<br />
<b>Notice</b>:  Function _load_textdomain_just_in_time was called <strong>incorrectly</strong>. Translation loading for the <code>DFLIP</code> domain was triggered too early. This is usually an indicator for some code in the plugin or theme running too early. Translations should be loaded at the <code>init</code> action or later. Please see <a href="https://developer.wordpress.org/advanced-administration/debug/debug-wordpress/">Debugging in WordPress</a> for more information. (This message was added in version 6.7.0.) in <b>/home1/nehscfor/public_html/home/wp-includes/functions.php</b> on line <b>6131</b><br />
<br />
<b>Deprecated</b>:  Creation of dynamic property DFlip::$settings_text is deprecated in <b>/home1/nehscfor/public_html/home/wp-content/plugins/dflip/dflip.php</b> on line <b>455</b><br />
{"id":1888,"date":"2011-03-18T23:15:02","date_gmt":"2011-03-18T23:15:02","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1888"},"modified":"2021-03-18T23:54:12","modified_gmt":"2021-03-18T23:54:12","slug":"historias-e-midias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2011\/03\/18\/historias-e-midias\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias e m\u00eddias"},"content":{"rendered":"<p>Na sociedade contempor\u00e2nea as m\u00eddias visuais e sonoras retratam velozmente o cotidiano. Assim, a imprensa, fotografia, cinema, r\u00e1dio e televis\u00e3o, podem ser compreendidos como dispositivos de media\u00e7\u00e3o cultural e agenciadores de culturas pol\u00edticas, mas a sua an\u00e1lise pede prud\u00eancia e cautelas ao historiador no cumprimento do seu of\u00edcio. Neste sentido, esse artigo, enfoca e interessa-se pelas dificuldades do historiador na an\u00e1lise e leitura dos mediadores culturais: o chamado circuito social das m\u00eddias. Englobando aspectos como sua produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o, consumo e agenciamento, \u00e9 da maior import\u00e2ncia o dimensionamento do seu papel na constru\u00e7\u00e3o da identidade e mem\u00f3ria para a Hist\u00f3ria social contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>O campo de estudos da hist\u00f3ria est\u00e1 sempre em renova\u00e7\u00e3o gra\u00e7as ao crescente n\u00famero de novos estudos e novos objetos incorporados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social. Contudo, na an\u00e1lise do historiador, os estudos das m\u00eddias contempor\u00e2neas, independente da delimita\u00e7\u00e3o do seu circuito social de produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o, consumo e processos culturais, n\u00e3o est\u00e3o isentos dos mesmos procedimentos e do discernimento dos crit\u00e9rios hist\u00f3ricos que devem nortear a leitura dos textos e documentos tradicionais. Interessa, assim, ver e olhar, ouvir e escutar, ler e analisar os seus processos e efeitos no mundo contempor\u00e2neo, no caminho da investiga\u00e7\u00e3o e da percep\u00e7\u00e3o das evid\u00eancias hist\u00f3ricas em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo quando se opera com a id\u00e9ia de dimens\u00e3o do tempo m\u00faltiplo trazida pelos Annales, concebendo o tempo presente, o de temporalidades, onde se inscrevem os tempos hist\u00f3ricos &#8211; o tempo das conjunturas e o tempo do acontecimento no tipo c\u00edclico na longa dura\u00e7\u00e3o &#8211; a mem\u00f3ria hist\u00f3rica define o seu campo, mas n\u00e3o est\u00e1 o historiador dispensado do compromisso com a verdade e da percep\u00e7\u00e3o das evid\u00eancias hist\u00f3ricas. Desse ponto de vista, a hist\u00f3ria do contempor\u00e2neo pode tamb\u00e9m, inscrever-se na rela\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria e hist\u00f3ria dentro da perspectiva da hist\u00f3ria social, a partir da id\u00e9ia de que o grupo social imp\u00f5e aos indiv\u00edduos os seus quadros de pensamento e atividade. As compartimenta\u00e7\u00f5es entre especialistas foram uma preocupa\u00e7\u00e3o da revista dos Annales fazendo-se leg\u00edtimo recorrer a Psicologia que trata do di\u00e1logo do eu e do outro, do individual e do social como determinantes. Como diz Albert Soboul \u201cem n\u00edvel da hist\u00f3ria dos acontecimentos \u00e9 necess\u00e1rio reintegrar numa concep\u00e7\u00e3o total de hist\u00f3ria \u2013 o homem como membro de uma identidade social e de uma sociedade humana.\u201d (Albert Soboul in Descri\u00e7\u00e3o e Mem\u00f3ria Social-Col\u00f3quio da Escola Normal de Saint Cloud, 15-16 de maio de 1965).<\/p>\n<p>Entre as d\u00e9cadas de 1960-1970, os adeptos da Nova Hist\u00f3ria nos Estados Unidos reivindicaram status cient\u00edfico e credenciaram a monografia como um meio para aumentar o conhecimento do passado. A necessidade delas, com uma linha de pesquisa mais restrita, s\u00f3 um pouco mais tarde se revelaria indispens\u00e1vel. Como os seus colegas soci\u00f3logos e economistas os historiadores por uma s\u00e9rie de diversos fatores n\u00e3o davam continu\u00edsmo as suas pesquisas. No seu caso espec\u00edfico, as hip\u00f3teses que norteavam os seus trabalhos monogr\u00e1ficos foram dificultadas por n\u00e3o despertaram a aten\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, talvez porque, mesmo al\u00e7ando-se a historia \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia, o seu sujeito e objeto n\u00e3o poderia ser aut\u00f4nomo e sim, necessariamente instrumental. As quest\u00f5es propostas eram, de modo geral, vinculadas \u00e0 ci\u00eancia social anal\u00edtica e aos problemas sociais contempor\u00e2neos com o invocativo de dar a Hist\u00f3ria um car\u00e1ter de utilidade e relev\u00e2ncia quanto \u00e0s quest\u00f5es imediatas. Entre 1940-1960 o foco dos cientistas sociais eram os assuntos internacionais do mundo subdesenvolvido e os totalitarismos. Contudo, n\u00e3o resultou t\u00e3o ben\u00e9fica, como se pretendia essa depend\u00eancia dos cientistas sociais, al\u00e9m de acentuar a cren\u00e7a existente, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, de que todas as quest\u00f5es poderiam ficar reduzidas a uma base econ\u00f4mica como um denominador comum. Pelo menos, desde 1930, as tend\u00eancias que influenciavam financiamentos de pesquisa favoreciam as interpreta\u00e7\u00f5es do sistema social. Os estudos sobre preconceito, criminalidade, viol\u00eancia familiar encontravam uma explica\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida nos fatores econ\u00f4micos e isso distorceu resultados, obscurecendo quest\u00f5es vitais como o passado \u00e9tnico dos norte-americanos. Esse tipo de atua\u00e7\u00e3o resvalou equivocadamente, na elei\u00e7\u00e3o de grupos antag\u00f4nicos e dentro dos crit\u00e9rios do grupo, na escolha e indica\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is e dos vil\u00f5es, de pr\u00e1tica t\u00e3o redundante na historiografia brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>O registro de Identidades e lembran\u00e7as continuou como pertinente auxiliar no preenchimento de lacunas. Por outro lado, eles s\u00e3o elementos constitutivos das culturas pol\u00edticas, pois fornecem densidade e espessura \u00e0 proje\u00e7\u00e3o visual da experi\u00eancia pol\u00edtica coletiva por meio de um estoque de textos visuais e escritos que imaginam e agenciam os sentidos da hist\u00f3ria, aproximando-a das m\u00eddias. O incentivo adv\u00e9m do permanente di\u00e1logo entre a hist\u00f3ria e os estudos de comunica\u00e7\u00e3o sobre cinema, fotografia, imprensa, r\u00e1dio, televis\u00e3o e as novas tecnologias virtuais que por trazer um conjunto de evid\u00eancias v\u00eam se constituindo uma fonte de interesse positivo para os estudos hist\u00f3ricos recentes. As produ\u00e7\u00f5es de document\u00e1rios s\u00e3o outros documentos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do pesquisador interessado. Contudo, \u00e9 do olhar retrospectivo do historiador, que se estabelece uma linha temporal que articula o passado apreendido e reapresentado no presente pela via da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria pode ser um exerc\u00edcio que articula informa\u00e7\u00f5es afetivas e pessoais daquilo (Rusen, 2001 p. 30 ss.) que se define como consci\u00eancia hist\u00f3rica e que se estabelece em uma narrativa claramente ligada aos lineamentos conceituais e te\u00f3ricos do historiador e o outro, assentado na experi\u00eancia centrada na mem\u00f3ria. Assim, apreende-se que embora, essas narrativas possam se constituir de forma diferenciada, possamos compreend\u00ea-las como um tipo de opera\u00e7\u00e3o elementar e geral da consci\u00eancia hist\u00f3rica humana. O comprometimento com o presente quando o historiador participa do impacto imediato de sua produ\u00e7\u00e3o, seja por ouvir a not\u00edcia, ler a manchete de um jornal ou ver a imagem do fato na televis\u00e3o, s\u00e3o interfer\u00eancias que podem ou n\u00e3o, ser ben\u00e9ficas. Isso acontece na raz\u00e3o direta das raz\u00f5es que, em grau maior ou menor, estabelecem esse comprometimento e, ainda do seu preparo para o estabelecimento da dif\u00edcil quest\u00e3o da verdade hist\u00f3rica, pois o uso da hist\u00f3ria repousa na pr\u00f3pria capacidade de propiciar a sua abordagem.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 uma disciplina antiga e se ap\u00f3ia sobre s\u00f3lidas funda\u00e7\u00f5es encravadas no s\u00e9culo XVII quando um s\u00e9culo de disputas din\u00e1sticas e religiosas convenceu os que escreviam e liam a aceitar a diferen\u00e7a vital em toler\u00e2ncia entre fatos e interpreta\u00e7\u00e3o. (Handlin, 1988 p.369). Os textos das cartas de privil\u00e9gio, estatutos, pactos e alian\u00e7as estavam sujeitos a provas de autenticidade, independente dos significados que lhe atribu\u00edssem te\u00f3logos ou advogados e tinha a sua validade baseada em data correta, ora\u00e7\u00e3o precisa, o selo, o que apresentava dificuldades de verifica\u00e7\u00e3o, mas ensejava respostas certas ou erradas A partir desse <em>insight seminal<\/em> foram desenvolvidos os mecanismos cient\u00edficos que deram origem a separa\u00e7\u00e3o entre fato e opini\u00e3o. Com essa base, foram erigidas as conquistas do iluminismo, reconhecendo a import\u00e2ncia da objetividade abrindo-se as possibilidades de reconstru\u00e7\u00e3o do passado humano. A partir de ent\u00e3o, os historiadores e tamb\u00e9m os fil\u00f3sofos passaram a investigar sobre tendenciosidades e perspectivas na dif\u00edcil tarefa de atingir-se o ideal da objetividade definitiva. Pode-se dizer que foi um sonho nobre. Embora Ranke insistisse na integridade do fato usando conhecimentos universais e Wilheim von Humboldt\u00a0 explicasse que a tarefa do historiador era a de precisar e apresentar o que realmente acontecia, os \u00a0limites \u00a0e barreiras eram resistentes.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 50, surgiram possibilidades do ressurgimento do que se chamou um novo regime de historicidade impondo a cada estudioso da disciplina o desafio de reflex\u00e3o. Os v\u00e1rios modismos que transitam no inst\u00e1vel espa\u00e7o entre hist\u00f3ria e m\u00eddia, por exemplo, n\u00e3o invalidam o conceito da verdade, que deve nortear o historiador e o que seleciona para o seu trabalho, a partir da escolha de seu tema. N\u00e3o importa para a hist\u00f3ria a multiplica\u00e7\u00e3o dos fatos e fontes na sua constru\u00e7\u00e3o com o incorporar de tantos e de t\u00e3o variados objetos. Mesmo quando Michael de Certeau indaga sobre o que fabrica o historiador quando faz Hist\u00f3ria, tamb\u00e9m nos responde que toda obra historiogr\u00e1fica, digna desse nome, deve ser percebida a partir de uma origem, de um lugar de produ\u00e7\u00e3o. Desse conjunto harmonioso de conforma\u00e7\u00f5es sociais, que v\u00e3o desde a institucionaliza\u00e7\u00e3o do corpo te\u00f3rico da hist\u00f3ria aos inquietantes problemas e quest\u00f5es comuns, brotam sa\u00eddas aos dilemas do historiador. Desde que os mais variados registros hist\u00f3ricos s\u00e3o inerentes ao seu trabalho \u00e9 dessa forma que a produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica se estabelece nas \u201crela\u00e7\u00f5es entre as constru\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria e seu face a face, a saber, um passado ao mesmo tempo abolido e preservado em seus rastros\u201d (Ricoeur, 1997 p.175). Esses rastros ou evid\u00eancias do passado falam e se transformam em fontes, independente do seu conte\u00fado, a partir do momento em que o historiador indaga, interroga e questiona, tanto sobre o conte\u00fado de cada um deles, como quanto aos seus elementos formadores de sentido. Isso independe do universo de investiga\u00e7\u00e3o que se nos apresente, seja ele plural e complexo, ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos nossos dias guarda uma rela\u00e7\u00e3o com a m\u00eddia pelo vi\u00e9s do est\u00edmulo da cultura de massa. \u00a0Essa numerosa produ\u00e7\u00e3o da m\u00eddia contempor\u00e2nea pode ser entendida, tal como o jornal, como um meio que re\u00fane v\u00e1rios tipos de evid\u00eancias constituindo-se como mais uma categoria de fontes para a hist\u00f3ria recente. (Frota. Confer\u00eancia sobre Hist\u00f3ria Oral. 1998 p.64). Al\u00e9m disso, sabemos que ela se insere no nascimento da era do consumo. Suas ra\u00edzes est\u00e3o implantadas na face consumidora das sociedades t\u00e9cnicas-industriais, capitalistas e burguesas e como tal, correspondendo \u201ca uma vida em que o peso das necessidades primitivas se atenua e em que o homem consumidor emerge\u201d. (Morin. p 174).<\/p>\n<p>Embora, ao longo do s\u00e9culo XX tenha havido uma surpreendente amplia\u00e7\u00e3o dos recursos audiovisuais, iconogr\u00e1ficos e virtuais, a m\u00eddia escrita preservou um papel central de atua\u00e7\u00e3o, incluindo as formas de distribui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se limitaram ao meio impresso. Os jornais fornecem narrativas e modos de representa\u00e7\u00e3o espec\u00edficas acerca do mundo sendo um meio ou um ve\u00edculo que coleta v\u00e1rios tipos de evid\u00eancia como conselhos e reportagens comerciais com registros das transa\u00e7\u00f5es efetivadas ou putativas; a testemunha das reportagens,a ret\u00f3rica dos editoriais, as mensagens trazendo a opini\u00e3o do leitor,fotografias,conte\u00fado de colunas,al\u00e9m de fotografias. Ele forma, junto com as c\u00e2maras e os microfones, um instrumento predestinado de uma cultura pronta a aderir a uma realidade imediata (Frota. Idem. Ibidem). Seu conte\u00fado composto de elementos generalizadores n\u00e3o \u00e9 destinado ao registro e a conserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva, mesmo que se possa considerar essa fun\u00e7\u00e3o como atrofiada por for\u00e7a de uma press\u00e3o que, sob estimulo da cultura de massa, exige uma atualiza\u00e7\u00e3o mais veloz. Al\u00e9m disso, a suposta colabora\u00e7\u00e3o desse tipo de m\u00eddia com a hist\u00f3ria, a pr\u00f3pria consulta ao jornal como fonte de pesquisa j\u00e1 se constitui um duro trabalho para o historiador. A ele vai caber discernir entre fato e opini\u00e3o do jornal, as circunst\u00e2ncias da impress\u00e3o e as diferen\u00e7as entre textos originais e cortes sofridos ou ainda a import\u00e2ncia dada ao editorial, a chamada da primeira p\u00e1gina e o pr\u00f3prio conte\u00fado da manchete da primeira p\u00e1gina. Essas assertivas est\u00e3o distantes da insist\u00eancia de evoca\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria como elemento justificador de not\u00edcias; do como e onde se integram ao cont\u00ednuo incitamento do consumo e as mudan\u00e7as sob uma onda de flashes, onde tudo se passa e morre muito depressa. Assim, embora os jornais sejam uma excelente forma de consulta pelo fornecimento de dados organizados, conv\u00e9m n\u00e3o perder de vista que o essencial \u00e9 encontrar neles o suficiente e n\u00e3o ir mais al\u00e9m \u00e0 busca, pois suas informa\u00e7\u00f5es e outros itens de interesse entret\u00eam os leitores que buscam neles o que lhes interessa. Consequentemente, eles n\u00e3o podem, portanto permitir que essa sua aten\u00e7\u00e3o decline. O sucessivo preenchimento de suas colunas, not\u00edcias e a propaganda midi\u00e1tica, como um todo, podem ser ind\u00edcios de uma tentativa, \u00e0s avessas, de perpetuidade. Nesse incessante esvaziamento, operado pelas ondas e modismos ditados pela publicidade a t\u00f4nica \u00e9 persuadir. Nada mais \u00f3bvio, portanto que a insaci\u00e1vel bocarra da m\u00eddia, cuja palavra de ordem \u00e9 acelerar e engolir o presente, na sua busca incessante por um hoje sempre e cada vez mais novo, invoque a hist\u00f3ria como um elemento que a justifique, vendo-se, muito impropriamente, como atua\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o da pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Desde a segunda metade do s\u00e9culo XX, a efetiva\u00e7\u00e3o das grandes redes de comunica\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, foi simult\u00e2nea ao desenvolvimento e a uma maior efervesc\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica local e internacional. A organiza\u00e7\u00e3o dos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o foi intensificada nos anos 70, incentivando uma maior const\u00e2ncia e diversidade na produ\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o dos trabalhos, numa constata\u00e7\u00e3o significativa que, enfim, possibilitou a visualiza\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias, perman\u00eancias e rupturas. O interesse vigoroso pelos estudos da mem\u00f3ria com a cria\u00e7\u00e3o do CPDOC e mais tarde, com a introdu\u00e7\u00e3o de cursos de Hist\u00f3ria Oral em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es brasileiras, especialmente no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Historia da PUC\/ S\u00e3o Paulo onde eram ensinadas as diferencia\u00e7\u00f5es entre os textos origin\u00e1rios da m\u00eddia e os procedentes de te\u00f3ricos como Paul Thompson, foi de grande valor. Essa rea\u00e7\u00e3o respondeu, em parte, ao papel decisivo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o na transcri\u00e7\u00e3o, na representa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo na produ\u00e7\u00e3o do acontecimento. De grande fecundidade foi o retorno aos problemas j\u00e1 levantados pelos Annales, que j\u00e1 haviam dissolvido as restri\u00e7\u00f5es formais confrontando materiais e experi\u00eancias com as rea\u00e7\u00f5es de dessemelhan\u00e7as do homem em contato uns com os outros e ainda dentro da id\u00e9ia de que o homem n\u00e3o pode escapar ao que o rodeia (Soboul,1967,p.26)<\/p>\n<p>Os riscos desse chamado tempo presente, onde atuam m\u00eddia e hist\u00f3ria pode motivar a preocupa\u00e7\u00e3o dos historiadores, com a diferen\u00e7a de que se faz necess\u00e1rio\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 para estes, o distanciamento suficiente dos seus temas para uma melhor avalia\u00e7\u00e3o e julgamento. Nessa seara que lhes \u00e9 pr\u00f3pria, vale salientar que os seus textos s\u00e3o como \u201ctodos os textos descritos, a partir de todo um sistema de pressupostos e representa\u00e7\u00f5es a hip\u00f3teses\u201d (Rallo 2005, Introdu\u00e7\u00e3o). Tal como num texto liter\u00e1rio, parece importante depreender os princ\u00edpios nos quais ele se ap\u00f3ia e as bases de dados de sua an\u00e1lise, para depois explicitar sua l\u00f3gica e sua argumenta\u00e7\u00e3o, a fim de julgar a validade da conclus\u00e3o \u00e0 qual chega esse coment\u00e1rio. (Idem. Ibidem). Quando apreciamos esses textos de modo cr\u00edtico buscamos o seu entendimento e as significa\u00e7\u00f5es do humano, para o que necessitamos indagar sobre seus fundamentos e suas limita\u00e7\u00f5es. Alguns deles nos remetem a uma pergunta sobre a aceita\u00e7\u00e3o de tudo que se escreve em nome de uma liberdade absoluta Ser\u00e1 o correto a busca de interpreta\u00e7\u00e3o mais globalizada das interpreta\u00e7\u00f5es? Ser\u00e1 o correto exaurir o texto esgotando-o, seja ele ou n\u00e3o, um texto jornal\u00edstico ou nos chocaremos com a certeza do insustent\u00e1vel dessa posi\u00e7\u00e3o? Para Elizabeth Rallo \u201cn\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia poss\u00edvel do texto\u201d (Idem. Ibidem). Isto porque, como quer (J. Molino, 1990, p165) se pudesse existir uma teoria geral do texto, ela se confundiria ent\u00e3o com uma ci\u00eancia geral do existente, abrangendo ao mesmo tempo o mundo, a ci\u00eancia-an\u00e1lise dos textos cient\u00edficos, a sociedade, a hist\u00f3ria, s\u00f3 para citar algumas coisas. Tudo se encaminha para a constata\u00e7\u00e3o que os textos de import\u00e2ncia liter\u00e1ria e cient\u00edfica n\u00e3o podem ser explicados globalmente por necessitarem de abordagens diferenciadas, cada uma delas com o seu m\u00e9todo e o seu pr\u00f3prio campo de explica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, isso conduz a indaga\u00e7\u00e3o sobre ser ou n\u00e3o ser preciso o aceite de todas as abordagens, dizendo coisas diferentes e podendo escolher e preferir interpreta\u00e7\u00f5es complementares, excludentes, contr\u00e1rias. \u00c9 prov\u00e1vel que seja mais f\u00e1cil eleger interpreta\u00e7\u00f5es apressadas mesmo quando certas leituras podem conduzir aos objetivos buscados. No uso dos textos midi\u00e1ticos ou n\u00e3o, na verifica\u00e7\u00e3o das proposi\u00e7\u00f5es que o interessam, n\u00e3o pode o historiador estabelecer certezas plenas. Mesmo quando sabemos que a escrita efetua sentido quando a leitura \u00e9 atenta e informada, a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o da realidade nos diz que m\u00eddia, tem suas ra\u00edzes numa cultura de massas onde se constata uma rela\u00e7\u00e3o, desenraizada errante e m\u00f3vel no referente ao tempo e ao espa\u00e7o. Estabeleceu-se como um tipo de contradi\u00e7\u00e3o onde o familiar beira ao desconhecido e simultaneamente, tempo e espa\u00e7o, fluem ora de forma f\u00fatil, ora de forma \u00e9pica, ora marcado pelas paix\u00f5es e interesses moment\u00e2neos, o que difere das concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas da hist\u00f3ria,<\/p>\n<p>Ao historiador n\u00e3o escapa a critica externa de qualquer obra sendo indispens\u00e1vel uma infinidade de conhecimentos biogr\u00e1ficos, bibliogr\u00e1ficos, textuais ou, em geral, cr\u00edticos para faz\u00ea-lo. Decerto, esses conhecimentos nem sempre coincidem com os aspectos internos da obra, podendo mesmo ultrapassa-los ou n\u00e3o atingi-los. Existem, por conseguinte, diferentes narrativas que explicam e evidenciam formas de pensamento hist\u00f3rico e que se manifestam em variados fen\u00f4menos de aprendizagem, desde o ensino formal at\u00e9 os pr\u00f3prios meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O final do s\u00e9culo XX mostrou o aumento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e como a sua intensificada influ\u00eancia gerou novas formas de apropria\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o do real. Essa produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica t\u00e3o contempor\u00e2nea revela interesse pelo conhecimento hist\u00f3rico podendo figurar entre os m\u00faltiplos meios e artefatos onde o historiador encontra como evid\u00eancia. Ela reflete um tempo de mudan\u00e7as que indicam ao historiador os riscos das vicissitudes de uma memoriza\u00e7\u00e3o que pretende, em alguns momentos, esquecer propositadamente o malogro <em>stendhaliano <\/em>de colagem de momentos de longa dura\u00e7\u00e3o. Ainda, o quanto se deve procurar dotar para experimentar os sentimentos do tempo. Isso porque, ele precisa, tamb\u00e9m, fundamentalmente olhar, ouvir e decodificar as mensagens r\u00e1pidas e breves, comprometidas e contradit\u00f3rias nessa ou naquela noticia. Como todas as fontes e apreens\u00f5es da evid\u00eancia resultam necess\u00e1rias a verifica\u00e7\u00e3o de outras formas de pensar historicamente o cotidiano.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa saber se as mudan\u00e7as foram aceleradas com uma velocidade resultante de um outro tipo de olhar sobre a nossa historicidade e das tentativas de modifica\u00e7\u00f5es dos seus significados. Os acontecimentos de todos os dias, postos em ritmo fren\u00e9tico, para um p\u00fablico cada vez mais \u00e1vido por not\u00edcias n\u00e3o eram antes do dom\u00ednio de uma coletividade mais ampla. Portanto, mesmo quando se considera que o signo dos recursos midi\u00e1ticos est\u00e1 ocupando relevante papel na ordena\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria consci\u00eancia hist\u00f3rica contempor\u00e2nea, essa relev\u00e2ncia est\u00e1 na raz\u00e3o direta do reconhecimento de que os acontecimentos passaram a produzir, de forma simult\u00e2nea, o sentimento de um impacto que se dissolve quase instantaneamente no ar. A identifica\u00e7\u00e3o do lugar de origem desse novo problema aparece a\u00ed como um aliado do historiador que n\u00e3o desconhece o sentido e os valores incorporados na cultura de massa nos Estados Unidos. Por mais dif\u00edcil que isso pare\u00e7a aos olhos do novel historiador, isto \u00e9 pr\u00f3prio do seu of\u00edcio e o conduz \u201cao como olhar para ver, de como ouvir para escutar\u201d (Handlin, p.207).<\/p>\n<p>Sabemos que mesmo quando as imagens projetadas n\u00e3o ultrapassam as mentes dos telespectadores o como us\u00e1-las \u00e9 um desafio. As manchetes dos jornais, as descri\u00e7\u00f5es dos telejornais permitem a vis\u00e3o de a parte de um todo, sob o pano de fundo de uma cascata de id\u00e9ias e palavras destinadas ao telespectador, embaralhando as id\u00e9ias e um observador menos acurado. O tom mais exaltado da locu\u00e7\u00e3o, mostra com clareza a progress\u00e3o na elei\u00e7\u00e3o dos exemplos, numa competi\u00e7\u00e3o direcionada a um sucesso norteado pelos pontos dos institutos de audi\u00eancia. Precisar\u00e1 o historiador ficar preso nas malhas do seu encanto? Com a pressa, a dura\u00e7\u00e3o da not\u00edcia e com ela, uma revela\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o que anestesia a consci\u00eancia remetida a vinte temas diversos e no espa\u00e7o de minutos seu eu esp\u00edrito cr\u00edtico vagueia interrogando-se sobre a consci\u00eancia do produtor da not\u00edcia. Ora, esse \u00e9 o motivo por que pode ser bem diversa a sua atua\u00e7\u00e3o no campo das fontes e do uso das not\u00edcias. N\u00e3o se trata nem de colocar um \u00fanico texto numa visada \u00fanica.\u00a0 Para ele, \u00e9 preciso fazer ressoar um texto ao outro, uma not\u00edcia a outra para por \u00e0 mostra a verifica\u00e7\u00e3o de uma verdade supra textual (Corti, 1975 p.72-75).<\/p>\n<p>Ao historiador interessado no exame das evid\u00eancias do notici\u00e1rio do dia cabe a precau\u00e7\u00e3o de dar-se conta de que outras inst\u00e2ncias do jornalismo devem decodificar o texto e traduzi-lo em imagens visuais. Como vantagem, lhe caber\u00e1 mais tempo para agregar as evid\u00eancias do texto \u00e0 evid\u00eancia de outras fontes, traduzindo suas percep\u00e7\u00f5es em palavras mesmo quando se sabe que isso \u00e9 uma tarefa consider\u00e1vel para historiadores mesmo os mais qualificados. O historiador n\u00e3o ignora que s\u00f3 de forma inadequada o material necess\u00e1rio \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o di\u00e1ria corresponde \u00e0 import\u00e2ncia que poderia traduzir. Trata-se tamb\u00e9m de perceber que essa rela\u00e7\u00e3o entre a m\u00eddia e a Hist\u00f3ria pode ser questionada a partir do seu imediatismo. As circunst\u00e2ncias do notici\u00e1rio e a urg\u00eancia da composi\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e vendagem no hor\u00e1rio previsto n\u00e3o permitem a precis\u00e3o. Quando se estabelece um tipo de face-a &#8211; face da hist\u00f3ria com a m\u00eddia, mesmo que n\u00e3o se determinem territ\u00f3rios estanques, s\u00e3o diferenciadas as suas respectivas produ\u00e7\u00f5es. O imediatismo que a ela \u00e9 necess\u00e1rio vai permitir raras vezes, que haja uma pausa adequada \u00e0 reflex\u00e3o. O comum \u00e9 a superficialidade das explica\u00e7\u00f5es dos acontecimentos. O jornal \u00e9 feito para informar e essa \u00e9 a sua prec\u00edpua finalidade.<\/p>\n<p>Ao historiador meticuloso n\u00e3o cabe recear a impress\u00e3o de estar repartindo o seu oficio com \u00e0queles da produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica. Nesse caso, talvez seja necess\u00e1rio perguntar at\u00e9 que ponto essa produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, dita hist\u00f3rica, poderia se impor aos padr\u00f5es de uma s\u00f3lida produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O historiador predisposto a aplicar seus filtros, quando analisa a prociss\u00e3o acelerada de eventos e informa\u00e7\u00f5es na percep\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-temporal que se manifesta ligada ao momento imediato, retrate esse presente uma trag\u00e9dia, uma fotografia, uma mensagem oficial ou um mero borr\u00e3o de tinta, deve observar que a percep\u00e7\u00e3o de cada um deles difere. Certamente, n\u00e3o significa dizer que todas as informa\u00e7\u00f5es estar\u00e3o igualmente corretas, mas haver\u00e1 a supremacia de uma sobre a outra. Mesmo que o primado do atual sobre o permanente, do superficial sobre o essencial se estabele\u00e7a e possa vir a destruir toda uma concep\u00e7\u00e3o de cultura, os olhos, os ouvidos e a percep\u00e7\u00e3o do historiador n\u00e3o podem deixar de perceber a horizontalidade e a superf\u00edcie dos acontecimentos porque ele foi treinado para mergulhos profundos e n\u00e3o s\u00f3 para nados na superf\u00edcie.<\/p>\n<p>O conte\u00fado expresso nesse passado que, hoje, nos fornece a impress\u00e3o de uma tripla dimens\u00e3o temporal, presente nas tradicionais narrativas e nas filosofias da hist\u00f3ria, constitui-se um material relevante. Apenas, n\u00e3o o podemos incorporar ao consumismo, a incita\u00e7\u00e3o e a mudan\u00e7as desenfreadas, sugando-o pelo sensacionalismo. Mesmo quando outras evid\u00eancias visuais, como desenhos, gravuras, ilustra\u00e7\u00f5es, fotografias parecem sucumbir na avalanche informativa, os crit\u00e9rios de exame de anacronismo e convencionalismo permanecem. Quando os dias parecem produzir uma constante sucess\u00e3o de esvaziamentos em ef\u00eameros momentos hist\u00f3ricos vividos, faz-se preciso analisar o fluxo impetuoso dessas artificialidades. A precau\u00e7\u00e3o de levar em conta o fato de que em cada momento hist\u00f3rico vivido, pode ser inserida a an\u00e1lise do historiador, parte da id\u00e9ia de que para o estudo desse presente, h\u00e1 que primeiro se levar em conta as suas evid\u00eancias face aquelas irrigadas e frutificadas pela cultura de massa. As obriga\u00e7\u00f5es do dia seguinte s\u00e3o esse palp\u00e1vel presente por ele vivido e cotidianamente ventilado nos olhos e ouvidos da humanidade, funcionando \u201ccomo um respiradouro para o esp\u00edrito. O tempo acelerado e acelerador que leva seus passageiros decuplica a ader\u00eancia ao presente em movimento\u201d. (Morin, op. cit p.178).<\/p>\n<p>Dessa forma, mesmo quando se leva em conta que os meios de comunica\u00e7\u00e3o implicam na cria\u00e7\u00e3o de novas formas de agir e interagir no mundo social, no surgimento de um novo tipo de rela\u00e7\u00f5es sociais e em novas maneiras de relacionamento do indiv\u00edduo com os outros e consigo mesmo. (Thompson, John. p.13), essa realidade volta-se para o indiv\u00edduo, o homem, o grupo social onde ele se insere. \u00a0Infelizmente, o ser humano, est\u00e1 hoje encerrado no mais estreito e individual particularismo na cultura de massa a corresponde um \u201ccerto estado de t\u00e9cnica, da ind\u00fastria, do capitalismo da democracia, do consumo colocando-o \u201dem rela\u00e7\u00e3o com o tempo-espa\u00e7o do s\u00e9culo\u201d. (Morim op. cit. p. 180). Essas constata\u00e7\u00f5es exp\u00f5em parte das dificuldades na rela\u00e7\u00e3o entre a m\u00eddia e a hist\u00f3ria dificultando o of\u00edcio de historiador.<\/p>\n<p>Na modernidade, o indiv\u00edduo liberou-se da sociedade dita tradicional para ficar desalojado sem bast\u00e3o e sem lanterna para conformar-se melhor \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com o ambiente social imediato e com o que dele se espera. Essa \u00e9 uma forma trivial de domina\u00e7\u00e3o na falta de uma coerente identidade e de valores culturais que desfrutem de autoridade. Assim, o indiv\u00edduo \u00e9 adaptado, conformado a uma forma, a uma vis\u00e3o mais concorde aos seus ambientes sociais imediatos aceitando a ef\u00eamera opini\u00e3o p\u00fablica t\u00e3o estimulada pelos programas de lazer da TV brasileira. Na era do capitalismo liberal, as antigas normas tradicionais de rela\u00e7\u00f5es de parentesco, san\u00e7\u00f5es de vergonha &#8211; provocadas por toda uma opini\u00e3o desfavor\u00e1vel comunit\u00e1ria &#8211; asseguravam a adequa\u00e7\u00e3o comportamental externa do indiv\u00edduo a uma ordem social estabelecida. A fragmenta\u00e7\u00e3o dessa ordem deu origem a uma pluralidade de situa\u00e7\u00f5es novas colocou a quest\u00e3o da escolha, antes numa organiza\u00e7\u00e3o r\u00edgida em uma \u201ccanaliza\u00e7\u00e3o de escolha para um car\u00e1ter extremamente individualizado\u201d (Riesman, 1961 p.15).<\/p>\n<p>Refiro-me ainda aos r\u00f3tulos e aos usos de uma terminologia apressada relativa ao trabalho dos pesquisadores que importam certas terminologias como se elas pr\u00f3prias se configurassem como hist\u00f3ria. Tem-se uma avalanche de nomenclaturas, umas usuais, outras nem tanto. Falo da hist\u00f3ria-mem\u00f3ria, hist\u00f3ria-objeto, hist\u00f3ria conhecimento, opera\u00e7\u00e3o intelectual, hist\u00f3ria linear, hist\u00f3ria com atitude, hist\u00f3ria comprometida, enfim, um alinhavado de denomina\u00e7\u00f5es que resvalam na fronteira entre o verdadeiro e o falso, entre o que \u00e9 ser historiador e o <em>history maker<\/em>. \u00a0Al\u00e9m disso, um dos bons usos da hist\u00f3ria \u00e9 a arte de ensinar vocabul\u00e1rio, ou seja, destilar esse componente b\u00e1sico da comunica\u00e7\u00e3o entre os homens. Algumas das palavras preferenciais dos meios de comunica\u00e7\u00e3o circulam, fogem ao alcance, e se escondem em e estruturas l\u00f3gicas e il\u00f3gicas num v\u00f4o circundante de um suposto <em>\u00e9 obvio<\/em> em nevoeiro espesso de ambig\u00fcidades. As palavras desde todo e sempre s\u00e3o instru\u00eddas pelos historiadores, na compreens\u00e3o de discursos, textos de oradores, escritores e presidentes, tudo bem diverso da leitura em uso por ouvintes e telespectadores. As palavras e frases podem ser singularmente enganosas e escorregadias para um historiador pouco atento a alguns feixes sil\u00e1bicos e a escolha de temas e textos produzidos por essa ou aquela emissora de TV na guerra pela audi\u00eancia. \u00c9 que \u201cas palavras, libertadas pela compreens\u00e3o, v\u00e3o com suas mensagens pelos s\u00e9culos afora\u201d (Idem. Ibidem). Em torno da palavra h\u00e1 toda uma s\u00e9rie de conceitos.\u00a0 Sabemos que quem escreve, grava e produz, o faz tamb\u00e9m para outros olhares. Sem d\u00favida, cada express\u00e3o, linha, trecho e forma refletem uma rela\u00e7\u00e3o com as coisas que nos cercam como pessoas e conceitos conhecidos e reconhec\u00edveis.<\/p>\n<p>Os autores e recebedores das mensagens propostas dizem respeito ao conte\u00fado da mensagem, o modo de express\u00e3o cabe explicar a id\u00e9ia desenvolvida. \u201cOra, um bom uso da historia \u00e9 a sua colabora\u00e7\u00e3o para localizar eventos, fen\u00f4menos e express\u00f5es localizadas em seu universo.\u201d (Handlin, p.369). Dessa forma, as fronteiras entre m\u00eddia e hist\u00f3ria est\u00e3o sujeitas as mesmas inquieta\u00e7\u00f5es e discuss\u00f5es tal como no inicio do s\u00e9culo XIX,quando Buckle, em termos v\u00e1lidos para o nosso s\u00e9culo, lamentava os historiadores que nada sabiam de economia pol\u00edtica; outro que nada sabia de Direito; outro de assuntos eclesi\u00e1sticos e das mudan\u00e7as na opini\u00e3o p\u00fablica; outro que desprezava a filosofia da estat\u00edstica, outro da ci\u00eancia f\u00edsica\u201d, de maneira que esses campos importantes cultivados \u201cora por uma, ora por outros est\u00e3o mais isolados que unidos\u201d, e inexistem disposi\u00e7\u00f5es para que se concentrem sobre a hist\u00f3ria. De fato, Buckle nada mais fez que repetir a posi\u00e7\u00e3o anterior de Gibbon para que fossem valorizados todos os fatos. (Buckle, 1889 p.4). Um \u201cMontesquieu retiraria dos fatos mais medianos conclus\u00f5es desconhecidas ao homem comum, chegando \u00e0 hist\u00f3ria filos\u00f3fica.\u201d(Krieger p.74 e Handlin, p.369).\u00a0 No t\u00e3o pr\u00f3ximo s\u00e9culo XX, a quase totalidade dos historiadores caminhou no reconhecimento de contextos e injun\u00e7\u00f5es mais amplas numa variedade de modos que os faz buscarem um todo denominado civiliza\u00e7\u00e3o, cultura ou esp\u00edrito de uma \u00e9poca religando seus elos e liga\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas. Resulta de todo impr\u00f3pria, por\u00e9m, qualquer pretens\u00e3o de se negar ser a hist\u00f3ria uma disciplina \u00fanica. Consider\u00e1-la ou trat\u00e1-la como um amontoado de disciplinas correlatas, resulta no podermos considerar o mesmo tamb\u00e9m da import\u00e2ncia dos diversos ramos voltados al\u00e9m das delimita\u00e7\u00f5es de suas respectivas \u00e1reas de conhecimento.<\/p>\n<p>Uma reflex\u00e3o se imp\u00f5e quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre hist\u00f3ria e m\u00eddias. Quando a m\u00eddia utiliza enfoques que respondem \u00e0s justificativas de refr\u00f5es como <em>fazendo a hist\u00f3ria<\/em> e de <em>uma hist\u00f3ria em processo de fazer-se<\/em>, uma parte da culpa recai sobre o pr\u00f3prio historiador por deslumbrado com a pr\u00f3pria m\u00eddia e por haver retirado as escoras de suas pr\u00f3prias teorias. Foi \u00e0 procura pelo passado utiliz\u00e1vel, da f\u00f3rmula para responder aos interesses imediatos e o das afilia\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-partid\u00e1rias, al\u00e9m do sentido de \u00e9tica e de moral quem pode definir objetivos comuns para que os historiadores se unissem a grupos de cientistas sociais para que eles lhes pudessem dizer como fazer alguma coisa contra a pobreza, a inf\u00e2ncia abandonada ou a guerra. Na pior das hip\u00f3teses, a exig\u00eancia que o historiador faz ao passado \u00e9 a de que ele nos forne\u00e7a nenhuma condi\u00e7\u00e3o de escapar do seu quadro referencial um mito fidedigno que venha identificar as for\u00e7as do bem e do mal e inspirar os que combatem com lemas ou fogo do outro lado das barricadas\u201d (Handlin, op.cit. p.366)). H\u00e1 ainda o perigo de compactuar para satisfazer exig\u00eancias que frustrar\u00e3o o historiador que trata com seriedade o seu of\u00edcio. Alguns podem abandonar os padr\u00f5es daquilo que se convencionou importante no seu trabalho em prol de onde est\u00e3o os maiores ganhos nas aulas e nos prelos. O lament\u00e1vel nesses casos \u00e9 chegar-se ao ponto do abandono de uma investiga\u00e7\u00e3o escrupulosa e de uma avalia\u00e7\u00e3o com um julgamento cient\u00edfico mais rigoroso. Quando as m\u00eddias invocam a hist\u00f3ria para legitimar argumenta\u00e7\u00f5es e justificativas expostas em panfletos, revistas, jornais, romances, relatos hist\u00f3ricos, novelas de \u00e9poca genealogias e document\u00e1rios pode-se questionar sobre sua cientificidade? Por uma quest\u00e3o de m\u00e9todo \u00e9 preciso observar alguns elementos b\u00e1sicos sobre discurso, a liga\u00e7\u00e3o entre discurso e narrativa, pois h\u00e1 sempre algo de um e de outro em qualquer dos dois g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Apenas a contesta\u00e7\u00e3o de que se narrativa se transformar em discurso perder\u00e1 a sua qualidade de narrar. Tomando emprestadas algumas no\u00e7\u00f5es dos m\u00e9todos da cr\u00edtica liter\u00e1ria podemos detectar a presen\u00e7a de um discurso numa s\u00f3bria narrativa ao dar-se como simult\u00e2nea a ativa\u00e7\u00e3o funcional de um historiador, pesquisador e relator. Agregue-se que elas s\u00e3o refutadas pelos ideais da Hist\u00f3ria Nova que no campo das ci\u00eancias humanas recusam o papel \u201cde armas ao servi\u00e7o de minorias interesseiras para subjugar os outros e viola-las no seu mais \u00edntimo ser, moldando-a a sua guisa. Cada homem \u00e9, deve ser um fim em si pr\u00f3prio. Mas o rem\u00e9dio vir\u00e1 das pr\u00f3prias ci\u00eancias humanas, entendidas como ci\u00eancias e n\u00e3o como receitu\u00e1rios de lucro ou cortinas ideol\u00f3gicas.\u201d (Godinho, 1965 p: 15). Al\u00e9m disso, o corol\u00e1rio \u00e9 que, a cultura do consumo cujos interesses interferem na produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, cronologicamente, seguiu-se \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o. A cultura come\u00e7a a ser vista como uma quest\u00e3o de excedente econ\u00f4mico concluindo-se que at\u00e9 ser alcan\u00e7ado certo n\u00edvel de riqueza material, o consumo dever\u00e1 ser restrito \u00e0s necessidades b\u00e1sicas. A referencia \u00e9 clara e o argumento frequente. A tend\u00eancia produtivista vem sendo contestada pelo revisionismo hist\u00f3rico que considera a revolu\u00e7\u00e3o do consumidor como anterior, ou pelo menos fomentadora dos in\u00edcios da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Essa corrente aceita que estaria situado no s\u00e9culo XVI um novo mundo de mercadorias com uma ampla penetra\u00e7\u00e3o de bens de consumo da vida cotidiana de mais classes sociais, o desenvolvimento e dissemina\u00e7\u00e3o da cultura de consumo no que diz respeito \u00e0 moda e aprecia\u00e7\u00e3o como elementos chave do consumo e por fim o desenvolvimento de infra-estruturas, organiza\u00e7\u00f5es e procedimentos que tinham como pr\u00e1tica esses novos tipos de mercado onde se inclui a publicidade e o marketing. (Slater, 2002 p. 25)<\/p>\n<p>Diariamente s\u00e3o alimentados com o que se chama hist\u00f3ria, os roteiros, grava\u00e7\u00f5es e imagens mesmo em televis\u00f5es universit\u00e1rias sem o concurso do historiador. Melhor dizendo, estabeleceu-se, sob diversos aspectos, um tipo de competi\u00e7\u00e3o de formas estanques de leitura do passado, mesmo quando na maior parte das vezes, apenas satisfaz de forma parcial uma demanda por identidade. Os fatos apresentados como hist\u00f3ricos, s\u00e3o colocados a partir de uma exterioridade de um texto articulado e direcionado com uma forma de express\u00e3o pr\u00f3pria da linguagem do r\u00e1dio jornalismo Um dos perigos na fala \u00e9 o uso dos qualificadores cessando de indicar modifica\u00e7\u00f5es e galgando uma identidade pr\u00f3pria. Os atalhos verbais nas noticias podem converter adjetivos em substantivos, alterando a s coisa nas suas inerentes propriedades. O desejo de ornamentar a narrativa, as \u00eanfases copiadas nas altern\u00e2ncias de voz dos discursos, mesmo que de pouca de subst\u00e2ncia de presidentes como Barack Obama, s\u00e3o todos eles recursos que levam a um sentido geral abreviado da inten\u00e7\u00e3o de um autor que considera como desnecess\u00e1rio uma maior precis\u00e3o ou n\u00e3o sabe mesmo como alcan\u00e7a-la. Mesmo assim, ainda que desvinculado dos percursos epistemol\u00f3gicos e metodol\u00f3gicos do fazer historiogr\u00e1fico, eles n\u00e3o pode ser eliminados como uma categoria de fontes para a hist\u00f3ria. Por contraste, quando os historiadores perderam as esperan\u00e7as quanto a atingir a objetividade esperada diante dos fatos principiaram,j\u00e1 nos anos setenta, a negligenci\u00e1-los.<\/p>\n<p>Assim,quando os historiadores e outros cientistas, gradativamente, foram deixando desaparecer a distin\u00e7\u00e3o entre fato e interpreta\u00e7\u00e3o, abandonando a hermen\u00eautica, critica que tenta compreender o sentido das coisas e o como interpretar, teceu-se uma colcha de retalhos de fatos e fic\u00e7\u00e3o. Ora, a hermen\u00eautica pode falar da linguagem, da retomada do sentido e da recria\u00e7\u00e3o interior (Rallo, 2005 p: 163).\u00a0 O historiador sabe que \u00e9 preciso por um pouco de amor cr\u00edtico nos textos ouvidos e analisados. Ele reconhece os tra\u00e7os repetitivos, os distorcidos e aqueles feitos com a pretens\u00e3o de enganar e ainda que se possa perceber justamente a presen\u00e7a e at\u00e9 a aus\u00eancia de legitimidade do fato narrado. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Creio que esses procedimentos podem preencher e equivaler \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o perspicaz reclamada pelos que consideram imprescind\u00edvel o uso da rigorosa hermen\u00eautica. \u00c9 do vivido que trata e se imp\u00f5e \u00e0 escrita da hist\u00f3ria. Um presente que quer se tornar hist\u00f3rico em seu pr\u00f3prio tempo, um imediato quase al\u00e7ado de s\u00fabito \u00e0 categoria de hist\u00f3ria no momento de sua constitui\u00e7\u00e3o divulgam uma argumenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, como elemento subtendido e pelo sistematizado que perpassa suas not\u00edcias. \u00a0\u00c9 prov\u00e1vel que essa busca pelo novo, possa contraditoriamente, produzir um afastamento do passado, ao mesmo tempo traduzindo uma sede de registro contempor\u00e2neo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A m\u00eddia nossa de cada dia ajuda a elaborar uma id\u00e9ia de acontecimento como ele \u00e9 pensado naquele momento e o pressup\u00f5e como hist\u00f3rico. Mesmo os historiadores, com a sua forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, n\u00e3o lograram alcan\u00e7ar o \u00e2mago do acontecimento puro, o real desejado, pela ess\u00eancia mesma da caracter\u00edstica do pr\u00f3prio real n\u00e3o mais existir. Dessa forma, o acontecimento midi\u00e1tico est\u00e1 envolto por uma s\u00e9rie de conforma\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do jornalismo e que lhe s\u00e3o inerentes. Assim, a imprensa, o r\u00e1dio, a televis\u00e3o e a Internet, t\u00eam nelas mesmas, geram nelas mesmas as suas pr\u00f3prias e peculiares condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia. Independente da hist\u00f3ria, a publicidade segue a formar a sua produ\u00e7\u00e3o e os acontecimentos capitais podem continuar a ocorrer sem que sejam sequer noticiados, (Nora e Le Goff. 1995 p.37 ss), pois o acontecimento, o fato de ter acontecido n\u00e3o os torna hist\u00f3ricos de per si. Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio que eles sejam reconhecidos como tal e isso implica em crit\u00e9rios elaborados sobre a integridade dos registros, sem o qual n\u00e3o poderia haver a contagem do tempo, leitura de palavras, percep\u00e7\u00e3o de contexto e utilidade do tema. A preocupa\u00e7\u00e3o com o registro, a id\u00e9ia do registro \u00e9 um norte seguro. Ningu\u00e9m pode reviver o passado, mas se pode claramente ver a verdade no registro. \u00a0Um acontecimento, uma descoberta n\u00e3o sofisticada, mas duradoura pode, assim, estar \u00e0 espera do pesquisador. \u00a0Outro ponto para reflex\u00e3o \u00e9 o de que tais acontecimentos estruturam-se na m\u00eddia com o fim determinado de forma\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o p\u00fablica aos poucos persuadida e dirigida. Ela n\u00e3o tem preocupa\u00e7\u00e3o com o tempo cronol\u00f3gico que informa ao investigador sobre a longa dist\u00e2ncia percorrida e o curso sem mudan\u00e7as da ocorr\u00eancia. Este o terreno conhecido do historiador. Tempos de curta ou de longa dura\u00e7\u00e3o, um mil\u00eanio ou mais fazem a diferen\u00e7a quando tratamos de quest\u00f5es alimentares, urbanas, clim\u00e1ticas e tecnol\u00f3gicas. \u00a0Inexiste a abstra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o geral, op\u00e7\u00e3o, desejo, prefer\u00eancia que possa desafiar a cronologia, outra aliada do historiador. Ele trabalha com a natureza dos dias passados, conhece a natureza do rel\u00f3gio e sabe que n\u00e3o pode alterar a sua velocidade. N\u00e3o h\u00e1 volta para recapturar, voltar ou redimir momentos idos. A ningu\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel reaver e reviver o passado, a procura da verdade nos registros destilar\u00e1 a necess\u00e1ria evid\u00eancia. Com a comunica\u00e7\u00e3o o primado do acontecimento espet\u00e1culo pode ser elaborado a partir da palavra, do som e da imagem advindo dos est\u00edmulos provenientes dos seus meios de atua\u00e7\u00e3o. Do seu desempenho, surgem verdadeiras f\u00e1bricas de produ\u00e7\u00e3o de acontecimentos e brotam as novidades a serem lan\u00e7adas no mercado. Cabe ao historiador separar os conceitos de verdade e fic\u00e7\u00e3o que se misturam num mundo insaci\u00e1vel de ansiedades plenas de ang\u00fastia. A partir da id\u00e9ia de uma hist\u00f3ria viva, a discuss\u00e3o sobre as mudan\u00e7as na sua \u00e1rea espec\u00edfica \u00e9 s\u00f3 parte dos ind\u00edcios do que necessitar\u00e1 levar ao campo te\u00f3rico das discuss\u00f5es.<\/p>\n<p>A possibilidade de livrar-se da submiss\u00e3o aos fatos hist\u00f3ricos, imposi\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o deu ao historiador nenhum salvo conduto que lhe assegurasse uma confort\u00e1vel, duradoura e imperturb\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o. A coloca\u00e7\u00e3o de uma revis\u00e3o da narrativa hist\u00f3rica, as quest\u00f5es relativas ao bom cumprimento do seu of\u00edcio teriam que continuar a ser uma imposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e a atuar como um est\u00edmulo intelectual. O historiador reconhece os acontecimentos veiculados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o incorporados a peculiares pr\u00e1ticas discursivas e narrativas oferecendo um modelo e um olhar. A forma sob a qual estes elementos s\u00e3o representados, interpretados, analisados e julgados n\u00e3o tem a mesma perspectiva do historiador. A fala elaborada para o p\u00fablico televisivo difere do foco do historiador, tendo em si mesma um objeto diverso. A tentativa de constru\u00e7\u00e3o de significados, em um contexto ainda novel para o historiador o deixa suspeitoso de que se pare\u00e7a ter perdido o pr\u00f3prio sentido da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No jornalismo d\u00e1-se uma guerra pelo controle da informa\u00e7\u00e3o, audi\u00eancia e credibilidade, donde a necessidade de legitima\u00e7\u00e3o apelando-se \u00e0 Hist\u00f3ria quase como uma legitima\u00e7\u00e3o. Como esfera de influ\u00eancia do poder p\u00fablico, advindas das pr\u00f3prias origens advindo da concess\u00e3o televisiva pelo governo, existe obriga\u00e7\u00f5es escritas e n\u00e3o escritas de interesse espec\u00edfico de difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, valores compartilhados em determinadas classes ou grupos sociais respondendo aos interesses econ\u00f4micos e sociais. Al\u00e9m disso, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, dentro de sua especificidade, elaboraram uma forma jornal\u00edstica de narrar transmitindo sensa\u00e7\u00f5es e no\u00e7\u00f5es de temporalidade com o auxilio de fotos e imagens que refor\u00e7am as impress\u00f5es do subconsciente. A partir das suas defini\u00e7\u00f5es, conceitos e significados s\u00e3o desenhados e noticiados, com maior ou menor \u00eanfase os acontecimentos di\u00e1rios. Igualmente, setores de comunica\u00e7\u00e3o consideram como uma de suas tarefas a difus\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico. Quando Samuel Wainer (Folha de S\u00e3o Paulo 14-01-1979) sublinhou a import\u00e2ncia da imprensa na hist\u00f3ria brasileira considerando-a uma fonte para a hist\u00f3ria do pa\u00eds, acreditando ser o jornal um instrumento de informa\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o proferiu uma inverdade. Mesmo quando se possa considerar que tais relatos expressam um incitante para a imagina\u00e7\u00e3o influenciada pela m\u00eddia esses crit\u00e9rios s\u00e3o subjetivos e ap\u00f3s as comunidades do ciberespa\u00e7o com a amplia\u00e7\u00e3o da rede virtual os desafios permanecem dentro de novas no\u00e7\u00f5es de temporalidade.<\/p>\n<p>O acontecimento divulgado pelas grandes de sistemas de comunica\u00e7\u00e3o, coloca o foco realmente no ide\u00e1rio positivista? O novo, o inusitado sempre provocar\u00e1 pol\u00eamicas em evid\u00eancia positivista. N\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica conhecida o fato de o acontecimento midi\u00e1tico produzir de forma sensacionalista, sempre a procura de outros fatos que, igualmente chamem a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico? Coexistir com o trabalho jornal\u00edstico pede o exame s\u00e9rio do uso de categorias usadas na narrativa hist\u00f3rica. Pode esse empr\u00e9stimo comprometer a produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica? V\u00e1rios n\u00e3o historiadores utilizam recursos jornal\u00edsticos, e por for\u00e7a do poder da m\u00eddia, pois m\u00eddia \u00e9 poder, influenciam produ\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, pol\u00edticas e art\u00edsticas. Citar Tucidides n\u00e3o faz de um jornalista um historiador assim como tentar procurar por em pr\u00e1tica as suas assertivas n\u00e3o colocam estranho no ninho. Podemos observar que a constru\u00e7\u00e3o da legitimidade do discurso jornal\u00edstico, sem a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, apenas vem demonstrar a import\u00e2ncia da disciplina hist\u00f3rica. A inteligibilidade, emprestado pela cita\u00e7\u00e3o do historiador, n\u00e3o lhes concede o mesmo estatuto. O jornal pode ressaltar seu valor como documento hist\u00f3rico oferecendo o necess\u00e1rio termo de compara\u00e7\u00e3o ao leitor e ao historiador. Contudo, isso n\u00e3o o legitima como mediador entre leigos e especialistas. Mesmo quando aborda mat\u00e9rias de car\u00e1ter epistemol\u00f3gico pr\u00f3prios da hist\u00f3ria o jornal continua sendo a ser n\u00e3o m\u00e3os do que uma boa fonte para a hist\u00f3ria. (Bourdieu 1997 p. 29). No s\u00e9culo XX, o campo jornal\u00edstico constitui-se em discuss\u00e3o entre not\u00edcia e opini\u00e3o, numa oposi\u00e7\u00e3o de duas l\u00f3gicas e em dois princ\u00edpios de legitima\u00e7\u00e3o. O reconhecimento da comunica\u00e7\u00e3o pelos seus pares \u00e9 fundamental, mas os seus valores ou princ\u00edpios internos pedem tamb\u00e9m o reconhecimento da maioria.<\/p>\n<p>A complexidade de se pensar as ci\u00eancias humanas e sociais, em nossos dias n\u00e3o ser\u00e1 maior de que a de qualquer outra disciplina dentro de uma vis\u00e3o globalizada de mundo. Todos os elementos relacionados a uma melhor explica\u00e7\u00e3o, os usos e o valor da historia sofrem as restri\u00e7\u00f5es naturais da mem\u00f3ria, de um grande n\u00famero de fontes e de novos objetos de pesquisa. Isso vem proporcionando aos sentidos do pesquisador uma sensa\u00e7\u00e3o de desconforto que envolve desde as preocupa\u00e7\u00f5es com a especificidade da escolha do tema, ao tempo dispon\u00edvel para a confec\u00e7\u00e3o da pesquisa pretendida e a sua periodiza\u00e7\u00e3o. Dentro de um universo de escolhas os problemas vastos e c\u00e9leres se ligam \u00e0 contemporaneidade e o universo onde estamos inseridos. \u00a0As narrativas e produ\u00e7\u00f5es da m\u00eddia, ap\u00f3s a cessa\u00e7\u00e3o do impacto produzido se constituir\u00e3o naquilo que hoje s\u00e3o: em fontes para o historiador. A m\u00eddia, de forma geral, efetiva esses elementos por meio dos canais de comunica\u00e7\u00e3o e not\u00edcias podendo tornar-se um suporte para a mem\u00f3ria; \u00e9 tarefa de o historiador cotejar fontes de v\u00e1rias naturezas e por isso, ele sempre dir\u00e1 com autoridade o que as evid\u00eancias revelam da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bibliografia<\/p>\n<p>BOURDIEU.\u00a0 Pierre. \u00a0Sobre a Televis\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar\u00a0 Editores,1997<\/p>\n<p>BUCKLE. Henry Thomas. History of civilization in England-2 vols. N.Y.1858, I-<\/p>\n<p>BURKE, Peter &amp; Briggs. Uma Hist\u00f3ria Social da M\u00eddia \u2013 de Gutenberg \u00e0 Internet.\u00a0\u00a0\u00a0 Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2002.<\/p>\n<p>BURKE, Peter. A hist\u00f3ria dos acontecimentos e o renascimento da narrativa in A Escrita da Hist\u00f3ria \u2013 novas perspectivas. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 1992.<\/p>\n<p>CERTEAU, Michel. <em>A Escrita da Hist\u00f3ria<\/em>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2002.<\/p>\n<p>FROTA. Luciara Silveira de Arag\u00e3o-O Documento Oral e Algumas de suas fontes-Separata da Semana da Hist\u00f3ria. Campus de Franca. 1998<\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel. <em>A ordem do discurso<\/em>. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1996.<\/p>\n<p>HANDLIN. Oscar.\u00a0 A Verdade na Hist\u00f3ria S\u00e3o Paulo: Martins Fontes. 1982.<\/p>\n<p>JENKINS, Keith. <em>A Hist\u00f3ria Repensada<\/em>. S\u00e3o Paulo: Edita Contexto, 2001.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>LABROUSSE, Ernest &#8211; A HIST\u00d3RIA SOCIAL: Problemas, Fontes e M\u00e9todos. Lisboa, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>MOLINO, Jean. &#8211; INTRODUCTION \u00c0 L ANALISE DE LA POESIE, com Joelle Gardes-Tamine, PUF, 1988.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NORA, Pierre. \u00a0<em>O Retorno do Fato <\/em>in NORA &amp; L\u00ca GOFF. Novos Problemas. Rio de Janeiro<\/p>\n<p>Francisco Alves, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>KRIEGER .Leonard &#8211; Horizons of History, American Historical Review LXIII, Outubro, 1975<\/p>\n<p>RALLO. Elizabeth. M\u00e9todos de cr\u00edtica liter\u00e1ria. SP Martins Fontes 2005<\/p>\n<p>RICOEUR, Paul. <em>Tempo e Narrativa<\/em>. Tomos I, II, III, S\u00e3o Paulo: Papirus Editora, 1997.<\/p>\n<p>RIOUX, J.P. <em>Entre o Jornalismo e a Hist\u00f3ria<\/em>. \u00a0<em>Quest\u00f5es para a Hist\u00f3ria do tempo <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0presente<\/em>.\u00a0 \u00a0S\u00e3o Paulo: Edusc, 1999.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SLATER. DON.\u00a0 Cultura do Consumo e Modernidade. Nobel: 2002<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SOBOUL Albert.\u00a0 Descri\u00e7\u00e3o e Mem\u00f3ria Social-Col\u00f3quio da Escola Normal de Saint \u00a0\u00a0Cloud, \u00a0\u00a0\u00a0\u00a015-16 de maio de 1965<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>R\u00dcSEN, J\u00f6rn. \u00a0\u00a0\u00a0<em>Raz\u00e3o Hist\u00f3rica \u2013 Teoria da hist\u00f3ria: os fundamentos da ci\u00eancia<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Hist\u00f3rica.<\/em> \u2018 Bras\u00edlia: Ed. UNB, 2001.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>GODINHO. VITORINO MAGALH\u00c3ES .- Introdu\u00e7\u00e3o ao Col\u00f3quio da Escola Normal de Saint\u00a0 Cloud, 1965.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>THOMPSON, John B. M\u00eddia e Modernidade: uma teoria social da m\u00eddia. S\u00e3o Paulo: Vozes, 2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sociedade contempor\u00e2nea as m\u00eddias visuais e sonoras retratam velozmente o cotidiano. Assim, a imprensa,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1894,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[279],"tags":[],"class_list":["post-1888","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-cientificos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1888","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1888"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1888\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1889,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1888\/revisions\/1889"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}