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{"id":1687,"date":"2014-11-29T13:07:21","date_gmt":"2014-11-29T13:07:21","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1687"},"modified":"2021-02-02T01:58:58","modified_gmt":"2021-02-02T01:58:58","slug":"analfabetos-e-prostitutas-do-inicio-do-seculo-xx-uma-visao-iluminista-e-eugenica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2014\/11\/29\/analfabetos-e-prostitutas-do-inicio-do-seculo-xx-uma-visao-iluminista-e-eugenica\/","title":{"rendered":"Analfabetos e Prostitutas do In\u00edcio do S\u00e9culo XX: Uma Vis\u00e3o Iluminista e Eug\u00eanica"},"content":{"rendered":"<p>Todos estavam cantando e acompanhando a letra da m\u00fasica atrav\u00e9s do livrinho na igreja lotada de fi\u00e9is. Alguns estavam sem o livrinho, mas uma mo\u00e7a sol\u00edcita entregava um exemplar a todos. Lurdes tamb\u00e9m recebeu um. De in\u00edcio, ela pensou em n\u00e3o aceit\u00e1-lo mas concluiu que seria descoberta facilmente se assim procedesse e recebeu o livrinho j\u00e1 aberto na p\u00e1gina da m\u00fasica que todos cantavam.<\/p>\n<p>Ela olhou para a p\u00e1gina e come\u00e7ou a reconhecer algumas letras que lhe eram familiares. Estas apareciam arrumadas e colocadas em diferentes posi\u00e7\u00f5es. Via o \u201ca\u201d em todos os lugares. Reconheceu o \u201cL\u201d, a primeira letra do seu nome. Enquanto esse reconhecimento prosseguia, sua aten\u00e7\u00e3o estava voltada tamb\u00e9m, em verificar se as pessoas viravam a p\u00e1gina para que ela repetisse o mesmo gesto. Mas seu medo aumentava e, de repente, uma fantasia come\u00e7ou a surgir em sua mente na qual ela era olhada pelos outros com pavor e censura, em que cochichavam e riam dela. Ela fingia ler e tinha medo de que os outros descobrissem sua mentira. Sua ang\u00fastia era tanta que ela n\u00e3o ag\u00fcentou mais. Ela fechou o livro e, demonstrando mal estar, colocou a m\u00e3o sobre os olhos enquanto falava para sua vizinha concentrada na leitura, \u201c<em>meus olhos est\u00e3o doendo. Acho<\/em>\u00a0<em>que preciso trocar os \u00f3culos\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Este depoimento foi colhido por mim em uma entrevista realizada em setembro de 2002, em que me chamou aten\u00e7\u00e3o o relato cheio de emo\u00e7\u00e3o, medo, vergonha e culpa pela condi\u00e7\u00e3o de analfabeto.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia acima relatada ou situa\u00e7\u00f5es semelhantes s\u00e3o vividas por muitos adultos iletrados. Todos t\u00eam hist\u00f3rias de medo, mentira e sofrimento escondidos. \u00c9 uma experi\u00eancia comum por\u00e9m solit\u00e1ria, e v\u00e3o sendo repetidas indefinidamente no cotidiano dos adultos que n\u00e3o sabem ler e escrever. Como entender o medo e o sentimento de vergonha presentes na experi\u00eancia de Lurdes? Somente recuando no tempo \u00e9 poss\u00edvel compreender a raz\u00e3o da exist\u00eancia desses sentimentos em relatos de pessoas que n\u00e3o tiveram a oportunidade de estabelecer contato \u00edntimo com as letras.<\/p>\n<p>Procurarei rastrear dois caminhos: o discurso iluminista presente no seio da intelectualidade brasileira que advogava a escolariza\u00e7\u00e3o como elemento de progresso e de regenera\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, e as teorias biol\u00f3gicas ou organicistas, que procuravam demonstrar os tra\u00e7os degenerativos deste mesmo povo brasileiro os quais, traziam por heran\u00e7a uma ra\u00e7a supostamente atrasada e inferior. Esse dilema pareceu estar presente nos discursos das elites brasileiras, tendo sido claramente percebido e introjetado pelos grupos de analfabetos.<\/p>\n<p>No per\u00edodo j\u00e1 referido, havia a mentalidade disseminada no meio da elite intelectual brasileira de que o analfabetismo presente em uma parcela significativa dos brasileiros interferia na unidade da jovem na\u00e7\u00e3o brasileira. Assim, sob a influ\u00eancia do iluminismo europeu, o discurso em defesa da escolariza\u00e7\u00e3o tinha como objetivo apresentar a forma\u00e7\u00e3o de um Estado brasileiro forte e progressista. Nesse sentido, a escolariza\u00e7\u00e3o seria o meio atrav\u00e9s da qual seria formado o sentimento nacional, promovendo a instru\u00e7\u00e3o e o dom\u00ednio da l\u00edngua nacional. Somente ent\u00e3o, alcan\u00e7ar-se-ia a \u201csociedade dos letrados\u201d no dizer dos iluministas, segundo Boto (1). Esta autora afirma ainda, que para os iluministas a ignor\u00e2ncia \u201cseria ceifada pela via da Escola e esta, far-se-ia capaz de imprimir na alma dos novos cidad\u00e3os o registro da sociabilidade in\u00e9dita que recriaria os costumes, os h\u00e1bitos, os valores e a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o\u201d (p.99).<\/p>\n<p>Portanto, a instru\u00e7\u00e3o seria o caminho que regeneraria o homem. O aprendizado contribuiria para o \u201co derramamento de luzes\u201d e aperfei\u00e7oaria a na\u00e7\u00e3o. Essa alta valoriza\u00e7\u00e3o dada \u00e0 Raz\u00e3o contribuiu para que os grupos n\u00e3o escolarizados fossem discriminados, pois s\u00f3 a instru\u00e7\u00e3o poderia quebrar a desigualdade.<\/p>\n<p>Entretanto, o discurso das elites e intelectuais brasileiras, que acreditavam na instru\u00e7\u00e3o como regeneradora e que corrigiria desvios, foi se contrapondo, at\u00e9 certo ponto, com as teorias biol\u00f3gicas, defendidas por alguns cientistas e estudiosos, tanto no Brasil como na Europa, as quais baseavam-se na cren\u00e7a em uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o de degenera\u00e7\u00e3o racial dos iletrados.<\/p>\n<p>Assim, segundo Ana Maria Freire (2), existe uma ideologia da inferioridade dos analfabetos, que ela constatou atrav\u00e9s da leitura de documentos oficiais do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, nos quais o analfabetismo foi descrito por termos como: \u201cpeste negra\u201d, \u201cc\u00e2ncer\u201d, \u201cvergonha\u201d, \u201cdegeneresc\u00eancia\u201d, \u201cchaga\u201d, \u201cproscri\u00e7\u00e3o moral\u201d, \u201cparias\u201d, \u201cignor\u00e2ncia\u201d, \u201cincompet\u00eancia\u201d. N\u00e3o havia nesses documentos uma an\u00e1lise social e econ\u00f4mica mais profunda sobre o fen\u00f4meno do analfabetismo. Por\u00e9m, os argumentos utilizados sempre de conte\u00fado excludente e marginal. Essa ideologia foi trazida pelo colonizador (europeu) detentor da leitura escrita que desprezou toda a cultura e educa\u00e7\u00e3o baseada na narrativa oral aqui existente.A cultura europ\u00e9ia civilizada, passou a servir de modelo de \u201cordenamento cultural\u201d , como disse Cavalcante (3), tendo como conseq\u00fc\u00eancia o fato de que os nativos foram perdendo a capacidade da mem\u00f3ria pelo relato oral. A perda de import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o baseada na oralidade contribuiu para que aqueles iletrados (nativos \u00edndios, escravos africanos, mulheres, pobres em geral) fossem considerados inferiores ou incapazes.<\/p>\n<p>Na verdade, muitas cren\u00e7as ainda permanecem no cotidiano das pessoas de todos os graus de instru\u00e7\u00e3o, em que se acredita se a aus\u00eancia do dom\u00ednio da leitura e da escrita uma defici\u00eancia ou incapacidade de causa org\u00e2nica ou cerebral. Alexander e Selesnick (4) ao escreverem o livro \u201cHist\u00f3ria da Psiquiatria\u201d, fizeram um levantamento exaustivo das principais proposi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, nos s\u00e9culos XIX e XX, que refor\u00e7avam a explica\u00e7\u00e3o org\u00e2nica dos comportamentos desviantes, demonstradas atrav\u00e9s de pesquisas cientificas em que \u201ccomportamentos degenerados\u201d tinham uma explica\u00e7\u00e3o em falhas no sistema nervoso central, o que levava a doen\u00e7as mentais. \u201cDegenera\u00e7\u00f5es s\u00e3o desvios do tipo humano normal, que s\u00e3o transmiss\u00edveis pela hereditariedade e se deterioram progressivamente no sentido da extin\u00e7\u00e3o\u201d. (Alexander e Selesnick, p. 220).<\/p>\n<p>Essa linguagem cient\u00edfica, descrita acima, era bastante conhecida e utilizada pelos intelectuais cearenses desse mesmo per\u00edodo, pois tinham contato permanente com os estudos cient\u00edficos mais modernos, seja atrav\u00e9s de constantes viagens feitas aos pa\u00edses europeus, ou atrav\u00e9s do acesso direto aos livros cient\u00edficos que vinham de outros pa\u00edses. Aos estudos cient\u00edficos deste per\u00edodo procuraram explicar os comportamentos humanos, os desviantes e os saud\u00e1veis como estando relacionados com a fisiologia e morfologia do corpo. Hall e Lindsey (5), psic\u00f3logos americanos, citam v\u00e1rias pesquisas realizada na Europa desde meados do s\u00e9culo XIX, as quais explicavam certos tra\u00e7os de personalidade como atributos inatos e raciais, e que podiam ser identificados pela fisionomia, pela forma, estatura e musculatura do corpo. Um dos principais trabalhos foi desenvolvido pelo psiquiatra alem\u00e3o Krestschmer em 1921, em que os diversos tipos de car\u00e1ter e doen\u00e7as mentais eram determinados por tr\u00eas tipos f\u00edsicos humanos (atl\u00e9tico; delgados e magros e os de formas arredondadas). Mas, foram os estudos de Francis Galton, respons\u00e1vel pelo nascimento da eugenia de 1883, que deram in\u00edcio aos estudos sobre capacidades inatas de cada ra\u00e7a, os quais demonstravam com reconhecida consist\u00eancia para \u00e9poca, que os indiv\u00edduos de ra\u00e7a branca eram os mais superiores, pois eram \u201ccivilizados\u201d, mais inteligentes, com mais iniciativa e mais capazes, j\u00e1 que criaram um sistema de vida mais desenvolvido. Testes psicom\u00e9tricos e educacionais procuraram avaliar diferen\u00e7as individuais de escolares e eram largamente utilizados para confirmar a inferioridade dos grupos raciais menos dotados ou que tiveram menores oportunidades educacionais. Ap\u00f3s feito leitura das publica\u00e7\u00f5es deste per\u00edodo nas \u00e1reas de psicologia educacional e psicologia da aprendizagem, foi poss\u00edvel observar que o estudo eram as diferen\u00e7as raciais hereditariamente determinadas causadoras ou de males e desvios, por um lado, ou de vitalidade e \u201cajustamentos\u201d por outro. Assim, Cavalcante, Op.cit. , menciona no seu livro uma mat\u00e9ria publicada no jornal Di\u00e1rio de Cear\u00e1 de oito de maio de 1922, em que o analfabetismo \u00e9 descrito como \u201co maior mal que apresenta a nossa ra\u00e7a e o progresso do pa\u00eds\u201d(p.106). Juc\u00e1 (6) tamb\u00e9m enfatiza essa linguagem comentando a mentalidade dos educadores da \u00e9poca que descreviam menores pobres como aqueles que possu\u00edam uma hereditariedade que predisporia \u00e0 debilidade da vontade, indecis\u00e3o e inconst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de uma ra\u00e7a d\u00e9bil e com desvios, sujeita a degenera\u00e7\u00e3o e extin\u00e7\u00e3o ap\u00f3s algumas gera\u00e7\u00f5es, atormentava a elite intelectual cearense e brasileira de modo geral, inconformadas com o grande contingente de analfabetos e desnutrido (que geralmente eram negros ou mesti\u00e7os) frutos da pobreza e desigualdades econ\u00f4micas, mas que a mentalidade intelectual os via como portadores de tra\u00e7os de uma ra\u00e7a incapaz, intrinsecamente sem responsabilidade moral e, por isso mesmo, inadequadamente preparada para as atividades da vida adulta. Nesse sentido, o analfabetismo sempre foi visto como causa do atraso econ\u00f4mico do Brasil e da \u201cdegenera\u00e7\u00e3o racial\u201d que causaria a extin\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira em algumas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O estudo do m\u00e9dico brasileiro Nina Rodrigues (7), do mesmo per\u00edodo, em concord\u00e2ncia com vis\u00e3o cient\u00edfica da \u00e9poca, vieram refor\u00e7ar ainda essa mentalidade a qual acreditava ser quest\u00e3o de profilaxia e de higiene social promover a extin\u00e7\u00e3o dos negros e dos mesti\u00e7os, pois a eles eram atribu\u00eddos tra\u00e7os como \u201cin\u00e9rcia\u201d, \u201cindol\u00eancia\u201d, des\u00e2nimo\u201d, \u201csubservi\u00eancia\u201d e, as vezes, \u201cmorfologia e fisiologia que n\u00e3o se iguala ao branco, com pobre capacidade de abstra\u00e7\u00e3o\u201d. Assim, afirma Nina Rodrigues sobre tal inferioridade racial:<\/p>\n<p>A ra\u00e7a negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontest\u00e1veis servi\u00e7os \u00e0 nossa civiliza\u00e7\u00e3o, por mais justificadas que sejam as simpatias de que cercou o revoltante abuso da escravid\u00e3o h\u00e1 de se constituir\u00a0 sempre um dos fatores de nossa inferioridade como povo. (p.07)<\/p>\n<p>Ele afirma mais sobre a suposta decad\u00eancia latina que sempre foi \u201cde bom tom ostentar desprezo por esses inferiores, cortejando humildemente os fortes teut\u00f5es e anglo-sax\u00f5es\u201d (ibdem, p.5) Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel concordar com S\u00e9rgio Buarque de Holanda (8) quando afirmou que o Brasil se envergonhava de si mesmo, de sua realidade biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Movimentos como o da Liga Brasileira de Alfabetiza\u00e7\u00e3o, que surgiu em 1905, conforme menciona Ana Maria Freire, (Op.cit), tinham como objetivo \u201cerradicar o cancro\u201d do analfabetismo a fim de impedir a degenera\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira. Tais movimentos partiam da elite intelectual brasileira, o que explica n\u00e3o ter logrado \u00eaxito pois, acredito que tais elites preferissem n\u00e3o promover os conhecidos membros degenerados da na\u00e7\u00e3o brasileira, o que causaria sua extin\u00e7\u00e3o em poucas gera\u00e7\u00f5es, e assim haveria o predom\u00ednio dos brancos que j\u00e1 dominavam a letras e o saber cient\u00edfico, sendo vistos como \u201co povo mais culto\u201d.Segundo Nina Rodrigues, tal situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava acontecendo nos estados do sul do Brasil, onde ele acreditava\u00a0 que os\u00a0 negros\u00a0 de l\u00e1\u00a0 desapareceriam<\/p>\n<p>Em algumas gera\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o de seu atraso e fraqueza f\u00edsica e ps\u00edquica, pois n\u00e3o havia cruzamentos com os brancos para surgirem mesti\u00e7os, os quais s\u00f3 retardariam t\u00e3o desejada extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez outro evento que muito contribuiu para a exclus\u00e3o social dos analfabetos tenha sido a associa\u00e7\u00e3o com grande incid\u00eancia de s\u00edfilis e todos os problemas sociais causados por esta doen\u00e7a. Vejamos como se deu essa rela\u00e7\u00e3o. Segundo Alexander e Selesnick (op.cit, a s\u00edfilis foi a doen\u00e7a que mais inspirou psiquiatras organicistas do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Embora essa doen\u00e7a seja registrada desde Hip\u00f3crates, foi uma epidemia ocorrida no s\u00e9culo XV, que se alastrou por toda Europa e \u00c1sia, que a tornou popular e temida. Somente 500 anos depois, por volta de 1905, foi descoberto o agente infeccioso, cujo controle s\u00f3 acontece a partir de 1944, com a descoberta da penicilina. Entretanto, mesmo antes j\u00e1 era sabido que a transmiss\u00e3o da s\u00edfilis se fazia pelo contato sexual com prostitutas. Holmes (9) afirmou que os primeiros estudos laboratoriais feitos no in\u00edcio do s\u00e9culo XX procuravam demonstrar que a maior incid\u00eancia de portadores de s\u00edfilis eram as pessoas de ra\u00e7a negra, o que vinha refor\u00e7ar a concep\u00e7\u00e3o de fraqueza racial desta. Anos mais tarde, foi poss\u00edvel identificar erros nas pesquisas, as quais eram realizadas em cl\u00ednicas p\u00fablicas, cuja clientela era composta preferencialmente por negros pobres. No entanto, s\u00edfilis era considerada como heredit\u00e1ria, atingindo at\u00e9 a s\u00e9tima gera\u00e7\u00e3o da v\u00edtima doente, o que causava degenera\u00e7\u00e3o racial e sua conseq\u00fcente extin\u00e7\u00e3o. Na realidade, os verdadeiros causadores da suposta fraqueza racial eram a pobreza, o desprezo social e a pr\u00f3pria doen\u00e7a em si.<\/p>\n<p>No Brasil, a s\u00edfilis tamb\u00e9m se alastrou descontroladamente at\u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o da penicilina, a partir de 1940, como forma de tratamento eficaz. De acordo com Carrara (10), havia, no in\u00edcio do s\u00e9culo, a mentalidade de que as prostitutas eram as portadoras de degenera\u00e7\u00f5es heredit\u00e1rias, j\u00e1 evidenciadas atrav\u00e9s do seu comportamento sexual considerado desviante, as quais causavam os males nos homens. Tal mentalidade fundamentou a elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas saneadoras, que designaram zonas de meretr\u00edcio para as resid\u00eancias das prostitutas e hosp\u00edcios ou casas de interna\u00e7\u00e3o espec\u00edficas, quando apresentavam a doen\u00e7a exposta em partes do corpo, chamada\u00a0<em>cancro<\/em>.Al\u00e9m disso, eram cadastradas junto aos postos policiais. O Objetivo era impedir que a doen\u00e7a degenerativa se espalhasse pelas casas de boa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Portanto, assim como as feridas na pele chamadas de\u00a0<em>cancro<\/em>\u00a0eram a parte vis\u00edvel da s\u00edfilis, a qual levava a uma degenera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica da suposta ra\u00e7a brasileira, o analfabetismo correspondia ao \u201ccancro social\u201d ou a \u201cpeste negra\u201d, na linguagem dos estudiosos da \u00e9poca, que levava tamb\u00e9m a degenera\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira ou \u00e0 sua inferioridade. N\u00e3o por simples coincid\u00eancia, tais males eram encontrados na popula\u00e7\u00e3o exclu\u00edda de pobres, prostitutas e afros-descendentes, os quais eram avaliados pelas teorias cient\u00edficas como os culpados pelo alastramento dos desvios e debilidades nacionais.N\u00e3o eram considerados fatores socioecon\u00f4micos como aus\u00eancia de assepsia, de assist\u00eancia m\u00e9dica, de nutri\u00e7\u00e3o e de instru\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria. Quando os cientistas, educadores, intelectuais e as elites no poder se referiam ao analfabetismo, em documentos oficiais, livros e jornais, como \u201cum mal\u201d, \u201cuma doen\u00e7a\u201d, \u201cuma vergonha\u201d, \u201cum cancro\u201d que se deve \u201cextirpar\u201d, estavam demonstrando uma mentalidade excludente e estigmatizante em rela\u00e7\u00e3o aos menos afortunados vistos atavicamente inferiores, embora mascarada por um discurso de modernidade, cientificidade e preocupados com todos os grupos sociais. As pol\u00edticas de alfabetiza\u00e7\u00e3o surgidas no Brasil de ent\u00e3o, procuravam cumprir com uma certa obriga\u00e7\u00e3o moral de criar mecanismos que levassem os analfabetos \u00e0s escolas, restando a estes a responsabilidade por sua alfabetiza\u00e7\u00e3o. Quem n\u00e3o conseguisse, passava a ser culpado pela vergonha nacional, sendo desvalorizado e inferiorizado, com r\u00f3tulo de incapaz evidenciado pelo uso do polegar em documentos oficiais ou pela perda do direito de exercer o voto democr\u00e1tico. Tal situa\u00e7\u00e3o ainda hoje persiste, haja vista a experi\u00eancia vivida por Lurdes, a qual foi relatada no in\u00edcio deste artigo.<\/p>\n<p>Na verdade, por tr\u00e1s do discurso de preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o do analfabetismo, o uso de termos depreciativos, j\u00e1 citados, indicam a cren\u00e7a nas teorias organicistas de inerente fraqueza racial daqueles que n\u00e3o aprenderam a ler\u00a0 e escrever. \u00c9 muito estranho que, j\u00e1 em pleno s\u00e9culo XXI, as elites ainda usem termos como \u201cerradicar\u201d, \u201cextirpar\u201d, e outros similares, quando se referem \u00e0 quest\u00e3o do analfabetismo. \u00c9 estranho porque a teoria da eugenia, que defendia a id\u00e9ias da transmiss\u00e3o heredit\u00e1ria de tra\u00e7os biol\u00f3gicos e psicol\u00f3gicos que indicavam atraso, debilidade e doen\u00e7as da ra\u00e7a, j\u00e1 n\u00e3o possui sustenta\u00e7\u00e3o na Ci\u00eancia, tendo sido suplantada por pesquisas realizadas nos campos da Antropologia Cultural, da Psicologia Social e da moderna gen\u00e9tica a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX. Entretanto, concordo com L\u00e9vi-Strauss (11) quando afirma que ainda permanece presente no cotidiano e no imagin\u00e1rio uma atitude psicol\u00f3gica de rejeitar formas culturais diversas que n\u00e3o se harmonizam com a cultura dominante, considerada \u201cmais evolu\u00eddas\u201d com a qual se identificam as elites. Somente dessa forma se pode entender porque tais denomina\u00e7\u00f5es e classifica\u00e7\u00f5es ainda existem.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<ol>\n<li>BOTO, Cartola \u2013 A Escola do Homem Novo: entre o iluminismo e a Revolu\u00e7\u00e3o francesa, S\u00e3o Paulo, Unesp, 1996.<\/li>\n<li>FREIRE, Ana Maria \u2013\u00a0<strong>Analfabetismo no Brasil<\/strong>\u00a0\u2013 S\u00e3o Paulo, Cortez, 1993.<\/li>\n<li>CAVALCANTE, Juraci \u2013 Jo\u00e3o Hippolyto de Azevedo S\u00e1:\u00a0<strong>O Esp\u00edrito da Reforma de 1922<\/strong>\u00a0<strong>no Cear\u00e1 \u2013\u00a0<\/strong>Fortaleza, EUFC, 2000.<\/li>\n<li>ALEXANDER,Franz e SELESNICK \u2013\u00a0<strong>Hist\u00f3ria da Psiquiatria.<\/strong>\u00a0S\u00e3o Paulo, Ibraza, 1980.<\/li>\n<li>HALL e Lindsey \u2013\u00a0<strong>Teorias da Personalidade<\/strong>\u00a0\u2013 S\u00e3o Paulo, EPU, 1973.LAVATER \u2013 Essays on psysiognomy: for the promotion of the knowledge and lhe love of\u00a0Mankind \u2013 Londres. 1804; VIOLA, Le legge di correlazione morfologica dei tippi individuoli, p\u00e1dua, It\u00e1lia, 1909;\u00a0SIGAUD, La forme humaine, paus, 1914;\u00a0KRESTSCHMER \u2013 K\u00f6rperbau und e Charakter, Berlim, 1921;\u00a0GALTON \u2013 Hereditary Genius \u2013 Londres, 1869.<\/li>\n<li>JUC\u00c1, Gisafran \u2013\u00a0<strong>Verso e Reverso do perfil urbano de Fortaleza<\/strong>(1945\/1960) \u2013 S\u00e3o Paulo: Annablume, Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Cear\u00e1.<\/li>\n<li>RODRIGUES, Nina \u2013\u00a0<strong>\u201cOs Africanos no Brasil\u201d<\/strong>\u00a0\u2013 S\u00e3o Paulo, Cia, Editora Nacional, 1977.<\/li>\n<li>HOLANDA, S\u00e9rgio Buarque \u2013\u00a0<strong>Ra\u00edzes do Brasil,<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro, Jos\u00e9 Olympio Editora, 1973.<\/li>\n<li>\u00a0HOLMES, King \u2013 in HARRISON \u2013\u00a0<strong>Medicina Interna<\/strong>.Guanabara Koogan.\u00a0Rio de Janeiro, 1983.<\/li>\n<li>CARRARA, S\u00e9rgio \u2013\u00a0<strong>Tributo a V\u00eanus: A Luta Contra a S\u00edfilis no Brasil da passagem\u00a0<\/strong><strong>do s\u00e9culo XIX aos 40.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro Fiocruz, 1997.<\/li>\n<li>L\u00c9VI \u2013 Strauus, Claude \u2013\u00a0<strong>Ra\u00e7a e Hist\u00f3ria<\/strong>\u00a0in \u2013 COMAS, Juan et alli-\u00a0<strong>Ra\u00e7a e Ci\u00eancia I\u00a0\u00a0<\/strong>S\u00e3o Paulo, Perspectiva 1970.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos estavam cantando e acompanhando a letra da m\u00fasica atrav\u00e9s do livrinho na igreja lotada<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":1688,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1687","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1687"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1689,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687\/revisions\/1689"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1688"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1687"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1687"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1687"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}