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{"id":1812,"date":"2020-04-01T10:50:37","date_gmt":"2020-04-01T10:50:37","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1812"},"modified":"2021-02-12T21:22:33","modified_gmt":"2021-02-12T21:22:33","slug":"brasil-e-argentina-um-enfoque-historico-da-integracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2020\/04\/01\/brasil-e-argentina-um-enfoque-historico-da-integracao\/","title":{"rendered":"Brasil e Argentina: um Enfoque Hist\u00f3rico da Integra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica exterior sofre as influ\u00eancias de fatores que conduzem a mudan\u00e7as profundas, caracterizadas por crises que englobam problemas pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais.<\/p>\n<p>Os interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos mundiais s\u00e3o, em grande parte, os respons\u00e1veis pela forma e pela condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica exterior Sul-americana. Estes interesses impedem ou facilitam que os interesses de pa\u00edses como Argentina e Brasil, sejam expressos adequadamente na ordem internacional e no funcionamento das rela\u00e7\u00f5es interamericanas.<\/p>\n<p>Sem nos aprofundarmos na discuss\u00e3o do significado da palavra integra\u00e7\u00e3o, usada muito freq\u00fcentemente na linguagem pol\u00edtica no cen\u00e1rio latino americano, devemos discutir tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses a partir do contexto natural da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o, desde uma perspectiva binacional e tendo em conta o contexto mundial e seus reflexos em nossos pa\u00edses, pode chegar a ser um elemento que se introduza, no plano externo, em uma maior capacidade negociadora para a quest\u00e3o da d\u00edvida externa e outras tais como a do Atl\u00e2ntico Sul tema no qual coincidem os dois pa\u00edses quanto a sua manuten\u00e7\u00e3o como zona de paz e, por sua vez, fora da disputa leste-oeste.<\/p>\n<p>Certamente, a Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma zona subdesenvolvida do Ocidente, fato que mostra a import\u00e2ncia de um programa de desenvolvimento econ\u00f4mico para o continente, elabora necessariamente a partir da complementa\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o o uso dos recursos dispon\u00edveis e existentes nos pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia recolhida at\u00e9 o presente, atrav\u00e9s de distintos processos que se iniciaram seguindo a id\u00e9ia da integra\u00e7\u00e3o latino americana da d\u00e9cada de 60 e o funcionamento de organismos de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou vi\u00e1vel deveriam estar estruturado a partir da complementa\u00e7\u00e3o e posterior integra\u00e7\u00e3o das economias daquelas na\u00e7\u00f5es que, por seu n\u00edvel de desenvolvimento, tenham uma relativa similaridade de base. Este \u00e9 o caso de Argentina e Brasil.<\/p>\n<p>Ainda que uma an\u00e1lise hist\u00f3rica da rela\u00e7\u00e3o entre ambos os pa\u00edses, nos indique o predom\u00ednio das rivalidades sobre os acordos, \u201cque t\u00eam perpetuado a separa\u00e7\u00e3o da vontade em vez do concertamento pol\u00edtico&#8230; e apesar desse desencontro em n\u00edvel de seus governos, nada h\u00e1 podido impedir essa diplomacia de \u201cpovo a povo\u201d que se consolidou em um com\u00e9rcio de grande import\u00e2ncia&#8230; e uma vincula\u00e7\u00e3o a n\u00edvel de suas popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conhece barreiras pol\u00edticas artificiais\u201d (Juan Archibaldo Lan\u00fas in \u201cDe Chapultepec al Beagle\u201d. Emece, B.Aires, 1983, p\u00e1g. 284).<\/p>\n<p>Assim, a nosso ju\u00edzo, Argentina e Brasil adequando-se \u00e0 realidade que oferece a conjuntura mundial atual, devem arbitrar seus recursos pol\u00edticos e econ\u00f4micos com o fim de lograr o equil\u00edbrio indispens\u00e1vel em sua rela\u00e7\u00e3o bilateral e em suas posi\u00e7\u00f5es frente aos problemas de ordem pol\u00edtica no \u00e2mbito continental e mundial.<\/p>\n<p>Este entendimento argentino-brasileiro tende a ter uma particular relev\u00e2ncia no sistema interamericano. De fato, uma conson\u00e2ncia em suas pol\u00edticas seria condi\u00e7\u00e3o para uma maior homogeneidade na Am\u00e9rica Latina. Estas id\u00e9ias j\u00e1 foram expressas em 1958 por H\u00e9lio Jaguaribe (\u201cO Nacionalismo na atualidade brasileira\u201d, ISEB R.Janeiro, 1958, p.279 , quando nos diz que \u201cum entendimento argentino-brasileiro levaria quase automaticamente a articula\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n<p>Consideramos que o antecedente desse processo de integra\u00e7\u00e3o da Argentina e Brasil est\u00e1 na \u201cOpera\u00e7\u00e3o Pan-americana\u201d, iniciativa formulada pelo Presidente Juscelino Kubitscheck. Como se recordar\u00e1&#8230; \u201cA Argentina lhe prestou apoio entusiasta desde o come\u00e7o e esse apoio se foi convertendo em uma a\u00e7\u00e3o coordenada e decisiva nas \u00faltimas confer\u00eancias internacionais\u201d (Carlos Florit in\u201dPol\u00edtica Exterior Nacional, Aray\u00fa, B.Aires, p\u00e1g. 44)\u201d. Realmente, a opera\u00e7\u00e3o pan-americana teve o apoio do Presidente argentino Arturo Frondizi com rela\u00e7\u00e3o aos significado de \u201cdemocracia, legalidade de desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p>Esse programa para o financiamento do desenvolvimento latino-americano, necessitava da ajuda financeira externa, como o programa \u201cAlimento para a paz\u201d a fim de permitir aos pa\u00edses da regi\u00e3o desenvolverem suas potencialidades com seus pr\u00f3prios recursos. Assim mesmo, a \u201cOpera\u00e7\u00e3o panamericana\u201d concebia o esfor\u00e7o conjunto, quer dizer, \u201cenvolveram a todos os pa\u00edses latino-americanos, excluindo discrimina\u00e7\u00f5es de estrat\u00e9gias limitada e puramente militar a fim de evitar, dentro do poss\u00edvel, encontrar dentro do panorama pol\u00edtico social latino-americano, zonas de subconsumo ou de mis\u00e9ria suscet\u00edveis de converter-se em focos de intranq\u00fcilidade para os demais\u201d. (Carlos Florip, op.cit, p.42).<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie de Plano Marshall para a Am\u00e9rica Latina foi defendida por Argentina e Brasil de forma conjunta na Confer\u00eancia de Bogot\u00e1, do Comit\u00ea dos 21 da OEA celebrada em outubro de 1960.<\/p>\n<p>Sobre as bases do multilateralismo se fez poss\u00edvel a concretiza\u00e7\u00e3o do Tratado de Montevid\u00e9u, criando a Associa\u00e7\u00e3o Latino-americana de Livre Com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Desde 1\u00ba de maio de 1958, a pol\u00edtica exterior Argentina esteve a servi\u00e7o de uma pol\u00edtica nacional de corte \u201cdesenvolvimentista\u201d \u2013 ligada ao aparato jur\u00eddico tradicional \u2013 com uma forte preocupa\u00e7\u00e3o com a legalidade. Esse bin\u00f4mio \u201clegalidade e desenvolvimento\u201d do governo de Arturo Frondizi, intentava superar uma estrutura econ\u00f4mica que considerava ultrapassada e alterava as linhas tradicionais da pol\u00edtica exterior Argentina. A proposta envolvia o c\u00e2mbio de uma economia agro-pastoril por outra caracterizada pelo desenvolvimento independente dos setores b\u00e1sicos, tais como a ind\u00fastria pesada, energia e tecnologia de ponta.<\/p>\n<p>Isto implicava um c\u00e2mbio nas condi\u00e7\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas tradicionais da Argentina, vinculada com a Europa e particularmente com a Gr\u00e3 Bretanha, e um tanto afastada da realidade pol\u00edtica do continente americano. Isto n\u00e3o significa desconhecer que a Argentina durante os governos de Juan D. Per\u00f3n havia intentado consolidar seus la\u00e7os pol\u00edticos e econ\u00f4micos com os pa\u00edses de Cone Sul (Chile, Bol\u00edvia, Paraguai, Peru e Brasil).<\/p>\n<p>O conceito de desenvolvimento preconizado por Frondizi, engloba o da industrializa\u00e7\u00e3o que, na realidade, foi um dos objetivos do seu governo. Sem embargo, houve quem \u201clhe reprovasse como um crime porque (a industrializa\u00e7\u00e3o) envolvia o \u00eaxodo rural e a proletariza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores agr\u00edcolas (Alain Rouqui\u00e9, in Poder militar e sociedade pol\u00edtica na Argentina (1943-1973)\u201d Emece B. Aires, 1982, p. 160).<\/p>\n<p>Frente aos problemas suscitados com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional durante os anos 1959 a 1962, Frondizi teve atitudes inusuais para a \u00e9poca em mat\u00e9ria de pol\u00edtica internacional, entrevistando-se com o Presidente J\u00e2nio Quadros, com quem acertou o chamado Pacto de Uruguaiana, e com Ernesto Guevara, na oportunidade da Confer\u00eancia da OEA em Punta Del Este.<\/p>\n<p>O encontro de Uruguaiana foi uma conseq\u00fc\u00eancia natural da pol\u00edtica de Frondizi, que havia visitado o Brasil antes de assumir a presid\u00eancia, tomando contato com o empres\u00e1rio e homem de letras, Augusto Frederico Schimidt e com o chanceler Negr\u00e3o de Lima, homens de confian\u00e7a do Presidente Kubitscheck. No Pacto de Uruguaiana ficou oficialmente subscrito o m\u00e9todo da consulta pr\u00e9via entre ambos os governos sobre as quest\u00f5es e pol\u00edtica regional e internacional, que havia tido vig\u00eancia pr\u00e1tica durante o mandato Kubischeck.<\/p>\n<p>A ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros exacerbou os problemas de pol\u00edtica interna no Brasil, fortalecendo nos militares os receios despertados por uma suposta aproxima\u00e7\u00e3o entre Frondizi e Guevara, sendo este um dos motivos do golpe militar na Argentina (23 de mar\u00e7o de 1962).<\/p>\n<p>A partir da ren\u00fancia de Quadros e da queda de Frondizi, as quest\u00f5es relativas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre ambos pa\u00edses foram tratadas atrav\u00e9s dos canais diplom\u00e1ticos tradicionais. Dessa forma, nada ficou da proposta de Quadros a Frondizi sobre o aproveitamento dos rios da Bacia do Prata.<\/p>\n<p>Em 1965, o governo argentino realizou consulta aos governos da Bol\u00edvia, Paraguai e Brasil sobre os aproveitamentos dos rios e ante as respostas positivas, o ent\u00e3o chanceler argentino, Miguel A. Zavalla Ortiz, formalizou em 2 de junho de 1966 os convites para uma reuni\u00e3o e solicitou a colabora\u00e7\u00e3o do embaixador argentino em T\u00f3kio, Guilhermo Cano, para a prepara\u00e7\u00e3o de um projeto conjunto dos recursos h\u00eddricos, antiga proposta de Quadros a Frondizi, por\u00e9m outro golpe de estado na Argentina, dessa vez contra o governo de Arturo Ilia interrompeu este processo.<\/p>\n<p>Quatro anos mais tarde, sendo chanceler argentino Nicanor Costa M\u00eandez, firmou-se em Bras\u00edlia em 23 de abril de 1969, o Tratado da Bacia do Prata mediante o qual o projeto de integra\u00e7\u00e3o passou de um meio de coopera\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses da Bacia, a um objeto de tens\u00e3o e compara\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, adquirindo \u201ca partir de sua institucionaliza\u00e7\u00e3o e ainda antes, uma muito diferente significa\u00e7\u00e3o para o governo da Revolu\u00e7\u00e3o Argentina. Tal projeto passou a ser considerado na pr\u00e1tica, como um instrumento para medir a pol\u00edtica de rivalidade entre Argentina e Brasil, em tudo o que se refere \u00e0 potencialidade energ\u00e9tica dos rios e a constru\u00e7\u00e3o de obras de estrutura f\u00edsica\u201d (Lan\u00fas, op. Cit., p.298).<\/p>\n<p>Inclusive, durante o per\u00edodo de governo do Presidente Juan C. Ongania, a quest\u00e3o dos rios da Bacia do Prata foi nitidamente um jogo de competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e as press\u00f5es argentinas no campo do direito internacional sobre a quest\u00e3o da consulta pr\u00e9via, n\u00e3o conseguiram, contudo, frear o avan\u00e7o das obras brasileiras.<\/p>\n<p>Durante o governo Alejandro Lanusse, os chanceleres, da Argentina, Eduardo Mc Loughlin e do Brasil, Gibson Barbosa, subscreveram o Acordo de Nova York, que logo se transformou em um projeto de resolu\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas. A isto se seguiram em 1972, os acontecimentos sobre as den\u00fancias Argentinas por supostas viola\u00e7\u00f5es por parte do Brasil de compromissos internacionais, relacionados como o \u201cprinc\u00edpio da publicidade\u201d. Com a visita do Presidente Lanusse a Bras\u00edlia, a situa\u00e7\u00e3o imperante nas rela\u00e7\u00f5es entre ambas na\u00e7\u00f5es n\u00e3o experimentou nenhum c\u00e2mbio favor\u00e1vel. Tudo estava ent\u00e3o submetido a uma solu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o Corpus e Itaipu e no centro da mesma, estava o fato de que, com rela\u00e7\u00e3o aos rios da Bacia do Prata, a Argentina era um pa\u00eds de \u00e1guas abaixo, da\u00ed sua desvantagem frente ao Brasil.<\/p>\n<p>Durante os governos de H\u00e9ctor Campora, Juan D. Per\u00f3n e Ma. Estela de Per\u00f3n observou-se uma mudan\u00e7a pol\u00edtica na Argentina com rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, deixando-se de lado os esfor\u00e7os para ganhar batalhas jur\u00eddicas. Por\u00e9m, sem d\u00favida alguma, a quest\u00e3o da Bacia do Prata coincidiu com um dos per\u00edodos mais tensos nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais entre Argentina e Brasil, causando n\u00e3o poucos preju\u00edzos e demoras no processo de integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos da d\u00e9cada passada, verificou-se uma aproxima\u00e7\u00e3o em n\u00edvel dos Presidentes Rafael Videla e Jo\u00e3o Figueiredo, que n\u00e3o esteve alheia \u00e0s doutrinas militares vigentes entre os dois pa\u00edses. Pelo lado argentino, desde o come\u00e7o de seu governo, o General Videla mostrou seu interesse em melhorar a rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com o Brasil, por\u00e9m a quest\u00e3o Corpu-Itaip\u00fa seguia latente e representava um \u201cn\u00f3 g\u00f3rdio\u201d pelo qual passava toda a rela\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Em 1978, o Ministro da Economia Argentina Jos\u00e9 Martinez de Hoz visitou o Brasil tentando uma aproxima\u00e7\u00e3o com o setor empresarial brasileiro e gerar ema corrente de invers\u00f5es privadas para a reconstru\u00e7\u00e3o da economia Argentina, por\u00e9m os resultados dessa estrat\u00e9gia foram escassos.<\/p>\n<p>Foi somente a partir da assinatura do acordo tripartite de Corpus-Iatip\u00fa em outubro de 1979 que se gerou um clima prop\u00edcio para a aproxima\u00e7\u00e3o entre ambas Na\u00e7\u00f5es, dentro de um contexto favor\u00e1vel j\u00e1 que o Brasil colocava \u00eanfase nas suas rela\u00e7\u00f5es com a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Em sua visita a Argentina, realizada em maio de 1980 o Presidente Jo\u00e3o Figueiredo subscreveu uma s\u00e9rie de acordos que refletiam o c\u00e2mbio profundo a n\u00edvel pol\u00edtico que se havia produzido nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais. Assim, foi que nessa oportunidade os dois governos decidiram avan\u00e7ar no caminho do entendimento pol\u00edtico, mediante o memorando de consulta sobre quest\u00f5es de pol\u00edtica regional e internacional; da coopera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, com o Acordo de Coopera\u00e7\u00e3o sobre energia nuclear, integra\u00e7\u00e3o f\u00edsica, com a reconstru\u00e7\u00e3o de uma ponte sobre o rio Igua\u00e7u; com\u00e9rcio, com a consolida\u00e7\u00e3o das linhas de cr\u00e9dito rec\u00edpocras abertas nos respectivos Bancos Centrais; energia, com o estudo da factibilidade para a venda do g\u00e1s natural argentino no Brasil.<\/p>\n<p>Assim, o Presidente Figueiredo viajou acompanhado de cerca de 200 empres\u00e1rios brasileiros, interessados em investigar as possibilidades que oferecia o mercado argentino. Nessa oportunidade foi subscrito a \u201cAta empresarial Argentina-Brasil do IV Centen\u00e1rio de Buenos Aires\u201d, onde se deixava \u00e0 iniciativa privada um papel preponderante na condu\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios e se estabeleciam seis setores chaves dentro do processo de aproxima\u00e7\u00e3o bilateral: agricultura, siderurgia, qu\u00edmica, petroqu\u00edmica, engenharia, bancos e consultoria.<\/p>\n<p>O Presidente Videla destacou nessa oportunidade a necessidade de estabelecer regras para o desenvolvimento do interc\u00e2mbio comercial sem vantagens de um sobre outro pa\u00eds, tendo em conta a situa\u00e7\u00e3o relativa de cada pa\u00eds (Tiempo argentino, 31-1-1984).<\/p>\n<p>Na Argentina, o setor empresarial ligado a um projeto de desenvolvimento de extrema direita, fez sentir suas cr\u00edticas identificando o Brasil como a Inglaterra do S\u00e9culo XIX. Para este setor, a Argentina assumia, atrav\u00e9s dessa associa\u00e7\u00e3o, o papel de provedor agropecu\u00e1rio e de comprador de produtos industriais, criando-se com isto uma situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancias e uma diminui\u00e7\u00e3o de seu peso geopol\u00edtico.<\/p>\n<p>J\u00e1 em janeiro de 1981, o governo argentino, cedendo \u00e0s press\u00f5es de alguns setores empresariais do pa\u00eds, imp\u00f4s uma sobretaxa de 20% aos produtos importados do Brasil.<\/p>\n<p>O governo seguinte, o do General Roberto E. Viola, tomou um compromisso com o crescimento industrial do pa\u00eds e foi identificado com o de Jo\u00e3o Figueiredo em fun\u00e7\u00e3o de seus projetos de abertura pol\u00edtica. Assim, em Passo de Los Libres e Uruguaiana fortaleceu-se o processo de aproxima\u00e7\u00e3o entre ambos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Sem embargo, tratou-se de um curto \u201cintermezzo\u201d porque devido a outra mudan\u00e7a de governo na Argentina em novembro de 198, voltou-se a uma pol\u00edtica econ\u00f4mica de corte tradicional, o modelo monetarista de 1976, o que em grande parte neutralizou os resultados da aproxima\u00e7\u00e3o que se havia alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Os efeitos negativos do conflito do Atl\u00e2ntico Sul sobre a economia Argentina, tiveram, contudo um lado positivo com respeito as rela\u00e7\u00f5es argentino-brasileiras. Com efeito, o bloqueio, disposto pela Comunidade Econ\u00f4mica Europ\u00e9ia, gerou um incremento no com\u00e9rcio da Argentina com a Am\u00e9rica Latina e de modo particular com o Brasil. N\u00e3o obstante isto, fatores tais como a redu\u00e7\u00e3o da capacidade de compra em fun\u00e7\u00e3o dos gastos b\u00e9licos argentinos e o fechamento do tr\u00e1fico mar\u00edtimo pelo estreito de Magalh\u00e3es, que encareceu os pre\u00e7os das mercadorias, prejudicaram as rela\u00e7\u00f5es comerciais brasileiras com Argentina, Chile, Equador e Peru.<\/p>\n<p>Para recupera\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de interc\u00e2mbio comercial, realizaram-se reuni\u00f5es de empres\u00e1rios em Bras\u00edlia, S\u00e3o Paulo e Buenos Aires e em janeiro de 1983 deu-se o encontro entre os Presidentes Bignone e Figueiredo, que teve fundamental import\u00e2ncia para a quest\u00e3o das ilhas Malvinas. Nesse momento, as rela\u00e7\u00f5es comerciais entre ambos pa\u00edses n\u00e3o tinham muita relev\u00e2ncia e por outra parte, o saldo da balan\u00e7a comercial era nitidamente desfavor\u00e1vel para a Argentina.<\/p>\n<p>O quadro econ\u00f4mico verdadeiramente desestimule na ordem internacional refletia-se atrav\u00e9s de um com\u00e9rcio deficit\u00e1rio para a maioria dos pa\u00edses latino-americanos e novas dificuldades surgiram nas rela\u00e7\u00f5es entre Argentina e Brasil.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o da democracia na Argentina em 1983 encontrou o setor do com\u00e9rcio exterior com o Brasil com uma reativa\u00e7\u00e3o das medidas protecionistas, com uma engrenagem burocr\u00e1tica que trabalha a emiss\u00e3o das licen\u00e7as de importa\u00e7\u00e3o e a abertura das cartas de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Com o advento da democracia, a Chancelaria Argentina recuperou um papel mais ativo na elabora\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica exterior. No per\u00edodo militar, essa chancelaria havia tido uma fun\u00e7\u00e3o quase limitada como a de recolher informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A partir de 1983, a pol\u00edtica exterior Argentina esteve ordenada por objetivos tais como a defesa da paz e o desarme, a oposi\u00e7\u00e3o a doutrinas que pretendem subordinar a Am\u00e9rica Latina aos fins estrat\u00e9gicos das superpot\u00eancias e, com respeito \u00e0 integra\u00e7\u00e3o, o fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es mediante a\u00e7\u00f5es orientadas \u00e0 solu\u00e7\u00e3o dos problemas regionais e o fortalecimento das formas representativas do governo.<\/p>\n<p>O Presidente Alfonsin defendeu o conceito de integra\u00e7\u00e3o, dizendo que&#8230; \u201cTriunfar\u00e1 em definitivo, se se ap\u00f3ia na democracia e na participa\u00e7\u00e3o dos povos\u201d (\u201cClarin\u201d, 20-3-1983).<\/p>\n<p>No caso brasileiro, o retorno \u00e0 democracia e a \u00eanfase nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais com a Argentina se fizeram dentro do marco de uma pol\u00edtica exterior que n\u00e3o sofreu grandes mudan\u00e7as. Quer dizer que sempre tem existido uma linha de continuidade nessa pol\u00edtica exterior.<\/p>\n<p>O fato de que a integra\u00e7\u00e3o argentino-brasileira seja um projeto surgido em grande medida por iniciativa governamental, o faz em alguma medida menos s\u00f3lida. Existem problemas subjacentes que necessariamente dever\u00e3o ser negociados e resolvidos, n\u00e3o somente pelos governos, sen\u00e3o tamb\u00e9m pelos diversos setores que formam a sociedade de ambos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Para que essa integra\u00e7\u00e3o seja uma realidade, o processo deve aprofundar-se com o apoio expl\u00edcito de todos esses setores, incluindo as Universidades.<\/p>\n<p>Essa possibilidade se coloca dentro de uma dimens\u00e3o pol\u00edtica em ambos pa\u00edses e compreende aspectos tais como a validez de uma coopera\u00e7\u00e3o militar-estrat\u00e9gia entre Brasil e Argentina, a continuidade dos objetivos propostos pelos governos e o pr\u00f3prio futuro dos mecanismos democr\u00e1ticos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica exterior sofre as influ\u00eancias de fatores que conduzem a mudan\u00e7as profundas, caracterizadas por<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1813,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-1812","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-relacoes-internacionais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1812","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1812"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1812\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1814,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1812\/revisions\/1814"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1813"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}