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{"id":1703,"date":"2014-11-29T13:23:20","date_gmt":"2014-11-29T13:23:20","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1703"},"modified":"2021-02-02T23:47:52","modified_gmt":"2021-02-02T23:47:52","slug":"o-anticomunismo-na-igreja-da-zona-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2014\/11\/29\/o-anticomunismo-na-igreja-da-zona-sul\/","title":{"rendered":"O Anticomunismo na Igreja da Zona Sul"},"content":{"rendered":"<p>A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da hierarquia cat\u00f3lica na diocese do Crato, na Zona Sul do Cear\u00e1, come\u00e7ou tarde.<\/p>\n<p>Tr\u00eas ocorr\u00eancias podem ser levantadas para justificar esse atraso:<\/p>\n<p>1\u00aa &#8211; A chamada Quest\u00e3o Religiosa de Juazeiro do Norte, iniciada em 1889 e somente encerrada com o falecimento do seu protagonista, padre C\u00edcero Rom\u00e3o Batista, em 1934.<\/p>\n<p>2\u00aa &#8211; A destrui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia de vida comunit\u00e1ria, movida pela cren\u00e7a religiosa, posta em pr\u00e1tica pelo beato Jos\u00e9 Louren\u00e7o G\u00f3es da Silva, no s\u00edtio Caldeir\u00e3o, por tropas da Pol\u00edcia Militar do Cear\u00e1 e por uma esquadrilha do Governo Federal, cedida pelo Minist\u00e9rio da Guerra para bombardear a Serra do Araripe.<\/p>\n<p>3\u00aa &#8211; Os vexames vividos por alguns sacerdotes de proje\u00e7\u00e3o, na regi\u00e3o, como o padre Ant\u00f4nio de Ara\u00fajo, durante o Estado Novo (1937), por causa do seu Integralismo exaltado, gerando, em conseq\u00fc\u00eancia, a priva\u00e7\u00e3o da sua liberdade.<\/p>\n<p>Entretanto, a aus\u00eancia da Junta Diocesana da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, somente instalada a 19 de mar\u00e7o de 1939, sete anos ap\u00f3s a sua implanta\u00e7\u00e3o em Fortaleza\u00a0 em Sobral, n\u00e3o impediu o combate, aos inimigos da Igreja, notadamente ao Comunismo.<\/p>\n<p>A A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica foi entregue ao professor do Semin\u00e1rio S\u00e3o Jos\u00e9, Jos\u00e9 Bezerra de Brito, um leigo profundamente identificado com a ideologia cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Analisemos a segunda ocorr\u00eancia, de maior repercuss\u00e3o no contexto do nosso estudo.<\/p>\n<p><strong>O\u00a0 Comunismo\u00a0 primitivo\u00a0 do\u00a0 Caldeir\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Louren\u00e7o Gomes da Silva, o beato Jos\u00e9 Louren\u00e7o, \u00e9 presen\u00e7a notada em Juazeiro do Norte, em 19, juntamente com os seus pais e tr\u00eas irm\u00e3s, quando os \u201cmilagres\u201denvolvendo o padre C\u00edcero Rom\u00e3o Batista\u00a0 a beata Maia de Ara\u00fajo atingem o cl\u00edmax<\/p>\n<p>Levas de romeiros, de todos os Estados do Nordeste, se deslocavam para a Meca do Cariri, atra\u00eddos pelos efeitos de uma religi\u00e3o popular, cat\u00f3lica, idealizada para transformar a cidade \u201cnuma nova Jerusal\u00e9m\u201d, onde n\u00e3o faltavam o cen\u00e1rio de uma serra, a do Catol\u00e9, para simbolizar o novo \u201chorto do calv\u00e1rio\u201d e um rio, o salgadinho, originado nas encostas da Serra do Catol\u00e9, \u201co Rio Jord\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Moreno, esguio, pacifista por \u00edndole, iniciado na \u201cOrdem dos Penitentes\u201d, como beato, Jos\u00e9 Louren\u00e7o, na passagem do s\u00e9culo, tinha arrendado\u00a0 s\u00edtio Baixa da Anta, no munic\u00edpio do Crato, pr\u00f3ximo a Juazeiro do Norte, de propriedade de Jo\u00e3o de rito, e exatamente \u00e0 parte onde as terras eram \u00e1ridas, improdutivas, in\u00f3spitas.<\/p>\n<p>Com muito trabalho e ora\u00e7\u00e3o, disciplina e f\u00e9, Jos\u00e9 Louren\u00e7o come\u00e7ou a cultiva a terra, com a ajuda de grupos de lavradores sem terras, fanatizados pelas fant\u00e1sticas hist\u00f3rias contadas sobre Juazeiro e seus \u201cmilagres\u201d, os quais consistiam na \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d, em algumas vezes, da h\u00f3stia sagrada em sangue por ocasi\u00e3o em que a comunh\u00e3o era ministrada pelo padre C\u00edcero \u00e0 beata Maria de Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Numa d\u00e9cada, o que era in\u00f3spito se transformou \u201cnum belo pomar, frutejando, em pleno desenvolvimento, plantados em ordem alguns milhares de laranjeiras, mangueiras, jaqueiras, limeiras, abacateiros, mamoeiros, bananeiros e cafeeiros, ao lado de uma bem cuidada cultura de algod\u00e3o, cereais e outras diferentes qualidades de plantas e hortali\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>1- FIGUEIREDO,Jos\u00e9 Alves. O Beato Jos\u00e9 Louren\u00e7o e sua a\u00e7\u00e3o no Cariri.In BRAGA,Renato. Dicion\u00e1rio Geogr\u00e1fico\u00a0 Hist\u00f3rico do Cear\u00e1. Fortaleza: Imprensa Universit\u00e1ria do Cear\u00e1, 196, p.184<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>At\u00e9 1914, o beato Jos\u00e9 Louren\u00e7o trabalhava a terra com a ajuda de um n\u00famero expressivo de romeiros, advent\u00edcios de outros Estados do Nordeste, e j\u00e1 agora, de lavradores tamb\u00e9m do Vale do Cariri, sem terras, explorados pelos propriet\u00e1rios de engenhos de rapadura e de casas de farinha da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Pela sua capacidade de trabalho, brandura, religiosidade e total ades\u00e3o ao patriarca de Juazeiro do Norte, de quem se tornaram pessoa de absoluta confian\u00e7a, a ponto de oferecer trabalho e moradia a dezenas de perseguidos, foragidos, injusti\u00e7ados, criminosos e desertores do regime de explora\u00e7\u00e3o do trabalho semi-escravizado no campo, Jos\u00e9 Louren\u00e7o viu seu o\u00e1sis expandir-se a ponto de gerar inveja e preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual a raz\u00e3o do milagre? A f\u00e9,\u00a0 disciplina, o trabalho e a ora\u00e7\u00e3o, sem contar gestos de grandeza e caridade para com os desvalidos, os \u00f3rf\u00e3os, os perseguidos. Usando a t\u00e9cnica o mutir\u00e3o e um sistema de redistribui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o bem pr\u00f3ximo do Comunismo primitivo, semi-analfabeto, voltado apenas para a hist\u00f3ria da vida dos santos, padre C\u00edcero \u00e0 frente, conduzia a sua irmandade no rumo de uma\u00a0 a uma \u201cCidade de Deus\u201d, composta de beatos, fan\u00e1ticos, penitentes, ou seja, o caldo da cultura religiosa popular que o catolicismo antigo alimentou.<\/p>\n<p>Um presente recebido pelo Padre C\u00edcero Rom\u00e3o Batista e transferido para o S\u00edtio Baixa da Anta \u2013 um touro da ra\u00e7a zebu \u2013 resultou em cuidados excessivos, por parte da comunidade de agricultores fanatizados, extrapolados para cenas de totemismo.<\/p>\n<p>Defensor de Jos\u00e9 Louren\u00e7o, de quem se tornou amigo e conselheiro nos momentos de dificuldades por que passava o beato, Jos\u00e9 Alves de Figueiredo, um farmac\u00eautico nascido o Crato, mas estabelecido nessa \u00e9poca, em Santana do Cariri, \u00e1rea pr\u00f3xima ao\u00a0 S\u00edtio Baixa da Anta, resume a origem\u00a0 do culto ao animal.<\/p>\n<p>Figueiredo identificam Jos\u00e9 Louren\u00e7o um esp\u00edrito met\u00f3dico e afetivo, capaz de tratar os animais de estima\u00e7\u00e3o (cavalo, ato, c\u00e3o, p\u00e1ssaros) com muito zelo, quanto mais animal que lhe confiara a guarda o padre C\u00edcero, ganhando, por isso , o boi \u201cmansinho\u201d, est\u00e1bulo especial e tratadores dedicado. Da\u00ed para o culto ao animal foi um salto:<\/p>\n<p>\u201cFan\u00e1ticos mais exagerados, supondo com isso lisonjearem Padre C\u00edcero,enfeitavam<\/p>\n<p>os chifres do \u201cmansinho\u201d com grinaldas de flores, havendo entre essa gente\u00a0 bronca<\/p>\n<p>quem\u00a0 lhe\u00a0 fizesse\u00a0 oblatos\u00a0 e\u00a0\u00a0 bebesse-lhe\u00a0 a urina como rem\u00e9dio eficaz para diversos<\/p>\n<p>males.\u201d2<\/p>\n<p>Esse exemplo de totemismo exagerado tornou-se p\u00fablico em 1922, exatamente\u00a0 quando Juazeiro do Norte era centro, mais um vez,\u00a0 disputas pol\u00edticas por parte de grupos litigantes.A hist\u00f3ria do culto ao boi come\u00e7ou a refletir negativamente em Juazeiro, no padre C\u00edcero e no condutor da pol\u00edtica local, o deputado federal Floro Bartolomeu da Costa.<\/p>\n<p>Floro Bartolomeu havia chegado aa Juazeiro em 1908, em companhia de um nobre deca\u00eddo franc\u00eas, o conde Adolfo Van Den Bule, atra\u00eddos pelas informa\u00e7\u00f5es sobre reservas aur\u00edferas na regi\u00e3o. Graduado em Medicina, tendo exercido a profiss\u00e3o em alguns munic\u00edpios do seu Estado\u00a0 natal, a\u00a0 Bahia, e em outras \u00e1reas do Nordeste, Floro era um aventureiro em busca de riqueza.<\/p>\n<p>Nas suas andan\u00e7as, como m\u00e9dico-itinerante pelos sert\u00f5es do Nordeste, descobriu o conde, outro aventureiro, engenheiro de minas em busca de fil\u00f5es\u00a0 aur\u00edferos para tamb\u00e9m\u00a0 explorar. Os dois fincaram domic\u00edlio na regi\u00e3o e passaram a viver uma aventura na qual Floro se tornou l\u00edder pol\u00edtico, \u201cemin\u00eancia parda\u201d do padre C\u00edcero, deputado estadual, deputado federal e, mais que isso, um justiceiro inclemente contra ladr\u00f5es, desordeiros, criminosos desocupados e conturbadores da ordem p\u00fablica, desembarcados em Juazeiro. O conde n\u00e3o teve a mesma sorte. Seus projetos involu\u00edram.<\/p>\n<p>Para acabar de vez com o culto ao boi, Floro Bartolomeu mandou prender Jos\u00e9 Louren\u00e7o e matar o boi em frente \u00e0 delegacia de pol\u00edcia, em plena via p\u00fablica, distribuindo carne \u2013 que os seguidores do boi consideram \u201csanta\u201d com populares e com os presos da delegacia, a come\u00e7ar por Jos\u00e9 Louren\u00e7o. Por v\u00e1rias vezes, tentou humilhar o beato, insistindo na id\u00e9ia de que ele comesse a carne do \u201cboi santo\u201d, n\u00e3o conseguindo esse tento.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Depois de dezessete dias preso, o padre C\u00edcero foi pessoalmente \u00e0 delegacia libert\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o desse fato, o aumento do contingente populacional concentrado na Baixa da Anta, a seis quil\u00f4metros de Juazeiro,s\u00edtio localizado nos escarpados terrenos da Serrado Catol\u00e9, fizeram o seu propriet\u00e1rio, Jo\u00e3o de Brito, vender a propriedade inteira, incluindo a \u00e1rea transformada pelo beato num pomar. O novo propriet\u00e1rio exigiu\u00a0 desocupa\u00e7\u00e3o imediata do terreno.<\/p>\n<p>Em 1926, moro Flor Bartolomeu, padre C\u00edcero cedeu a Jos\u00e9 Louren\u00e7o o s\u00edtio Caldeir\u00e3o, de sua propriedade, com 270 hectares, a sessenta\u00a0 quil\u00f4metros\u00a0\u00a0 do Crato\u00a0 distante tamb\u00e9m oitenta\u00a0 quil\u00f4metros de\u00a0 Juazeiro do Norte. Situado\u00a0 entre as Serras\u00a0 do Araripe\u00a0 Verde, com terras\u00a0 in\u00f3spitas tamb\u00e9m, mais se prestando para o criat\u00f3rio, o Caldeir\u00e3o tinha uma vantagem: uma fonte e \u00e1gua permanente. Conta\u00a0 uma lenda que nele s esconderam dos jesu\u00edtas, fugindo \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es do marqu\u00eas de Pombal, em\u00a0 1759, quando da expuls\u00e3o dos soldados\u00a0 da companhia de Santo In\u00e1cio\u00a0 de Loyola, de\u00a0 Portugal e suas col\u00f4nias. Os jesu\u00edtas viveram os seus \u00faltimos dias \u00a0no Caldeir\u00e3o.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Louren\u00e7o, com a ades\u00e3o da irmandade criada, repetiu no novo s\u00edtio o exemplo de prosperidade pelo trabalho conseguido na Baixa da Ana.<\/p>\n<p>Otac\u00edlio Anselmo e Silva, autor e alertada obra de contesta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos\u00a0 miraculosos de Juazeiro o Norte, foi quem melhor conceituou a nova\u00a0 comunidade do beato:<\/p>\n<p>\u201cA \u00a0popula\u00e7\u00e3o de Caldeir\u00e3o constitu\u00eda uma esp\u00e9cie de sociedade de trabalhadores\u00a0 rudes,<\/p>\n<p>fan\u00e1ticos do padre C\u00edcero, guiados por Jos\u00e9 Louren\u00e7o. Todos trabalhavam, inclusive\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 o<\/p>\n<p>beato. O produto da lavoura era depositado em armaz\u00e9ns e distribu\u00eddo de acordo com\u00a0 as<\/p>\n<p>necessidades\u00a0 de\u00a0 cada um. Havia\u00a0 em\u00a0 Caldeir\u00e3o\u00a0 cerca\u00a0 de\u00a0\u00a0 5.000 almas.\u00a0 Jamais\u00a0 houve<\/p>\n<p>crime\u00a0\u00a0 no\u00a0 povoado. (&#8230;)\u00a0 O\u00a0 beato\u00a0 tinha\u00a0 ascend\u00eancia\u00a0 moral absoluta sobre o povo. N\u00e3o<\/p>\n<p>havia armas entre os fan\u00e1ticos ,nem mesmo\u00a0 faca\u00a0 de ponta. (&#8230;) Havia\u00a0 noven\u00e1rios\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 com<\/p>\n<p>c\u00e2nticos, benditos e ora\u00e7\u00f5es.\u201d3<\/p>\n<p>Visitantes foram observar de perto\u00a0 a organiza\u00e7\u00e3o rural\u00a0 do Caldeir\u00e3o. No retorno, testemunharam:<\/p>\n<p>\u201cCentenas e centena\u00a0 de homens se reuniam ali, fascinados pela\u00a0 compensa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<\/p>\n<p>da\u00a0 participa\u00e7\u00e3o\u00a0 nos\u00a0 lucros.\u00a0 A\u00a0 povoa\u00e7\u00e3o\u00a0 possu\u00eda\u00a0 sistema\u00a0 d\u2019\u00e1gua pr\u00f3prio \u2013 barragens,<\/p>\n<p>cisternas,\u00a0 po\u00e7o,\u00a0\u00a0 tudo,\u00a0 ali\u00e1s\u00a0 feito\u00a0 pelos\u00a0 r\u00fasticos\u00a0 com\u00a0 o intuito de pouparem quaisquer<\/p>\n<p>reserva\u00a0 de l\u00edquido.O solo tratado e estimulado por adubos org\u00e2nicos rebentou em bela<\/p>\n<p>produ\u00e7\u00e3o que compreendia horticultura,\u00a0 pomicultura,\u00a0 floricultura , rebanhos, pocilgas,<\/p>\n<p>avi\u00e1rios \u2013 todas essas coisas compondo um dos melhores quadros de organiza\u00e7\u00e3o rural<\/p>\n<p>em\u00a0 terra\u00a0 abandonada\u00a0 por\u00a0 s\u00e1fara e\u00a0 repudiada\u00a0\u00a0 para agricultura.(&#8230;) Os machados, as<\/p>\n<p>enxadas, \u00a0as \u00a0foices, \u00a0os \u00a0\u00a0ancinhos, \u00a0martelos, \u00a0instrumentos \u00a0elementares j\u00e1 se v\u00ea \u2013 eram<\/p>\n<p>fabricados na granja. E\u00a0 o pano que\u00a0 aquela\u00a0 gente\u00a0\u00a0 vestia era obtido nos teares manuais<\/p>\n<p>tamb\u00e9m fabricados em Caldeir\u00e3o, onde se tingia\u00a0 preparava o vestu\u00e1rio.\u201d4<\/p>\n<p>Depois do fracassado Governo Popular e Revolucion\u00e1rio do Rio Grande do Norte, e dos enfrentamentos em corpora\u00e7\u00f5es militares de Natal, Recife e Rio de Janeiro, quando da Insurrei\u00e7\u00e3o\u00a0 Comunista de 1935, instalou-se no pai o que os integralistas vinham reclamando desde 1932,\u00e0 sombra da hierarquia cat\u00f3lica: a ind\u00fastria do anticomunismo.<\/p>\n<p>3 \u2013 MONTENEGRO, Abelardo F. Fan\u00e1ticos e Cangaceiros. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno,<\/p>\n<p>1973 p. 144.<\/p>\n<p>4 \u2013 Idem, ibidem .145<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio de prosperidade no Caldeir\u00e3o, resultante da\u00a0 ora\u00e7\u00e3o e do trabalho, nas condi\u00e7\u00f5es operadas na Baixa da Anta, fez migrar para aquele s\u00edtio expressivo contingente de trabalhadores rurais dos engenhos de rapadura, das\u00a0 casas de farinha e\u00a0 das culturas de algod\u00e3o e de\u00a0 subsist\u00eancia do Vale\u00a0 do Cariri, afetando os propriet\u00e1rios rurais.<\/p>\n<p>Morto o padre C\u00edcero,\u00a0 em 1936 com noventa e dois anos de idade, parte do contingente de romeiros que continuou indo a Juazeiro do Norte, atra\u00eddos pela Nova Jerusal\u00e9m, prolongava a peregrina\u00e7\u00e3o, para o Caldeir\u00e3o, em busca de\u00a0 conselhos, pois o beato \u00e9 uma extens\u00e3o de\u00a0 Juazeiro.<\/p>\n<p>Impressionados com tanta movimenta\u00e7\u00e3o e pelo fato de que no Caldeir\u00e3o \u201cas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e de consumo tendiam para o comunismo\u201d, ruralistas e religiosos integralistas do Crato, munic\u00edpio no qual est\u00e1 encravado o s\u00edtio, alarmaram as autoridades estaduais sobre os seus riscos. \u201cPersonalidade marcante pelo n\u00famero de adeptos que o seguiam em todas as decis\u00f5es, despertava\u201d, Jos\u00e9 Louren\u00e7o, \u201centre a popula\u00e7\u00e3o regional, muito respeito ou muita inveja\u201d.5<\/p>\n<p>O Secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a do Estado Manuel Cordeiro Neto (na \u00e9poca, major\u00a0 do Ex\u00e9rcito), e o\u00a0 delegado de Ordem Pol\u00edtica e Social, Jos\u00e9 G\u00f3es de Campos\u00a0 Barros (um tenente, seu companheiro de corpora\u00e7\u00e3o militar), arquitetaram um plano para desmobilizar o Caldeir\u00e3o, nos mesmos moldes do que foi posto em pr\u00e1tica em Canudos, e devolver as terras e os bens aos herdeiros em testamento\u00a0 da heran\u00e7a do padre C\u00edcero Rom\u00e3o Batista: a congrega\u00e7\u00e3o dos padres Salesianos de S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco.<\/p>\n<p>A execu\u00e7\u00e3o do plano deslocou para o Caldeir\u00e3o\u00a0 uma companhia de\u00a0 fuzileiros e uma sec\u00e7\u00e3o \u00a0de metralhadoras leves, mobilizando 150 militares. Quando estes penetram na comunidade, h\u00e1 muito Jos\u00e9 Louren\u00e7o\u00a0 j\u00e1 sabia da presen\u00e7a deles\u00a0 no carrascal da parte sertaneja da Cordilheira do Araripe.<\/p>\n<p>Coube ao Secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a, Manuel Cordeiro Neto, reunida a comunidade em torno do beato, em profundo sil\u00eancio e em tom d respeito, anunciar a decis\u00e3o do Governo do Estado:<\/p>\n<p>\u201cEra necess\u00e1rio\u00a0 que cada\u00a0\u00a0 um voltasse ao seu lugar de origem, levando o que pertencia,<\/p>\n<p>porque o Estado n\u00e3o podia permitir aquele agrupamento perigoso.\u201d6<\/p>\n<p>As fam\u00edlias tiveram um prazo de cinco dias para desocupar o local. Os solteiros, tr\u00eas dias.Um recenseamento procedido, ent\u00e3o, pelos militares , levantou a origem da sua popula\u00e7\u00e3o: 75% advent\u00edcios\u00a0 do Ro Grande do Norte; 20% de Pernambuco, Alagoas , Para\u00edba, Maranh\u00e3o e Piau\u00ed; e 5% de cearenses. As passagens oferecidas pelo Chefe de Pol\u00edcia, para o retorno\u00a0 \u00e0s suas origens, foram rejeitadas. Quanto \u00e0 mudan\u00e7a, \u201c&#8230;ningu\u00e9m tinha bens\u00a0 conduzir. Tudo que ali estava,\u00a0 diziam, era de todos,mas n\u00e3o tinha dono&#8230;\u201d7<\/p>\n<p>Desmobilizando pacificamente o Caldeir\u00e3o, o beato transferiu-se ent\u00e3o para a Serra do Araripe, distante vinte e cinco quil\u00f4metros\u00a0 do Crato, ocupando uma faixa de dois quil\u00f4metros entre Mata dos Cavalos e Curral do Meio. Por interm\u00e9dio do advogado Antonio Alencar Araripe, uma a\u00e7\u00e3o de indeniza\u00e7\u00e3o foi intentada, mas arquivada posteriormente.<\/p>\n<p>5 \u2013 BARROS, Luitgad Oliveira Cavalcanti. O Movimento Religioso de Juazeiro do Norte. Padre<\/p>\n<p>C\u00edcero \u00a0e \u00a0o \u00a0Fen\u00f4meno \u00a0do \u00a0Caldeir\u00e3o . In: \u00a0SOUZA, \u00a0Simone \u00a0de (Coord.) Hist\u00f3ria do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Fortaleza: Funda\u00e7\u00e3o Dem\u00f3crito Rocha\/Multigraf Editora, 1994, p.283.<\/p>\n<p>6 \u2013 MONTENEGRO, Abelardo F. Op cit, p.88<\/p>\n<p>7 \u2013 Idem,ibidem.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Um destacamento militar permaneceu na \u00e1rea desmobilizada para impedir a reorganiza\u00e7\u00e3o\u00a0 dos sertanejos. Na Mata dos Cavalos o beato passou a ser protegido, agora mais do que nunca, por um servi\u00e7o de espionagem, com olheiros espalhados em v\u00e1rios pontos estrat\u00e9gicos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1937, de volta do Rio Grande do Norte na companhia de cinq\u00fcenta homens, Severino Tavares \u2013 um dos seus auxiliares\u00a0 imediatos no Caldeir\u00e3o \u2013 inconformado com o\u00a0 desmantelamento\u00a0 do s\u00edtio, prop\u00f4s a Jos\u00e9 Louren\u00e7o e ao secret\u00e1rio do beato, Sebasti\u00e3o Marinho, a retomada do s\u00edtio e a ocupa\u00e7\u00e3o do Crato, para a obten\u00e7\u00e3o de v\u00edveres, armas\u00a0 e muni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Louren\u00e7o e Marinho desaprovaram a iniciativa, condenaram-na e se negaram a praticar a aventura. Dos cinq\u00fcenta homens trazidos como refor\u00e7o, vinte e seis ficaram ao lado de Severino Tavares e vinte e quatro apoiaram a decis\u00e3o de Jos\u00e9 Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>Amea\u00e7ado de morte, por Severino, diante da recusa, Sebasti\u00e3o Marinho foi \u00e0 cidade pedir prote\u00e7\u00e3o policial. Informado sobre o pano de Severino Tavares, o Secret\u00e1rio Cordeiro Neto acionou o capit\u00e3o da Pol\u00edcia Militar\u00a0\u00a0\u00a0 do Cear\u00e1, Jos\u00e9 Bezerra, acantonado em\u00a0 Juazeiro do Norte.<\/p>\n<p>O militar conhecia a regi\u00e3o. Disfar\u00e7ado de industrial, ele havia penetrado muito antes no Caldeir\u00e3o e convivido com a irmandade, fazendo\u00a0 levantamentos estrat\u00e9gicos pra a a\u00e7\u00e3o militar conduzida\u00a0 por Cordeiro Neto e por G\u00f3es de Campos Barros. Foi infiltrado no Caldeir\u00e3o como agente do servi\u00e7o reservado da Pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Guiado por Sebasti\u00e3o Marinho e advertido por este sobre o poder de rea\u00e7\u00e3o dos dissidentes de\u00a0 Severino Tavares, o capit\u00e3o\u00a0 Jos\u00e9 Bezerra subestimou o advers\u00e1rio. Na companhia de dezoito militares , Jos\u00e9 Bezerra foi atacado, de surpresa,\u00a0 na\u00a0\u00a0 localidade de Currais Velhos, sendo assassinado juntamente com um filho, um genro e dois outros militares. Houve baixa tamb\u00e9m do lado dos revoltosos. Tudo isso em quinze minutos de luta corpo a corpo.<\/p>\n<p>O interventor Francisco de Menezes Pimentel solicitou ajuda ao Governo Federal para combater os beatos, fan\u00e1ticos e penitentes, sublevados no Cariri. O ministro da Guerra, general\u00a0 Eurico Gaspar Dutra deslocou uma esquadrilha\u00a0 do Destacamento de Avia\u00e7\u00e3o, comandada pelo capit\u00e3o Jos\u00e9 Sampaio Macedo, filho do Crato, afilhado do padre C\u00edcero e propriet\u00e1rio rural na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O 23\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, sediado em Fortaleza, foi colocado igualmente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o\u00a0 do Governo\u00a0 o Estado. A a\u00e7\u00e3o militar foi fulminante Atacados por terra\u00a0 pelo ar, milhares de velhos, adultos e crian\u00e7as, homens, mulheres, pacifistas ou revoltosos, foram chacinados.\u00a0 \u201cAs tropas desfecham ataque arrasador, (&#8230;) matando, espalhando e prendendo\u00a0 gente no af\u00e3 de capturar Jos\u00e9 Louren\u00e7o que se evadira. Os prisioneiros resistem \u00e0 tortura e ningu\u00e9m delata o paradeiro do beato\u201d.8<\/p>\n<p>Vinte fam\u00edlias sobreviveram \u00e0 chacina do Caldeir\u00e3o, em 1937, reuniram-se depois\u00a0 em torno do beato, na fazenda Uni\u00e3o,no munic\u00edpio de\u00a0 Exu, Pernambuco, lim\u00edtrofe da divisa o Cear\u00e1. Jos\u00e9 Louren\u00e7o morreu ao 74 anos, seno sepultado em\u00a0 Juazeiro do Norte em 1946.<\/p>\n<p>Em A Ordem dos Penitentes, uma das\u00a0 poucas\u00a0 fontes\u00a0 sobre essa Canudos em propor\u00e7\u00f5es menores, Jos\u00e9 G\u00f3es\u00a0 de Campos\u00a0 Barros tenta justificar a a\u00e7\u00e3o\u00a0 das autoridades de seguran\u00e7a, na regi\u00e3o alarmadas pelas\u00a0\u00a0 constantes informa\u00e7\u00f5es do deputado Raimundo de Nor\u00f5es\u00a0 Milfont, advogado dos propriet\u00e1rios de terras, sobre o perigo comunista\u00a0 do arraial, seq\u00fcenciado pelos monsenhores Assis\u00a0\u00a0 Feitosa e\u00a0 Joviniano Barreto. Argumentava G\u00f3es:<\/p>\n<p>\u201cO\u00a0 Governo\u00a0 resolveu\u00a0 p\u00f4r\u00a0\u00a0\u00a0 fim\u00a0 \u00e0quele\u00a0 n\u00facleo de fan\u00e1ticos, pela raz\u00e3o muito forte que,<\/p>\n<p>mais\u00a0 cedo\u00a0 ou mais\u00a0 tarde, poderia\u00a0 ser\u00a0 explorado por\u00a0 qualquer ambicioso, inteligente a<\/p>\n<p>audaz, criando-lhe imprevis\u00edveis\u00a0 embara\u00e7os&#8230;\u201d9<\/p>\n<p>8 \u2013 BARROS, Lutgarde Oliveira Cavalcanti. Op.cit, p.286.<\/p>\n<p>9 \u2013 BARROS, Jos\u00e9 G\u00f3es de Campos. A Ordem dos Penitentes. Fortaleza : Imprensa Oficial, 1937. In: BRAGA, Renato. Dicion\u00e1rio Geogr\u00e1fico e Historio do Cear\u00e1. Fortaleza: Imprensa Universit\u00e1ria do Cear\u00e1 , 1967, p.192.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Sobre o modus vivendi da irmandade destru\u00edda G\u00f3es de Campos Barros faz minucioso relato:<\/p>\n<p>\u201cSob a influ\u00eancia direta do beato havia cerca de duas mil pessoas de ambos os sexos e de<\/p>\n<p>todas as idades. Reinava ali uma disciplina absoluta e ma ordem r\u00edgida. A ascend\u00eancia<\/p>\n<p>de Louren\u00e7o sobre sua gente n\u00e3o conhecia limites; um gesto seu nunca\u00a0 fora\u00a0 discutido<\/p>\n<p>por ningu\u00e9m; a sua vontade era um\u00a0 dogma e suas decis\u00f5es tinham for\u00e7a de lei&#8230;\u201d10<\/p>\n<p>Militar por forma\u00e7\u00e3o, vivenciando o ambiente anticomunista p\u00f3s-35, G\u00f3es de Campos Barros enxergava a influ\u00eancia de Karl\u00a0 Marx at\u00e9 nos acidentados\u00a0 carrascais da Zona Sul do Estado:<\/p>\n<p>\u201cO beato,sem saber, era marxista-marxista pr\u00e1tico.Para os seus celeiros convergiam<\/p>\n<p>todos os produtos da comuna; com o se ferro e o seu sinal, eram marcadas todas as reses<\/p>\n<p>da fazenda, todo os porcos, todos os cavalos. Mas ,explicava modesto e desprendido aqui<\/p>\n<p>nada\u00a0 me\u00a0\u00a0\u00a0 pertence, \u00e9\u00a0 patrim\u00f4nio de todos os\u00a0 que vivem nesta irmandade e recorrem \u00e0<\/p>\n<p>nossa prote\u00e7\u00e3o.\u201d 11<\/p>\n<p>Na conclus\u00e3o da obra, ode h\u00e1 mais esfor\u00e7o para\u00a0 denegrir a imagem do beato, do que raz\u00f5es plaus\u00edveis para destruir o arraial, G\u00f3es reconhece:<\/p>\n<p>\u201cA terra \u00e9 s\u00e1fara e quase est\u00e9ril.(&#8230;) Somente a f\u00e9 inabal\u00e1vel daqueles homens rudes, de<\/p>\n<p>rostos\u00a0 severos\u00a0 e m\u00e3os\u00a0\u00a0 calosas\u00a0 como\u00a0 carapa\u00e7as\u00a0 de\u00a0 tartarugas, seria capaz de faz\u00ea-la<\/p>\n<p>produzir. E ela produz.\u201d 12<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o do Caldeir\u00e3o faz parte da onda repressora\u00a0 anticomunista p\u00f3s-35, quando crimes abomin\u00e1veis foram cometidos em nome\u00a0\u00a0 da ordem e da seguran\u00e7a\u00a0 do Estado. Foi tamb\u00e9m uma resposta do Estado \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o da hierarquia cat\u00f3lica do Cariri, diante da possibilidade de surgimento de um novo \u201cJuazeiro\u201d.<\/p>\n<p>A exemplo do que aconteceu em Canudos, a Bahia, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escassez de m\u00e3o-de-obra, os propriet\u00e1rios dos engenhos, das casas\u00a0 de farinha e dos s\u00edtios do Vale do Cariri estavam perdendo a colabora\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o farto e barato para o beato. A repress\u00e3o destruiu uma experi\u00eancia de vida\u00a0 comunit\u00e1ria\u00a0 constru\u00edda na f\u00e9 e na ora\u00e7\u00e3o, cujos resultados poderiam servir\u00a0 de modelo para outras iniciativas\u00a0 no campo.<\/p>\n<p><strong>A\u00a0 MASSA\u00a0 CAT\u00d3LICA\u00a0 CONTRA\u00a0 OS\u00a0 COMUNISTAS<\/strong><\/p>\n<p>Religiosos e fi\u00e9is seguidores do culto cat\u00f3lico impediram, por quatro vezes, a realiza\u00e7\u00e3o de com\u00edcios do Partido Comunista Brasileiro, na cidade do Crato, para a escolha do novo presidente da Rep\u00fablica, dos senadores e deputados federais, nas elei\u00e7\u00f5es previstas para 2 de dezembro de 1945.<\/p>\n<p>Em Juazeiro do Norte, uma \u00fanica tentativa tamb\u00e9m fracassou, porque o local escolhido para o com\u00edcio, a pra\u00e7a Almirante Alexandrino, fiou \u201crepleta de Filhas de Maria, padres, mendigos e aleijados para\u201dpegar\u201d os comunistas(&#8230;) convencidos de que \u00edamos roubar e levar os ossos do padre C\u00edcero para Moscou\u201d. 13<\/p>\n<p>10 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>11 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>12 \u2013 Idem ibidem.<\/p>\n<p>13 \u2013 CAVALCANTI Vulpiano. Mem\u00f3ria Via. Natal: Editora Universit\u00e1ria da UFRN\/Nossa Editora, s.d.p. 14.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>O Comit\u00ea Municipal do PCB no Crato sempre foi ativo, tanto a fase\u00a0 clandestina pr\u00e9-45, como n legalidade e, novamente, na segunda fase de clandestinidade p\u00f3s-45. Embora ao fosse\u00a0 numericamente expressivo, o partido\u00a0 mantinha\u00a0\u00a0 um n\u00facleo ativo, realizando movimentos de massa, atuante nas quest\u00f5es de terras, nas lutas populares, no movimento estudantil, presente\u00a0 aos debates\u00a0 p\u00fablicos sobre\u00a0 pol\u00edticas nacionalistas.<\/p>\n<p>O clero, aguerridamente integralista, anticomunista, mantinha\u00a0 uma rea\u00e7\u00e3o constante \u00e0s a\u00e7\u00f5es do comit\u00ea do PCB, com\u00a0 estrutura para mobilizar, em pouco tempo, os grupos de provoca\u00e7\u00e3o aos seus eventos, como mostram os fatos que se seguem:<\/p>\n<p>Lan\u00e7ada a campanha eleitoral, a estrela maior dos comunistas\u00a0 era o seu candidato ao Senado, Jeov\u00e1 Motta, um militar de profiss\u00e3o, sobrinho-neto de Capistrano de Abreu, ex-fundador da Legi\u00e3o Cearense do Trabalho juntamente com Severino Sombra. Ex-integralista, Jeov\u00e1 Motta foi deputado\u00a0 federal, eleito\u00a0 pela Liga Eleitoral Cat\u00f3lica. Decepcionado com Pl\u00ednio Salgado renunciou ao mandato retornando \u00e0 caserna para registrar uma metamorfose no seu comportamento pol\u00edtico,\u00a0 ponto de, em\u00a0\u00a0\u00a0 1945, surgir como candidato a Senado pelo Partido Comunista.<\/p>\n<p>O Comit\u00ea Municipal do PCB distribuiu um panfleto, anunciando o primeiro com\u00edcio do partido para o dia 9 de setembro daquele ano, \u00e0s\u00a0 19\u00a0 horas, na pra\u00e7a\u00a0 Siqueira Campos, o centro de decis\u00f5es pol\u00edticas da cidade.<\/p>\n<p>Irineu Pinheiro d\u00e1 conta de que, no mesmo hor\u00e1rio, marcharam da pra\u00e7a da S\u00e9 para\u00a0 a pra\u00e7a Francisco S\u00e1, nas proximidades\u00a0 do local do com\u00edcio, cinco mil pessoas, \u201caos vivas \u00e0 religi\u00e3o cat\u00f3lica e\u00a0 morras ao Comunismo\u201d. 14<\/p>\n<p>Transferido para o dia seguinte, a segunda tentativa\u00a0 n\u00e3o se concretizou , em fun\u00e7\u00e3o do elevado n\u00famero\u00a0 de devotos reunidos pelo clero, na pra\u00e7a\u00a0 da S\u00e9, para impedir a concentra\u00e7\u00e3o do PCB. Os esquema\u00a0 foi o mesmo: temeram, mais uma vez, os comunistas, realizar seu intento, ao qual\u00a0 era\u00a0\u00a0\u00a0 hostil a\u00a0 quase\u00a0\u00a0 unanimidade da popula\u00e7\u00e3o\u00a0 da\u00a0 cidade\u201d. 15<\/p>\n<p>Para desestimular qualquer outra iniciativa dos seguidores\u00a0 de Luiz Carlos Prestes, a diocese do Crato organizou um monumental \u00a0congresso anticomunista, com a participa\u00e7\u00e3o de milhares de fi\u00e9is do Crato, Juazeiro do Norte e\u00a0 Barbalha. Delega\u00e7\u00f5es de Barbalha, distante vinte quil\u00f4metros, e de\u00a0 Juazeiro, distante dez\u00a0 quil\u00f4metros,\u00a0 conduziram, a p\u00e9, andores com imagens\u00a0\u00a0 dos padroeiros\u00a0 das duas cidades, Santo Antonio, e Nossa Senhora das Dores, os quais se encontraram\u00a0 com o orago de\u00a0 Nossa Senhora da Penha, padroeira do Crato,\u00a0 pra\u00e7a\u00a0 da S\u00e9.<\/p>\n<p>Na solenidade de encerramento\u00a0 do\u00a0 congresso anticomunista, no dia 28 e outubro de 1945, o bispo diocesano, Francisco de Assis Pires externou as raz\u00f5es\u00a0 para a recusa do Comunismo entre o seu rebanho:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o\u00a0 quero Comunismo, porque o Comunismo me rouba os mimos preciosos do meu<\/p>\n<p>rebanho as criancinhas\u00a0 inocentes. (&#8230;)\u00a0 Conspurcaria a honra e a dignidade da fam\u00edlia<\/p>\n<p>cratense,\u00a0 verdadeira\u00a0\u00a0 j\u00f3ia\u00a0 preciosa\u00a0\u00a0 da\u00a0 minha diocese. (&#8230;) Arrebatar-me-ia\u00a0 a coroa<\/p>\n<p>gloriosa\u00a0\u00a0\u00a0 que\u00a0 me\u00a0 cinge\u00a0 a\u00a0 fronte,\u00a0\u00a0 meu\u00a0 clero, (&#8230;)\u00a0 intr\u00e9pido\u00a0 e\u00a0 valente\u00a0 que\u00a0 eu diria<\/p>\n<p>vocacionado para o mart\u00edrio.\u201d 16<\/p>\n<p>Os comunistas, no entanto, programaram um novo encontro, desta vez, na Pra\u00e7a Francisco S\u00e1, na noite de 21de novembro, faltando, portanto, dez das para o pleito. Os oradores falaram, mas\u00a0 sob vaias, tornando-se\u00a0 o ambiente\u00a0 incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Concentrados no bar Cairu, na Rua Jo\u00e3o Pessoa, no centro comercial da cidade, os comunistas se depararam, nessa noite, com uma \u201cprociss\u00e3o de penit\u00eancia\u201d, \u00e0 frente os pr\u00f3prios diocesanos, seguidos por todo o clero e milhares de fi\u00e9is, circundando a Ruas Senador Pompeu e Jo\u00e3o Pessoa, com parada obrigat\u00f3ria em frente ao bar Cairu e exaltadas\u00a0 manifesta\u00e7\u00f5es anticomunistas, onde o bispo e os padres tiveram trabalho para dispersar a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>14 \u2013PINHEIRO,\u00a0 Irineu.\u00a0 Efem\u00e9rides\u00a0 do\u00a0 Cariri. Fortaleza: Imprensa Universit\u00e1ria\u00a0 do Cear\u00e1, 1963,<\/p>\n<p>p.224.<\/p>\n<p>15 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>16 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Dois dias depois, 23 de novembro , nova tentativa, desta vez\u00a0 na Pra\u00e7a Siqueira Cap\u00f4s, mais tarde da noite. De p\u00e9 num banco da pra\u00e7a, o candidato ao Senado, Jeov\u00e1 Motta, come\u00e7ou um pronunciamento sobre o processo de abertura democr\u00e1tica, sendo\u00a0 ostensivamente interrompido por apupos e doestos de sacerdotes cat\u00f3licos exaltados contra o Comunismo e os comunistas.<\/p>\n<p>Testemunha desses fatos, Irineu Pinheiro registrou o clima dessa noite quando o Partido Comunista, usando a franquia democr\u00e1tica que lhe garantia espa\u00e7o pol\u00edtico igual aos demais partidos, na pugna eleitoral, procurava colocar, o debate p\u00fablico, o seu programa eleitoral, procurava colocar, ao debate p\u00fablico, o seu programa eleitoral. Diz Irineu Pinheiro: \u201cTal o clamor do povo que ele Jeov\u00e1 n\u00e3o pode continuar. Por um momento temeu-se que a exalta\u00e7\u00e3o popular desfechasse em correrias e viol\u00eancias.(&#8230;) Horas antes do com\u00edcio, na expectativa de desordens, tinham cerrado suas portas os caf\u00e9s e bares da Rua Jo\u00e3o Pessoa e da Pra\u00e7a Siqueira Campos.\u201d 17<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, a caravana liderada\u00a0 por Jeov\u00e1 Motta, em viagem pelo interior do Cear\u00e1, na tentativa de fazer propaganda pol\u00edtica do seu candidato \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Iedo Fi\u00faza, enfrentou vexame semelhante em Senador Pompeu e em Juazeiro do Norte.<\/p>\n<p>Apresentando-se como candidatos democratas, conforme a linguagem da \u00e9poca, e estimulados por um militante\u00a0 do grupo, nascido na cidade, os caravaneiros visitaram, em primeiro lugar, o vig\u00e1rio de Juazeiro, convidando-o para o com\u00edcio na principal pra\u00e7a da cidade, a Almirante Alexandrino, onde est\u00e1 a est\u00e1tua de corpo inteiro do padre C\u00edcero Rom\u00e3o Batista.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, a cidade inteira j\u00e1 sabia da presen\u00e7a dos comunistas e do com\u00edcio programado. Dois estudantes da caravana procuraram um restaurante, onde pediram um caf\u00e9, sendo cercados, de repente, por dezenas de romeiros. Um deles cravou um punhal na mesa do restaurante, dizendo: \u00a0&#8211; Se for homem, diga que \u00e9 comunista! 18<\/p>\n<p>Para evitar um linchamento coletivo, o grupo se refugiou na casa\u00a0 do juiz da comarca, sendo salvo por um providencial motorista de pra\u00e7a que o transportou, \u00e0s pressas, at\u00e9 Lavras da Mangabeira.<\/p>\n<p>Na campanha para as elei\u00e7\u00f5es de 1947, o candidato do PSD, Onofre Muniz, esteve no Crato, realizando com\u00edcio na Pra\u00e7a Siqueira Campos, em 18 de dezembro\u00a0 de\u00a0 1946, depois de percorrer v\u00e1rias outras cidades da regi\u00e3o. Em todas elas, recebeu manifesta\u00e7\u00e3o de apoio de correligion\u00e1rios, e at\u00e9 de religiosos, sem que houvesse qualquer tentativa de impedimento, por ocasi\u00e3o dos seus com\u00edcios, o mesmo ocorrendo com Faustino de\u00a0 Albuquerque, candidato da UDN. Para os dois, a liberdade pol\u00edtica funcionou.<\/p>\n<p>Quando visitava o Crato, em campanha, o desembargador Faustino de Albuquerque foi saudado pelo padre Leopoldo Fernandes que, em artigo de jornal, publicado no dia do com\u00edcio, lembrava:<\/p>\n<p>\u201cAqui,\u00a0 como\u00a0 alhures,\u00a0 \u00e1 um\u00a0 grupo\u00a0 de maus patriotas e p\u00e9ssimos cat\u00f3licos que vivem da<\/p>\n<p>ast\u00facia, \u00a0de \u00a0sinuosidades, \u00a0do \u00a0subterf\u00fagio , das \u00a0surpresas, da penumbra, e nunca foram<\/p>\n<p>vistos aos\u00a0 doces clar\u00f5es da verdade.\u201d 19<\/p>\n<p>Sem esconder suas\u00a0 simpatias\u00a0 pelo candidato e pela UDN, o padre Leopoldo Fernandes mostrava a for\u00e7a eleitoral de Faustino, afogado nas den\u00fancias pessedistas de que se aliara aos comunistas:<\/p>\n<p>\u201cO \u00a0desembargador Faustino\u00a0 \u00e9\u00a0 candidato\u00a0 de\u00a0 alguns partidos coligados em torno de seu<\/p>\n<p>nome; mas \u00e9 principalmente candidato\u00a0 da\u00a0 Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Cearense (sic) at\u00e9\u00a0 agora<\/p>\n<p>a mais prestigiosa arregimenta\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria\u00a0 do Cear\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>17 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>18 \u2013 Epis\u00f3dio narrado por Vulpiano Cavalcanti. Op. cit, p.14<\/p>\n<p>19 \u2013 Cf. \u201cO Povo\u201d, Fortaleza, \/1\/47, 1\u00aa p. Caderno Especial de Anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, fazia a defesa pr\u00e9via\u00a0 do candidato:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;Acusar o desembargador Faustino de suspeito de comunismo, de comprometimento<\/p>\n<p>com\u00a0 o\u00a0 Partido\u00a0 Comunista,\u00a0 de\u00a0 alian\u00e7a\u00a0 secreta\u00a0 com\u00a0 esse\u00a0 partido\u00a0 ou\u00a0 com\u00a0 os\u00a0 seus<\/p>\n<p>representantes, \u00e9 mais do que\u00a0 uma mentira, do que uma cal\u00fania, \u00e9 um ultraje a um dos<\/p>\n<p>membros mais eminentes de nossa mais alta corte de justi\u00e7a.\u201d20<\/p>\n<p>A Circular n\u00ba 64 foi saudada com entusiasmo pelo clero da regi\u00e3o Sul do Estado. \u201cA A\u00e7\u00e3o\u201d, porta-voz oficial da diocese, estampou, em primeira p\u00e1gina, pronunciamento do bispo diocesano, Francisco de Assis Pires, pra quem:<\/p>\n<p>\u201cA voz da Igreja \u00e9 uma s\u00f3 e a mesma em toda parte\u201d.<\/p>\n<p>Explicitando o documento, em editorial, o seman\u00e1rio cat\u00f3lico acrescentava: \u201cNela Dom Antonio Lustosa n\u00e3o quis invadir a seara alheia. Falou apenas\u00a0 tra\u00e7ando diretrizes para cat\u00f3licos, (&#8230;) com autoridade, em nome desta\u00a0 Igreja t\u00e3o combatida e nunca vencida.\u201d 21<\/p>\n<p>\u201cA A\u00e7\u00e3o\u201d estacou mais:<\/p>\n<p>\u201cNestes tempos t\u00e3o conturbados, quando o anticatolicismo est\u00e1 mobilizado e em plena atividade,h\u00e1 necessidade inadi\u00e1vel dos dirigentes\u00a0 da Igreja imortal de Cristo tomarem suas naturais precau\u00e7\u00f5es. A luta est\u00e1 travada\u00a0 em todos os recantos da terra.\u201d 22<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, acentuava:<\/p>\n<p>\u201cNos partidos pol\u00edticos de orienta\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do Cear\u00e1, h\u00e1 muitos candidatos de bons princ\u00edpios. (&#8230;) Como irrevog\u00e1vel imposi\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, o cat\u00f3lico dever\u00e1 escolher um homem merecedor da confian\u00e7a da Igreja.\u201d 23<\/p>\n<p>Passado o pleito, proclamado o vencedor \u2013 Faustino de Albuquerque \u2013 por quem a hierarquia cat\u00f3lica n\u00e3o nutria a menor\u00a0 simpatia, Dom Francisco de Assis Pires, em circular dirigida aos fi\u00e9is, proibia, no \u00e2mbito da sua diocese, a leitura da \u201cGazeta do Cariri\u201d.<\/p>\n<p>O jornal havia publicado artigo criticando o Papa, merecendo, como rea\u00e7\u00e3o da Igreja, a promulga\u00e7\u00e3o de ordem expressa proibindo a sua leitura pelos cat\u00f3licos. Neste documento, Dom Francisco justifica a medida extrema:<\/p>\n<p>\u201cNum intuito perverso de afrontar o sentimento\u00a0\u00a0 religioso do nosso povo, ousou-se lan\u00e7ar o esc\u00e1rnio e o desprezo\u00a0 contra aquele a quem o Divino Salvador confiou a miss\u00e3o de pastor supremos das almas e chefe da sua santa Igreja.\u201d 24<\/p>\n<p>Aos vig\u00e1rios Dom Francisco Pires mandava fossem realizados atos de desagravo e ultrajada na veneranda pessoa de seu augusto Chefe. E ordenava: \u201cseja esta lida e explicada aos fi\u00e9is, mais de uma vez, em hora de fun\u00e7\u00e3o religiosa.\u201d 25<\/p>\n<p>Na justificativa da circular est\u00e1 dito que a proibi\u00e7\u00e3o da leitura da \u201cGazeta do Cariri\u201d pelos fi\u00e9is cat\u00f3licos foi em virtude de se ter o jornal \u201cconvertido em ve\u00edculo de impiedade e em \u00f3rg\u00e3o propagandista da nefasta doutrina do Comunismo ateu.\u201d 26<\/p>\n<p>O seman\u00e1rio era editado com a colabora\u00e7\u00e3o de um grupo de militantes do PCB, entre os quais, Jos\u00e9 Figueiredo de Brito, Aminadad Arruda Campos, Francisco de Assis Leite, Ant\u00f4nio Machado, Jurandir Temot\u00e9o, Eloy Teles de Menezes e Jos\u00e9 Figueiredo de Brito Filho, entre outros.<\/p>\n<p>20 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>21 \u2013 Cf. \u201cA A\u00e7\u00e3o\u201d, Crato, 12\/1\/47, 1\u00aa p.<\/p>\n<p>22 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>23 \u2013 Ibidem.<\/p>\n<p>24 \u2013 Cf. \u201cO Nordeste\u201d, Fortaleza, 12\/2\/47, p.3.<\/p>\n<p>25 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n<p>26 \u2013 Ibidem.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>Em todas as igrejas e capelas da regi\u00e3o, por ocasi\u00e3o das missas, os serm\u00f5es centralizavam o assunto da circular. A \u201cGazeta do Cariri\u201d, como todo jornal alternativo, teve dias curtos , a partir da recusa de sua impress\u00e3o, pelas gr\u00e1ficas, e da compra dos exemplares, pelo p\u00fablico, temendo a excomunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Instalada em 1940, a diocese de Limoeiro do Norte teve pouca atua\u00e7\u00e3o durante a campanha de 1947. Poucas s\u00e3o as informa\u00e7\u00f5es ligando-a aos acontecimentos, tais\u00a0 como a aceita\u00e7\u00e3o da Circular n\u00ba 64, do arcebispo de Fortaleza e a troca de mensagens\u00a0 entre\u00a0 os candidatos e o bispo metropolitano, Aureliano Matos.<\/p>\n<p>O ant\u00edstite, por exemplo, remeteu telegrama ao general Onofre Muniz, candidato do\u00a0 PSD, por ocasi\u00e3o da homologa\u00e7\u00e3o do seu nome, pelo partido, cumprimentando-o pela confer\u00eancia realizada na Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Cear\u00e1, quando o candidato defendeu o barramento do Rio Jaguaribe, para efeito do melhor aproveitamento das \u00e1guas nos cultivos agr\u00edcolas das \u00e1reas margeadas pelo rio.<\/p>\n<p>Dom Aureliano Matos, na mensagem, transmite aplausos ao general por haver\u00a0 revelado \u201cperfeito conhecimento de nossa zona, de suas necessidades (&#8230;) e as vantagens que a obra poderia trazer para este ub\u00e9rrimo vale.\u201d 27<\/p>\n<p>Um dia antes do pleito, Dom Aureliano Matos renovava sua orienta\u00e7\u00e3o sobre o documento da hierarquia cat\u00f3lica em rela\u00e7\u00e3o aos candidatos:<\/p>\n<p>\u201cDom Ant\u00f4nio de Almeida Lustosa, consultado pelos bispos de Crato, Sobral e Limoeiro do Norte, a respeito d recomenda\u00e7\u00e3o dos candidatos a Governador do Estado, respondeu que continuava de p\u00e9 a Circular 64, isto \u00e9, que os cat\u00f3licos n\u00e3o podem votar em candidatos amparados pelos comunistas. Esta \u00e9, portanto, a palavra oficial da diocese de Limoeiro.\u201d 28<\/p>\n<p><strong>A Prociss\u00e3o\u00a0 noturna:\u00a0 serm\u00f5es, matracas e alcatr\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Manoel A\u00e9ri Ferreira,29 um sertanejo nascido em 1925 no Riacho do Sangue, Solon\u00f3pole, no Sert\u00e3o Central do Cear\u00e1, quando o ent\u00e3o distrito pertencia a Jaguaribe, \u00e9\u00a0 um dos personagens deste epis\u00f3dio. O outro \u00e9 Jos\u00e9 Pereira da Silva, conhecido por Jos\u00e9 Cadete e j\u00e1 falecido.<\/p>\n<p>Aos dezoito anos, em 1944, acossado pelas secas, e seguindo o destino de sua gera\u00e7\u00e3o, decidiu emigrar para S\u00e3o Paulo. Vendeu por qualquer pre\u00e7o os seus bens, de pequeno valor, e, com o produto arrecadado, partiu. Tinha sido aconselhado a n\u00e3o ir para o Amazonas, como era de costume, por um companheiro de inf\u00e2ncia que foi, viu e n\u00e3o se deu bem com o clima.<\/p>\n<p>No percurso da viagem, fez uma parada em Miss\u00e3o Velha, na regi\u00e3o do Cariri, onde fixou resid\u00eancia, tornou-se comerciante, casando-se no mesmo ano. Nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 1945, votou para deputado federal em Francisco Monte. Get\u00falio Vargas tornou-se o seu \u00eddolo e o Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, a sua agremia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O fim da guerra, a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o surgimento dos debates pol\u00edticos, com a apari\u00e7\u00e3o dos novos partidos, a escolha do novo Presidente da Rep\u00fablica, do Congresso Nacional, levaram Manoel A\u00e9ri Ferreira a descobrir a leitura, a pol\u00edtica, as id\u00e9ias socialistas e\u00a0 gosto pelo debate. Alfabetizado na ro\u00e7a, pouco aprendeu, pelas limita\u00e7\u00f5es do ambiente cultural na zona rural onde morava. Reciclado em casa, empolgou-se com a leitura.<\/p>\n<p>Pela leitura dos jornais, especialmente \u201cO Democrata\u201d, 30 a partir de 1946, e dos livros da Editora Novos Rumos, percebeu um mundo novo, contestador, capaz de traduzir as ang\u00fastias do campon\u00eas, por ele vivenciadas na carne, e de apontar as sa\u00eddas para um pa\u00eds economicamente desigual. Passou ent\u00e3o a ler economia pol\u00edtica. Esse foi o seu aprendizado.<\/p>\n<p>27 \u2013 Cf. \u201cGazeta de Not\u00edcias\u201d, Fortaleza, 12\/11\/46, p. 3.<\/p>\n<p>28 \u2013 Cf. \u201cO Nordeste\u201d, Fortaleza, 18\/1\/47, 1\u00aa p.<\/p>\n<p>29 \u2013 Cf. entrevista concedida ao autor.<\/p>\n<p>30 \u2013 \u201cO Democrata\u201d foi adquirido pelo PCB, em 1946, ao senador Olavo Oliveira.<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>Da conviv\u00eancia com um microgrupo de discuss\u00f5es, onde se projetava, com ares de her\u00f3i, a figura de Luiz Carlos Preste, surgiu uma identidade\u00a0 de pontos de vista e uma admira\u00e7\u00e3o incomum pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o seu modelo de sociedade.<\/p>\n<p>A simpatia Pelo Partido Comunista do Brasil vinha no curso natural dessas conversa\u00e7\u00f5es, exatamente quando o PCB, saindo da clandestinidade, se apresentava como um partido legal, constituindo, pelo voto livre e soberano, as suas bancadas parlamentares em todos os n\u00edveis de poder.<\/p>\n<p>Praxe da \u00e9poca, o microgrupo, formado por cinco simpatizantes das id\u00e9ias irradiadas de Moscou, atrav\u00e9s da sua R\u00e1dio Central, por eles captadas em ondas curtas, cumpriu um per\u00edodo de observa\u00e7\u00e3o, de execu\u00e7\u00e3o de tarefas, de estudos do marxismo e do bolchevismo. A obra \u201cQue fazer\u201d, de Lenine, e \u201cOs Problemas do Leninismo\u201d, de Stalin, abriam a lista da literatura russa de f\u00e1cil processo aos militantes.<\/p>\n<p>O jornal \u201cA Classe Oper\u00e1ria\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o era desconhecido. Mas o empenho maior foi par a divulga\u00e7\u00e3o de \u201cO Democrata\u201d, para a arrecada\u00e7\u00e3o de contribui\u00e7\u00e3o de simpatizantes e para a venda de rifas e outras promo\u00e7\u00f5es das campanhas de finan\u00e7as do PCB.<\/p>\n<p>A primeira c\u00e9lula do PCB em Miss\u00e3o Velha surgiu em 14 de setembro de 1948, integrada por Manoel A\u00e9ri Ferreira, Jos\u00e9 Pereira da Silva, Gaspar Pinheiro, Sebasti\u00e3o Uchoa e Jo\u00e3o Soares. Os cinco \u201ciniciados\u201d tiveram como chanceladores dessa ades\u00e3o Raimundo Uchoa Di\u00f3genes, um viajante de produtos farmac\u00eauticos; Aminadad Arruda Campos, um protestante e mestre de torneiria mec\u00e2nica, residente no Crato; e o cabo PM, Miguel Bezerra. O ato formal da constitui\u00e7\u00e3o da c\u00e9lula foi r\u00e1pido, parra n\u00e3o despertar os curiosos. Houve cumprimentos e compromissos de trabalho, em prol do partido.<\/p>\n<p>A primeira c\u00e9lula comunista do munic\u00edpio caracterizado por uma economia agr\u00edcola e pecu\u00e1ria, com predomin\u00e2ncia dos canaviais d Vale do Cariri, dos engenhos de rapadura, da explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra agr\u00edcola e amplo cultivo de algod\u00e3o, surgia quando o Partido Comunista\u00a0 estava retornando \u00e0 clandestinidade.<\/p>\n<p>Identificados pelo jornal que distribu\u00edam na cidade, \u201cO Democrata\u201d, pelas discuss\u00f5es nos bares, restaurantes, caf\u00e9s e nas pra\u00e7as p\u00fablicas, os comunistas come\u00e7aram a sofrer repres\u00e1lias na comunidade. Mesmo assim, cumpriam a tarefa de provocar o debate, escandalizar, propagar o nome de Prestes, de divulgar as realiza\u00e7\u00f5es do Estado Sovi\u00e9tico, de criticar a pol\u00edtica e os pol\u00edticos reacion\u00e1rios brasileiros, a partir do anticomunismo de Eurico Gaspar Dutra.<\/p>\n<p>O grupo come\u00e7ou a se esvaziar. Dos cinco iniciais, restaram tr\u00eas: A\u00e9ri, Z\u00e9 Cadete e Sebasti\u00e3o Uchoa. Mudaram de local de atua\u00e7\u00e3o Gaspar Pinheiro e Jo\u00e3o Soares.<\/p>\n<p>Uma den\u00fancia de malversa\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos, publicada em\u00a0\u00a0 \u201cO Democrata\u201d, por um filho de Sebasti\u00e3o Uchoa, na \u00e9poca, estudante, levou a UDN local a pressionar o Governo do Estado contra o pai do denunciante, na \u00e9poca, fiscal de algod\u00e3o da Secretaria da Agricultura, junto \u00e0s cinco ind\u00fastrias de beneficiamento do produto que lideravam a economia do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Uma comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito do Servi\u00e7o P\u00fablico Estadual, ao inv\u00e9s de apurar a den\u00fancia, processou Sebasti\u00e3o Uchoa, punido administrativamente e transferido da cidade, por julgarem os udenistas ser ele o denunciante. E os recursos do Estado para a recupera\u00e7\u00e3o, pelo munic\u00edpio, do Grupo Escolar Pedro Rocha, n\u00e3o foram averiguados.<\/p>\n<p>Para livrar o companheiro do peso do Estado policialesco, A\u00e9ri Ferreira assumiu a responsabilidade da den\u00fancia, o que pouco influiu na transfer\u00eancia, mas lhe causou a ira\u00a0 do ent\u00e3o prefeito municipal, Francisco Arrais Mais, surpreendido com o notici\u00e1rio do di\u00e1rio comunista.<\/p>\n<p>As conseq\u00fc\u00eancias n\u00e3o tardaram: retalia\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e, por \u00faltimo, pris\u00e3o, sem flagrante delito, queixa formal na pol\u00edcia ou ordem judicial. Mobilizado pelo PCB, o advogado Od\u00e1lio Cardoso de Alencar deslocou-se de Barbalha para Miss\u00e3o Velha, para relaxar a pris\u00e3o, conseguida a muito custo.31 Ela foi \u00e0 primeira. Depois, viriam mais duas, sempre no mesmo ritual.<\/p>\n<p>31 \u2013 O advogado Od\u00e1lio Cardoso confirma o fato.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>Ao arrepio da lei. Os motivos: as picha\u00e7\u00f5es e um s\u00e9rio atrito com o promotor de justi\u00e7a da comarca, Osias Uchoa S\u00e1, um integralista hist\u00f3rico, desde os tempos de estudante do Liceu do Cear\u00e1.32<\/p>\n<p>Visado pelo prefeito, inimigo do promotor, por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas, enfrentando a indiferen\u00e7a do juiz de direito, Carlyle Martins, considerando-se incompetente para liber\u00e1-lo, por ser a autoridade coatora o Secret\u00e1rio d Pol\u00edcia, e as constantes \u201cca\u00e7adas\u201d o delegado, A\u00e9ri fechou o quadro com o enfrentamento d um novo advers\u00e1rio, ousado e imbat\u00edvel: o vig\u00e1rio da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o com o vig\u00e1rio radicalizou-se quando os comunistas, em cumprimento \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do PCB, (A\u00e9ri e Z\u00e9 Cadete) picharam v\u00e1rios espa\u00e7os urbanos, at\u00e9 mesmo as largas, centen\u00e1rias paredes da matriz de S\u00e3o Jos\u00e9, com o slogan \u201cO Petr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d. Foi na campanha do petr\u00f3leo de 1948.<\/p>\n<p>Em 1949, o padre David Augusto Moreira, vig\u00e1rio da par\u00f3quia, um integralista hist\u00f3rico, como promotor, treinado nas hostes do grupo de sacerdotes liderados\u00a0 pelo monsenhor Pedro Rocha, reitor do Semin\u00e1rio S\u00e3o Jos\u00e9 , do Crato, tinha costume de realizar manifesta\u00e7\u00f5es de rua.<\/p>\n<p>Ele era figura de primeiro plano na movimenta\u00e7\u00e3o da massa cat\u00f3lica nas diversas tentativas de impedimento dos com\u00edcios programados pelos comunistas, no Crato, durante a campanha eleitoral de 1945. Em Miss\u00e3o Velha, como vig\u00e1rio, substituindo uma doce figura do clero, o padre Francisco das Chagas Barros, afastado da par\u00f3quia p\u00f3 haver ca\u00eddo no esquema de rejei\u00e7\u00e3o do prefeito da cidade, iniciou um combate feroz aos dois comunistas.<\/p>\n<p>Em todas as missas, aos domingos, e especialmente, \u00e0 noite, por ocasi\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo Sacramento, a tem\u00e1tica era uma s\u00f3 durante os serm\u00f5es e as pr\u00e9dicas noturnas: o modelo de sociedade sovi\u00e9tica, a falta de liberdade, a aus\u00eancia de propriedade privada, as persegui\u00e7\u00f5es ao catolicismo, o predom\u00ednio do ate\u00edsmo e at\u00e9 a est\u00f3ria do f\u00edgado das crian\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Numa madrugada, depois de semanas exprobrando os comunistas, como parte da prepara\u00e7\u00e3o da sua tropa de choque, o sacerdote deixou que o rel\u00f3gio da matriz assinalasse meia-noite para iniciar uma prociss\u00e3o \u00e0 luz de velas, onde os componentes das irmandades leigas portavam seus estandartes e paramentos nas cores vermelha, amarela e branca, subindo e descendo as ruas centrais da cidade, cantando benditos, rezando ladainhas, recitando o ter\u00e7o, ovacionando a Igreja e condenando\u00a0 o Comunismo.<\/p>\n<p>Os seguidores do s\u00e9q\u00fcito portavam archotes medievais, transportavam uma cruz enorme ao centro do cortejo e bandeiras pretas para sinalizar a morte do Comunismo na cidade. Um deles, mais afoito, Josino Araruna, carregava um balde cheio de alcatr\u00e3o (piche), usado como tinta para desenhar o s\u00edmbolo do Cristianismo \u2013 a cruz \u2013 nas portas das resid\u00eancias dos dois comunistas, dos seus familiares e de pessoas com as quais mantinham rela\u00e7\u00f5es de amizade.<\/p>\n<p>A propor\u00e7\u00e3o que o cortejo circulava, e pelo ineditismo das cenas dantescas do espet\u00e1culo \u00e9pico-tr\u00e1gico-religioso, as fam\u00edlias iam acordando, uns temerosos, observando o alarido, de suas portas; outros se aproximando da multid\u00e3o para observar, de perto, as cenas da noite de terror! Era a vingan\u00e7a dos cat\u00f3licos contras os cidad\u00e3os que, usando um direito constitucional, tentavam repercutir, em ambiente inadequado, a utopia do Cavaleiro da Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Outra demonstra\u00e7\u00e3o de como, na regi\u00e3o do Cariri, o anticomunismo era acentuado: em abril de 1948, por ocasi\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es gerais na It\u00e1lia, o Partido Comunista Italiano \u2013 PCI, foi derrotado. Por esse fato, a C\u00e2mara Municipal do Crato aprovou, ent\u00e3o, uma sauda\u00e7\u00e3o ao Papa, na pessoa do bispo diocesano, Francisco de Assis Pires, o que foi feito por uma comiss\u00e3o de vereadores. 33<\/p>\n<p>32 \u2013 O nome de Osias Uchoa S\u00e1, quando ainda estudante do Liceu do Cear\u00e1, consta da primeira<\/p>\n<p>rela\u00e7\u00e3o dos fundadores da A.I.B. em 1932. Cf. MONTENEGRO, Jo\u00e3o Alfredo de Sousa. O Integralismo no Cear\u00e1. Varia\u00e7\u00f5es Ideol\u00f3gicas. Fortaleza: Imprensa Oficial do Cear\u00e1, 1986, p.20<\/p>\n<p>33 \u2013 PINHEIRO, Irineu. Efem\u00e9rides do Cariri. Fortaleza: Imprensa Universit\u00e1ria do Cear\u00e1, 1963, p. 231<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>A proximidade dos religiosos da Zona Sul com os seguidores de Pl\u00ednio Salgado mesmo depois das persegui\u00e7\u00f5es sofridas durante o Governo Menezes Pimentel, quando, a exemplo do que ocorreu em Fortaleza, alguns sacerdotes foram presos, est\u00e1 assinalada no fato de que, por ocasi\u00e3o da inaugura\u00e7\u00e3o de sede do Partido de Representa\u00e7\u00e3o Popular \u2013 PRP, ainda no Crato, o convidado para aspergir com \u00e1gua benta a imagem do Cristo existente no recinto foi o monsenhor Francisco de Assis Feitosa, vig\u00e1rio geral da diocese e autoproclamado integralista. A imagem do Cristo \u00a0crucificado era ladeada por fotos ampliadas de Pl\u00ednio Salgado e do Duque de Caxias. 34<\/p>\n<p>Como se v\u00ea o processo democr\u00e1tico \u00e9 de dif\u00edcil implanta\u00e7\u00e3o. Nem sempre a lei \u00e9 igual para todos. Durante as campanhas eleitorais de 1945 a 1947, os candidatos dos partidos ent\u00e3o emergentes tiveram ampla liberdade para fazer proselitismo pol\u00edtico no Cariri. Exce\u00e7\u00e3o \u00fanica feita ao Partido Comunista do Brasil, o qual, registrado junto \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral, atuando dentro da legalidade, garantido pela Constitui\u00e7\u00e3o nascente, n\u00e3o mereceu sequer o espa\u00e7o para que seus membros expusessem suas propostas em pra\u00e7a p\u00fablica. A igreja da regi\u00e3o Sul, a exemplo da regi\u00e3o Norte, mantinha uma \u201cazeitada\u201d m\u00e1quina de mobiliza\u00e7\u00e3o de fi\u00e9is na desarticula\u00e7\u00e3o\u00a0 dos com\u00edcios dos comunistas.<\/p>\n<p>34 \u2013 Idem, ibidem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da hierarquia cat\u00f3lica na diocese do Crato, na Zona Sul do Cear\u00e1,<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":1704,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[304],"tags":[],"class_list":["post-1703","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1703"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1705,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1703\/revisions\/1705"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}