinto Partido Comunista Italiano PCI vencera nas quatro mais importantes capitais italianas. Assim, al\u00e9m das vit\u00f3rias em Bolonha e Floren\u00e7a, tradicionalmente comunistas, nas elei\u00e7\u00f5es de 1975 as cidades de Roma, Mil\u00e3o, Turim e N\u00e1poles derrotaram nas urnas a democracia crist\u00e3. Ele argumentou sobre a import\u00e2ncia e a responsabilidade da vit\u00f3ria, mas considerou como \u00fanico vencedor, a Fanfani, o democrata crist\u00e3o mais pr\u00f3ximo \u00e0 esquerda. Seu racioc\u00ednio tem base na sua tese de que a sociedade italiana tomou neocapitalismo como substituto do estado gra\u00e7as ao poder econ\u00f4mico. Para esta situa\u00e7\u00e3o exigia homens providos de v\u00ednculos com o passado e que estes homens vivam, do ponto de vista da qualidade de vida do comportamento e dos valores, em um estado de imponderabilidade permitindo-lhes privilegiar \u201ccomo \u00fanico existencial poss\u00edvel, o consumo e a satisfa\u00e7\u00e3o de suas exig\u00eancias hedonistas\u201d Segundo Pasolini\u2013idem, ibidem p. \u2013 208. Do seu ponto de vista os cat\u00f3licos arcaicos eram c\u00ednicos que aceitavam e assimilavam \u00e0quela verdadeira revolu\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica que, por meio de um genoc\u00eddio cultural eliminou as diferen\u00e7as ao impor um modelo \u00fanico de viver. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Dentro deste quadro onde uma vis\u00e3o de moderniza\u00e7\u00e3o vinculada ao projeto do homem novo italiano o desenvolvimento \u00e9 a ele associado. Da\u00ed a necessidade do exame da modifica\u00e7\u00e3o dos aludidos conceitos de obedi\u00eancia e desobedi\u00eancia. Nos anos sessenta, afirma Pasolini a palavra obedi\u00eancia tem o mesmo significado dos S\u00e9culos de Contra-Reforma, \u201cde clericalismo, de moralismo pequeno-burgu\u00eas, de fascismo; ao passo que a palavra desobedi\u00eancia indicava ainda aquele maravilhoso sentimento que incitava \u00e0 rebeli\u00e3o contra tudo isso\u201d. Segundo Pasolini \u2013 idem, ibidem p. 210. A conclus\u00e3o parecia-lhe \u00f3bvia pois toda l\u00f3gica que denominamos hist\u00f3ria foi banida n\u00e3o por um ato de rebeli\u00e3o dos desobedientes, mas por uma vontade nova dos pr\u00f3prios obedientes. Pasolini antecipou o que iria acontecer na It\u00e1lia dos nossos dias. Como um profeta previu o modelo pol\u00edtico e comportamental que nascia, pondo em risco o sentido da a\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es inteiras tal como aconteceu com Marco Pannella, ligado ao neofascismo de Bossi uma das for\u00e7as que conduziu Berlusconi ao poder. O pensamento realista de Pasolini, que a tantos parece negativo \u00e9 surpreendentemente atual. Podemos passar ligeiramente pelos resultados do projeto multi culturalista, de uma nova onda na Nova Rep\u00fablica Italiana olhada como uma conseq\u00fc\u00eancia natural do Mani Pulite.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> De forma singular desmistifica a ilus\u00e3o que surge com mais for\u00e7a e outro rosto durante os anos noventa. A palavra toler\u00e2ncia era egressa do vocabul\u00e1rio militante da \u00e9poca e era referente ent\u00e3o, \u00e0s escolhas sexuais sem a incorpora\u00e7\u00e3o referente \u00e0s minorias raciais de hoje.Em sua fala e escrita brilhantes, Pasolini declarava que muitos se enganavam militando por uma maior toler\u00e2ncia das minorias diversas. Considerava claramente que \u201co homossexual que sa\u00eda \u00e0s ruas exigindo toler\u00e2ncia da sua diferen\u00e7a n\u00e3o percebe que nada h\u00e1 de pior do que ser tolerado, do que pedir licen\u00e7a para existir\u201d. Segundo Amoroso \u2013 1995. Explicava em an\u00e1lise contundente as atitudes e opini\u00f5es da maioria de duas maneiras diversas. Relacionava a reivindica\u00e7\u00e3o dessa toler\u00e2ncia ao movimento geral da cultura que passara a operar com a figura do consumidor como um \u00fanico modelo de homem. Para o mercado preocupado com o lucro, feministas, negros e gays, eram todos iguais, pois se igualavam como compradores do mercado. Pelo outro lado o desejo da minoria diversa de obten\u00e7\u00e3o de uma vida social reconhecida como leg\u00edtima assim como suas escolhas sexuais e a sua participa\u00e7\u00e3o como cidad\u00e3o na vida social era um desejo a empurrar corrente de baixo para cima. Isto ele deixou claro num de seus outros artigos sobre quebrar tabus a qualquer pre\u00e7o. A for\u00e7a da imposi\u00e7\u00e3o pensava ele poderia levar a um retorno do preconceito com for\u00e7a ainda maior. Projetados no futuro os seus textos indagam justamente sobre o problema das semelhan\u00e7as e o perigo de que estando todos cada vez mais parecidos, as minorias creiam que sua diversidade foi incorporada sem enxergar que provavelmente n\u00e3o foram as suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. O profeta Pasolini j\u00e1 escutava os sinais de adequa\u00e7\u00e3o do diferente ao igual, ou seja o objeto t\u00edpico atingido por propagandas dos jornais, revistas e Tvs. Mais uma vez salientando a coer\u00eancia de Pasolini, lembramos o fio do labirinto dos seus pensamentos nas s\u00f3lidas bases de sua cr\u00edtica social de que se deu a muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica do homem contempor\u00e2neo ap\u00f3s o seu pr\u00f3prio genoc\u00eddio cultural. Sua ang\u00fastia \u00e9 por vezes repetitiva e obstinada. Ela surge em discursos como o da festa da Unidade em Mil\u00e3o em 1974 ou nos seus escritos na reda\u00e7\u00e3o de Rinaschita. Suas preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro s\u00e3o como premoni\u00e7\u00f5es e ricas de analogia e simbolismo. Veja-se por exemplo:<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Ecco l\u2019angoscia di un uomo della mia generazione, che h\u00e1 visto la guerra, i nazisti, le ss, che ne h\u00e1 s\u00fabito un trauma mai totalmente vinto. Quando vedo intorno a me i giovani che stanno perdendo gli antichi valori popolari e assorbono i nuovi\u00a0 modelli imposti dal capitalismo, rischiando cosi uma forma di disumanit\u00e0,\u00a0 una forma di atroce afasia, uma brutale assenza di capacita critiche, una\u00a0 faziosa passivit\u00e0, ricordo che queste erano appunto le forme tipiche delle ss: e vedo cosi stendersi sulle nostre citt\u00e0 l\u2019ombra orrenda della Croce uncinata. una visione apocalittica, certamente, la mia. Ma se accanto ad essa e\u00a0 all\u2019angoscia che la produce, non vi fosse in me anche un elemento di\u00a0 ottimismo, il pensiero cio\u00e8 che esiste la possibilita di lottare contro tutto\u00a0 questo, semplicemente non sarei qui, trav oi, a parlare.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Como uma linha intermitente o realismo da narrativa da vida italiana no p\u00f3s Segunda Grande Guerra \u00e9 o tra\u00e7o marcante da obra Pasoliniana. As suas fantasias pessoais, o seu narcisismo, o seu homossexualismo o levaram a um conflito \u00edntimo e ao recebimento de acirradas cr\u00edticas persegui\u00e7\u00f5es e maledic\u00eancias. Nada pode, por\u00e9m anular ou minimizar o gigantismo do seu g\u00eanio criador. O pr\u00f3prio assassinato de Pasolini, como o de Aldo Moro \u00e9 uma chaga n\u00e3o sarada na vida pol\u00edtico-cultural da It\u00e1lia. O seu corpo conheceu, como o de nenhum outro intelectual, as transforma\u00e7\u00f5es de vida da juventude italiana. O amor a esses jovens era uma preocupa\u00e7\u00e3o onde o futuro aparecia modificado pela economia pol\u00edtica. Possivelmente sua morte foi uma armadilha montada pela extrema direita e executado por profissionais do crime, a servi\u00e7o de grupos poderosos como a M\u00e1fia. O corpo massacrado de Pasolini \u00e9 responsabilidade que recai \u201ctanto sobre seus agentes direto, quanto sobre o modelo econ\u00f4mico adotado pela sociedade italiana, que, como tantas sociedades agr\u00e1rias e pouco industrializadas, decidiu enriquecer atrav\u00e9s do genoc\u00eddio\u201d. (Segundo Naz\u00e1rio\u20132005). <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Ele conheceu os limites entre o bem e o mau e pouco antes de morrer em entrevistas \u00e0 Tev\u00ea Italiana declarou que sabia dos riscos de vida que corria. Ele j\u00e1 recebia amea\u00e7as ao fazer pesquisas para um pr\u00f3ximo filme e sugeriu que a fonte fosse a pr\u00f3pria M\u00e1fia Italiana.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Hoje 33 anos ap\u00f3s a sua morte ainda se fala de Pasolini como outrora. A diferen\u00e7a \u00e9 que o ju\u00edzo sereno da Hist\u00f3ria pode compreender melhor o seu papel como escritor principal de sua pr\u00f3pria vida.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Eug\u00eania D\u00e9sir\u00e9e Silveira de Arag\u00e3o e Frota \u00e9 Artista Pl\u00e1stica formada em Artes Visuais e M\u00eddias pela Faculdade Grande Fortaleza, e especialista em Cidadania \u2013 Curso de Ci\u00eancias Pol\u00edticas da Funda\u00e7\u00e3o Konrad Adenauer em conv\u00eanio com a UFC. Professora e Pesquisadora do Grupo de Artistas Pl\u00e1sticos do Cear\u00e1.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> BIBLIOGRAFIA<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Corti, Maria \u2013 LA LINGUA E GLI SCRITTORI, OGGI \u2013 Milano \u2013 1965.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Frota, Ana Cristina \u2013 LA POESIA DEL SECONDO NOVECENTO E IL TEATRO DOPO PIRANDELLO \u2013 Palestra Centro de Cultura Italiana \u2013 Fortaleza \u2013 2006.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Raboni, in INDICES DE UM CINEMA DE POESIA \u2013 \u00c9rika Savernini, P\u00eder Paolo Pasolini, Luis Bu\u00f1uel e Hrzystof Kieloswski \u2013 Belo Horizonte \u2013 Ed. UFMG \u2013 2004.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Savernini, \u00c9rika \u2013 op. cit<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Frota, Luciara de Arag\u00e3o \u2013 DOCUMENTA\u00c7\u00c3O ORAL E TEM\u00c1TICA DA SECA \u2013 Centro Gr\u00e1fico do Senado Federal \u2013 Bras\u00edlia \u2013 1984.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Moravia, Alberto \u2013 Introdu\u00e7\u00e3o ao livro RAGAZZI DI VITA \u2013 Aldo Garzanti \u2013 Editore \u2013 Roma \u2013 1955.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Pasolini, P\u00eder P., \u201cOS JOVENS INFELIZES \u2013 ANTOLOGIA DE ENSAIOS CORS\u00c1RIOS\u201d (Brasiliense).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\"> Amoroso. Maria Bet\u00e2nia \u2013 UM PENSAMENTO CORS\u00c1RIO \u2013 Especial para a FOLHA DE S\u00c3O PAULO \u2013 1993.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000;\">Luiz Naz\u00e1rio \u2013 <\/span> <a href=\"http:\/\/www.pasolini.net\/brasil04.htm\"> <span style=\"color: #000000;\">http:\/\/www.pasolini.net\/brasil04.htm<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Pietro Paolo Pasolini (1922 -1975) Lui solo contro tutti This<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":1560,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":["post-61","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1561,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61\/revisions\/1561"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1560"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}