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{"id":1790,"date":"2015-08-25T15:49:15","date_gmt":"2015-08-25T15:49:15","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1790"},"modified":"2021-10-20T18:53:55","modified_gmt":"2021-10-20T18:53:55","slug":"entrevista-com-deputado-federal-parsifal-barroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2015\/08\/25\/entrevista-com-deputado-federal-parsifal-barroso\/","title":{"rendered":"Entrevista com o Deputado Federal Parsifal Barroso"},"content":{"rendered":"<div class=\"itemIntroText\">\n<p>PROFESSORA LUCIARA SILVEIRA DE ARAG\u00c3O \u2013 Respons\u00e1vel pelo conv\u00eanio. Entrevista com o Deputado Federal Parsifal Barroso, dia 17 de Junho de 1976, para o Projeto de Hist\u00f3ria Oral produto do Conv\u00eanio da Universidade Federal do Cear\u00e1 com o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"itemFullText\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>L.A.<\/strong>\u00a0\u00a0Deputado, o senhor poderia fazer um breve resumo de sua vida pessoal, filia\u00e7\u00e3o, nome completo, data de nascimento, enfim, todas essas coisas que pudessem servir a dados para uma biografia?<\/p>\n<p><strong>P.B<\/strong>.\u00a0 Pois n\u00e3o. Nasci a 05 de julho de 1913 nesta cidade de Fortaleza. Filho leg\u00edtimo do professor Herm\u00ednio Barroso e de D. Em\u00edlia Cunha Barroso. O local do meu nascimento atualmente est\u00e1 derrubado pela Avenida Leste-Oeste, n\u00e3o existe mais a casa em que nasci no antigo cal\u00e7amento de Messejana, mas toda a minha primeira parte da vida transcorreu naquele bairro, onde fiz meus primeiros estudos de alfabetiza\u00e7\u00e3o, com a professora Beatriz Ibiapina e, depois, vim a terminar o prim\u00e1rio no Col\u00e9gio Cearense do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o. Em seguida fiz o curso secund\u00e1rio no Liceu do Cear\u00e1, e me formei em 1933 pela Faculdade de Direito do nosso Estado, tendo come\u00e7ado logo em seguida a minha vida p\u00fablica portanto j\u00e1 participei da campanha da reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, como resultado da revolu\u00e7\u00e3o de s\u00e3o Paulo, em 1932. Fui, portanto, iniciado na pol\u00edtica em 1935 quando se operou a primeira reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, tendo sido eleito pela Assembleia Legislativa do Cear\u00e1 de que participei com meu primeiro mandato de Deputado Estadual o extinto chefe pol\u00edtico Menezes Pimentel.<\/p>\n<p><strong>L.A<\/strong>.\u00a0 Al\u00e9m desses aspectos que o senhor mencionou, poderia incluir alguma coisa ligada ao seu n\u00famero de filhos, o nome de sua esposa, epis\u00f3dios interessantes de sua inf\u00e2ncia, por exemplo?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Atendo a solicita\u00e7\u00e3o da professora Luciara esclarecendo que, casei-me em 1937, com a senhora Raimunda Olga Monte Barroso, que tem sido ao longo de minha vida p\u00fablica o bra\u00e7o direito para a conquista de todas as vit\u00f3rias que hei logrado. Recordo que na minha inf\u00e2ncia conheci pela primeira vez um presidente de Estado, o inesquec\u00edvel Presidente Justiniano de Serpa, tinha eu de cinco para seis anos de idade.. Aproximei-me do Presidente Justiniano de Serpa e ele entendeu que eu estava desejoso de conhec\u00ea-lo, ap\u00f3s saber que era, disse-me: \u201cEstude sempre. Porque foi assim que cheguei a governar o nosso Estado\u201d. Meus filhos s\u00e3o: Vera Maria, casada com duas filhas que s\u00e3o as minhas netas mais velhas; Francisco Regis, que j\u00e1 foi Deputado Federal como eu atualmente sou, e casado, possui um filho que est\u00e1 ao meu lado nesta entrevista e \u00e9 o meu \u00a0neto \u00a0Igor; \u00a0depois \u00a0vem \u00a0meu \u00a0filho \u00a0Roberto \u00a0Parsifal \u00a0que \u00a0reside \u00a0nos Estados Unidos, \u201cNew York\u201d e tem dois filhos; depois minha filha Siglinda Maria, que reside em Bras\u00edlia como um neto, e finalmente, Olga Em\u00edlia, ainda solteira e universit\u00e1ria que reside neste apartamento. Eis minha fam\u00edlia com os filhos e os netos.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>E quanto a algum epis\u00f3dio que o senhor guarde de lembran\u00e7a; alguma traquinagem dos tempos de garoto. Gostaria de falar ou lembrar algum desses epis\u00f3dios?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Sempre fui um menino bem acomodado, al\u00e9m do conselho do Presidente Justiniano de Serpa para que eu me dedicasse exclusivamente ao estudo meu pai sempre exerceu sobre mim uma influ\u00eancia muito grande, como professor que era, de modo a me tornar um aluno que, afora as horas de estudo tinha as horas de lazer apenas em companhia dos nossos alunos do Liceu, meus inesquec\u00edveis amigos, colegas; depois, posso afirmar sem receio de contesta\u00e7\u00e3o, tomei t\u00e3o a s\u00e9rio a obriga\u00e7\u00e3o de trabalhar e de estudar, que toda a minha vida ficou restrita a esses deveres: trabalhando, estudando desde a idade de 16 anos. Por isso meu come\u00e7o de vida como professor corresponde \u00e0 idade de 16 anos, e a minha formatura ocorreu quando eu tinha 21 anos incompletos, e em meu primeiro mandato de Deputado Estadual estava com 22 anos. Assim sempre exerci a minha vida preso a esses 2 deveres, ao cumprimento dessas duas obriga\u00e7\u00f5es: de estudar e de trabalhar. Antes dos 16 anos trabalhei como entregador e carregados de embrulhos em Fortaleza.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Sr. Parsifal, o senhor se reportou \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, 1932. Poderia nos falar mais detidamente sobre este assunto?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0<\/strong>Participei n\u00e3o s\u00f3 da eclos\u00e3o do movimento revolucion\u00e1rio de 30, como tamb\u00e9m da primeira revolu\u00e7\u00e3o que houve para a reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, em S\u00e3o Paulo, cujos frutos foram a reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o operada em 1934, como os governadores dos Estados eleitos pelas assembleias legislativas em 1935. Meu primeiro mandato est\u00e1 correlacionado com a campanha de reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o, oriunda da revolu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo e com o governo constitucional do ex-governador Menezes Pimentel.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>A respeito do ex-governador Menezes Pimentel, hoje j\u00e1 extinto, o senhor poderia nos dar uma opini\u00e3o pessoal sobre Menezes Pimentel como homem, Menezes Pimentel como pol\u00edtico? O senhor acha que o Cear\u00e1 esqueceu muito depressa Menezes Pimentel e a sua obra?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>O Cear\u00e1 n\u00e3o tem\u00a0 propens\u00e3o para o cultivo da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, e \u00e9 um povo avesso \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. Portanto, nada mais comum do que nossos homens p\u00fablicos passarem depressa, e deles n\u00e3o ficar na mem\u00f3ria coletiva aquele culto que noutros Estados existe. Posso dar testemunho, por exemplo, de que o Recife ainda hoje, e em Pernambuco de modo geral, o nome do ex-governador Agamenon Magalh\u00e3es \u00e9 objeto de coment\u00e1rio laudat\u00f3rio por parte de qualquer elemento do povo, enquanto no Cear\u00e1 n\u00e3o sinto a \u00a0mesma \u00a0resson\u00e2ncia \u00a0em \u00a0termos \u00a0de mem\u00f3ria coletiva com refer\u00eancias ao nome por mim sempre lembrado e saudado, do ex-governador, deputado, senador Menezes Pimentel. Mas o que acontece atualmente com o nome e a lembran\u00e7a de Menezes Pimentel de um modo geral pode-se aplicar a qualquer outro pol\u00edtico do Cear\u00e1, em virtude de n\u00e3o termos n\u00f3s, como povo, amor e propens\u00e3o ao culto do passado, \u00e0\u00a0 venera\u00e7\u00e3o das nossas tradi\u00e7\u00f5es, porque, andamos sempre para a frente e nunca nos voltamos para rememorar e cultuar li\u00e7\u00f5es do passado. \u00c9 uma regra geral da viv\u00eancia do povo de que venho e ora represento na C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p><strong>L.A<\/strong>. \u00a0Seria poss\u00edvel o senhor dar uma explica\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o a essa atitude do cearense, ligado ao&#8230; n\u00e3o direi o desprezo, mas eu direi a um certo descaso pelo cultivo da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, das coisas ligadas \u00e0 Hist\u00f3ria?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Parece incr\u00edvel que um Estado como o Cear\u00e1, que deu o maior historiador at\u00e9 hoje reconhecido como tal no Brasil, que \u00e9 Capistrano de Abreu; um Estado que \u00e9 pioneiro na pesquisa hist\u00f3rica atrav\u00e9s do Instituto do Cear\u00e1, pelo inesquec\u00edvel pesquisador e historiador que foi Bar\u00e3o de Studart, n\u00e3o tenha no conjunto como povo o amor \u00e0 Hist\u00f3ria, o culto do passado e a venera\u00e7\u00e3o \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es. Posso intercalar um exemplo para caracterizar melhor o meu pensamento. Quando governei o Estado, de 1959 e 1963, a pedido do Instituto do Cear\u00e1, providenciei a homenagem atrav\u00e9s de est\u00e1tuas a v\u00e1rios imortais do nosso Estado gl\u00f3rias leg\u00edtimas do nosso povo, em diversos setores, como Farias Brito, como Gustavo Barroso, como Delmiro Gouveia, como Capistrano de Abreu. Mas, na realidade, n\u00e3o recebi qualquer est\u00edmulo ou palavra de agradecimento por haver deixado em Fortaleza essas cinco est\u00e1tuas que ora est\u00e3o nas pra\u00e7as principais da nossa capital. E, para confirmar ainda melhor, a \u00faltima dessas est\u00e1tuas somente agora, no governo Adauto Bezerra, \u00e9 que veio a ser inaugurada, a de Alberto Nepomuceno, o maior nome da m\u00fasica cearense, e talvez um dos maiores da m\u00fasica brasileira. Tr\u00eas governos se passaram, e a est\u00e1tua de Alberto Nepomuceno somente agora a pouco tempo, \u00e9 que foi inaugurada. Isso prova que n\u00e3o h\u00e1 de fato esse interesse, esse amor por essas lembran\u00e7as, desses cultos que fazem o passado interligar-se como o presente de modo a se poder entender melhor n\u00e3o s\u00f3 o presente, mas o pr\u00f3prio futuro em termos de prevenir o destino do Cear\u00e1 e do seu povo.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>O senhor nos disse alguma coisa ligada ao seu ingresso na carreira pol\u00edtica. Eu gostaria de saber se esta mencionada carreira pol\u00edtica \u00e9 de fato um valor na vida do senhor, ou se em algum momento ela lhe trouxe algum dissabor com refer\u00eancia \u00e0 intromiss\u00e3o na sua vida particular, se o senhor poderia mencionar isso?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Na minha vida p\u00fablica, tenho mais tempo de servi\u00e7o como professor de que como militante pol\u00edtico. Posso, todavia,\u00a0 informar que, na vida p\u00fablica, atrav\u00e9s dos mandatos que exerci, no poder legislativo e no poder executivo, n\u00e3o posso me queixar de que o exerc\u00edcio dessas atividades p\u00fablicas tenha perturbado a minha vida privada de pai, porque,\u00a0 na realidade, toda a minha fam\u00edlia tem participado como um s\u00f3 corpo, e uma s\u00f3 alma, de todas as lutas que participei na milit\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Dr. Parsifal, o senhor poderia numerar os postos que ocupou, e falar das suas experi\u00eancias durante tais per\u00edodos em que esteve em cargo de relev\u00e2ncia pol\u00edtica, como por exemplo, a sua atua\u00e7\u00e3o como Ministro do Trabalho? Gostaria de saber se o senhor pode se alongar sobre suas experi\u00eancias como Ministro do Trabalho?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Posso prestar um testemunho por amor \u00e0 verdade hist\u00f3rica, dizendo que, efetivamente, os quase tr\u00eas anos em que fui Ministro do Trabalho e da Previd\u00eancia da Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio do ex-presidente Juscelino Kubitschek foram para mim um aprendizado vivo daquilo que eu chamo a viv\u00eancia da problem\u00e1tica nacional. Eu tinha atrav\u00e9s do meu mandato, primeiro de deputado federal, e o segundo de senador da Rep\u00fablica. Porquanto, quando fui Ministro de Estado, era Senador, mas na realidade s\u00f3 incorporei \u00e0 minha vida esse patrim\u00f4nio de viv\u00eancias de toda a problem\u00e1tica nacional quando fui Ministro do Trabalho da Previd\u00eancia Ind\u00fastria a Com\u00e9rcio. De 1956 a 1958, foi quando fixei uma vis\u00e3o global sobre a realidade brasileira, escalonando n\u00e3o s\u00f3 os seus problemas, mas ainda as perspectivas de solu\u00e7\u00e3o para cada um deles em escala nacional. Tamb\u00e9m posso afirmar que, nos quatro anos em que fui governador, de 1959 a 1963, tive outras esp\u00e9cies de aprendizado que se incorporaram definitivamente ao meu ser de homem p\u00fablico. Isto porque, a vis\u00e3o do regional, a problem\u00e1tica do Nordeste, as vicissitudes da vida enfrentadas pelo Cear\u00e1, dentro do contexto nordestino, tudo isso eu s\u00f3 vim a sentir bem ao vivo durante os quatro anos que governei o Cear\u00e1, e que foram os quatro anos iniciais da Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste. H\u00e1 uma coincid\u00eancia dos quatro anos do meu governo, com os primeiros quatro anos da vida da SUDENE e, foi\u00a0 nesse per\u00edodo que verifiquei a necessidade ainda n\u00e3o atendida de termos um planejamento microrregional que ainda nos falta, mas hoje na C\u00e2mara dos Deputados, o acervo desses dois patrim\u00f4nios de viv\u00eancia e experi\u00eancias e de lutas como Ministro de Estado e como governador do Cear\u00e1, constitui o que eu de melhor posso fornecer ao meu pa\u00eds, ao Nordeste e ao meu Estado no exerc\u00edcio do mandato de Deputado Federal.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Dr. Parsifal, exatamente porque eu sei que a experi\u00eancia do senhor foi muito frade quanto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da SUDENE, inclusive o senhor participou das reuni\u00f5es preliminares, eu gostaria de saber se \u00e9 poss\u00edvel o senhor nos dar \u00a0dados sobre a cria\u00e7\u00e3o da SUDENE, como se processavam tais reuni\u00f5es,\u00a0 os membros mais ativos, enfim, a pol\u00edtica direcional de um modo geral que envolveu a cria\u00e7\u00e3o desse \u00f3rg\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Posso informar com absoluta seguran\u00e7a que, logo ap\u00f3s os primeiros anos de funcionamento do Banco do Nordeste do Brasil foi verificado a necessidade de uma ag\u00eancia de desenvolvimento para o Nordeste e, o ex-presidente Juscelino Kubitschek n\u00e3o criou diretamente a SUDENE tal qual ela existe hoje, n\u00f3s tivemos uma fase de experi\u00eancia com o Conselho de Desenvolvimento do Nordeste, CODENE. O CODENE foi justamente o estu\u00e1rio aonde vieram desaguar todas as experi\u00eancias, todas as reivindica\u00e7\u00f5es, todas as cr\u00edticas dos governadores e dos t\u00e9cnicos do Nordeste, antes de existir a SUDENE. V\u00e1rias vezes o CODENE esteve em diversas capitais do Nordeste para se poder verificar a melhor forma de estrutura\u00e7\u00e3o operacional dessa ag\u00eancia de desenvolvimento que tantos benef\u00edcios vieram prestar ao Nordeste. Ressalto assa particularidade para que se verifique que n\u00e3o nasceu a SUDENE apenas de uma ideia do seu primeiro superintendente, Celso Furtado, nem dos t\u00e9cnicos como R\u00f4mulo de Almeida e outros, Jesus Vaes Pereira, j\u00e1 falecido, porque, t\u00e9cnicos e pol\u00edticos deram-se as m\u00e3os e por muito tempo atrav\u00e9s do CODENE, puderam somar suas experi\u00eancias e nortear o governo quanto a melhor forma de estrutura\u00e7\u00e3o da atual Superintend\u00eancia de Desenvolvimento \u00a0do \u00a0Nordeste.\u00a0 \u00a0Durante\u00a0 \u00a0cinco \u00a0\u00a0anos portanto, essa experi\u00eancia para mim demonstrou\u00a0 que essa ag\u00eancia de desenvolvimento deveria ter nascido conjuntamente com o Banco do Nordeste do Brasil. E,\u00a0 defasada um pouco em rela\u00e7\u00e3o ao crescimento do Banco do Nordeste do Brasil, a SUDENE tem enfrentado lutas que est\u00e3o ainda na mem\u00f3ria do todos, mas ou uma capacidade de resist\u00eancia que na minha opini\u00e3o resulta desse aprendizado desse somat\u00f3rio de muitas experi\u00eancias que procedem \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o legal.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Detalhe, por favor, quais dessas lutas enfrentadas pela SUDENE o senhor acha que foram realmente as mais duras?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>A SUDENE tem lutado desde o seu nascimento, porquanto, n\u00f3s que participamos das primeiras reuni\u00f5es do seu conselho diretor, como governador \u00a0do \u00a0Cear\u00e1, \u00a0afirmamos que, \u00a0as primeiras lutas resultaram da dificuldade de escalonar cada Estado, suas prioridades de atendimento em mat\u00e9ria de infraestruturas, para a arrancada do desenvolvimento e a vis\u00e3o de conjunto que a SUDENE j\u00e1 tinha do Nordeste brasileiro, sem poder dar conta daquelas solicita\u00e7\u00f5es, todas aquelas demandas que no primeiro momento surgiram como se cada Estado desejasse ser atendido prioritariamente, no atendimento \u00e0s suas reivindica\u00e7\u00f5es. Foi preciso muita luta para se criar uma disciplina que atrav\u00e9s dos planos diretores da SUDENE pudesse ir atendendo gradualmente a essa mar\u00e9 montante inicial, de necessidades e de reivindica\u00e7\u00f5es de todo o Nordeste. Depois a SUDENE enfrentou a luta dos seus planos diretores; atualmente a luta est\u00e1 mais dif\u00edcil ainda, porquanto, com a modifica\u00e7\u00e3o do planejamento nacional e n\u00e3o havendo mais os planos diretores da SUDENE, toda a mat\u00e9ria das reivindica\u00e7\u00f5es e das necessidades do Nordeste entram dentro do plano nacional de desenvolvimento. E, atrav\u00e9s do plano nacional de desenvolvimento e dos or\u00e7amentos plurianuais de investimentos \u00e9 que n\u00f3s vamos atendendo \u00e0s necessidades, aos relamos, e \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es de cada Estado do Nordeste. Portanto, s\u00e3o os planos diretores que a\u00a0 fase atual o atendimento a todas essas necessidades do Nordeste, principalmente aquelas que est\u00e3o ligadas \u00e0 infraestrutura que n\u00e3o se criou para as \u00e1reas que est\u00e3o na zona do cristalino, poderem ser produtivas, tudo isso hoje j\u00e1 se torna mais dif\u00edcil de ser alcan\u00e7ado em termos de atendimento, porque dentro de um plano nacional de desenvolvimento, e de um or\u00e7amento plurianual de investimentos, n\u00f3s n\u00e3o podemos detalhar tanto quanto ao tempo \u00a0em \u00a0que a \u00a0SUDENE \u00a0tinha \u00a0seus \u00a0planos \u00a0de \u00a0diretores, mais isso \u00a0gerou uma outra ordem de problema, que \u00e9 a da prolifera\u00e7\u00e3o dos programas especiais, hoje, n\u00f3s temos v\u00e1rios programas especiais \u00a0em \u00a0execu\u00e7\u00e3o \u00a0no \u00a0Nordeste, \u00a0sem \u00a0que \u00a0a \u00a0SUDENE esteja aparelhada instrumentalmente, operacionalmente, para poder fiscalizar a execu\u00e7\u00e3o e apurar os resultados dos v\u00e1rios programas especiais que est\u00e3o sendo implantados no Nordeste.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0<\/strong>\u00a0Deputado, esta condi\u00e7\u00e3o pela qual a SUDENE passa, n\u00e3o seria um produto da pol\u00edtica que ela adotou em beneficiar somente os profissionais ditos t\u00e9cnicos, e de um certo modo aleijar os cientistas sociais, ou noutra linguagem, os pensadores, aqueles que de fato poderiam planejar em fun\u00e7\u00e3o da sua experi\u00eancia, do seu treinamento de pesquisa?<\/p>\n<p><strong>P.B.<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0Respondo com muito prazer sua pergunta, porque ela encerra um mundo de indaga\u00e7\u00f5es que eu desejo esclarecer, pelo menos, uma a uma, as principais: desde 1946, est\u00e1 o Brasil sob o sigo da economia, do economicismo e da econometria. O primeiro plano que foi ao tempo de governo do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra, o plano \u201cSalte\u201d, j\u00e1 tinha marca dessa economia em termos de preval\u00eancia sobre o social, portanto, o fen\u00f4meno antecede muito ao do surgimento da SUDENE. E, em rela\u00e7\u00e3o ao Nordeste, h\u00e1 uma atenua\u00e7\u00e3o dos efeitos desse economicismo, que vem cada vez mais dominando o Brasil, porque, o Nordeste \u00e9 uma carga de tens\u00f5es sociais, \u00e9 um reposit\u00f3rio de reivindica\u00e7\u00f5es marcadas pelo sentindo social. A pr\u00f3pria literatura do Nordeste, aquela que marca a sua presen\u00e7a na hist\u00f3ria da literatura brasileira \u00e9 resultante da relev\u00e2ncia do social entre n\u00f3s. Ent\u00e3o, numa regi\u00e3o em que o social est\u00e1 aparecendo e estourando em todos os escal\u00f5es, em todos os segmentos da estrutura social. O economicismo j\u00e1 n\u00e3o tem aquela influ\u00eancia de tanta preval\u00eancia como no resto do Brasil. \u00c9-nos mais f\u00e1cil contra atacar em rela\u00e7\u00e3o a esse preval\u00eancia economicista quando estamos defendendo causas do Nordeste porque nossa regi\u00e3o \u00e9 marcada pelo signo do social e sua problem\u00e1tica s\u00f3 vem a ser atendida em virtude das tens\u00f5es sociais que est\u00e3o subjacentes \u00e0 infraestrutura do Nordeste.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Diz-se ainda que a SUDENE, eu acredito que no quarto plano diretor, ignorou previs\u00f5es de seca no Nordeste. O que o senhor diz a respeito?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Efetivamente, ainda n\u00e3o se pode criar dentro, j\u00e1 n\u00e3o digo no Nordeste, mas no Brasil, os servi\u00e7os em bases cient\u00edficas de preven\u00e7\u00e3o de secas. A SUDENE n\u00e3o pode ser atacada ou criticada porque ainda n\u00e3o est\u00e1 capacitada com toda a estrutura de ci\u00eancia e de t\u00e9cnica que ela precisa possuir, para dar conta dessa tarefa de prevenir as secas e provocar as chuvas artificiais, A meteorologia brasileira ainda est\u00e1 um tanto atrasada a esse respeito e, somente agora, o Instituto \u00a0\u00a0Tecnol\u00f3gico \u00a0\u00a0da\u00a0 \u00a0Aeron\u00e1utica,\u00a0 \u00a0atrav\u00e9s \u00a0\u00a0dos \u00a0\u00a0seus\u00a0 \u00a0cursos \u00a0t\u00e9cnicos especializados, a partir do seu curso de f\u00edsica de nuvens est\u00e1 criando uma estrutura t\u00e9cnica capaz de poder, n\u00e3o s\u00f3 na regi\u00e3o nordestina, mas em qualquer outra, fornecer o instrumental cient\u00edfico e a capacita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para a previs\u00e3o de secas e a provoca\u00e7\u00e3o de chuvas artificiais.<\/p>\n<p><strong>L.A.<\/strong>\u00a0\u00a0Deputado, e o que o senhor pensa da teoria c\u00edclica do Mr. Hull?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Na falta de uma explica\u00e7\u00e3o convincente, de cunho cient\u00edfico sobre a velha interroga\u00e7\u00e3o das secas no Nordeste, das hip\u00f3teses que existem, considero a de Mr. Hull, dos per\u00edodos c\u00edclicos, a que corresponde mais ou menos \u00e0 realidade que se tem vivido. Mas, agora, no ano pr\u00f3ximo, vamos ter uma oportunidade de testar mais rigorosamente esse car\u00e1ter c\u00edclico, porque o ano ser\u00e1 de 1977. E o de 1877, deixou a experi\u00eancia amarga de uma grande seca.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Por favor, poderia dar uma opini\u00e3o pessoal sobre Celso Furtado, a SUDENE, depois de Celso Furtado?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Guardo da a\u00e7\u00e3o, do devotamento e da compet\u00eancia do primeiro superintendente da SUDENE, uma boa recorda\u00e7\u00e3o. Tivemos muitas diverg\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao seu modo de ajudar o nosso Estado. Lutei muito contra ideia suas enquanto governei o Estado, e ele superintendia a SUDENE. Mas, raz\u00f5es eu tenho, portanto, para me considerar insuspeito nesse elogio que lhe fa\u00e7o, porquanto, nessa fase inicial, chegar \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o e \u00e0 disciplina dos planos diretores que a SUDENE teve, em minha opini\u00e3o representa uma prova do acerto com que conduziu os primeiros passos da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>O senhor acredita haver harmonia no planejamento e execu\u00e7\u00e3o das obras contra as secas entre os diversos organismos que se interessam para solucionar o problema entre, inclusive, os recursos do governo federal e do governo estadual em conjunto. O senhor acredita que exista de fato essa harmonia no plano de aplica\u00e7\u00e3o, uma fiscaliza\u00e7\u00e3o rigorosa?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Com refer\u00eancia a essa pergunta, desde quando governei o Cear\u00e1, pude verificar a dificuldade de podermos harmonizar completamente os planos que o governo do Cear\u00e1 tinha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua seca e as medidas de preven\u00e7\u00e3o dos efeitos da seca no Cear\u00e1, e aqueles programas que est\u00e3o historicamente, com responsabilidade na base t\u00e9cnica do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. N\u00f3s n\u00e3o podemos deixar de reconhecer quantos benef\u00edcios o DNOCS tem proporcionado ao Nordeste e ao Cear\u00e1, mas na realidade, at\u00e9 agora n\u00e3o foi poss\u00edvel chegar-se a uma continuidade administrativa e a uma coordena\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os que garantisse, por exemplo, que j\u00e1 estivesse pronto todo o\u00a0 plano de a\u00e7udagem p\u00fablica, do primeiro inspetor de secas que foi Arrojado de Lisboa. Os sistemas de grande a\u00e7udagem p\u00fablica do Cear\u00e1, na sua maioria est\u00e3o inconclusos, faltam a\u00e7udes que o pr\u00f3prio DNOCS considerou indispens\u00e1veis \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o das \u00e1guas dos respectivos rios. S\u00f3 temos no Cear\u00e1 em sistema de a\u00e7udagem completo: \u00e9 o do Curu. Os demais est\u00e3o incompletos. Faltam a\u00e7udes no sistema do Jaguaribe; faltam a\u00e7udes no sistema de Acara\u00fa; faltam a\u00e7udes no sistema de Poti, ent\u00e3o, esses a\u00e7udes p\u00fablicos, eles n\u00e3o foram pedidos, justificados, postulados pelos pol\u00edticos, foram os pr\u00f3prios t\u00e9cnicos do DNOCS que os consideraram b\u00e1sicos, fundamentais, quer para a regulariza\u00e7\u00e3o dos rios que s\u00e3o barrados, quer para a perfeita execu\u00e7\u00e3o dos programas de irriga\u00e7\u00e3o. Vez por outra, que na \u00e1rea do rio Acara\u00fa, ou do rio Jaguaribe, nos invernos rigorosos tomamos ci\u00eancia de enchentes que resultam da falta desses a\u00e7udes, que\u00a0 ainda n\u00e3o foram constru\u00eddos. Bata esse fato para que se tenha uma vis\u00e3o perfeita da falta de continuidade administrativa, da falta de unidade de a\u00e7\u00e3o, de comando, para assegurar a realiza\u00e7\u00e3o ininterrupta do grande programa que o DNOCS possui, antes da SUDENE, para enfrentar os efeitos da seca do Nordeste.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>O senhor considera uma solu\u00e7\u00e3o paliativa as chamadas frentes de servi\u00e7os?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>A solu\u00e7\u00e3o para tentar-se a assist\u00eancia que \u00e9 exigida em\u00a0 tempo de seca, varia desde quando da presta\u00e7\u00e3o da primeira forma assistencial adotada pelo governo que era a da constru\u00e7\u00e3o de a\u00e7udes; depois passamos para a fase em que o bom senso mandava descentralizar ao m\u00e1ximo os necessitados do amparo do governo e n\u00e3o criar aglomera\u00e7\u00f5es como no tempo do servi\u00e7o de a\u00e7udagem ocorria, com problemas sanit\u00e1rios, problemas sociais que a dissemina\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de rodovias posteriormente eliminou,\u00a0 ou atenuou. J\u00e1 agora, n\u00f3s temos a modalidade das frentes de servi\u00e7o que se destina a prestar uma assist\u00eancia tanto quanto poss\u00edvel pr\u00f3xima ao local onde os trabalhadores exerciam suas atividades rurais. H\u00e1 a vantagem de n\u00e3o distanciar muito o necessitado do aux\u00edlio federal, da sua \u00e1rea de trabalho, e da pr\u00f3pria casa e de sua fam\u00edlia. Mas as obras \u00a0que \u00a0resultam \u00a0dessas \u00a0frentes \u00a0de \u00a0trabalho, \u00a0elas n\u00e3o t\u00eam aquela magnitude em termos de atendimento a necessidade do Estado, como ao tempo em que eram constru\u00eddos os a\u00e7udes,\u00a0 rasgadas estradas, feitos campos de pouso. Hoje est\u00e1 diferente a forma de prestar essa assist\u00eancia, mas, na realidade, n\u00f3s s\u00f3 teremos o atendimento perfeito ou aproximado dessa perfei\u00e7\u00e3o que desejamos mais em aten\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades sofridas pelos nossos irm\u00e3os, quando a assist\u00eancia puder ser prestada atrav\u00e9s da pr\u00f3pria propriedade, fazenda, s\u00edtio, em que esteja residindo e trabalhando o oper\u00e1rio rural necessitado da assist\u00eancia do governo federal. Acredito que j\u00e1 se evolui muito, \u00a0porque \u00a0se \u00a0compararmos \u00a0a \u00a0situa\u00e7\u00e3o \u00a0atual com a anterior, j\u00e1 ela oferece uma margem de progresso, mas, ainda estamos numa fase em que as experi\u00eancias n\u00e3o terminam porque o Minist\u00e9rio do Trabalho tamb\u00e9m acode as popula\u00e7\u00f5es, em caso de seca, com as suas bolsas de trabalho. E o sistema de bolsas de trabalho j\u00e1 \u00e9 diferente daquele das frentes de servi\u00e7o que s\u00e3o abertas pelo pr\u00f3prio Departamento de Obras Contra as Secas. Ambas as modalidades de assist\u00eancia s\u00e3o necess\u00e1rias no momento, mas, ainda desejo e espero em Deus que, constru\u00eddos todos os sistemas de a\u00e7udagem, com os respectivos sistemas de irriga\u00e7\u00e3o, estamos longe dessa perspectiva, n\u00f3s teremos nos vales do Cear\u00e1 a possibilidade do desenvolvimento de uma agricultura resistente \u00e0s secas.Assim, \u00a0ent\u00e3o, j\u00e1 se modificar\u00e1 no sentido de atenua\u00e7\u00e3o, o atual problema de presta\u00e7\u00e3o da assist\u00eancia propriamente dita aos nossos irm\u00e3os, quando s\u00e3o v\u00edtimas das estiagens que visitam vez por outra a \u00e1rea Nordestina.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Dentro do esquema de solu\u00e7\u00f5es do problema das secas no Nordeste, especialmente o Cear\u00e1, que \u00e9 o que nos interessa de perto, qual a margem de import\u00e2ncia que o senhor d\u00e1 ao sistema de bolsas de trabalho adotado?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>O sistema de bolsas de trabalho tem a vantagem de ser, das formas de presta\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia, aquela mais pl\u00e1stica e que com mais facilidade pode atender \u00e0s necessidades de uma determinada \u00e1rea, quando n\u00e3o se tem ainda previsto, naquele local, uma obra p\u00fablica que pudesse ser feita pelos oper\u00e1rios rurais, pelos trabalhadores rurais, necessitados dessa assist\u00eancia. De modo que, as bolsas de trabalho, que o Minist\u00e9rio do Trabalho desde 70, vem oferecendo aos Estados nordestinos, representa para mim, a forma mais pr\u00e1tica e pl\u00e1stica do atendimento \u00e0s necessidades imediatas que surjam pelas estiagens, na \u00e1rea nordestina.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Essas bolsas de trabalho foram adotadas em que governo e surgiram quando?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>No Cear\u00e1 essas bolsas foram utilizadas na \u00faltima seca, no governo C\u00e9sar Cals, atrav\u00e9s da assist\u00eancia ampla que essas bolsas trouxeram gra\u00e7as \u00e0 compreens\u00e3o do ex-ministro J\u00falio Barata.<\/p>\n<p><strong>LA.\u00a0\u00a0<\/strong>O senhor mencionou v\u00e1rias vezes a constru\u00e7\u00e3o de a\u00e7udes dentro de normas t\u00e9cnicas. Isso seria tamb\u00e9m um elemento de solu\u00e7\u00e3o parcial para o problema das secas?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>A solu\u00e7\u00e3o das secas \u00e9 de natureza comp\u00f3sita, isto \u00e9, inclui o programa de a\u00e7udagem p\u00fablica, que corresponde aos grandes sistemas de a\u00e7udagem. Inclui a a\u00e7udagem de coopera\u00e7\u00e3o e, inclui a perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7os, inclui a implanta\u00e7\u00e3o dos sistemas de irriga\u00e7\u00e3o, inclui finalmente, as obras do projeto sertanejo que somente agora foi aprovado oficialmente pelo governo da rep\u00fablica. Portanto, s\u00e3o v\u00e1rias formas de atua\u00e7\u00e3o que, em conjunto v\u00e3o proporcionando ao Nordeste um fortalecimento da sua infraestrutura de modo a torn\u00e1-la resiste aos efeitos das secas.<\/p>\n<p><strong>LA.\u00a0\u00a0<\/strong>A unicidade de comando na solu\u00e7\u00e3o do problema das secas a que o senhor se referiu, poderia ser solucionada de que maneira? O senhor daria alguma sugest\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>A unicidade de comando para o problema das secas, quer na fase preventiva, quer na fase assistencial, deve ser centralizada na SUDENE. Se ela n\u00e3o est\u00e1 com uma estrutura operacional, se ela n\u00e3o est\u00e1 com uma organiza\u00e7\u00e3o a altura dessa responsabilidade de controle, fiscaliza\u00e7\u00e3o e apura\u00e7\u00e3o de resultados, sou de opini\u00e3o que a solu\u00e7\u00e3o depende apenas de se capacitar a SUDENE para que ela possa exercer n\u00e3o s\u00f3 a coordena\u00e7\u00e3o dos programas especiais, mas de todos os servi\u00e7os que na \u00e1rea do Nordeste tenham a finalidade de prevenir os efeitos da seca no Nordeste.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Como Deputado Federal como o senhor v\u00ea os debates da C\u00e2mara quando \u00e9 levantado o problema das secas. Usa-se vamos dizer assim, muita emo\u00e7\u00e3o ou parte-se para solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>J\u00e1 me referi \u00e0 carga de tens\u00e3o social que existe em toda a problem\u00e1tica do Nordeste quando ela \u00e9 formulada pelos pol\u00edticos, quando ela \u00e9 reivindicada pelos seus l\u00edderes, ou quando ela tratada literalmente nos romances que a partir do \u201cQuinze\u201d de Rachel de Queiroz, e da \u201cBagaceira\u201d de Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida, ainda constitui uma forma de questionamento da problem\u00e1tica das secas, e ainda agora tive a oportunidade de apresentar, em Bras\u00edlia, \u00e0 sua intelectualidade, o romance do cearense Luciano Barreira \u201cOs Cassacos\u201d, editado j\u00e1 neste ano de 1976, onde o problema das secas \u00e9 abordado sob uma modalidade de express\u00e3o liter\u00e1ria, mas com a mesma carga de tens\u00e3o social que existe nos debates do problema das secas, neste ano de 1976, quando ela nos visita apenas como uma seca parcial. N\u00f3s n\u00e3o estamos num ano de seca total, mas de seca parcial. H\u00e1 Estados do Nordeste isentos, h\u00e1 outros que sofrem como o Cear\u00e1, e outros que ainda est\u00e3o sofrendo mais como o Piau\u00ed e a Bahia. Mas, quando esses assuntos afloram no plen\u00e1rio, quando os debates se abrem, a parcialidade \u00e9 inevit\u00e1vel. E \u00a0por isso, muito se perde, porque na realidade, se ao inv\u00e9s da postula\u00e7\u00e3o reivindicat\u00f3ria em tom passional, ao inv\u00e9s dos debates inflamadas de passionalidade, n\u00f3s nos reun\u00edssemos para verificar qual a melhor forma de se garantir para o Nordeste a execu\u00e7\u00e3o de um programa e de uma pol\u00edtica continuamente voltados para o fortalecimento da nossa economia.Ainda reconhecendo que \u00a0temos uma economia ainda \u00a0fr\u00e1gil, e para a constru\u00e7\u00e3o de todas as obras e de todos os recursos que pudessem ser postos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Nordeste. Com o enfrentar \u00e0s secas e se n\u00f3s fic\u00e1ssemos na vigil\u00e2ncia da continuidade garantida para a execu\u00e7\u00e3o desses programas, n\u00f3s poder\u00edamos lograr melhor \u00eaxito no servi\u00e7o dos nossos irm\u00e3os nordestinos, do que nos debates que travamos todos elas carregados desse tom social e da carga passional.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Com a larga experi\u00eancia de homem p\u00fablico que o senhor tem, poderia dar indicativos, ou melhor, dizendo, solu\u00e7\u00f5es para a economia e para o desenvolvimento do Cear\u00e1, em m\u00e9dio prazo ou a longo prazo?<\/p>\n<p><strong>P.B<\/strong>.\u00a0 A respeito do nosso estudo, posso dizer com toda a seguran\u00e7a que, eu considero o mais dif\u00edcil e o mais desafiante para o atendimento dessas necessidades que n\u00e3o comuns a todo o pol\u00edgono das secas, mas que aqui no Cear\u00e1, tem um acento todo especial e diferente, porque o Cear\u00e1 \u00e9 o que sofre mais, \u00e9 o que tem mais dificuldades para resolver a problem\u00e1tica, a come\u00e7ar pela sua configura\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, que dificulta muito o atendimento da constru\u00e7\u00e3o de todas as obras de infraestrutura de que ele necessita. Um Estado de configura\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica longitudinal, como o Rio Grande do Norte, a Para\u00edba, Pernambuco, Alagoas, tem mais facilidade para a realiza\u00e7\u00e3o de obras de infraestrutura. Enquanto isso, os Estados que t\u00eam a configura\u00e7\u00e3o mais quadrada, como \u00e9 o caso do nosso Estado, com o arco de costa muito grande, de um dimensionamento excessivamente grande, para darmos conta de toda a problem\u00e1tica do seu litoral, tudo se torna mais dif\u00edcil. Mas em minha opini\u00e3o n\u00f3s temos que admitir a solu\u00e7\u00e3o em longo prazo, embora n\u00f3s tenhamos muita dificuldade no Cear\u00e1 para realizar qualquer programa em longo prazo. Se n\u00f3s brasileiros somos imediatistas, aqui no Cear\u00e1 o imediatismo ainda toma uma conota\u00e7\u00e3o mais forte porque o cearense descr\u00ea de todas essas solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, \u00e9 desconfiado e quer solu\u00e7\u00f5es imediatas, e s\u00f3 acredita e vai vendo. De modo que, todos os programas aqui no Cear\u00e1 necessita de uma adequa\u00e7\u00e3o ao nosso \u201cethos\u201d, ao nosso comportamento, ao nosso temperamento. Mas, entendo que em longo prazo economia cearense poder\u00e1 ser fortalecida, n\u00e3o atrav\u00e9s de solu\u00e7\u00f5es que aparecem de repente como boas e depois n\u00e3o mais sirvam em termos de uma continuidade de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. N\u00f3s temos, em primeiro lugar, que fortalecer a economia do setor prim\u00e1rio: a agropecu\u00e1ria. At\u00e9 hoje a agropecu\u00e1ria no Cear\u00e1 n\u00e3o tem a garantia certa, continua de uma pol\u00edtica de assist\u00eancia t\u00e9cnica, de incentivos que fossem corrigidos todos os defeitos e eliminados todas as falhas.\u00a0 Avalie que um\u00a0 programa da import\u00e2ncia do programa de a\u00e7udagem de coopera\u00e7\u00e3o que existe no DNOCS, somente agora, depois de muitos anos de parado, \u00e9 que volta a ser admitido como \u00fatil, e vai ser novamente implantado, depois de muitos e muitos anos de paralisa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o setor prim\u00e1rio da nossa economia \u00e9 aquele que exige maiores aten\u00e7\u00f5es, maiores cuidados e, uma programa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de todas as obras que est\u00e3o previstas, quer sejam as de suprimento de \u00e1gua, quer sejam de preparo de solos para termos uma melhor produtividade nessa grande \u00e1rea que \u00e9 a maior do Estado, que corresponde a nossa agropecu\u00e1ria. Depois, temos que racionalizar o nosso processo de industrializa\u00e7\u00e3o, o setor secund\u00e1rio da nossa economia vem se organizando sem uma diretriz que garanta a racionaliza\u00e7\u00e3o e a\u00ed est\u00e1 um ponto em que discuti e divergi muito de Celso Furtado. Sempre sustentei na SUDENE contra Celso Furtado que, o Cear\u00e1 necessitava de um programa especial e diferente para a sua industrializa\u00e7\u00e3o, porque n\u00f3s t\u00ednhamos v\u00e1rias ind\u00fastrias tradicionais em nosso Estado, correspondendo \u00e0s voca\u00e7\u00f5es naturais da nossa economia e praticamente em decl\u00ednio e a de curtumes, com a de tecidos e Celso ent\u00e3o, discordando de mim, dizia: \u201cO Cear\u00e1 deve se industrializar como quiser e como puder\u201d, Eu disse: N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. H\u00e1 que se orientar o processo de industrializa\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1, porque se ele nasceu atrav\u00e9s das voca\u00e7\u00f5es naturais da nossa economia, com couros e peles, com algod\u00e3o, com oleaginosas, dever\u00e1 desenvolver-se sempre dando prefer\u00eancia a industrializa\u00e7\u00e3o das nossas riquezas do setor prim\u00e1rio da economia, e n\u00e3o ind\u00fastrias que sejam implantadas dependendo do fornecimento de mat\u00e9ria-prima de fora, de outros Estados. Celso discordava de mim, mas penso hoje que o aprendizado da nossa industrializa\u00e7\u00e3o d\u00e1-me alguma raz\u00e3o. Porquanto, se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos desenvolvido a nossa industrializa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 dando prefer\u00eancia e est\u00edmulo ao aproveitamento das nossas mat\u00e9rias-primas ao desenvolvimento industrial das nossas voca\u00e7\u00f5es naturais, da pr\u00f3pria economia cearense, n\u00f3s j\u00e1 ter\u00edamos avan\u00e7ado mais e sendo mais bem sucedidos nessa arrancada em que estamos da industrializa\u00e7\u00e3o. Finalmente, ainda acredito que atendidas \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es do governo do Estado de h\u00e1 muito postuladas, o Governo Federal estabele\u00e7a uma pol\u00edtica para o aproveitamento das riquezas minerais que o Cear\u00e1 tem e podem ser desenvolvidas em favor nosso e em proveito dos demais Estados. Acredito, todavia, que sem a garantia primordial da execu\u00e7\u00e3o dos programas b\u00e1sicos do DNOCS em rela\u00e7\u00e3o ao Cear\u00e1, no que se refere \u00e0 a\u00e7udagem p\u00fablica. A a\u00e7udagem de coopera\u00e7\u00e3o, po\u00e7os profundos e sistemas de irriga\u00e7\u00e3o sem que isso esteja em plena execu\u00e7\u00e3o com garantia de continuidade, n\u00f3s n\u00e3o podemos enfrentar seguran\u00e7a os desafios que ainda nos assaltam ao longo da nossa evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><strong>L.A.<\/strong>\u00a0\u00a0O senhor considera positiva a atua\u00e7\u00e3o da bancada cearense na C\u00e2mara dos Deputados para obten\u00e7\u00e3o dessas medidas que o senhor mencionou?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>As bancadas nordestinas todas est\u00e3o unidas para postularem, reclamarem, lutarem junto ao Governo Federal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades que sejam comuns a todo o Nordeste. Um Estado como a Bahia, por exemplo, que tem riquezas extraordin\u00e1rias que est\u00e3o sendo exploradas, como as do petr\u00f3leo, da petroqu\u00edmica. Um Estado como Alagoas que est\u00e1 em franco progresso de industrializa\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera eles se debru\u00e7am conosco, do Cear\u00e1 e do Piau\u00ed, quando ao que eles possuem em comum conosco. Refiro-me a mat\u00e9ria de necessidades, ou de a\u00e7udagem, ou de po\u00e7os, ou de sistema de irriga\u00e7\u00e3o e, juntos temos reclamado ao Governo Federal a necessidade de uma reformula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, como o fortalecimento da SUDENE. Isto de modo a que ela seja de fato uma ag\u00eancia de desenvolvimento em condi\u00e7\u00f5es de poder dar m\u00e3o forte a cada um dos Estados na execu\u00e7\u00e3o dos programas especiais porque ela \u00e9 respons\u00e1vel. Todos n\u00f3s, portanto, do Nordeste, temos uma a\u00e7\u00e3o em comum para problemas comuns. Agora, cada Estado tem a sua problem\u00e1tica espec\u00edfica e, enquanto n\u00f3s n\u00e3o tivermos no Brasil, implantados o desenvolvimento do planejamento microrregional, n\u00f3s teremos necessidades de exercer uma a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e conjunta como a da bancada cearense para obter o atendimento daquilo que por justi\u00e7a reclamamos do Governo Federal. Vou dar apenas um exemplo para que se verifique como esse trabalho se exerce. A muitos e muitos anos o Cear\u00e1 pede ao Governo Federal para a constru\u00e7\u00e3o do ramal ferrovi\u00e1rio Piqu\u00e9 Carneiro \u2013 Crate\u00fas; sabemos que os Departamento de Estradas de Ferro e a Rede Ferrovi\u00e1ria Federal n\u00e3o s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 constru\u00e7\u00e3o desse ramal quem para n\u00f3s do Cear\u00e1 como obra ferrovi\u00e1ria \u00e9 de import\u00e2ncia indiscut\u00edvel e de prioridade, toda a\u00a0 bancada federal luta e vem lutando e continuar\u00e1 a lutar para o Governo Federal reconhecer que esse ramal ferrovi\u00e1rio Piqu\u00e9 Carneiro \u2013 Crate\u00fas dever\u00e1 ser constru\u00eddo e n\u00e3o ser considerado uma obra arquivada no seu projeto j\u00e1 feito h\u00e1 tantos anos, quando o Cear\u00e1 precisa demais dos benef\u00edcios dessa ferrovia ainda n\u00e3o constru\u00edda. Mas todos n\u00f3s estamos juntos para a obten\u00e7\u00e3o do atendimento a essa necessidade. A mesma coisa se refere, ou da mesma forma n\u00f3s nos comportamos em rela\u00e7\u00e3o aos a\u00e7udes p\u00fablicos que nos faltam. Ainda h\u00e1 poucos dias veio \u00e0 tona a necessidade de se construir o a\u00e7ude Jaburu. Est\u00e1 reconhecida a necessidade de se construir esse reservat\u00f3rio d\u2019\u00e1gua, da mais alta import\u00e2ncia para o nosso Estado e, no entanto, nada h\u00e1 de esperan\u00e7a at\u00e9 agora, para que se acredite que se v\u00e1 come\u00e7ar o a\u00e7ude Jaburu. No entanto, todos n\u00f3s estamos n\u00e3o s\u00f3 reclamando constantemente a constru\u00e7\u00e3o dele, como dos demais a\u00e7udes p\u00fablicos que faltam aos nossos grandes sistemas de a\u00e7udagem.<\/p>\n<p><strong>L.A<\/strong>.\u00a0 Dr. Parsifal, e quanto aos problemas de seca surgidos no seu governo, de algum modo perturbaram a sua figura de homem p\u00fablico, a sua imagem como governador?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Fui eleito em 1958 durante uma grande seca, quando procurei garantir para os meus irm\u00e3os cearenses, o m\u00e1ximo de assist\u00eancia que o Governo Federal lhes podia dar naquele momento. Durante os quatro anos em que governei o Cear\u00e1 fui beneficiado por quatro invernos, um dos quais muito excessivo, aquele que arrombou o Or\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Poderia nos falar ent\u00e3o sobre a assist\u00eancia que o Governo Federal deu nessa \u00e9poca ao Estado do Cear\u00e1?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>A assist\u00eancia nessa \u00e9poca constitui-se justamente em ser reconstitu\u00eddo e reconstru\u00eddo e restaurado todo o a\u00e7ude do Or\u00f3s, o que se fez ainda me recordo que, poucos dias antes da mudan\u00e7a de governo, portanto, antes da posse do ex-presidente J\u00e2nio Quadros, o senhor Presidente da Rep\u00fablica veio ao Cear\u00e1 para reinaugurar o Or\u00f3s inteiramente reconstru\u00eddo e restaurado. Isso representa muito, porquanto, se levamos tantos anos \u00e0 espera do Or\u00f3s seria realmente e triste que ap\u00f3s o seu arrombamento ele n\u00e3o fosse de pronto restaurado e reconstru\u00eddo como de fato o foi.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Dentro desse quadro de tens\u00f5es sociais que o senhor admitiu existir no Nordeste, como o senhor colocaria a rela\u00e7\u00e3o entre o problema de secas e pol\u00edtica, melhor dizendo, a rela\u00e7\u00e3o entre emiss\u00f5es e pol\u00edtica local ligado ao problema das secas?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que se um pleito eleitoral vai se realizar, em um ano como este de 1976, em que estamos enfrentando uma seca parcial, temos mais dificuldades em poder dar conta das nossas tarefas pol\u00edtico-partid\u00e1rias de preparo do pleito municipal de 15 de novembro pr\u00f3ximo. Mas j\u00e1 nos acostumamos a trabalhar com as seca. N\u00f3s n\u00e3o temos ainda \u00e9 termos de conviv\u00eancia com ela. N\u00f3s n\u00e3o temos ainda a capacidade de um processo de naturaliza\u00e7\u00e3o com o fen\u00f4meno das estiagens, mas j\u00e1 estamos acostumados a receber a visita\u00a0 para n\u00f3s desagrad\u00e1vel e inoportuna das secas parciais, principalmente como agora estamos sofrendo aqui no cear\u00e1. Mas, acreditem que n\u00f3s pol\u00edticos nessas fases temos oportunidade de conhecer mais diretamente, ao vivo, as necessidades assistenciais que nos s\u00e3o apresentadas e por n\u00f3s s\u00e3o levadas em termos de reivindica\u00e7\u00e3o, de reclama\u00e7\u00e3o ao Governo Federal para o atendimento. Acredito,portanto, que n\u00e3o haja propriamente uma interrela\u00e7\u00e3o, um interligamento da pol\u00edtica com as secas, mas, desde que o pol\u00edtico se defronte com o problema de uma estiagem, como atualmente ocorre, \u00e9 benef\u00edcio para o Estado e para nosso povo, que os pol\u00edticos entrando em contato vivo com essas necessidades, fa\u00e7am e postulem junto ao Governo Federal as solicita\u00e7\u00f5es e reclama\u00e7\u00f5es para o entendimento que vem chegando em socorro das necessidades dos nossos irm\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>O governo do senhor, Dr. Parsifal, \u00e9 tido como o que a \u00e9poca que em que se iniciou a montagem da infraestrutura dos \u00f3rg\u00e3os governamentais como a Codec, o Banco do Estado, e o governador Virg\u00edlio T\u00e1vora teria s\u00f3 implantado tais melhoramentos no Cear\u00e1. O que o senhor diria a respeito?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Posso informar que ao assumir o governo do Estado verifiquei que nossa infraestrutura b\u00e1sica, indispens\u00e1vel ao surgimento de um desenvolvimento econ\u00f4mico equilibrado, precisava, antes de tudo, da organiza\u00e7\u00e3o do planejamento de obras de infraestrutura. E veja, comecei pela de eletrifica\u00e7\u00e3o, criando a Companhia de Eletrifica\u00e7\u00e3o do Centro Norte do Cear\u00e1, e tornando o governo do Estado s\u00f3cio minorit\u00e1rio da Companhia de Eletrifica\u00e7\u00e3o do Cariri. Assim como da Companhia de Eletrifica\u00e7\u00e3o de Fortaleza, as tr\u00eas que hoje constituem a Companhia de Eletrifica\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1. Portanto, se n\u00e3o tivesse criado a CENORTE, se n\u00e3o tivesse tido o cuidado de colocar o Estado do Cear\u00e1 como s\u00f3cio da CONEFOR, de Fortaleza, e da CELCA, do Cariri, quando as tr\u00eas companhias formaram o \u201cholding\u201d de uma s\u00f3 que \u00e9 a Coelce, o Estado n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de ficar no comando como est\u00e1 atualmente. Est\u00e1, portanto, o problema da eletrifica\u00e7\u00e3o com um s\u00f3 comando que \u00e9 o do Estado do Cear\u00e1, atrav\u00e9s de uma s\u00f3 empresa que \u00e9 a Coelce, Companhia de Eletrifica\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1, gra\u00e7as a esse planejamento que foi feito e cujos frutos hoje est\u00e3o dando os melhores resultados. Outro planejamento que fiz foi em rela\u00e7\u00e3o aos portos, porque sendo o Cear\u00e1 um estado exportador e com um dimensionamento de costas para muitos at\u00e9 excessivo, era necess\u00e1rio que se fizesse um planejamento relativo, n\u00e3o s\u00f3 o porto do Mucuripe, mas tamb\u00e9m, abrangendo os portos de Camocim e de Aracati. Esse foi o segundo planejamento que organizei ajudando o pr\u00f3prio Governo Federal a compreender as necessidades portu\u00e1rias do Cear\u00e1. Depois, para o desenvolvimento econ\u00f4mico, criei o Banco do Estado do Cear\u00e1 e deixei para o meu sucessor implantar a Superintend\u00eancia do Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Cultural do Estado, a SUDEC, e a Companhia de Desenvolvimento Econ\u00f4mico que posteriormente se transformou no Banco de Desenvolvimento Econ\u00f4mico do Cear\u00e1, o BANDECE. Assim sendo, tenho comigo\u00a0 a\u00a0\u00a0 convic\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0 que\u00a0\u00a0 pude\u00a0 a\u00a0 duras\u00a0 penas\u00a0\u00a0 deixar\u00a0 \u00a0as\u00a0 bases \u00a0\u00a0desse planejamento de infraestrutura de tal forma que hoje ele est\u00e1 produzindo todos os resultados por mim revistos e reclamados pelo povo cearense.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>\u00c9 verdade que os recursos do Estado de \u00e9poca do governo do senhor eram menores por causa da sistem\u00e1tica de arrecada\u00e7\u00e3o do imposto sobre renda e consigna\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Os recursos do Estado do Cear\u00e1 quando eu governei de 1959 a 1963 eram muito inferiores aos atuais porque n\u00e3o existiam os fundos que hoje alimentam e ajudam a arrecada\u00e7\u00e3o estadual. Como tamb\u00e9m eram muitos diferentes os empr\u00e9stimos, n\u00e3o pude realizar nenhum financiamento, nenhum empr\u00e9stimo, pelas dificuldades que naquele tempo existiam, limitando-me a pagar os empr\u00e9stimos que encontrara e n\u00e3o deixando nenhum acervo de d\u00edvidas que dificultasse o governo do meu sucessor. Acredito que o ex-governador Virg\u00edlio T\u00e1vora encontrou o Estado em condi\u00e7\u00f5es de poder desenvolver o seu programa de governo e sem ter preocupa\u00e7\u00f5es como o acervo de empr\u00e9stimos que n\u00e3o fiz e de d\u00edvidas que n\u00e3o contrai, lutando com os poucos recursos ao meu dispor para realizar a implanta\u00e7\u00e3o desses sistemas da nossa infraestrutura econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Dr. Parsifal o senhor tamb\u00e9m \u00a0\u00e9 um intelectual, o seu livro \u201cO Cearense\u201d \u00e9 tido como uma obra que fornece abertura, numa linguagem mais popular daria dicas para v\u00e1rios estudos e pesquisas para a hist\u00f3ria do Cear\u00e1. O senhor considera este, de fato, um trabalho importante, um trabalho definitivo?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Considero o livro \u201cO Cearense\u201d que publiquei quando ainda estava como professor de Sociologia da Universidade Federal do Cear\u00e1, um roteiro b\u00e1sico para o entendimento do Cear\u00e1 e do cearense. Mas, conforme est\u00e1 dito naquele livro, ele \u00e9 mais uma abertura para o roteiro de pesquisas, e o segundo volume \u00e9 detalhando essas pesquisas. N\u00e3o posso assegurar quando devo me conceder algum tempo de avalia\u00e7\u00e3o dos meus esfor\u00e7os para verificar se posso ou n\u00e3o dar conta desse segundo volume do \u201cCearense\u201d, j\u00e1 com o detalhamento das pesquisas que visam a comprovar as teses por mim ali sustentadas. Principalmente, porque estou no momento, em virtude do exerc\u00edcio do mandato de Deputado Federal, preocupado com a feitura de \u00a0outro livro que analisar\u00e1 o descompasso brasileiro e ter\u00e1 esse nome.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Dr. Parsifal, e com refer\u00eancia \u00e0s suas experi\u00eancias de pesquisa em magist\u00e9rio, enfim, as suas atividades intelectuais, o senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Gosto de relembrar a compreens\u00e3o que sempre tive dos meus alunos e dos meus colegas na Universidade Federal do Cear\u00e1. Quando provei a uns e outros a necessidade de nos conhecermos melhor a n\u00f3s mesmos. A nossa realidade tel\u00farica e a nossa realidade humana, para entendermos ent\u00e3o o que \u00e9 o problema social em nosso Estado. O livro \u201cO Cearense\u201d foi o toque de clarim, a primeira abertura para que viessem outros na mesma dire\u00e7\u00e3o em busca dessas fontes que ainda est\u00e3o por ser pesquisadas. Mas, durante o per\u00edodo em que estive pesquisando e estudando para organizar o primeiro volume do Cearense, guardo comigo as melhores recorda\u00e7\u00f5es das ajudas e dos incentivos que recebi da Universidade a que perten\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Ent\u00e3o, Parsifal Barroso intelectual, administrador e pol\u00edtico s\u00e3o de fato um s\u00f3?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Acredito que sim porque n\u00e3o consigo dissociar em mim o pol\u00edtico do professor que formam uma unidade. Porquanto, nunca esque\u00e7o que ao pronunciar meu primeiro discurso na C\u00e2mara dos Deputados, em 1951, o falecido colega Israel Pinheiro, ao me cumprimentar, disse-me: \u201cH\u00e1 quantos anos \u00e9 professor?\u201d. Eu disse: \u201cPorque me fez esta pergunta Israel?\u201d \u201cPorque suas exposi\u00e7\u00f5es, embora em tom de discurso, s\u00e3o aulas\u201d.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Dr. Parsifal, apesar de permiss\u00edvel, o ministro e o senador n\u00e3o se confundem, na pr\u00e1tica, em suas atribui\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>O ministro e o senador de fato se confundem porque na realidade ainda h\u00e1 pouco tempo tive a oportunidade de relembrar esse assunto da sua pergunta com o meu colega, o senador Jarbas Passarinho, porquanto ele e eu fomos ministro do Trabalho ao mesmo tempo em que exerc\u00edamos o mandato de senadores. E concord\u00e1vamos os dois que o mandato de senador muito de ajustou e muito serviu para que, tanto ele como eu, pudesse desempenhar melhor as nossas \u00e1rduas tarefas de ministro do Trabalho \u2013 eu numa fase muito intensa de agita\u00e7\u00e3o social \u2013 ele j\u00e1 numa fase de mais tranquilidade nas estruturas da vida sindical brasileira.<\/p>\n<p><strong>L.A.\u00a0\u00a0<\/strong>Alguma coisa a mais que o senhor quisesse acrescentar, deputado?<\/p>\n<p><strong>P.B.\u00a0\u00a0<\/strong>Quero acrescentar apenas que \u00e9 preciosa essa iniciativa da Universidade Federal do Cear\u00e1, atrav\u00e9s do seu curso de Hist\u00f3ria, para nesse conjunto de bons prop\u00f3sitos e \u00f3timas atividades do Arquivo Nacional e da nossa Universidade, deixar para os coevos e os p\u00f3steros esse acervo precioso de Hist\u00f3ria Oral. Acervo constitu\u00eddo pelos depoimentos daqueles que mais de perto estiveram como os problemas da terra e do povo do Cear\u00e1, em posto do poder executivo e do poder legislativo.<\/p>\n<p><strong>L.A.<\/strong>\u00a0Muito obrigada ent\u00e3o, senhor.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PROFESSORA LUCIARA SILVEIRA DE ARAG\u00c3O \u2013 Respons\u00e1vel pelo conv\u00eanio. 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