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{"id":1732,"date":"2020-04-01T00:00:05","date_gmt":"2020-04-01T00:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1732"},"modified":"2021-03-24T01:26:16","modified_gmt":"2021-03-24T01:26:16","slug":"entrevista-dr-guimaraes-duque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2020\/04\/01\/entrevista-dr-guimaraes-duque\/","title":{"rendered":"Entrevista com o Dr. Guimar\u00e3es Duque"},"content":{"rendered":"<p>Fortaleza, 05 de agosto de 1976<\/p>\n<p>Entrevista com o Dr. Jos\u00e9 Guimar\u00e3es Duque, agr\u00f4nomo, detentor da medalha do pacificador, por servi\u00e7os prestados ao Ex\u00e9rcito Brasileiro em 1960, do grande pr\u00eamio Moinho Recife em 1962, da Medalha do Primeiro Dec\u00eanio da Sudene em 1970, da medalha da Aboli\u00e7\u00e3o outorgada pelo Governo do Estado do Cear\u00e1 em 1973 e Doutor \u201cHonoris Causa\u201d pela Universidade Federal do Cear\u00e1.[1]<\/p>\n<p>Entrevista concedida para o Programa de Hist\u00f3ria Oral da Universidade Federal do Cear\u00e1 em Conv\u00eanio com o Arquivo Nacional.[2]<\/p>\n<p>L.F. LUCIARA FROTAG.D. GUIMAR\u00c3ES DUQUE<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Doutor Guimar\u00e3es Duque, embora n\u00f3s saibamos muitos dos seus dados biogr\u00e1ficos, nada mais interessante do que o senhor mesmo contar para n\u00f3s onde nasceu, o nome de sua esposa, dos seus filhos, algum epis\u00f3dio interessante da sua inf\u00e2ncia, ou qualquer outro dado que o senhor considere interessante ou importante a uma biografia do senhor para o futuro.<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Eu nasci a 20 de setembro de 1903, em Lima Duarte, Minas gerais. Sou filho de Manuel Jorge Duque e maria Pia Guimar\u00e3es Duque. Fiz o curso prim\u00e1rio em Juiz de Fora, em 1911 a 1915. Estudei no Instituto, Juiz de Fora, 1916 a 1918. Curso ginasial preparat\u00f3rio no Instituto Lavras, Minas, 1922 a 1924. Curso superior de agricultura, Minas, 1925 a 1928. Diplomei-me em Agronomia em dezembro de 1928. Sou casado desde 1935 com Maria Laura Moreira Duque. Tenho quatro filhos homens: Marcelo, economista; S\u00e9rgio, engenheiro civil; S\u00edlvio, engenheiro civil; Jos\u00e9 Guimar\u00e3es Duque Filho, engenheiro civil. Depois de diplomado em Agronomia fui professor na Escola Superior de Agricultura de Vi\u00e7osa, Minas, nos anos de 1929 a 1932. Em janeiro de 1933 a convite do Agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Augusto trindade, quando era Ministro da Via\u00e7\u00e3o o Dr. Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida, eu assinei contrato e ingressei na Comiss\u00e3o de Servi\u00e7os complementares da antiga Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, onde trabalhei de 1933 at\u00e9 1938. Naquele per\u00edodo foi a forma\u00e7\u00e3o dos postos agr\u00edcolas nos a\u00e7udes e eu cheguei no Nordeste em janeiro de 1933 e fui morar no a\u00e7ude Cruzeta, regi\u00e3o do Serid\u00f3, Rio grande do Norte. L\u00e1 foi iniciado os primeiros viveiros aproveitando a \u00e1gua do a\u00e7ude que j\u00e1 estava constru\u00eddo. Em seguida foi iniciado o Posto Agr\u00edcola do a\u00e7ude Condado, ainda em constru\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m com a forma\u00e7\u00e3o de viveiros. Em seguida o a\u00e7ude de S\u00e3o Gon\u00e7alo, Sousa-Para\u00edba, tamb\u00e9m ainda em constru\u00e7\u00e3o pelo engenheiro Estev\u00e3o Marinho, foi iniciado os primeiros viveiros e trabalhos hort\u00edcolas com \u00e1gua de irriga\u00e7\u00e3o de cacimba. O servi\u00e7o do Posto Agr\u00edcola de Lima Campos foi iniciado em mar\u00e7o de 1934 tamb\u00e9m com o a\u00e7ude e os canais ainda em irriga\u00e7\u00e3o. No mesmo ano foi iniciado o servi\u00e7o de irriga\u00e7\u00e3o no rio Parna\u00edba \u2013 Piau\u00ed pr\u00f3ximo a Teresina, era uma irriga\u00e7\u00e3o por meio de liga\u00e7\u00e3o de \u00e1gua com bomba. No per\u00edodo de 1933 a 1934 foi feito tamb\u00e9m um trabalho extensivo de plantio de campo de palha forrageira por determina\u00e7\u00e3o do senhor Ministro Jos\u00e9 Am\u00e9rico. Este servi\u00e7o abrangeu os Estados do Piau\u00ed at\u00e9 Bahia onde foram instalados em coopera\u00e7\u00e3o com as prefeituras duzentos e vinte e dois campos de palha. Outros servi\u00e7os instalados foram tamb\u00e9m o servi\u00e7o de a\u00e7ude de Mundo Novo, em Caic\u00f3 e Dange, tamb\u00e9m em Caic\u00f3. O servi\u00e7o de irriga\u00e7\u00e3o \u00e0 margem do Rio S\u00e3o Francisco, no lugar denominado Ic\u00f3, munic\u00edpio de Floresta, 40 quil\u00f4metros acima de Itaparica foi iniciado em 1937 por uma irriga\u00e7\u00e3o por meio de bombas, e o servi\u00e7o de lavoura irrigada propriamente dita come\u00e7ou em 1940, com o agr\u00f4nomo Trajano N\u00f3brega. Infelizmente, no ano de 1941 faleceu o chefe de servi\u00e7o, engenheiro Jos\u00e9 Augusto Trindade a quem o Nordeste deve assinalados servi\u00e7os. Fui ent\u00e3o chamado a me tornar chefe de servi\u00e7o da Comiss\u00e3o dos Servi\u00e7os Complementares da IFOCSEC, no ano de 1941. Para ser justo devo lembrar que em 1939 eu fui professor de Hidr\u00e1ulica e Topografia na Escola de Agronomia do Cear\u00e1. Em 1941, fim de 40 e o ano de 41, fui Secret\u00e1rio de Agricultura do estado da Para\u00edba. Esse per\u00edodo eu estive fora do Departamento de Secas. Com a morte ent\u00e3o do saudoso Dr. Jos\u00e9 Augusto Trindade, em fins de 1941, eu assumi a chefia do servi\u00e7o e continuamos ent\u00e3o os trabalhos da instala\u00e7\u00e3o do Instituto Jos\u00e9 Augusto Trindade em Sousa &#8211; Para\u00edba, obra come\u00e7ada em 1937 e inaugurada em 1941 onde trabalharam at\u00e9 1960, cinco qu\u00edmicos na an\u00e1lise de solos, de \u00e1guas e de plantas. Aquele laborat\u00f3rio prestou relevantes servi\u00e7os ao Nordeste pela an\u00e1lise dos levantamentos agrol\u00f3gicos das bacias, 25 bacias de irriga\u00e7\u00e3o do Nordeste no total de 180.000 hectares. E, na an\u00e1lise de plantas forrageiras no total de 120 esp\u00e9cies de plantas. Tamb\u00e9m a \u00e1gua de muitos a\u00e7udes e po\u00e7os profundos foi analisada naquele laborat\u00f3rio. A instala\u00e7\u00e3o da irriga\u00e7\u00e3o do Posto Agr\u00edcola de Cocorob\u00f3, no munic\u00edpio de Euclides da Cunha na Bahia, foi feita um pouco mais tarde, logo que terminaram o a\u00e7ude e a constru\u00e7\u00e3o de canais foi iniciada a irriga\u00e7\u00e3o. No Cear\u00e1 foi iniciada a irriga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m na era de&#8230; tempo de Guerra, 40 a 45, no a\u00e7ude Santo Ant\u00f4nio de Russas, pr\u00f3ximo a Fortaleza e a\u00e7ude de Joaquim T\u00e1vora no munic\u00edpio de Jaguaribe-Mirim. A irriga\u00e7\u00e3o do antigo a\u00e7ude do Cedro passou para o servi\u00e7o ap\u00f3s 1950. Ele, foi iniciado, falo da constru\u00e7\u00e3o, no tempo do Imp\u00e9rio e terminado nos primeiros dias da Rep\u00fablica. Come\u00e7ou a irriga\u00e7\u00e3o logo em seguida, mas passou \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do nosso servi\u00e7o somente muitos anos depois. No Cear\u00e1 foi iniciada a irriga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no a\u00e7ude Araras, no munic\u00edpio de Sobral e outro a\u00e7ude, pr\u00f3ximo a Sobral que eu n\u00e3o me lembro o nome agora. Durante estes anos, de 1933 at\u00e9 a aposentadoria em 1964, tomamos parte ativa em cinco secas: a de 1933, a de 41, 51, 53, 58. A trag\u00e9dia das secas com a ocorr\u00eancia de flagelados e suas fam\u00edlias aos a\u00e7udes em procura de trabalho e de alimento e de \u00e1gua \u00e9 um fato impressionante que somente pode sentir e avaliar aquelas pessoas que assistiram na poeira e no calor aquelas lutas. Nem sempre tudo corria bem. Muitas vezes o afluxo de flagelados e fam\u00edlias aos a\u00e7udes e \u00e0s obras era muito superior \u00e0 capacidade de emprego de ferramentas e mesmo de abastecimento de g\u00eaneros. Naquela \u00e9poca o pagamento n\u00e3o era em dia, ent\u00e3o havia os fornecedores que forneciam g\u00eaneros aos oper\u00e1rios, mediante uma tabela de pre\u00e7o aprovada pelo servi\u00e7o. Mas havia demora muito grande nos pagamentos. No ano de 1939, por exemplo, eu me lembro que n\u00e3o s\u00f3 os oper\u00e1rios, mas tamb\u00e9m os agr\u00f4nomos e o pr\u00f3prio chefe do servi\u00e7o passaram nove meses sem receber sal\u00e1rio. Ou melhor, o sal\u00e1rio de janeiro de 1939, foi recebido em fins de setembro de 1939. As secas&#8230; h\u00e1 muito desconforto na popula\u00e7\u00e3o, principalmente, o problema de habita\u00e7\u00e3o, porque falta material para casas e as latadas com galhos de \u00e1rvores, o abrigo debaixo de \u00e1rvores, n\u00e3o permite uma satisfa\u00e7\u00e3o de comodidade, est\u00e1 muito longe disto, e naquela \u00e9poca, antigamente, havia ocorr\u00eancia de doen\u00e7as, principalmente tifo e verminoses. Houve naquele per\u00edodo muita emigra\u00e7\u00e3o de flagelados de um Estado para outro, a contamina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as em regi\u00f5es onde dantes n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Dr. Guimar\u00e3es, o senhor fez refer\u00eancia ao Sr. Trajano N\u00f3brega. Este senhor foi ou pode ser considerado um pioneiro no m\u00e9todo da irriga\u00e7\u00e3o de a\u00e7udes?<\/p>\n<p>G.D<\/p>\n<p>O Doutor Trajano N\u00f3brega ingressou no servi\u00e7o, ele era agr\u00f4nomo do Departamento de Secas, trabalhava em servi\u00e7o de estrada de rodagem. Ele ingressou no servi\u00e7o j\u00e1 o servi\u00e7o iniciado, mais ou menos em fins de 1936, salvo engano, iniciou o servi\u00e7o. Agora, ele foi no nosso servi\u00e7o o pioneiro de irriga\u00e7\u00e3o no Rio S\u00e3o Francisco, quer dizer, pioneiro por parte do Departamento de Secas, no Rio S\u00e3o Francisco. Ele fez a instala\u00e7\u00e3o l\u00e1 num per\u00edodo muito dif\u00edcil. O per\u00edodo em que Lampi\u00e3o atravessava aquelas caatingas constantemente e ele trabalhava com os oper\u00e1rios de metralhadoras. Mas era um homem valente, e era um homem muito corajoso e trabalhador, e conseguiu iniciar a irriga\u00e7\u00e3o l\u00e1 naquelas terras muito despovoadas \u00e0 beira do Rio e muito \u00e1ridas. O \u00eaxito que foi em vida e a\u00e7\u00e3o nas margens do Rio S\u00e3o Francisco \u00e9 sem d\u00favida devido ao agr\u00f4nomo Trajano N\u00f3brega.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 not\u00e1vel. O senhor teve algum tipo de contato com o canga\u00e7o ou com cangaceiros?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Pessoalmente nunca tive contato com cangaceiros. Embora sabia que entre os flagelados e entre oper\u00e1rios do meu servi\u00e7o havia alguns homens que em tempos passados haviam sido cangaceiros.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>E nunca estes homens levaram ao senhor algum tipo de problema ou lhe causaram algum problema ou ao trabalho que o senhor desenvolvia?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>N\u00e3o; eles eram homens pac\u00edficos. Eles tinham verificado que o canga\u00e7o n\u00e3o compensava. Agora, havia alguns do tempo de Lampi\u00e3o, havia ainda os seguidores de Lampi\u00e3o, principalmente nas caatingas de Pernambuco, Alagoas e Bahia. Aquele reduto continuava sendo v\u00edtima do canga\u00e7o de Lampi\u00e3o, por\u00e9m, nos Estados de Para\u00edba, nos Estados do Rio Grande do Norte e Cear\u00e1, devido \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de estrada de rodagem e redes telegr\u00e1ficas, o canga\u00e7o n\u00e3o existia. Existia ainda homens que tinham pertencido ao canga\u00e7o, como j\u00e1 falei, mas que estavam pacificados e estavam trabalhando em obras do governo. Eles n\u00e3o causaram nenhum dist\u00farbio nas obras.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>E quando de fato o senhor iniciou as suas experi\u00eancias profissionais no nosso Estado, aqui no Cear\u00e1?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o do Posto Agr\u00edcola de Lima Campos foi o meu primeiro trabalho feito no Cear\u00e1. Foi iniciado ainda com um viveiro da produ\u00e7\u00e3o de mudas, porque o a\u00e7ude de Lima Campos, antigamente chamado a\u00e7ude Estreito, ainda estava em constru\u00e7\u00e3o e os canais tamb\u00e9m estavam em constru\u00e7\u00e3o. As atividades dos primeiros a\u00e7udes, Santo Ant\u00f4nio de Russas, Cedro, a\u00e7ude Joaquim T\u00e1vora, a\u00e7ude Forquilha, no Norte, perto de Sobral e a\u00e7ude Aires de Sousa, tamb\u00e9m perto de Sobral, come\u00e7aram posteriormente.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor se referiu ao papel do intermedi\u00e1rio na \u00e9poca das secas, rapidamente o senhor falou sobre o assunto. Eu gostaria que o senhor detalhasse mais alguma coisa, como v\u00ea a figura do intermedi\u00e1rio \u00e0 \u00e9poca da seca, em termos de sua viv\u00eancia pessoal sobre o assunto?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>No tempo antigo em que o governo n\u00e3o pagava em dia, o \u00fanico recurso era atender \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o dos flagelados, mediante fornecedores particulares de g\u00eaneros aliment\u00edcios, com tabelas aprovadas pelo chefe de servi\u00e7o de cada local. Aconteceu muitas vezes que o pagamento atrasava e o fornecedor fixava sem recursos, mesmo banc\u00e1rio, para comprar novas partidas de g\u00eaneros, surgiam muitas dificuldades. No caso de fome, algumas vezes, os flagelados atacavam os barrac\u00f5es de fornecimento e tiravam alimento para comer, mas isto sem haver combate sangrento, sem uma luta mais cruenta. O fornecimento era feito na base de 80% fornecido em mercadoria e 20% ficava para o oper\u00e1rio receber quando viesse o pagamento em dinheiro. Acontecia muitas vezes que o trabalhador n\u00e3o tendo o dinheiro, mas tendo a facilidade de tirar g\u00eaneros no fornecedor, ele comprava alguns g\u00eaneros, vendia fora e comprava aquilo que ele queria. Isto n\u00e3o era poss\u00edvel fazer o controle, dada a multid\u00e3o de gente que trabalhava nas obras.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Eu gostaria de saber o que pensa a respeito das frentes de servi\u00e7o, que de uma maneira ou de outra, me parece, favorece o surgimento do intermedi\u00e1rio.<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Bom, em toda frente de servi\u00e7o v\u00e3o os negociantes ambulantes, os biscateiros e intermedi\u00e1rios para vender produtos aos flagelados, principalmente nos dias de pagamento. N\u00e3o se pode evitar que esta venda, este com\u00e9rcio, \u00e0s vezes, a pre\u00e7o exorbitante se fa\u00e7a junto das obras, porque a fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil. Antigamente, houve alguns casos de indiv\u00edduos que compravam as cadernetas dos oper\u00e1rios. O oper\u00e1rio tinha uma caderneta de fornecimento de g\u00eaneros aliment\u00edcios. Eles compravam estas cadernetas para receber depois o dinheiro do governo. Isto era punido, mas nem sempre era poss\u00edvel evitar dada a quantidade de gente para atender, a escassez de engenheiros para as obras e a escassez de pessoal administrativo. A senhora pode pensar, um a\u00e7ude, uma obra com 10.000 homens fora, as fam\u00edlias, 5.000 homens, 8.000 homens, \u00e9 muito dif\u00edcil evitar estas irregularidades. Quem viu, quem assistiu, quem tomou parte numa seca, sabe o que foi isso no tempo antigo. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o da frente de servi\u00e7o est\u00e1 muito melhorada, h\u00e1 mais pessoal administrativo, h\u00e1 outra organiza\u00e7\u00e3o e o pagamento \u00e9 feito em dia. Neste ponto de vista melhorou muito.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor considera que a organiza\u00e7\u00e3o melhorou, mas como? Qual foi o n\u00edvel de melhoria sofrido pela organiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Porque os flagelados s\u00e3o selecionados quanto aos seus servi\u00e7os. Os doentes, as mulheres s\u00e3o dados servi\u00e7os proporcionais, quando podem trabalhar. Aqueles que n\u00e3o podem trabalhar recebem assist\u00eancia do governo. Al\u00e9m disto, hoje, numa frente de servi\u00e7o, quando chegam os flagelados, h\u00e1 mais ferramenta, j\u00e1 tem gente esperando para determinar o servi\u00e7o, j\u00e1 tem o escrit\u00f3rio montado para fazer a classifica\u00e7\u00e3o e as listas do nome de cada um para figurar em folha de pagamento, e sendo o pagamento feito em dia, vamos dizer, n\u00e3o h\u00e1 oportunidade de haver fraude porque o flagelado \u00e9 o primeiro a se defender, porque ele recebe dinheiro em esp\u00e9cie e compra como quiser a quem ele quer. Tem esta liberdade. Ora, se existe mais planos de obras de emerg\u00eancia, se existem mais engenheiros e mais pessoal t\u00e9cnico para atender, mais pessoal administrativo e escrit\u00f3rios organizados, ent\u00e3o o servi\u00e7o corre de uma maneira mais harm\u00f4nica, sem os atropelos de antigamente em que o afluxo de gente \u00e0s obras era feito muitas vezes sem ter ainda escrit\u00f3rio organizado e sem controle adequado.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor presenciou algum ind\u00edcio desta mudan\u00e7a j\u00e1 na seca de 1958?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>A seca de 58 foi uma grande seca. Tinha mais organiza\u00e7\u00e3o do que as secas anteriores, \u00e9 verdade, mas tamb\u00e9m houve algumas fraudes porque a ocorr\u00eancia de gente atingida foi muito grande, foi maior do que nas secas anteriores. E por mais que se fizesse, a classifica\u00e7\u00e3o, a ordena\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, n\u00e3o foi poss\u00edvel evitar aqui e ali algumas falhas. Ent\u00e3o podemos falar que n\u00e3o foi como o esperado.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor se deteria na aprecia\u00e7\u00e3o de alguma destas fraudes?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Bom, uma delas \u00e9 a compra de caderneta, outra delas s\u00e3o cadernetas que muitas vezes n\u00e3o significava realmente aquilo que o oper\u00e1rio comprava, mas era gente demais, n\u00e3o era poss\u00edvel fiscalizar tudo.Foi uma falha abrangente do tipo conjuntural.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Pelo visto, esta nova organiza\u00e7\u00e3o, ela diminuiu o valor do papel do intermedi\u00e1rio. O senhor concorda?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Ah! Sem d\u00favida, nas \u00faltimas secas a influ\u00eancia do intermedi\u00e1rio sobre a vida e o trabalho do flagelado diminuiu muito. Foram problemas de outra natureza.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Bom, penso que estamos concordes quanto ao fato de que as secas geram problemas pol\u00edticos, econ\u00f4micos e problemas sociais. Dentro dessas repercuss\u00f5es quais o senhor reputaria mais importante? Quais destes fatores, o fator econ\u00f4mico, o pol\u00edtico ou o social? Acha que eles estariam superpostos, acha que algum deles seria mais importante que o outro dentro da viv\u00eancia do senhor sobre o problema?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O mais importante deles \u00e9 o econ\u00f4mico. \u00c9 o fato de o sertanejo perder as colheitas, ficar sem sustenta\u00e7\u00e3o e ser obrigado a sair de sua casa para procurar trabalho, emprego. Isso afeta n\u00e3o s\u00f3 ao oper\u00e1rio como ao propriet\u00e1rio, \u00e0 Economia como um todo. Agora, do ponto de vista social \u00e9 o problema do congestionamento dos transportes, o problema da transmiss\u00e3o de doen\u00e7a, \u00e9 aquele em que muitas vezes no desespero, ou por raz\u00f5es quaisquer o pai abandona a fam\u00edlia e aparece ent\u00e3o um n\u00famero incont\u00e1vel de crian\u00e7as abandonadas. O pol\u00edtico \u00e9 aquele em que na \u00e9poca de elei\u00e7\u00f5es, outrora, os prefeitos, os pol\u00edticos locais n\u00e3o queriam que os flagelados se locomovessem para fora do munic\u00edpio, para n\u00e3o perder o voto nas elei\u00e7\u00f5es. Mas, n\u00e3o era poss\u00edvel estabelecer frente de servi\u00e7o em cada munic\u00edpio. Era desumano ver isto<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Dentro deste crit\u00e9rio a gente estabeleceria ent\u00e3o uma liga\u00e7\u00e3o entre seca e pol\u00edtica?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Sim. Havia consequ\u00eancias pol\u00edticas nas secas, sem d\u00favida, esta movimenta\u00e7\u00e3o de gente, o esvaziamento do munic\u00edpio, esvaziamento de cidade do interior, essa quest\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es e muitas vezes at\u00e9 rixas, xingamentos ,acusa\u00e7\u00f5es, tantas coisas, por raz\u00f5es que ora eram de origem econ\u00f4mica, ora eram por raz\u00f5es sociais e m\u00e1 compreens\u00e3o da pol\u00edtica. Isso havia.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor poderia acrescentar alguma coisa referente a este problema, dentro de sua vis\u00e3o pessoal de viv\u00eancia do assunto das secas, ,nos dizer mail a respeito do assunto?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O que aconteceu nas cinco secas que eu tomei parte, o que vi foi o seguinte: est\u00e1vamos trabalhando, veio a seca, como se seca fosse um improviso e as obras se encheram de flagelados, suas fam\u00edlias e tudo. O governo deu assist\u00eancia, demos trabalho, todo o dispon\u00edvel e evitamos a morte de muita gente, mas, na realidade, depois da seca aquele pessoal voltou \u00e0 mesma condi\u00e7\u00e3o antiga. N\u00e3o foi providenciada uma forma de coloniza\u00e7\u00e3o ou uma forma de trabalho para uma vida permanente aqui ou em outros lugares .Nada de pol\u00edtica<\/p>\n<p>de fixa\u00e7\u00e3o ao solo.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor teria alguma sugest\u00e3o a propor dentro deste esquema que o senhor termina de expor?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Os inqu\u00e9ritos feitos nos per\u00edodos de secas demonstraram que 87% dos flagelados v\u00eam de fazendas, eram agricultores de milho, feij\u00e3o e arroz, em que n\u00e3o tendo chovido eles ficaram sem a safra. Ent\u00e3o, a lavoura antiecol\u00f3gica de milho, feij\u00e3o e arroz, na terra seca, onde n\u00e3o h\u00e1 irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 a grande geradora de flagelados. \u00c9 preciso dar trabalho permanente, trabalho fixo, lavouras que deem safra quer chova ou fa\u00e7a sol, s\u00e3o as lavouras resistentes \u00e0s secas, s\u00e3o as lavouras xer\u00f3filas. Enquanto no Nordeste n\u00e3o se estabelecer na terra seca um grande programa de plantio de arvoredos, de bosques, de \u00e1rvores xer\u00f3filas para produzir alimentos e mat\u00e9rias primas que deem estabilidade financeira ao lavrador, e melhoramento de pasto ao criador, enquanto n\u00e3o houver isso, n\u00f3s teremos flagelados embora o progresso das cidades seja grande.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor tem publicado muitos trabalhos em que levanta problemas de solos, problema de \u00e1gua na nossa regi\u00e3o. Eu pergunto como o senhor v\u00ea os solos no Cear\u00e1 e se tamb\u00e9m dentro de sua experi\u00eancia de Nordeste observa alguma diferen\u00e7a em termo de agravante para o Estado do Cear\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o aos outros Estados do Nordeste?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Os solos do Cear\u00e1, grosseiramente, podem ser classificados em dois tipos: o solo arqueano de origem gran\u00edtica gn\u00e1issica e os solos de forma\u00e7\u00e3o sedimentar. Os solos do tipo arqueano s\u00e3o os solos da regi\u00e3o central do Cear\u00e1, onde o solo \u00e9 raso, duro, muito seixo rolado, muita pedra. Este solo tem escassa capacidade para guardar \u00e1gua, seca muito depressa. S\u00e3o solos ondulados e s\u00e3o solos aqui e acol\u00e1 desnudos, onde a eros\u00e3o cada ano se acentua mais. Os solos sedimentares s\u00e3o aqueles da Serra de Araripe, parte do Cariri a Serra do Apodi, alguma parte do litoral e parte dos solos da Serra da Ibiapaba. S\u00e3o os solos formados de areia. Solos arenosos, mais profundos, por\u00e9m, mais pobres quimicamente. O Minist\u00e9rio da Agricultura dez um levantamento agrol\u00f3gico de todos os solos do Cear\u00e1 a tipo de classifica\u00e7\u00e3o internacional de solos porque eles s\u00e3o muitos e de tipos variados e de um modo geral, falando sobre solos arqueano e solos sedimentares a gente d\u00e1 uma vis\u00e3o geral do Estado. Quanto \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1 ela \u00e9 mais ou menos igual \u00e0 do Rio grande do Norte e da Para\u00edba. H\u00e1 uma devasta\u00e7\u00e3o muito grande na vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Nos \u00faltimos vinte anos n\u00e3o tem havido aumento da produ\u00e7\u00e3o de lavoura por hectare. O aumento de safra cada ano \u00e9 devido ao aumento de \u00e1rea plantada, cada ano mais 3% do solo \u00e9 cultivado, ent\u00e3o as caatingas s\u00e3o derrubadas para fazer novas lavouras e este sistema de agricultura n\u00f4made est\u00e1 cada vez mais empobrecendo o Estado. A forma de agricultura xer\u00f3fila seria um meio de revestir o Nordeste com \u00e1rvores produtoras de alimentos, de frutos e de mat\u00e9rias primas para a ind\u00fastria. As xer\u00f3filas s\u00e3o plantas de mais de cem anos de dura\u00e7\u00e3o, s\u00e3o \u00e1rvores nativas adaptadas e esta regi\u00e3o seca e \u00famida que d\u00e3o safras, fa\u00e7a sol ou chuva. A cobertura dos solos, como meio de proteger os solos, n\u00e3o s\u00f3 contra o sol, mas tamb\u00e9m contra a eros\u00e3o \u00e9 um dos meios de conservar os recursos naturais.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Existe, uma teoria de que a maneira ind\u00edgena de queimar o solo seria adequada. O que o senhor pensa disso dentro de sua forma\u00e7\u00e3o profissional?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>A tese da queima est\u00e1 em discuss\u00e3o ainda no Congresso de Ci\u00eancias do Solo, no Paran\u00e1, h\u00e1 alguns anos passados um agr\u00f4nomo apresentou uma tese favor\u00e1vel \u00e0 queima dos solos. Na minha pr\u00e1tica de agr\u00f4nomo de 44 anos eu digo o seguinte: h\u00e1 casos em que a queima \u00e9 recomend\u00e1vel e h\u00e1 outros em que ela n\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel. Isto \u00e9 um problema local.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Poderia exemplificar quando ela \u00e9 e quando ela n\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Quando h\u00e1 um excesso de vegeta\u00e7\u00e3o alta, quando h\u00e1 um excesso de espinhos, quando a queima \u00e9 feita em condi\u00e7\u00f5es moderadas, nas horas n\u00e3o mais quentes, tamb\u00e9m, n\u00e3o nos dias mais quentes, quando n\u00e3o se deixa a vegeta\u00e7\u00e3o queimar de todo, pode-se fazer a queima porque ser\u00e1 uma queima parcial e a mat\u00e9ria org\u00e2nica fica em parte em cima do solo. Quando a queima \u00e9 feita sem obedi\u00eancia de uma certa t\u00e9cnica, o solo \u00e9 calcinado superficialmente, a mat\u00e9ria org\u00e2nica \u00e9 toda ela incinerada, s\u00f3 fica a cinza que o vento carrega. Ent\u00e3o ocorre um empobrecimento da fertilidade do solo no segundo ano, porque no primeiro ano h\u00e1 um aumento de produ\u00e7\u00e3o. A queima traz um aumento de produ\u00e7\u00e3o no primeiro ano. No segundo, terceiro e quarto a produ\u00e7\u00e3o come\u00e7a a cair.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o seria o caso de se tomar medidas de preven\u00e7\u00e3o de solo e de orientar corretamente o lavrador, n\u00e3o? O senhor, no in\u00edcio da entrevista se reportou ao ex-ministro Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida. Como era o Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida como homem, como ministro, como profissional que o senhor conheceu de perto?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O ministro Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida era um homem en\u00e9rgico, ele impunha muito a disciplina, visitava constantemente as obras e cobrava o servi\u00e7o que ele mandava fazer. Ele sempre fazia quest\u00e3o de ver as obras \u201cin loco\u201d para ter uma opini\u00e3o pessoal, ele n\u00e3o se baseava somente em relat\u00f3rio. Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o o Minist\u00e9rio da Via\u00e7\u00e3o teve um papel muito preponderante no Brasil, principalmente na parte relativa a transporte, correios e tel\u00e9grafos, em grande parte se deveu \u00e0 a\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente en\u00e9rgica, mas tamb\u00e9m vigilante do Ministro Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>E as rela\u00e7\u00f5es pessoais do senhor com ele?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O senhor ministro Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida n\u00e3o era meu chefe direto, ele se entendia com o chefe de servi\u00e7o Jos\u00e9 Augusto Trindade, e eu como inspetor do Servi\u00e7o de Irriga\u00e7\u00e3o do Nordeste, me entendia com o Doutor Jos\u00e9 Augusto Trindade, mas tive diversos contatos com ele em viagens, e no Rio de Janeiro, no Gabinete, e sempre pude apreciar n\u00e3o s\u00f3 a bondade e o car\u00e1ter humano daquele homem como tamb\u00e9m a sua energia.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Doutor Guimar\u00e3es Duque, o que o senhor recomendaria para a propaga\u00e7\u00e3o e melhoria das lavouras xer\u00f3filas no Cear\u00e1?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos no Cear\u00e1 e no Nordeste \u00e1rvores nativas como o cajueiro, a oiticica, a carna\u00faba, o umbuzeiro, o faveleiro, o pequizeiro, a mani\u00e7oba, a manipeba, uma variedade de mandioca muito venenosa e muitas outras que resistem \u00e0s secas, ou melhor, resistiram h\u00e1 34 secas nos \u00faltimos 400 anos que o homem branco est\u00e1 aqui no Nordeste. Ora, tendo estas \u00e1rvores sobrevivido a este longo per\u00edodo de estiagem e continuando a produzir, \u00e9 poss\u00edvel a aplica\u00e7\u00e3o da gen\u00e9tica e dos instrumentos modernos e dos agentes mutag\u00eanicos para provocar muta\u00e7\u00f5es heredit\u00e1rias, modifica\u00e7\u00f5es, transforma\u00e7\u00f5es nestas \u00e1rvores para torn\u00e1-las mais produtivas e com frutos de melhor qualidade. A oiticica, por exemplo, foi estudada desde 1937 a 1941 no Laborat\u00f3rio Jos\u00e9 Augusto Trindade e l\u00e1 est\u00e1 produzindo todos os anos. A plantada em 41, a partir de 45 come\u00e7ou a produzir. A plantada em 1950, em 1956 come\u00e7ou a produzir e produz todos os anos. E a oiticica nativa n\u00e3o produz todos os anos. Ela falha dois, tr\u00eas, quatro anos sem produzir. Ent\u00e3o, n\u00f3s podemos transformar um umbuzeiro numa ameixa, reduzindo o caro\u00e7o do fruto, diminuindo a casca, aumentando a polpa e secar l\u00e1 na caatinga para fazer ameixa seca e exportar. A favela, uma \u00e1rvore que d\u00e1 um \u00f3leo aliment\u00edcio de primeira ordem, j\u00e1 analisado no Instituto Jos\u00e9 Augusto Trindade, uma torta depois de tirado o farelo, uma torta tem 36% de prote\u00edna, quando a carne verde de boi s\u00f3 tem 22%, e mais, esta tem 4% de \u00e1cido fosf\u00f3rico. Ora, uma planta que ocorre nativa numa \u00e1rea de cerca de mil km2, no Nordeste e produz estes valiosos produtos, por que n\u00e3o melhor\u00e1-la? O trigo n\u00e3o era um capim perdido l\u00e1 no centro da \u00c1sia e hoje n\u00e3o \u00e9 um cereal que alimenta a humanidade? O caf\u00e9 n\u00e3o era um arbusto perdido nas montanhas e hoje n\u00e3o \u00e9 a lavoura mais extensiva do mundo? O tomate e a batata inglesa eram duas ervinhas venenosas entre os altos dos Andes e hoje s\u00e3o as maiores culturas em peso do mundo! Se o homem transformou estas plantas, se todas as plantas que o homem hoje utiliza na agricultura vieram da natureza, eram selvagens, por que o Nordeste desperdi\u00e7ar estas \u00e1rvores nativas que s\u00e3o fontes de produto de alto valor aliment\u00edcio e mat\u00e9ria-prima para a ind\u00fastria, por que? Alegam alguns que demora, mas o que s\u00e3o dez anos numa civiliza\u00e7\u00e3o nordestina? A oiticica em oito anos estava reproduzindo todos os anos. A mesma coisa pode-se fazer com as outras plantas selvagens. Hoje, que a gen\u00e9tica tem muito mais conhecimento, a citologia est\u00e1 muito mais avan\u00e7ada, a troca de cromossomos \u00e9 muito mais conhecida, os agentes mutag\u00eanicos est\u00e3o surgindo cada dia nos laborat\u00f3rios, por que esta ci\u00eancia que levou o homem \u00e0 Lua e desintegrou o \u00e1tomo n\u00e3o pode ser aplicada para na agricultura matar a fome de milh\u00f5es de pessoas no mundo, por que?<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor diria que estes entraves que n\u00e3o s\u00e3o de fato limita\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, seria ent\u00e3o m\u00e1 vontade dos homens que dirigem o governo, seria falta de esclarecimento dos l\u00edderes, seria falta de dinheiro ,vontade pol\u00edtica, a que o senhor atribuiria?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Cada governo tem seus planos e estes planos eles querem levar at\u00e9 o fim de sua administra\u00e7\u00e3o. O problema das plantas xer\u00f3filas \u00e9 mais um problema de compreens\u00e3o para os t\u00e9cnicos, de um modo geral de todos os t\u00e9cnicos do Nordeste, para fazer ambiente, criar ambiente junto as administra\u00e7\u00f5es das autoridades federais e estaduais para que sejam feitos trabalhos experimentais. Um agr\u00f4nomo pregando as lavouras xer\u00f3filas, como eu estou pregando durante vinte anos, n\u00e3o consegue nada. \u00c9 preciso haver uma multid\u00e3o de gente que se entusiasme por isso. Por exemplo, o desenvolvimento econ\u00f4mico \u00e9 mais um mito de um povo que decide arrancar de si todas as for\u00e7as para vencer as pedras do caminho. Enquanto n\u00e3o houver o mito das lavouras xer\u00f3filas, n\u00e3o haver\u00e1 cultura xer\u00f3fila no Nordeste, porque estes grandes movimentos de grandes \u00e1reas, porque s\u00e3o mais de 10 regi\u00f5es naturais s\u00e3o mais de 10 esp\u00e9cies de planta, cada uma adequada a uma determinada regi\u00e3o. N\u00e3o adianta melhorar uma e deixar as outras, porque as outras regi\u00f5es tamb\u00e9m merecem. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso um programa amplo, um programa grande. Atualmente, o governo criou o Centro de Estudos do Tr\u00f3pico Semi\u00e1rido com sede em Petrolina. Essa entidade que come\u00e7ou a trabalhar agora, vai ter sede em Petrolina, Pernambuco e est\u00e1 cuidando de organizar um programa para estudos das plantas xer\u00f3filas. Eu acredito que com uma medida deste porte \u00e9 poss\u00edvel se obter alguma coisa nos pr\u00f3ximos 10 anos.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Como sente, onde foi que o senhor percebeu uma maior sensibilidade \u00e0s suas ideias?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil dizer. Nas confer\u00eancias, livros e entrevistas que tenha dado e eu n\u00e3o sei onde foi que houve maior repercuss\u00e3o. Na \u00faltima reuni\u00e3o, no Rio, do Centro de Estudos do Tr\u00f3pico Semi\u00e1rido, a ideia teve muito boa receptividade. Eles v\u00e3o adotar o programa e eu senti que naquela reuni\u00e3o j\u00e1 havia mais compreens\u00e3o do problema.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor nos falaria das dificuldades que encontrou com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas ideias iniciais para encontrar, vamos dizer assim, receptividade, acolhida?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Quando eu cheguei ao Nordeste em 1933, eu fui morar no Serid\u00f3, no A\u00e7ude Cruzeta, eu tive um choque muito grande, porque eu vim de Minas e encontrei o Serid\u00f3 muito seco, muito desnudo, muito erodido e muito cheio de pedras. Foi muito chocante para mim aquela estada no Serid\u00f3. Depois comecei a percorrer por necessidade de servi\u00e7o de outros Estados, e durante os anos fiquei ent\u00e3o com um conhecimento relativamente bom das condi\u00e7\u00f5es do interior dos estados, desde a Bahia at\u00e9 o Piau\u00ed. E eu verifiquei ent\u00e3o, comecei a verificar que o Nordeste n\u00e3o era uniformemente seco como diziam l\u00e1 no Sul \u201cTerra da Seca\u201d, mas que o Nordeste tinha aqui e acol\u00e1 ambiente ecol\u00f3gico muito diferente dos outros, ou melhor, tinhas regi\u00f5es naturais bem diversas e que a solu\u00e7\u00e3o do problema da seca, que foi primeiramente compreendida como uma solu\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, uma solu\u00e7\u00e3o pela \u00e1gua n\u00e3o era uma solu\u00e7\u00e3o completa. A necessidade de resolver cada problema local como ele se apresentava, indicava que a \u00e1gua \u00e9 importante no Nordeste, mas, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante como \u00e0 primeira vista se julgava. Basta ver a quantos s\u00e9culos o Rio S\u00e3o Francisco corre em terra semi\u00e1rida e somente agora, muito recentemente, ele come\u00e7a a ser irrigado. E l\u00e1, vive uma das popula\u00e7\u00f5es mais pobres do Nordeste. O Rio Parna\u00edba corre no Piau\u00ed numa extens\u00e3o de mais de 400 quil\u00f4metros, muita \u00e1gua! Ainda agora \u00e9 que se est\u00e1 come\u00e7ando a irriga\u00e7\u00e3o porque o que n\u00f3s come\u00e7amos l\u00e1 nos anos 30 e tantos, foi uma irriga\u00e7\u00e3o muito pequena e n\u00e3o foi continuada pelo meio do estado. Ent\u00e3o, n\u00f3s come\u00e7amos a desconfiar que embora a \u00e1gua fosse importante ela n\u00e3o \u00e9 tudo. Por exemplo: na \u00e9poca, o Estado do maranh\u00e3o, chuvoso, tinha uma renda \u201cper capita\u201d mais baixa do que o Rio Grande do Norte, seco. Por qu\u00ea? Ent\u00e3o se um Estado chuvoso como o Maranh\u00e3o tinha uma renda mais baixa do que um Estado seco, ent\u00e3o havia fatores outros mais importantes que a \u00e1gua, no subdesenvolvimento da regi\u00e3o. Era preciso procurar estes fatores. E eu, ent\u00e3o, comecei a procurar esses fatores e com o aux\u00edlio de 15 companheiros elaboramos um mapa das regi\u00f5es naturais do Nordeste com seus graus de aridez. \u00c9 o mapa que acompanhou o livro \u201cNordeste e as lavouras xer\u00f3filas\u201d, e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que a grande terra seca onde n\u00e3o chega a \u00e1gua da irriga\u00e7\u00e3o carecia de uma forma de agricultura t\u00edpica nordestina. Uma forma de agricultura que gostasse deste solo e deste c\u00e9u como eles s\u00e3o: eram as lavouras xer\u00f3filas. As lavouras que j\u00e1 os \u00edndios aqui aproveitavam os frutos e ainda hoje a\u00ed est\u00e3o, \u00e1rvores seculares, o umbuzeiro \u00e9 uma \u00e1rvore secular, a oiticica \u00e9 uma \u00e1rvore secular, a carna\u00faba \u00e9 uma \u00e1rvore secular que est\u00e3o dando safra desde que o homem branco chegou aqui e est\u00e3o a\u00ed, n\u00e3o morreram. Ent\u00e3o, por que n\u00e3o as aproveitar? Ent\u00e3o, da\u00ed nasceu a ideia de uma agricultura, de uma regi\u00e3o semi\u00e1rida ou regularmente seca que desse arbitrariedade ao agricultor e o sistema de melhoramento de pastagem nativa que desse garantia da alimenta\u00e7\u00e3o do gado aos criadores. Com isso \u00e9 poss\u00edvel enfrentar os impactos de uma seca, porque n\u00f3s estamos aproveitando o solo ecologicamente. Conhece o mapa das regi\u00f5es naturais do Nordeste com os graus de aridez? J\u00e1 viu? Pois bem, aquele mapa nos diz que n\u00f3s temos vinte milh\u00f5es de hectares adaptados para lavouras xer\u00f3filas, que n\u00f3s temos mais de quarenta milh\u00f5es de hectares adaptados para melhoramento de pasto. O Piau\u00ed at\u00e9 a Bahia, tem uma \u00e1rea de 120 milh\u00f5es de hectares, ou seja, um milh\u00e3o e duzentos mil quil\u00f4metros quadrados. Desta \u00e1rea, 75% dela, \u00e9 semi\u00e1rida, a \u00e1rea \u00famida \u00e9 a Regi\u00e3o da Mata da Bahia at\u00e9 a Parna\u00edba. Litoral \u00e9 a regi\u00e3o do agreste, serras e bacias de irriga\u00e7\u00e3o. Nessas terras \u00famidas n\u00e3o intensificar\u00edamos a produ\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros aliment\u00edcios e na terra seca, no interior, onde periodicamente falta chuva, onde n\u00e3o chega \u00e1gua de irriga\u00e7\u00e3o, esta grande \u00e1rea, extensas levas, n\u00f3s encher\u00edamos com lavouras xer\u00f3filas j\u00e1 melhoradas, j\u00e1 selecionadas e formar\u00edamos grandes bosques. Ent\u00e3o, n\u00f3s tornar\u00edamos o Nordeste mais verde, al\u00e9m de mais produtivo e mais agrad\u00e1vel e estas \u00e1rvores cobririam o solo para evitar a eros\u00e3o da chuva e a eros\u00e3o do vento.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a irriga\u00e7\u00e3o seria uma solu\u00e7\u00e3o parcial, n\u00e3o?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Sim, a irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o parcial porque n\u00f3s n\u00e3o podemos elevar a \u00e1gua a uma altura maior do que aquela que a economia indica. Segundo: as \u00e1reas planas do Nordeste s\u00e3o limitadas. Terceiro: a irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 de instala\u00e7\u00e3o muito cara e sendo de instala\u00e7\u00e3o muito cara \u00e9 preciso aproveit\u00e1-la com lavouras de grandes rendimentos.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor concorda com o fato de que o Cear\u00e1 est\u00e1 por inteiro dentro da \u00e1rea do Pol\u00edgono das Secas?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Sim, isto \u00e9 verdade porque a seca vem at\u00e9 a onda, at\u00e9 a praia, aqui. A seca de 1941 a\u00ed em Messejana, cacimba de dez, doze metros de profundidade secaram. Nunca tinham secado. Al\u00e9m disto o Cear\u00e1 n\u00e3o tem uma regi\u00e3o como a Regi\u00e3o da Mata de Pernambuco, n\u00e3o tem uma Regi\u00e3o de Agreste como o Agreste Pernambucano, que seja frut\u00edfera n\u00e3o tem. Tem o Sert\u00e3o, tem a Caatinga, tem o Cariri que \u00e9 parcialmente seco e tem as \u00e1reas \u00famidas da serra, onde h\u00e1 lavouras de cana, lavoura de caf\u00e9, mas \u00e1reas pequenas, de modo que eu considero todo o estado do Cear\u00e1 inclu\u00eddo no Pol\u00edgono das Secas, ecologicamente, est\u00e1 e deve estar no Pol\u00edgono das Secas.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Haveria algum planejamento de aproveitamento do caro\u00e7o de jaca, o senhor tem algum conhecimento&#8230;.<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Que eu saiba, n\u00e3o. Pode existir a\u00ed algum curioso trabalho em laborat\u00f3rio, mas eu desconhe\u00e7o qualquer trabalho de pesquisa nesse sentido. Agora, a jaca \u00e9 uma \u00e1rvore de clima \u00famido, quente-\u00famido. Ela n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rvore para plantio em larga escala aqui no Cear\u00e1, salvo nas regi\u00f5es \u00famidas das serras .Ent\u00e3o, \u00e0 primeira vista n\u00e3o parece vi\u00e1vel<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o de aproveitamento para as \u00e1reas \u00famidas da serra, se resolvessem industrializar o caro\u00e7o como a exemplo do que se faz com a castanha do caju?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O cajueiro d\u00e1 muito bem no litoral do Cear\u00e1. O cajueiro \u00e9 semi-xer\u00f3fila, ele resiste \u00e0 seca aqui nas condi\u00e7\u00f5es de litoral do Cear\u00e1. E, essa faixa de 30 Km de largura por 400 Km de extens\u00e3o na costa cearense, adapta-se muito bem \u00e0 cultura do caju. Agora, h\u00e1 problemas com a cultura do caju. \u00c9 o fungo que ataca a flor e reduz mais da metade das safras cada ano. \u00c9 preciso selecionar um tipo, uma variedade de cajueiro imune \u00e0 doen\u00e7a e ao fungo. Com a jaca, as possibilidades reais parecem remotas. S\u00f3 um aproveitamento local, mas n\u00e3o voltado \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o .Decerto na fabrica\u00e7\u00e3o de doces , servindo a um pequeno com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Uma outra coisa que eu gostaria de colocar para o senhor \u00e9 que eu vi na Revista Manchete o nome do senhor citado por um ecologista pernambucano que eu n\u00e3o consigo lembrar agora.<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Vasconcelos Sobrinho?<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Vasconcelos Sobrinho, este!. E, eu gostaria de saber at\u00e9 que ponto o senhor partilha das ideias dele a respeito da situa\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do Nordeste, da poss\u00edvel progressiva baixa de n\u00edvel da \u00e1gua do Rio S\u00e3o Francisco?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que est\u00e1 havendo um lento xerofilismo, uma lenta condi\u00e7\u00e3o de saariza\u00e7\u00e3o no Nordeste e de sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie no ambiente regional. Nesse ponto o Doutor Vasconcelos Sobrinho tem raz\u00e3o. Ele tem alertado para este problema porque n\u00e3o s\u00f3 a eros\u00e3o como tamb\u00e9m a devasta\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o tem contribu\u00eddo muito para a diminui\u00e7\u00e3o das fontes d\u2019\u00e1gua que abastecem os rios. Da\u00ed porque a vaz\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco est\u00e1 diminuindo. Acontece que partes do Rio S\u00e3o Francisco em Minas est\u00e1 muito devastado. O Rio est\u00e1 diminuindo de curso, ent\u00e3o, ele diz que a saariza\u00e7\u00e3o est\u00e1 penetrando no Brasil Central atrav\u00e9s do cerrado. Eu creio que em parte isso \u00e9 verdade, embora eu n\u00e3o conhe\u00e7a bem o cerrado de Goi\u00e1s, mas acredito que o cerrado \u00e9 uma regi\u00e3o meio seca, que sofre de per\u00edodos de pouca chuva. \u00c9 poss\u00edvel que essa saariza\u00e7\u00e3o esteja tamb\u00e9m penetrando na regi\u00e3o do cerrado.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Quem o senhor diria \u00e9 um outro grande ecologista do Brasil?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O professor Ferrer da Universidade de S\u00e3o Paulo tem escrito muito sobre, n\u00e3o s\u00f3 cerrado, mas sobre as caatingas do Nordeste. Ele, em mais de um per\u00edodo esteve aqui estudando a transpira\u00e7\u00e3o das plantas e a raz\u00e3o da resist\u00eancia das plantas \u00e0s secas. Eu esqueci de dizer que no per\u00edodo inicial do nosso trabalho, de 1933 at\u00e9 1939, n\u00f3s tivemos o concurso, xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Felipe xxxxxxxxxxxxxxxxxx que foi quem melhor estudou o xerofilismo da vegeta\u00e7\u00e3o nordestina. Ele tem trabalhos not\u00e1veis que foram mandados para a Alemanha e um grande xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx que foi mandado para Nova Iorque e a outra parte desse trabalho est\u00e1 na Escola de Agronomia do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Doutor Guimar\u00e3es, eu sei que o senhor inclusive j\u00e1 representou o Brasil em Davos, no Colorado, na Calif\u00f3rnia, participando de congressos internacionais, participando de simp\u00f3sios. Que contribui\u00e7\u00f5es o senhor acha que esses congressos deram para aumentar n\u00e3o s\u00f3 a sua experi\u00eancia, os seus conhecimentos, mas a t\u00edtulo de emprego pr\u00e1tico para a solu\u00e7\u00e3o do problema regional, nossos problemas, problemas do Cear\u00e1?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Nos Congressos internacionais, principalmente aqueles realizados em pa\u00edses adiantados, como foi o caso do IV Congresso Internacional de irriga\u00e7\u00e3o e depois o Congresso feito quando do Jubileu de Ouro do departamento de Secas dos Estados Unidos, esses congressos cientificamente avan\u00e7am muito os conhecimentos. Mas acontece que, nas regi\u00f5es subdesenvolvidas, como \u00e9 o caso do Nordeste, quando a gente volta, a gente sente a diferen\u00e7a de meio. Nem sempre tudo pode se aplicar aqui. O t\u00e9cnico que frequenta congressos internacionais precisa ter muita prud\u00eancia quando volta, na ado\u00e7\u00e3o de trabalhos aqui, porque o que \u00e9 bom para os Estados Unidos nem sempre \u00e9 bom para o Nordeste. O progresso tem que obedecer a realidade das comunidades nos seus anseios, nos seus deveres, nas suas necessidades priorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Sempre se fala na importa\u00e7\u00e3o de modelos para a solu\u00e7\u00e3o dos problemas brasileiros, quer regionais, quer se tomando o Brasil como um todo. Quando se fala em seca no Cear\u00e1, ouve-se que n\u00e3o se soluciona o problema porque h\u00e1 uma falta de interesse geral e de esfor\u00e7o individual e ouvimos sempre: \u201c Olha o caso de Israel onde h\u00e1 macieiras no deserto\u201d. O que \u00e9 que o senhor pensa disso?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Israel \u00e9 um pa\u00eds muito pequenino, que est\u00e1 sendo colonizado por homens de alta sabedoria. M\u00e9dicos, advogados, agr\u00f4nomos, cientistas, professores, homens de alto n\u00edvel que est\u00e3o imbu\u00eddos Da m\u00edtica de formar a sua p\u00e1tria, que est\u00e3o imbu\u00eddos do ideal de criar l\u00e1 a terra deles a todo vapor. Recebem dinheiro, contribui\u00e7\u00f5es de todos os judeus do mundo. Ent\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es de Israel s\u00e3o muito diferentes das condi\u00e7\u00f5es do Nordeste, porque aqui o que n\u00f3s temos \u00e9 um conjunto de homens do governo, um conjunto de homens t\u00e9cnicos de administra\u00e7\u00e3o, mas uma grande massa de popula\u00e7\u00e3o de escassos conhecimentos para corresponder aos planos do executivo do governo. N\u00f3s n\u00e3o temos aqui os recursos por \u00e1rea que tem Israel. Ent\u00e3o, n\u00e3o se pode comparar Israel com o Nordeste. O que n\u00f3s precisamos \u00e9 de um processo de agricultar a terra que seja t\u00edpico do Cear\u00e1 e do Nordeste. N\u00e3o adianta n\u00f3s querermos trazer de fora as solu\u00e7\u00f5es que muitas vezes n\u00e3o podem ser aceitas e em geral n\u00e3o s\u00e3o aceitas pelo nosso povo do sert\u00e3o. Porque muitas vezes quando o agr\u00f4nomo inadvertidamente aconselha uma determinada pr\u00e1tica ao lavrador, ele diz: \u201cIsso \u00e9 bom, senhor, mas n\u00e3o \u00e9 bom para as minhas condi\u00e7\u00f5es\u201d. Ent\u00e3o, o que \u00e9 preciso \u00e9 ouvir o homem simples do sert\u00e3o, nos seus anseios, nas suas necessidades e ajud\u00e1-lo naquilo que ele julga priorit\u00e1rio e n\u00e3o aquilo que o agr\u00f4nomo ou o t\u00e9cnico julga priorit\u00e1rio .\u00c9 uma quest\u00e3o de aceita\u00e7\u00e3o da realidade e aceitar transform\u00e1-la aos poucos.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o senhor veria fundamentalmente a\u00ed uma explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00e9cnica para o caso de Israel, concorda?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>\u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o em parte t\u00e9cnica, em parte pol\u00edtica e em parte econ\u00f4mica, porque h\u00e1 um afluxo de dinheiro, h\u00e1 um mito pol\u00edtico religioso e h\u00e1 um povo preparado e inspirado num objetivo..<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que com rela\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo do agr\u00f4nomo com o homem do campo n\u00e3o haveria uma falha na forma\u00e7\u00e3o do agr\u00f4nomo? O que talvez sobrasse no cientista social, um poss\u00edvel relacionamento melhor com as pessoas do campo, talvez faltasse ao agr\u00f4nomo. Ele est\u00e1 preparado muito bem no aspecto t\u00e9cnico, mas quanto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Quando eu me formei, nos idos de 1928, o ensino agr\u00edcola era deficiente. As rela\u00e7\u00f5es entre estudante e o homem do campo eram n\u00e3o muito boas do ponto de vista da pr\u00e1tica agr\u00edcola. Atrav\u00e9s dos tempos houve pouca melhoria no ensino pr\u00e1tico do agr\u00f4nomo nas nossas escolas quanto ao seu relacionamento com o homem da produ\u00e7\u00e3o, o lavrador. Via de regra, n\u00e3o s\u00f3 o agr\u00f4nomo, mas tamb\u00e9m o engenheiro e o m\u00e9dico, porque todos t\u00eam influ\u00eancia sobre a agricultura, eles conhecem relativamente pouco as condi\u00e7\u00f5es de vida da nossa gente, t\u00eam pouca habilidade e pouca diplomacia para angariar amizade, angariar a confian\u00e7a e a coopera\u00e7\u00e3o da gente do campo. Um agr\u00f4nomo rec\u00e9m-formado ele n\u00e3o deve ou n\u00e3o pode logo se transformar num extensionista. Ele precisa trabalhar primeiramente num setor que n\u00e3o aquele de relacionamento com o lavrador, para ele adquirir mais experi\u00eancia e fazer um curso de rela\u00e7\u00f5es humanas para melhor compreender as condi\u00e7\u00f5es das comunidades do interior, e que aquilo que o povo mais deseja \u00e9 aquilo que via de regra n\u00f3s devemos auxili\u00e1-lo, n\u00e3o aquilo que n\u00f3s queremos, porque s\u00e3o eles que vivem l\u00e1 e que sentem o problema na carne.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Como professor universit\u00e1rio, acha que a Universidade tem desempenhado bem o seu papel? Quanto a extens\u00e3o, por exemplo?<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>Falo da extens\u00e3o ligada \u00e0 solu\u00e7\u00e3o do problema que n\u00f3s estamos falando, na cria\u00e7\u00e3o dos t\u00e9cnicos e medidas adequadas..<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>As nossas Universidades herdaram um defeito antigo das Universidades primeiramente formadas no Brasil. Eram elas, Universidades de ensino muito te\u00f3rico. Tem melhorado bastante o ensino te\u00f3rico com o ensino pr\u00e1tico, mas est\u00e1 demorando muito a harmoniza\u00e7\u00e3o da experimenta\u00e7\u00e3o da Universidade com a extens\u00e3o na parte agr\u00edcola. Eu acho que n\u00f3s j\u00e1 dev\u00edamos a essa altura, termos uma experimenta\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria mais harm\u00f4nica com a extens\u00e3o ou com as pr\u00e1ticas do lavrador. Na Am\u00e9rica do Norte a experimenta\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u00e9 feita pelas Universidades e o servi\u00e7o de extens\u00e3o \u00e9 coordenado com as Universidades. No Brasil est\u00e1 custando muito. Eu n\u00e3o sei se s\u00e3o as sucessivas reformas de ensino que t\u00eam causado isso, talvez seja. Ou seja, tamb\u00e9m aquela falta de contato dos homens da Universidade com o ambiente sertanejo, uma conviv\u00eancia mais \u00edntima para sentir melhor os seus problemas e a prioridade das quest\u00f5es do ruralismo \u00e9 que tem dificultado esse entendimento.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>E quanto a a\u00e7\u00f5es ou sobre a a\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os como o DNOCS, o BNB que v\u00ea assim&#8230; os problemas do Nordeste de uma maneira bem geral, e n\u00e3o somente os problemas do Cear\u00e1 e ainda a atua\u00e7\u00e3o da Sudene. Como o senhor situaria, a atua\u00e7\u00e3o de cada um desses \u00f3rg\u00e3os?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>At\u00e9 onde eu sei no momento, a atua\u00e7\u00e3o da Sudene, do BNB, do DNOCS tem sido at\u00e9 um certo ponto satisfat\u00f3ria. Acontece que foram criados no governo central tantos \u00f3rg\u00e3os l\u00e1 em Bras\u00edlia, e existem tantos \u00f3rg\u00e3os financiadores, e aqui no Nordeste tantos \u00f3rg\u00e3os executores que esse grande n\u00famero de \u00f3rg\u00e3os somados, est\u00e1 tornando dif\u00edcil a execu\u00e7\u00e3o dos conv\u00eanios.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o seria um problema administrativo, de organiza\u00e7\u00e3o administrativa?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei se \u00e9 um problema administrativo ou um problema pol\u00edtico, o que eu sei \u00e9 o seguinte: n\u00f3s temos leis demais, n\u00f3s temos decretos demais, n\u00f3s temos \u00f3rg\u00e3os administrativos, \u00f3rg\u00e3os executivos, \u00f3rg\u00e3os financiadores em n\u00famero demasiado e quando aumenta o n\u00famero para o brasileiro que \u00e9 pouco amigo da coopera\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, os trabalhos em coopera\u00e7\u00e3o tornam-se mais dif\u00edceis. Um projeto por exemplo, demora mais tempo a ser executado do que devia demorar, um projeto custa mais caro do que deveria custar e eu julgo que o n\u00famero excessivo de \u00f3rg\u00e3os talvez seja uma das causas.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco fal\u00e1vamos sobre a quest\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o de modelos. O que me diria sobre a miss\u00e3o francesa, sobre a atua\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o francesa no vale do Jaguaribe?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o francesa, ela executou trabalho de estudos, fez estudo sobre \u00e1gua, sobre solo, sobre vegeta\u00e7\u00e3o, organizou mapas, etc., e repentinamente os servi\u00e7os foram suspensos e a miss\u00e3o retirou-se. Deixou trabalhos mimeografados sobre esses estudos, mas s\u00e3o estudos e n\u00e3o ainda realiza\u00e7\u00f5es de obras. De modo que eu reputo muito parcial, n\u00e3o sei se a culpa foi nossa ou foi deles. Rendeu poucos frutos.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor est\u00e1 entre os que consideram que o conceito de minif\u00fandio n\u00e3o \u00e9 um conceito f\u00edsico? O que r pensa a respeito da quest\u00e3o de minif\u00fandios, dessa pol\u00edtica de divis\u00e3o de terras em Morada Nova?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O minif\u00fandio, ele tem um car\u00e1ter f\u00edsico. \u00c9 o tamanho muito pequenino de uma determinada \u00e1rea ocupada por uma fam\u00edlia. As consequ\u00eancias do minif\u00fandio geram a pobreza da fam\u00edlia, porque o minif\u00fandio n\u00e3o pode dar rendimentos, \u201csuper\u00e1vit\u201d. \u00c9 sempre deficit\u00e1rio. Ele resultou&#8230; o minif\u00fandio \u00e9 resultante das subdivis\u00f5es de heran\u00e7as, das compras de pequenas glebas. Com o aumento da popula\u00e7\u00e3o foi se adensando esses grupos como acontece no munic\u00edpio de Caruaru, Pernambuco, em que a situa\u00e7\u00e3o chegou a tal ponto que l\u00e1 ou faz uma industrializa\u00e7\u00e3o para dar trabalho, ou estimula o artesanato. Ou ent\u00e3o, leva uma parte daqueles mini fundi\u00e1rios para a coloniza\u00e7\u00e3o do Amazonas e aumenta as \u00e1reas cultivadas por cada fam\u00edlia sob o sistema cooperativista. \u00c9 o que eu penso do minif\u00fandio. Agora, nas bacias de irriga\u00e7\u00e3o o governo federal divide os lotes para as fam\u00edlias. Tem uma parte que \u00e9 irrigada e uma outra parte seca, fora da irriga\u00e7\u00e3o para efeito de pastagem, efeito de lavoura resistente \u00e0 seca e tamb\u00e9m fonte de lenha.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>E quanto a pecu\u00e1ria, ao problema de pastos para a pecu\u00e1ria?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>A pecu\u00e1ria \u00e9 muito importante no Nordeste e o melhoramento de pastos \u00e9 decisivo para o bom \u00eaxito da cria\u00e7\u00e3o de gado, porque \u00e9 a fonte mais barata de alimentos. Nas secas o gado come farelo de algod\u00e3o, mas a pre\u00e7o exorbitante, n\u00e3o compensa. Nas regi\u00f5es em que a palma forrageira cresce bem. As regi\u00f5es de noites \u00famidas, a palma oferece um meio de misturar com capim seco, misturar com o caro\u00e7o do algod\u00e3o para alimentar o gado. Mas, naquelas regi\u00f5es de noites&#8230; de ar muito seco, noites quentes, a palma n\u00e3o prospera bem, ent\u00e3o, o pasto seca mais r\u00e1pido. O que \u00e9 preciso \u00e9 um melhoramento de pasto em escala muito grande. N\u00f3s temos mais de 40 milh\u00f5es de hectares de pastos que precisam ser melhorados no Nordeste para sustentar a pecu\u00e1ria em crescimento. Se n\u00f3s fizermos o melhoramento de pastos de 2 milh\u00f5es de hectares por ano, n\u00f3s gastaremos 20 anos para melhorar os pastos do Nordeste. E assim sendo, eu j\u00e1 calculei que come\u00e7ando agora, somente em 1987, n\u00f3s teremos forragem bastante para o nosso gado em crescimento, que est\u00e1 aumentando. E somente em 1993 n\u00f3s teremos forragem bastante para guardar feno e guardar silagem, alimentar o gado. Ent\u00e3o, \u00e9 um problema urgent\u00edssimo, come\u00e7ar j\u00e1, neste instante, o melhoramento das pastagens, porque est\u00e1 faltando alimenta\u00e7\u00e3o proteica para o povo. A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 crescendo muito e embora a pesca tamb\u00e9m esteja aumentando, a pesca nos a\u00e7udes, pesca no mar, mas a grande fonte proteica \u00e9 ainda o pasto, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de bovinos, caprinos etc.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>E a cria\u00e7\u00e3o do gado pr\u00f3ximo ao algod\u00e3o, o que o senhor pensa disso?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O fazendeiro usa cultivar o algod\u00e3o e quando colhe algod\u00e3o ele coloca o gado no algodoal para aproveitar a forragem e o capim entre os p\u00e9s de algod\u00e3o. Porque algod\u00e3o moc\u00f3 sendo arb\u00f3reo admite somente limpar o terreno antes da colheita e fica ent\u00e3o a vegeta\u00e7\u00e3o de capim para alimentar o gado. O \u00eaxito depende de quanto tempo aquele gado pasta dentro do algodoal. Levado a um longo prazo, no ano seguinte a produ\u00e7\u00e3o cai muito. Se for de pouco tempo ainda h\u00e1 possibilidade com chuva, do algod\u00e3o reabilitar-se. O fazendeiro muitas vezes \u00e9 obrigado a colocar o gado entre o algod\u00e3o, por necessidade, porque n\u00e3o tem mais pasto.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor estipularia esse prazo de tempo?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Eu acho que o gado n\u00e3o&#8230; depois da colheita do algod\u00e3o o gado n\u00e3o pode ficar no algodoal mais de dois ou tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Dentro dos trabalhos que o senhor publicou e dos pontos de vista que o senhor esposou nesses trabalhos, quais deles considera mais importantes, algum deles deveria ser reformulado?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Sobre que assunto, algum espec\u00edfico?<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Sobre.os trabalhos do senhor de um modo geral. Qual lhe parece ser o mais importante de seus trabalhos?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Eu acho que foi o livro \u201cO Nordeste e a lavoura xer\u00f3fila\u201d com o mapa das regi\u00f5es naturais e seu grau de aridez. O livro \u201cSolo e \u00e1gua no Pol\u00edgono das Secas\u201d \u00e9 um livro de car\u00e1ter mais geral. Pode ser sempre consultado e gostei de escrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao \u201cO homem e a produ\u00e7\u00e3o\u201d, publicado pela Secretaria da Agricultura da Para\u00edba, muitos falam deste seu trabalho&#8230;.<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Este foi um livreto em que, quando secret\u00e1rio da Agricultura abordei em parte, o problema agr\u00edcola da Para\u00edba, est\u00e1 esgotado. Foi s\u00f3 o problema de coloniza\u00e7\u00e3o do Vale \u00famido da Para\u00edba. Quem estuda a fixa\u00e7\u00e3o do homem ao solo naquela regi\u00e3o sempre se interessa por ele.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Parece que acontece o mesmo sobre a aprecia\u00e7\u00e3o feita sobre os solos do Nordeste que \u00e9 Separata dos Anais do Instituto do Nordeste, 1950.<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Esse estudo procura uma primeira&#8230; vamos dizer&#8230; uma primeira classifica\u00e7\u00e3o&#8230; ou n\u00e3o \u00e9 bem assim&#8230; primeiro a aprecia\u00e7\u00e3o sobre os solos do ponto de vista de que eles podem reduzir a fertilidade parcial de certas \u00e1reas, o problema da irriga\u00e7\u00e3o na bacia dos a\u00e7udes, e a quest\u00e3o das \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o sedimentar. Os solos nordestinos, considerando da Bahia at\u00e9 o Piau\u00ed, variam demais, desde os tipos intemperizados at\u00e9 os solos mais \u00e1cidos das regi\u00f5es sedimentares do Piaui.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Alguma reformula\u00e7\u00e3o de algum ponto de vista do senhor nesses trabalhos? O senhor prepara algum novo trabalho?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>No momento, n\u00e3o. Eu j\u00e1 tinha come\u00e7ado um livro, j\u00e1 tinha bem avan\u00e7ado, mas n\u00e3o pude publicar e agora tenho que rever a parte estat\u00edstica e por isso eu j\u00e1 perdi o \u00e2nimo de fazer .Sempre me ocupo com o aproveitamento racional dos recursos do Nordeste, tanto dos h\u00eddricos como os pedol\u00f3gicos do Nordeste. Fiz agronomia por voca\u00e7\u00e3o e \u00e9 um desafio viver e trabalhar numa regi\u00e3o t\u00e3o diversa da minha em Lima Duarte ,onde eu nasci.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida. E o assunto do livro que o senhor pretendia fazer, iria se prender a qual desses aspectos do Nordeste?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Era a uma perspectiva do desenvolvimento do Nordeste, mas neste mesmo tempo a equipe do Banco do Nordeste fez um estudo muito profundo das perspectivas do desenvolvimento da regi\u00e3o, de modo que eu parei com meu trabalho .Estou sempre me ocupando em externar as minhas ideias e esperando que elas se tornem \u00fateis.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Bom, j\u00e1 que o senhor iria falar das perspectivas de desenvolvimento do Nordeste, que tal o senhor nos dar uma alternativa para o desenvolvimento do Cear\u00e1, alguma sugest\u00e3o?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>O desenvolvimento do Cear\u00e1 est\u00e1 caminhando mais ou menos bem quanto \u00e0 parte de industrializa\u00e7\u00e3o, infraestrutura etc. O problema \u00e9 o problema agr\u00edcola. A quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros aliment\u00edcios e mat\u00e9rias-primas para a ind\u00fastria. E o Cear\u00e1 como Estado muito seco precisa desenvolver rapidamente as lavouras xer\u00f3filas e melhorar a pastagem para poder dar impulso ao setor prim\u00e1rio. O setor secund\u00e1rio e o setor terci\u00e1rio est\u00e3o se desenvolvendo, mas o freio do desenvolvimento do Cear\u00e1 est\u00e1 no setor prim\u00e1rio, que \u00e9 o da agricultura e pecu\u00e1ria. \u00c9 preciso cuidar muito seriamente de uma produ\u00e7\u00e3o regular, mesmo nas secas, uma pecu\u00e1ria que n\u00e3o sofra o embate, que tenha bons pastos durante o per\u00edodo de estiagem para dar estabilidade. Porque enquanto houver a instabilidade haver\u00e1 flagelados, embora as cidades estejam sendo industrializadas.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O senhor acrescentaria alguma coisa nessa sugest\u00e3o? Acha por exemplo que haveria ou deveria haver um melhor planejamento por parte do governo?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou a par dos \u00faltimos governos depois que eu me aposentei e eu n\u00e3o tenho acompanhado os planos dos governos. De modo que eu n\u00e3o estou capaz de fazer uma aprecia\u00e7\u00e3o plena sobre esses planos. Agora, uma coisa que eu lembraria \u00e9 a necessidade de prepara\u00e7\u00e3o de pessoal de n\u00edvel m\u00e9dio e de n\u00edvel inferior. Por exemplo, capataz rural, t\u00e9cnico agr\u00edcola de n\u00edvel m\u00e9dio para ajudar o agr\u00f4nomo nas suas tarefas junto ao lavrador. Temos poucas escolas de inicia\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e de n\u00edvel t\u00e9cnico e essas escolas \u00e0s vezes precisam ser muito melhoradas para preparar o capataz rural, que n\u00e3o seja desambientado da fazenda, que fa\u00e7a seu curso, que aprenda l\u00e1 e volte a trabalhar na fazenda. Isto me parece fundamental.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>O que o senhor mais gostaria de acrescentar a essa nossa conversa, o que consideraria importante deixar registrado?<\/p>\n<p>G.D.<\/p>\n<p>H\u00e1 um desejo muito grande da parte do governo, governo central e do governo dos estados, nos seus planejamentos, nos seus esfor\u00e7os de cima para baixo, de um desenvolvimento mais acelerado do pa\u00eds. Mas, eu noto que de baixo para cima, n\u00e3o h\u00e1 uma correspond\u00eancia por parte do povo, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 sendo t\u00e3o eficaz como deveria ser. Esse entrosamento dos planos governamentais com as necessidades locais depende muito de ouvir a popula\u00e7\u00e3o das comunidades. N\u00f3s fazemos um melhoramento num determinado princ\u00edpio, n\u00e3o podemos fazer de acordo com o que o povo quer, e n\u00e3o aquilo que n\u00f3s achamos que deve ser feito. Ent\u00e3o, este entrosamento, essa harmonia entre o comando de planejamento de cima para baixo, do governo central, governos estaduais, ia de encontro \u00e0 vontade, o desejo, os anseios do povo c\u00e1 em faixo, precisa ser melhorado. Isso \u00e9 o que eu noto de mais importante e eu penso que os governos estaduais, o governo central atrav\u00e9s dos seus \u00f3rg\u00e3os, dos seus projetos, precisa ouvir mais os desejos, os anseios e as vontades das comunidades locais.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>N\u00f3s agradecemos a gentileza de sua colhida. Agradecemos a sinceridade das informa\u00e7\u00f5es que o senhor nos prestou. Agradecemos a esta entrevista com o Doutor Guimar\u00e3es Duque, no dia 05 de agosto de 1976, realizada em sua resid\u00eancia ,\u00e0 rua Carapinima, em Fortaleza-Cear\u00e1.<\/p>\n<p>L.F.<\/p>\n<p>Doutor Guimar\u00e3es Duque, embora n\u00f3s saibamos muitos dos seus dados biogr\u00e1ficos, nada mais interessante do que o senhor mesmo contar para n\u00f3s onde nasceu, o nome de sua esposa, dos seus filhos, algum epis\u00f3dio interessante da sua inf\u00e2ncia, ou qualquer outro dado que o senhor considere interessante ou importante a uma biografia do senhor para o futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fortaleza, 05 de agosto de 1976 Entrevista com o Dr. Jos\u00e9 Guimar\u00e3es Duque, agr\u00f4nomo, detentor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1947,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[308],"tags":[],"class_list":["post-1732","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-memoria-das-secas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1732"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1732\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1948,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1732\/revisions\/1948"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}