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{"id":1441,"date":"2020-05-17T23:57:01","date_gmt":"2020-05-17T23:57:01","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1441"},"modified":"2020-12-09T23:59:34","modified_gmt":"2020-12-09T23:59:34","slug":"entrevista-com-o-geografo-julian-ferreira-lima-hull-filho-de-francis-reginaldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2020\/05\/17\/entrevista-com-o-geografo-julian-ferreira-lima-hull-filho-de-francis-reginaldo\/","title":{"rendered":"Entrevista com o Ge\u00f3grafo Julian Ferreira Lima Hull, filho de Francis Reginaldo"},"content":{"rendered":"<p>Fortaleza, 06 de agosto de 1976.<\/p>\n<p>Entrevista com o Ge\u00f3grafo Julian Ferreira Lima Hull, filho de Francis Reginaldo Hull, militar e engenheiro diplomata sobre secas no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Entrevista concedida para o Programa de Hist\u00f3ria Oral da Universidade Federal do Cear\u00e1, em conv\u00eanio com o Arquivo Nacional.  <\/p>\n<p>L.F.: LUCIARA FROTA<\/p>\n<p>                                                                                    J.H.: JULIAN HULL<\/p>\n<p>L.F. Neste nosso segundo encontro de grava\u00e7\u00e3o autorizada e transcrita, Dr. Julian, quero indagar sobre quest\u00f5es mais pessoais como o fato do senhor omitir o nome de seu pai do seu sobrenome, conforme a gente l\u00ea na Veja p\u00e1gina 41, na Veja do dia 20 de agosto de 1975?<\/p>\n<p>J.H. Pois n\u00e3o. Ap\u00f3s a morte de meu pai ele deixou-me entregue ao tutor que era casado com minha tia, ambos ingleses, mas este meu tutor ent\u00e3o, quis tomar a heran\u00e7a que meu pai havia deixado para mim. Naquela \u00e9poca eu era garoto de 14 anos, e eu tive ent\u00e3o uma grande luta, inclusive seis anos de luta para conseguir novamente os documentos comprovando o que meu pai teria deixado para mim. Ent\u00e3o, aquele \u00f3dio que eu tinha aos ingleses fez com que eu trocasse meu sobrenome. Foi um grande problema, reaver os pap\u00e9is comprobat\u00f3rios, conseguir novamente os documentos dando conta do que meu pai teria deixado para mim. Ent\u00e3o, aquele \u00f3dio que eu tinha aos ingleses fez com que eu trocasse meu sobrenome. Claro que respeito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es inglesas pelas quais meu pai tinha tanto respeito e que este \u00f3dio ou o que eu pensava fosse \u00f3dio, n\u00e3o se estendia naturalmente ao meu pai.<\/p>\n<p> De fato, o procedimento de Mr. Brown foi desonesto e hip\u00f3crita. Um aproveitador despudorado da heran\u00e7a de um menor aos seus cuidados e que na \u00e9poca era engenheiro da Cear\u00e1 Light. N\u00e3o era nenhum despossu\u00eddo.<\/p>\n<p>L.F. O que quer nos falar a respeito do seu pai&#8230; O senhor tem feito v\u00e1rios trabalhos e aparecido em v\u00e1rias reportagens tratando do assunto, tem procurado divulgar o que ele tem feito. Ent\u00e3o, n\u00f3s sabemos, por exemplo, que ele nasceu num sub\u00farbio de Londres, no dia 21 de novembro de 1972. E sobre a sua \u00e1rvore geneal\u00f3gica?<\/p>\n<p>J.H. Bom, meu pai era ingl\u00eas e nasceu na cidade de Wimbledon. Eu sou neto do Almirante  Thomaz Arthur Hull, da Marinha Inglesa e minha av\u00f3 era uma simples pescadora de Jerer\u00ea no Munic\u00edpio de Aquiraz por quem ele se apaixonou .Meu pai teve uma vida diferente e uma personalidade explosiva e marcante.  O nome dele completo era Francis Reginaldo Hull e conseguiu entrar na Philogical Society que mais tarde tomou um nome diferente. Acho que St. Marylebone Grammar Scholl.<\/p>\n<p>L.F. E quanto a sua m\u00e3e, como ela conheceu Francis Hull?<\/p>\n<p>J.H. Meu pai conheceu a minha m\u00e3e na casa da fam\u00edlia Bello, uma fam\u00edlia tradicional de comerciantes, donos da casa Bello e depois uma das filhas foi dona da Farm\u00e1cia Juliane, e foi ai que ele conheceu minha m\u00e3e, onde minha m\u00e3e era criada por essa fam\u00edlia. Ent\u00e3o, l\u00e1 ele conheceu a minha m\u00e3e, gostou dela, viveram um romance e eu nasci.<\/p>\n<p>L.F. E o que o senhor nos diria sobre os primeiros estudos de seu pai, sobre o que ele veio de fato fazer no Brasil, a atua\u00e7\u00e3o inicial dele na nossa terra?<\/p>\n<p>J.H. Meu pai formou-se em engenharia e veio pela primeira vez ao Brasil com 25 anos de idade. Trabalhava na constru\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro no Alto da Serra em S\u00e3o Paulo, no caso, a S\u00e3o Paulo Railway. Esta foi a primeira ferrovia do estado de S\u00e3o Paulo que ligava Santos a Jundia\u00ed. Como convers\u00e1vamos antes, voc\u00ea me falou que a estrada foi uma concess\u00e3o ao Bar\u00e3o de Mau\u00e1 e que s\u00f3 depois passou aos ingleses. Acho que falou em 1860.  L\u00e1 ele passou alguns anos, construiu algumas obras e projetos t\u00e9cnicos junto com outros engenheiros ingleses habituados com fazer ferrovias em regi\u00f5es montanhosas. Acho que ficou durante a constru\u00e7\u00e3o que durou de 1862 a 1867. L\u00e1 tinha muitos ingleses trabalhando na estrada. Era um complexo no alto da Serra do Mar. Tinha armaz\u00e9ns, oficinas e a esta\u00e7\u00e3o do trem. O certo \u00e9 que depois, novamente, de temperamento muito impulsivo, deixou a continua\u00e7\u00e3o da estrada e foi deslocado ent\u00e3o para a Esc\u00f3cia. Na Esc\u00f3cia, ele trabalhou no planejamento da constru\u00e7\u00e3o de represas, ali tudo \u00e9 muito peculiar por causa do sistema de drenagem formado por glacia\u00e7\u00e3o e t\u00e3o pr\u00f3ximo de Londres, tamb\u00e9m n\u00e3o se deu bem com a firma e foi ent\u00e3o, deslocado para a \u00c1frica. Na \u00c1frica ele trabalhou na Rod\u00e9sia, na delimita\u00e7\u00e3o das fronteiras. Os ingleses j\u00e1 tinham sido atra\u00eddos pra l\u00e1, pelo ouro desde 1867. Trabalhou na \u00c1frica do Sul, onde os ingleses assumiam a frente da coloniza\u00e7\u00e3o desde o Sec. XVII, numa mina de ouro. Olhe, eu calculo que a\u00ec j\u00e1 seria depois de 1867 e a fascina\u00e7\u00e3o por ouro e diamantes j\u00e1 tinha tido inicio com a Revolu\u00e7\u00e3o Kimberley. Poderia talvez ter enriquecido por l\u00e1, n\u00e3o sei por que n\u00e3o, pois eram as enormes quantidades de outo descobertas na profundidade do solo e retornou novamente ao Brasil, em 1900, novamente trabalhando na estrada de ferro de S\u00e3o Paulo. Veio pela segunda vez ao Brasil e a primeira vez ao Cear\u00e1 em 1913. Aqui, ele foi nomeado Superintendente da Estrada de Ferro de Baturit\u00e9.  Ficou aqui at\u00e9 1915, quando foi chamado para servir na Primeira Guerra Mundial com a comiss\u00e3o de Tenente-Engenheiro. Em 1915, ele assistiu pela primeira vez, sentiu os horrores da famosa Seca de Quinze, retratada t\u00e3o bem pela nossa Raquel de Queir\u00f3z, quando ent\u00e3o, ele come\u00e7ou a interessar-se pelos estudos, a maneira de minorar, ou melhor, de prever as secas no Nordeste.<\/p>\n<p>L.F. O senhor herdou alguma coisa desse temperamento impulsivo do seu pai?<\/p>\n<p>J.H. Sim. Lecionei, empreguei-me por duas vezes. Por duas vezes, fui professor da Universidade Federal do Cear\u00e1 e por duas vezes fui afastado da Universidade do Cear\u00e1 por n\u00e3o ter afinado com a dire\u00e7\u00e3o do Departamento. Diria discordar.<\/p>\n<p> Ora, eu entrei na Universidade em 1960, quando foi criado o Instituto de Meteorologia da Universidade. Entrei na qualidade de bolsista de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, sendo que cheguei at\u00e9 ao cargo de T\u00e9cnico na Universidade. Houve ent\u00e3o uma discuss\u00e3o entre eu e&#8230; Talvez por motivo de inveja pelo trabalho que eu estava fazendo, com o secret\u00e1rio do Instituto de Meteorologia, e devido a isso eu me afastei. E, na segunda vez fui chamado para o Departamento de Geoci\u00eancias para lecionar a cadeira de climatologia. Tamb\u00e9m tive problemas, pois eu apresentei uma den\u00fancia contra um professor que estava falsificando dados a respeito de pluviometria.  Levada a chefia do Departamento a minha den\u00fancia em nada resultou.<\/p>\n<p>L.F. Que professor?<\/p>\n<p>J.H. O professor da Universidade? Hoje ele leciona na Escola de Farm\u00e1cia, quer dizer, o referido professor n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es nenhuma, ou melhor, dizendo, n\u00e3o entendia de meteorologia. \u00c9 conhecido l\u00e1 por Z\u00e9 da Paz.<\/p>\n<p>.Jos\u00e9&#8230; Ou melhor, Jos\u00e9 Edson Paz. E o diretor do Departamento, no caso era o senhor Jos\u00e9 Napolino Neto que preferiu ficar com as falsifica\u00e7\u00f5es do senhor Jos\u00e9 da Paz. Ent\u00e3o, foi a segunda vez que eu deixei a Universidade, para at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o mais retornar \u00e0 Universidade Federal do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>L.F. Mas, o senhor n\u00e3o comprovou essas den\u00fancias?<\/p>\n<p>J.H. Como?  Tenho provas para a den\u00fancia, inclusive tenho aqui fotoc\u00f3pias dos documentos que foram falsificados.<\/p>\n<p>L.F. Ent\u00e3o, talvez isso tivesse sido abafado para evitar um esc\u00e2ndalo e envolver o nome da Universidade. Seria isso?<\/p>\n<p>J.H. Seria exatamente isso. Ent\u00e3o, eu preferi sair para que a Universidade n\u00e3o fosse prejudicada e achei por bem n\u00e3o falar mais nisso.<\/p>\n<p>L.F. Bom.. Que boas lembran\u00e7as guarda do conv\u00edvio com seu pai, sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>J.H. Tudo de bom. Meu pai para mim representa a figura m\u00e1xima da minha vida. Raz\u00e3o porque tenho continuado os trabalhos que ele amava. Primeiro porque no leito de morte ele me pediu que eu continuasse seus trabalhos. Lembro-me das suas \u00faltimas palavras que foram: &#8211; \u201cMeu filho, eu sempre lhe eduquei como ingl\u00eas, sempre lhe disse que o sol n\u00e3o se punha no nosso Imp\u00e9rio\u201d. Isso foi no dia 28 de fevereiro de 1950. Ent\u00e3o, ele me disse: \u201c&#8230; mas eu acho que o sol vai se por, no nosso imp\u00e9rio. Ent\u00e3o, voc\u00ea vai ficar aqui no Cear\u00e1, esque\u00e7a a Inglaterra e pense j\u00e1 como cearense\u201d.<\/p>\n<p>L.F. E suas lembran\u00e7as de fam\u00edlia?  As liga\u00e7\u00f5es que mant\u00e9m hoje.com a fam\u00edlia Hull, que continua na Inglaterra?<\/p>\n<p>J.H. A fam\u00edlia Hull, hoje est\u00e1 praticamente extinta. Acho viu&#8230; Acredito mesmo que da fam\u00edlia Hull s\u00f3 exista no mundo eu. E acredito tamb\u00e9m que tenha um irm\u00e3o meu, ou melhor, n\u00e3o \u00e9 um irm\u00e3o, um filho, digo, de um irm\u00e3o meu na Austr\u00e1lia.  Um sobrinho e tinha um irm\u00e3o tamb\u00e9m na Bahia. N\u00e3o entendo bem isso de minha fam\u00edlia, \u00e9 tanto que, \u00e9 filho de outro filho de meu pai, seria meu tio. Tive outros irm\u00e3os, claro, mas acredito que todos estejam mortos.<\/p>\n<p>L.F. Os outros irm\u00e3os seriam ingleses ou tamb\u00e9m cearenses? Seriam tamb\u00e9m filhos de sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o. Um deles foi filho de uma senhora que meu pai gostou na Bahia. Era moreno. Inteiramente diferente de meu pai. Foi educado na Su\u00ed\u00e7a, onde fazia engenharia, mas, no \u00faltimo ano ele deixou a Universidade, abandonou praticamente os estudos. Ent\u00e3o esse irm\u00e3o foi deserdado pelo meu pai. O outro filho da primeira mulher, a inglesa.  A primeira mulher era inglesa e meu<\/p>\n<p> Pai casou-se com ela por tradi\u00e7\u00e3o, em 1925, mas com dois anos ap\u00f3s o casamento, ele desquitou-se dela. Na pr\u00f3pria Inglaterra&#8230; L\u00e1 tem o desquite. Ent\u00e3o, depois ele percorreu o mundo, deve ter tido dezenas e mais centenas de mulheres, inclusive eu guardo cartas comigo. Era um homem apaixonado pelas mulheres e pela vida. Sei disto por que pelas cartas sentimentais dele, eu senti isto, cartas que ele me entregou. Cartas para mulheres significativas da sua vida. Para algumas delas, diria melhor inclusive tinha eg\u00edpcias. Tinha uma que ele gostou quando foi governador da Mesopot\u00e2mia, e mais outras que&#8230; At\u00e9 uma grande atriz de teatro cujo nome prefiro n\u00e3o falar mais.<br \/>\nIsto porque a fam\u00edlia ainda \u00e9 viva e n\u00e3o fica \u00e9tico.<\/p>\n<p>L.F. Bom, seu pai deve ter tido ent\u00e3o grandes romances. Falamos de um homem t\u00e3o famoso, uma figura quase lend\u00e1ria com epis\u00f3dios que parecem novelescos. Ter sido governador da Mesopot\u00e2mia, atual Iraque, no per\u00edodo de um ano, lutar no Sul da R\u00fassia&#8230; O senhor sabe alguma coisa, algum epis\u00f3dio da vida dele na Mesopot\u00e2mia?<\/p>\n<p>J.H. Primeiramente, o seguinte: quando ele foi chamado para servir na Primeira Guerra Mundial, ele foi comissionado como qu\u00edmico-engenheiro fez toda a Primeira Grande Guerra Mundial. Participou diretamente dos acontecimentos..<\/p>\n<p>L.F. Ele j\u00e1 tinha estado no Cear\u00e1, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p>J.H. J\u00e1. Tinha estado no Cear\u00e1. No fim da Primeira Guerra Mundial ele foi promovido a major, foi ent\u00e3o deslocado para o Sul da R\u00fassia. No Sul da R\u00fassia ele trabalhava numa miss\u00e3o militar brit\u00e2nica, estava construindo a Estrada de Ferro da zona do Bacu, quando irrompe a revolu\u00e7\u00e3o Comunista. Como o Czar da R\u00fassia era primo do rei Jorge V da Inglaterra, os ingleses s\u00e3o chamados a apoiar as tropas contrarrevolucion\u00e1rias. Ent\u00e3o, o meu pai \u00e9 nomeado consultor militar no Sul da R\u00fassia.  Raz\u00e3o porque ele foi condecorado, recebeu duas condecora\u00e7\u00f5es do Czar Nicolau II, \u00faltimo imperador da R\u00fassia, tamb\u00e9m Rei da Pol\u00f4nia e Gr\u00e3o-Duque da Finl\u00e2ndia. As condecora\u00e7\u00f5es s\u00e3o da Ordem de S\u00e3o Valdomiro e s\u00e3o muito importantes.<\/p>\n<p>LA Ser\u00e1 que se refere ao neto da princesa Olga? Ela trouxe muitos mission\u00e1rios bizantino-eslavos favorecendo o cristianismo na Rush-Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>JH Bom, sei que ele era um monarca..<\/p>\n<p>LA Sim, isto mesmo e tornou Kiev o ber\u00e7o do cristianismo no Oriente europeu. Bom, e depois da R\u00fassia o que aconteceu?<\/p>\n<p>JH Quando a Revolu\u00e7\u00e3o Comunista vence, ent\u00e3o ele \u00e9 deslocado&#8230; Os ingleses t\u00eam que fugir da R\u00fassia e ele \u00e9 nomeado ent\u00e3o, governador da Mesopot\u00e2mia pelo per\u00edodo de um ano.<\/p>\n<p>LA Mesopot\u00e2mia?! Associo ao tenente-coronel Lawrence da Ar\u00e1bia. Ser\u00e1 que Mr Hull o conheceu? Acho prov\u00e1vel, pois ele fez parte da Confer\u00eancia de Paz como membro da Delega\u00e7\u00e3o Brit\u00e2nica em 1919. E participou do Estado- Maior da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria de Hejaz.<\/p>\n<p>JH Sim \u00e9 prov\u00e1vel, pois pela data em que foi governador, logo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, n\u00e3o podem deixar de se ter conhecido. Eu j\u00e1 li as experi\u00eancias dele em Os Sete Pilares da Sabedoria que foi primeiro lan\u00e7ado em Portugal. Depois dessa experi\u00eancia de governo quando a Gr\u00e3-Bretanha e a Fran\u00e7a ,como que modelaram o mapa do Oriente-M\u00e9dio, ele n\u00e3o parece feliz mesmo se aproximando o fim da domina\u00e7\u00e3o turca .Foi muito sangrento por l\u00e1.<\/p>\n<p>. Da Mesopot\u00e2mia ele \u00e9 deslocado para o Egito que os brit\u00e2nicos dominaram por sete d\u00e9cadas e como est\u00e1vamos falando, era preciso manter a domina\u00e7\u00e3o do Suez e nem franceses nem brit\u00e2nicos queriam deixar o Oriente-M\u00e9dio. Os eg\u00edpcios e os \u00e1rabes n\u00e3o tinham autonomia. Era um trabalho semelhante ao da Mesopot\u00e2mia, pois se tratava de perpetuar os interesses deles na regi\u00e3o das antigas prov\u00edncias otomanas. Ent\u00e3o, al\u00e9m do Egito, tinha a Palestina, a Transjord\u00e2nia e a pr\u00f3pria Mesopot\u00e2mia e havia a Guerra. .S\u00f3 depois  que pode sair do Egito ele vem novamente para o Brasil, agora para Ilh\u00e9us, na Bahia.Ai come\u00e7a outro cap\u00edtulo da vida aventurosa dele. Um homem culto e de larga experi\u00eancia, falando muitos idiomas e conhecendo v\u00e1rios povos.<\/p>\n<p> Ilh\u00e9us, da estrada de Ferro dos ingleses, estrada que nunca chegou ao ponto pretendido que era Vit\u00f3ria da Conquista. Na Bahia, naquela \u00e9poca pertencia aos ingleses at\u00e9 1950 quando repassaram ao Governo Federal, a RFFSA e a\u00ed ficou o nome de Estrada de Ferro de Ilh\u00e9us, ent\u00e3o, l\u00e1 ele se interessa tamb\u00e9m pelo problema do cacau. Ele tem uma obra in\u00e9dita, ali\u00e1s, duas: A Hist\u00f3ria do Cacau e Hist\u00f3ria da Capitania de Ilh\u00e9us, porque al\u00e9m de engenheiro e t\u00e9cnico ele teve o hobby de escrever um aspecto da hist\u00f3ria colonial do Brasil. Em Ilh\u00e9us ele se bate pela constru\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro, de Ilh\u00e9us at\u00e9 Vit\u00f3ria da Conquista para escoamento do cacau, e ele tornava-se personagem de um romance de Jorge Amado, no caso S\u00e3o Jorge de Ilh\u00e9us, onde ele \u00e9 o coronel ingl\u00eas a que se refere Jorge Amado no seu romance.<\/p>\n<p>L.F. De fato, um homem not\u00e1vel! Por que estas obras que o senhor mencionou ainda continuam in\u00e9ditas?<\/p>\n<p>J.H. Primeiro, dado a dificuldade de publica\u00e7\u00e3o e o pouco interesse, porque seria uma obra que interessaria mais, no caso a Hist\u00f3ria da Capitania de Ilh\u00e9us, ao governo baiano, e a Hist\u00f3ria do Cacau tamb\u00e9m, mesmo a Universidade do Cear\u00e1, mesmo no tempo quando eu estive l\u00e1, nunca se interessou nem pela publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos dele referentes ao problema de seca no Nordeste. Esses trabalhos foram oferecidos para publica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o houve um m\u00ednimo interesse, praticamente nenhum mesmo. Oferecido quando eu estive no Instituto de Meteorologia, mas houve uma dificuldade e a publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deu. Isso no ano de 1962.<\/p>\n<p>L.F. Tentou tamb\u00e9m na Bahia a publica\u00e7\u00e3o desses trabalhos ou procurou o governo do Estado? Como professor do Col\u00e9gio Militar, a sua liga\u00e7\u00e3o com os militares n\u00e3o tem favorecido \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o das ideias do seu pai, n\u00e3o tem favorecido a publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos dele? N\u00e3o h\u00e1 nenhuma maior compreens\u00e3o nesse sentido?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o. Meu pai foi militar do ex\u00e9rcito tamb\u00e9m, todo mundo aceita os trabalhos do meu pai, mas quanto \u00e0 publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos que eu falei sobre Hist\u00f3ria \u00e9 um neg\u00f3cio que interessaria mais ao governo baiano, mas eu nunca procurei o governo baiano para publicar esses trabalhos.<\/p>\n<p>L.F. E com refer\u00eancia aos outros trabalhos que o senhor mencionou que ofereceu \u00e0 Universidade e ela n\u00e3o se interessou. O senhor procurou por meio de alguma recomenda\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Militar?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o. Porque praticamente o Col\u00e9gio Militar n\u00e3o tem recursos para a publica\u00e7\u00e3o de trabalhos, ultimamente. Esses trabalhos a SUDENE tem conhecimento desse trabalho, nunca procurou ver ou consultar esses trabalhos que est\u00e3o em meu poder e faculto ao p\u00fablico para consult\u00e1-los.  Eu tinha um interesse agora, ali\u00e1s, um interesse muito grande, que foi demonstrado pelo Dr. Fernando Mendon\u00e7a, Diretor do Instituto de Pesquisas Espaciais, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos. Ele est\u00e1 fazendo um trabalho, fazendo uma an\u00e1lise entre a seca do Nordeste e as manchas solares. Um trabalho semelhante ao que foi feito em primeira m\u00e3o pelo meu pai. Fernando Mendon\u00e7a eu mandei alguns dos gr\u00e1ficos para ele e ele me escreveu que esse trabalho foi colocado em computador e me escreveu dizendo que os resultados t\u00eam sido satisfat\u00f3rios.<\/p>\n<p>L.F. Dr. Julian, eu sei tamb\u00e9m que os estudos aos quais o seu pai se dedicou n\u00e3o foram, vamos dizer assim, cria\u00e7\u00e3o dele propriamente, ele apenas continuou ou deu uma forma a uma teoria j\u00e1 modelada por outros estudiosos, n\u00e3o?<\/p>\n<p>J.H. Eu acredito que em ci\u00eancia n\u00e3o tenha um pai da ideia. Sempre \u00e9 uma esp\u00e9cie de correla\u00e7\u00e3o de pesquisas e de experimentos.  Os primeiros estudos sobre as manchas solares foram feitos por Galileu e por um seu contempor\u00e2neo Thomas Harriot de Petwortw, um ingl\u00eas que usava bem o telesc\u00f3pio, se bem que nem sempre \u00e9 necess\u00e1rio um telesc\u00f3pio para ver manchas solares. Isto tamb\u00e9m nos mostra que nem sempre as prioridades s\u00e3o reais, Em ci\u00eancia, os avan\u00e7os s\u00e3o feitos em conjunto. O que o Mr. Hull criou foi apenas correlacionar os  fen\u00f4menos com as secas do Nordeste brasileiro. A\u00ed, onde \u00e9 que est\u00e1 o m\u00e9rito da quest\u00e3o. Mas ao mesmo tempo em que ele fazia esse estudo aqui no Cear\u00e1, eram feitos tamb\u00e9m outros estudos id\u00eanticos nos Estados Unidos, pelo grande astrof\u00edsico norte- americano Dr. Charles Greesley  Abbot no deserto de Chihuahua no Texas e no deserto de Mojave na Calif\u00f3rnia. Outros cientistas tamb\u00e9m faziam ao mesmo tempo estudos relacionando as secas, secas preocupantes pela escassez da \u00e1gua pot\u00e1vel na \u00cdndia. H\u00e1 tamb\u00e9m estudos feitos na \u00c1frica relacionados com o n\u00edvel dos grandes lagos africanos. E mais, com rela\u00e7\u00e3o ao Nordeste o primeiro estudo foi elaborado pelo meu pai, inclusive, ele descobriu o Ciclo Centen\u00e1rio, em que trinta anos ocorrem poucas secas e em 70 anos h\u00e1 uma grande exist\u00eancia de secas.<\/p>\n<p>L.F. Inclusive, sei que Mr. Hull mantinha correspond\u00eancia com o professor que o senhor mencionou o professor Charles Abbot, que realizava tamb\u00e9m pesquisas no Monte Sinai, no Egito e no Monte Montezuma, no M\u00e9xico. O senhor tem alguma coisa sobre essa correspond\u00eancia, tem alguns dados desse professor sobre as pesquisas, sobre as manchas solares e os climas \u00e1ridos que o professor Charles incentivava? Diz-se que, inclusive, incentivava o Mr. Hull a prosseguir com suas pesquisas aqui no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>J.H. \u00c9 eu tenho realmente os trabalhos do Abbot, inclusive toda a correspond\u00eancia pessoal que ele mantinha com o meu pai. \u00c9 uma correspond\u00eancia valiosa. Ele \u00e9 um nome mundialmente consagrado, o que \u00e9 pr\u00f3prio de pa\u00edses desenvolvidos economicamente e voltados \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da pesquisa cient\u00edfica. Ele morreu agora recente, 1973, mas ser\u00e1 sempre lembrado e as futuras gera\u00e7\u00f5es v\u00e3o lembrar o seu nome. Isto \u00e9 pr\u00f3prio destes pa\u00edses que valorizam a ci\u00eancia e os homens que a fazem e acham justo que tenham os seus nomes prestigiados e  a sabedoria deles enaltece o seu pa\u00eds. Quem sabe, um dia o Brasil dar\u00e1 valor aos seus filhos cientistas e mesmo aos que aqui trabalharam para o seu engrandecimento?<\/p>\n<p>L.F. Sem d\u00favida. E o que o senhor pretende fazer com essa correspond\u00eancia? O senhor vai divulgar, vai fazer um esfor\u00e7o maior? O que o senhor pretende fazer com uma documenta\u00e7\u00e3o in\u00e9dita t\u00e3o importante?<\/p>\n<p>J.H. Bom. \u00c9 o seguinte: neste ano de 1976 em diante, ser\u00e1 comprovada a teoria elaborada por Mr. Hull, mas eu estou tendo uma s\u00e9rie de dificuldades, inclusive, devo \u00e0 minha simp\u00e1tica reparti\u00e7\u00e3o, no caso a Funceme &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos  para divulgar esse trabalho. A dire\u00e7\u00e3o da Funceme que procura, inclusive quer que eu esconda esse trabalho, porque acha que \u00e9 um trabalho que iria prejudicar economicamente o Estado e eu acho que n\u00e3o, porque em ci\u00eancia n\u00f3s n\u00e3o podemos mentir. N\u00f3s temos \u00e9 que divulgar. Ent\u00e3o, um trabalho desses \u00e9 um trabalho preventivo em que ele mostra que as secas do Nordeste podem ser previstas. Tanto que ele previu em 1939 na confer\u00eancia que ele. Mr Hull fez sobre a seca de 1941-42, no trabalho dele est\u00e1 prevista a seca de 1958. E eu tenho a acrescentar que ele faleceu em 1951. No trabalho dele tamb\u00e9m est\u00e1 previsto a seca de 1970, a atual seca de 1976 e ainda uma grande seca que ocorrer\u00e1, segundo o trabalho de Mr. Hull, em 1977 e 78, podendo at\u00e9 atingir o ano de 1979. Mas n\u00e3o recuarei, j\u00e1 dei uma entrevista no Globo Rep\u00f3rter que sair\u00e1 nos pr\u00f3ximos dias e o resultado dessa entrevista que eu serei punido, acredito que n\u00e3o, porque como professor do Col\u00e9gio Militar, a dire\u00e7\u00e3o da Funceme n\u00e3o poderia me punir, porque essa entrevista foi dada no Col\u00e9gio Militar e com autoriza\u00e7\u00e3o do meu atual comandante coronel Andr\u00e9. E tem tamb\u00e9m meus companheiros, segundo contatos que eu tive com eles, far\u00e3o minha defesa.<\/p>\n<p>L.F. Ora veja, est\u00e1vamos falando em Abbot e na valoriza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, nas pesquisas climatol\u00f3gicas que terminaram por render a ele grandes inven\u00e7\u00f5es como a cadeira solar e vamos ter este tipo pequeno de mentalidade? Quem amea\u00e7ou o senhor de puni\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>J.H. Foi o atual superintendente administrativo da Funceme, general Abimael Clementino da Costa. Inclusive, no ano passado, quando eu falava que o ano de 76 seria um ano de estiagem ele, no dia 31 de dezembro, me acusou de eu ter dado um preju\u00edzo de seis bilh\u00f5es ao Estado. N\u00e3o acredito como, inclusive me amea\u00e7ou at\u00e9 de me enquadrar na lei de seguran\u00e7a nacional. Mas, n\u00e3o tem raz\u00e3o para o caso e eu acho que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma quest\u00e3o de subvers\u00e3o na divulga\u00e7\u00e3o de um trabalho cient\u00edfico.<\/p>\n<p>L.F. \u00c9 inacredit\u00e1vel. Como ele fundamentou essas acusa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>J.H. Ele apenas disse que o presidente, Luciano Garcia havia dito que com a minha entrevista as sementes estavam estocadas. Ent\u00e3o, ele n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de  fazer isso. Agora, eu acredito que n\u00e3o tem uma coisa nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a outra. Se o ano \u00e9 de estiagem ent\u00e3o o governo devia olhar \u00e9 para isso: n\u00e3o venda a semente, n\u00e3o vender a semente para um agricultor que vai perder a semente mais tarde, ou ent\u00e3o ter\u00e1 que pagar essa semente e n\u00e3o vejo raz\u00e3o para essa puni\u00e7\u00e3o e acho que, acredito mesmo que ele n\u00e3o teria coragem de me punir.<\/p>\n<p>L.F. O senhor disse um pouco atr\u00e1s no decorrer da entrevista, que vai ser comprovada a teoria. Acho que essa teoria j\u00e1 est\u00e1 de fato comprovada ao longo do tempo, principalmente quando ele n\u00e3o previu s\u00f3 secas, ele previu grandes invernos como o de 1960, como o de 1961, que foi maior ainda, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>J.H. Sim, como eu falei. Porque no ciclo centen\u00e1rio que vai de 1946 ao ano de 2046, foi comprovada a primeira fase do ciclo que \u00e9 a fase de 30 anos, que foi de 1946 a 1976. Ent\u00e3o, nesse per\u00edodo de 30 anos ocorreram pequenas secas. Agora falta a comprova\u00e7\u00e3o da teoria dele, seria no grande ciclo de 70 anos, em que h\u00e1 quatro s\u00e9culos vem se verificando uma grande exist\u00eancia de secas. Vejamos o seguinte: o ano de 1546, quando a gente faz o retrospecto das secas no Nordeste, at\u00e9 1976. Neste per\u00edodo de 30 anos foram registradas apenas duas secas. No per\u00edodo de 1576 a 1646, ou seja, setenta anos, foram registradas oito secas no Nordeste brasileiro. Acredito que esse pequeno n\u00famero a\u00ed seja por falta de dados hist\u00f3ricos da \u00e9poca. No s\u00e9culo seguinte, 1646 a 1676, durante 30 anos nenhuma seca registrou-se no Nordeste. De 1676 a 1746 foram registradas dezesseis secas, no per\u00edodo de 70 anos. No outro s\u00e9culo, 1746 a 1776 apenas duas secas ocorreram no Nordeste. No per\u00edodo de 70 anos, de 1776 a 1846 n\u00e3o se registrou nenhuma seca no Nordeste. No per\u00edodo de 70 anos, de 1876 a 1946 ocorreram dezoito secas. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o acredito, se o ciclo solar funcionar, como funcionou a s\u00e9culos, atr\u00e1s, n\u00f3s poderemos ter nesse per\u00edodo de 70 anos, ou seja, de 1976 a 2046, h\u00e1 uma incid\u00eancia de aproximadamente 18 ou 19 secas. Se bem que teremos grandes invernos, \u00e9 l\u00f3gico, mas n\u00f3s teremos uma grande incid\u00eancia de secas. Da\u00ed a raz\u00e3o que eu digo que a comprova\u00e7\u00e3o da teoria dele come\u00e7a nesse grande ciclo de 70 anos.<\/p>\n<p>L.F. O senhor poderia se deter no campo da teoria do Mr. Hull um pouco mais?<\/p>\n<p>J.H. A teoria dele fundamentou-se na do ciclo, das manchas solares. Hoje, \u00e9 ponto pac\u00edfico que as manchas solares influem na climatologia do mundo todo. Trabalhos realizados na Europa, nos estados Unidos, comprovam a influ\u00eancia das manchas solares nesse ciclo. Ent\u00e3o, no trabalho do Mr. Hull, ele fazendo uma correla\u00e7\u00e3o com as secas passadas, chegou \u00e0 conclus\u00e3o que as secas no Nordeste decorrem no per\u00edodo de \u00edndice solar, antes ou depois do per\u00edodo de \u00edndice. E, que tamb\u00e9m elas s\u00e3o c\u00edclicas, vemos o exemplo da seca de 1777, 1778, 1877, 1878.<\/p>\n<p>L.F. O que seria para Mr. Hull, e o que seria para o senhor uma grande seca?<\/p>\n<p>J.H. Uma grande seca considerada para Mr. Hull, n\u00f3s podemos considerar uma grande seca, correlacionando com a pluviometria em Fortaleza. Consegui fazer um levantamento da queda pluviom\u00e9trica em Fortaleza, desde o ano de 1849. Essa \u00e9 a mais nova fase meteorol\u00f3gica de todo o Brasil. Ent\u00e3o, n\u00f3s vejamos aqui as grandes secas, consideradas grandes secas, s\u00e3o aquelas em que a pluviometria em Fortaleza chega a atingir uma faixa de quatrocentos a setecentos mil\u00edmetros. Concordo exatamente com a posi\u00e7\u00e3o do meu pai.<\/p>\n<p>L.F. Diga-me uma coisa, o senhor mant\u00e9m correspond\u00eancia com o Observat\u00f3rio Federal de Zurique, ou com o Departamento de Magnetismo Terrestre, que tamb\u00e9m se dedicam a estudar e a registrar frequ\u00eancia do aparecimento das manchas solares e de seus \u00edndices?<\/p>\n<p>J.H. Atualmente eu mantenho correspond\u00eancia com o Observat\u00f3rio Federal de Zurique, do qual recebo o \u00edndice ou o n\u00famero de Wolf, quer dizer, o n\u00famero internacional de manchas solares, n\u00famero relativo de mancha solar ou n\u00famero de Zurique. Elas s\u00e3o o \u00edndice mais antigo da atividade magn\u00e9tica do sol e essas observa\u00e7\u00f5es v\u00eam mais ou menos desde 1611, no come\u00e7o do s\u00e9c. XVII. Servem assim como uma medida da atividade solar e elas t\u00eam caracter\u00edsticas peri\u00f3dicas. Eu tamb\u00e9m me correspondo com o Instituto de Pesquisas Espaciais, que atualmente est\u00e1 me fornecendo o n\u00famero de manchas e os gr\u00e1ficos relativos a cada ciclo solar.<\/p>\n<p>L.F. E o senhor continua informando \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica de Londres, sobre os dados meteorol\u00f3gicos do Cear\u00e1?<\/p>\n<p>J.H. Atualmente, a Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica de Londresperdeu um pouco o interesse, porque naquela \u00e9poca era mais f\u00e1cil, porque era meu pai c\u00f4nsul ingl\u00eas aqui, e talvez, eu acredito que o pessoal de Londres n\u00e3o sabia da minha assist\u00eancia aqui no Cear\u00e1, nem pelos trabalhos que meu pai realizava as instru\u00e7\u00f5es que ele me deu e que est\u00e3o em meu poder. A posi\u00e7\u00e3o de c\u00f4nsul era ent\u00e3o de maior import\u00e2ncia, dado tamb\u00e9m ao hist\u00f3rico biogr\u00e1fico do meu pai.<\/p>\n<p>L.F. Ent\u00e3o, professor acha que isto dificulta um pouco a propaga\u00e7\u00e3o das ideias de seu pai que s\u00e3o o seu objetivo?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o. Em parte, n\u00e3o, porque h\u00e1 poucos dias eu recebi a visita de um alto funcion\u00e1rio de uma Companhia Inglesa, essa Companhia sabia da exist\u00eancia dos trabalhos de Mr. Hull. Ent\u00e3o, dada a divulga\u00e7\u00e3o que eu fiz em jornais da terra e revistas, no caso a Manchete, essa Companhia tomou conhecimento desses estudos e ela est\u00e1 altamente preocupada com a seca de 1977, tanto  porque eles t\u00eam uma planta\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o no vale do Serid\u00f3. Agora, um fato interessante \u00e9 que enquanto uma Companhia Inglesa se preocupa com a seca, o Governo brasileiro n\u00e3o est\u00e1 interessado. Inclusive, a SUDENE nunca manteve nenhum contato comigo a respeito do trabalho do Mr. Hull.<\/p>\n<p>L.F. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 um planejamento conjunto desses \u00f3rg\u00e3os que cita que eles n\u00e3o se interessam&#8230; Ningu\u00e9m pode negar que eles tenham conhecimento. Houve j\u00e1 uma tentativa de contato seu com esses \u00f3rg\u00e3os, ou acha que deveria partir inicialmente da SUDENE, do DNOCS do BNB, dos respons\u00e1veis pelo destino do pa\u00eds enfim?<\/p>\n<p>J.H. Eu acho que o trabalho de Mr. Hull \u00e9 muito conhecido, quer dizer, conhecido de nome e que poucos t\u00eam conhecimento no assunto para us\u00e1-lo como base. Assim, ou est\u00e3o apegados a receios e medos por n\u00e3o disporem de alternativas para o desenvolvimento do estado, pelo menos frente a implemento de sugest\u00f5es como as que sei que deu o estudioso Guimar\u00e3es Duque e sua sugest\u00e3o das xer\u00f3filas. Ent\u00e3o, eu acredito que seria o caso a fun\u00e7\u00e3o deles me procurar. Esse trabalho eu poderei at\u00e9 dar a SUDENE, quer dizer, c\u00f3pia desse trabalho, que ele fez para divulgar, \u00e9 um trabalho, eu acredito de suma import\u00e2ncia, no caso seria a previs\u00e3o de uma seca com um ano de anteced\u00eancia, mas os \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o est\u00e3o interessados. Caso eles me procurem, estarei \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p>L.F. Quanto ao DNOCS e ao BNB?<\/p>\n<p>J.H. O DNOCS ultimamente, ele n\u00e3o est\u00e1 mais ligado ao problema de seca. Eu sei que est\u00e1 hoje mais a fim \u00e9 com a SUDENE, que \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o encarregado de combater as secas. Eu acredito que o combate \u00e0s secas no Nordeste est\u00e1 id\u00eantico ao de s\u00e9culos atr\u00e1s, a mesma coisa, frente de servi\u00e7o, n\u00e3o resolve coisa nenhuma. Quando o trabalho seria um trabalho de preven\u00e7\u00e3o, melhoria da infraestrutura econ\u00f4mica, e outras coisas mais como industrializa\u00e7\u00e3o, irriga\u00e7\u00e3o e tantas outras coisas e meios para resolver o problema, ou pelo menos, para come\u00e7ar a resolver.<\/p>\n<p>L.F. Ora, mas na realidade o DNOCS \u00e9 o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. O que \u00e9 que o senhor diz?<\/p>\n<p>J.H. O DNOCS atualmente, na realidade, apenas \u00e9 encarregado da reconstru\u00e7\u00e3o de estradas e da manuten\u00e7\u00e3o de alguns a\u00e7udes, no caso, a irriga\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 emprega a m\u00e3o de obra, mas n\u00e3o resolve .Agora, o problema de seca mesmo, ele est\u00e1 hoje afeto \u00e0 SUDENE.<\/p>\n<p>L.F. E o senhor tem alguma ideia do que realizou a Miss\u00e3o Francesa no Vale do Jaguaribe ou da atual Miss\u00e3o francesa que est\u00e1 trabalhando aqui no Cear\u00e1?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o. Eu vi apenas coment\u00e1rio sobre essa Miss\u00e3o, mas n\u00e3o sei o trabalho que eles est\u00e3o dizendo n\u00e3o, no Jaguaribe. Sabia tamb\u00e9m que havia uma Miss\u00e3o Alem\u00e3 no Vale do Acara\u00fa, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei os trabalhos a que eles se dedicaram. N\u00e3o sei bem se ainda est\u00e3o pesquisando nessa regi\u00e3o. Isto \u00e9 outro erro de planejamento, ningu\u00e9m trabalha de forma integrada.<\/p>\n<p>L.F. O senhor nunca foi chamado, nunca foi ouvido sobre as teorias do seu pai, apesar de divulgadas por meio de reportagens em Manchete, na Veja, isto \u00e9 singular. Existem as correspond\u00eancias com organismos estrangeiros tamb\u00e9m e o interesse deles.<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o houve interesse real at\u00e9 agora. A \u00fanica confer\u00eancia que eu pronunciei a respeito desse assunto,  foi h\u00e1 uns cinco anos atr\u00e1s numa reuni\u00e3o do Rotary Clube.<\/p>\n<p>L.F. Mesmo quando ele prev\u00ea essas secas e mesmo quando est\u00e1 sendo comprovado, as pessoas que estudam os fen\u00f4menos das secas n\u00e3o o procuram?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o; eu busco todas as formas para divulgar at\u00e9 agora e quero agradecer a voc\u00ea por me procurar, Luciara. Outras pessoas n\u00e3o me procuraram a respeito e manifestam mais preocupa\u00e7\u00e3o e receio do que interesse em compreender e se associar a estudos desta natureza.<\/p>\n<p>L.F. Acho isso inacredit\u00e1vel, mas tudo \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o \u00e9? Dr. Julian, eu tamb\u00e9m sei que o seu pai era um estudioso de Hist\u00f3ria, e que ele tinha inclusive, documenta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria importante. Que fim levou essa documenta\u00e7\u00e3o ligada inclusive \u00e0 Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica, a Crist\u00f3v\u00e3o Colombo?<\/p>\n<p>J.H. A biblioteca brasileira dele, ele havia dado ao Governo do Estado do Cear\u00e1, Isto at\u00e9 quando, em 1945 a Cear\u00e1 Light, da qual ele foi o \u00faltimo diretor, foi encampada pela Prefeitura de Fortaleza e, ele sofreu uma s\u00e9rie de injusti\u00e7as por parte do Prefeito da \u00e9poca, Acrisio Moreira da Rocha. Ent\u00e3o, dado a toda uma s\u00e9rie dessas injusti\u00e7as ele teve um grande abalo moral, inclusive atingindo a sua sa\u00fade que ficou bem debilitada. O fato foi mais grave porque o Consulado Brit\u00e2nico ficava situado no pr\u00e9dio da mesma Companhia  da Cear\u00e1 Light, tendo o senhor Acrisio ent\u00e3o, dado 24 horas para ele retirar o Arquivo<\/p>\n<p> O prefeito Acrisio Moreira da Rocha era uma figura muito distante de um intelectual como meu pai. Um homem sem luzes se quisermos usar a palavra no sentido popular ou das distantes luzes do Iluminismo. Ent\u00e3o, meu pai retrucou dizendo que aqueles arquivos pertenciam ao governo ingl\u00eas, sob nenhuma hip\u00f3tese poderiam sofrer danos e que ele tinha prerrogativas na qualidade de c\u00f4nsul, pois eram arquivos de suma import\u00e2ncia e que n\u00e3o poderiam ser danificados. Veja aqui documentos do Consulado. Houve um mal estar geral pela grosseria e arrog\u00e2ncia do senhor Acrisio..At\u00e9 inclusive problema de ordem diplom\u00e1tica entre o Brasil e a Inglaterra a respeito disso. Ent\u00e3o, dado esse choque moral que ele teve, ele que sempre amou o Cear\u00e1, respeitava as pessoas e tinha comportamento de cavalheiro ele adoeceu. Ficou muito chocado com a falta de limites de uma figura p\u00fablica. Acredito que depois disso ele passou quase toda a vida recolhido em casa, n\u00e3o falava mais com ningu\u00e9m. Claro, ele retomou essa doa\u00e7\u00e3o e ofereceu ent\u00e3o, colocou a venda dessa biblioteca ao governo brasileiro. No caso, ele estava precisando de recursos financeiros. O governo brasileiro, no caso, \u00e0quela \u00e9poca era Get\u00falio Vargas, n\u00e3o se interessou por essa biblioteca. Ele vendeu ent\u00e3o, para a Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Hoje esta documenta\u00e7\u00e3o est\u00e1  rotulada e arquivada com o nome de Mr. Hull. Tem v\u00e1rios acessos para pesquisa e eu fico feliz porque aqui, talvez o destino dela fosse mofo, tra\u00e7as e outros.<\/p>\n<p>L.F. E o senhor conserva algo dessas preciosidades que o seu pai possuiu? As condecora\u00e7\u00f5es, por exemplo, o senhor ainda  tem ?<\/p>\n<p>J.H. Pequenas condecora\u00e7\u00f5es eu tenho e muitas outras coisa, os trabalhos dele originais, tenho o da biblioteca e alguns livros que restaram, porque a biblioteca n\u00e3o foi vendida toda, ficou muita coisa dele que ainda est\u00e3o em meu poder. Inclusive, os documentos sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Comunista, documentos confidenciais, os mapas de campo de batalha da Revolu\u00e7\u00e3o Comunista, tudo isso est\u00e1 em meu poder. Tenho tamb\u00e9m documentos da planta da Estrada de Ferro de S\u00e3o Paulo, porque acho que nem uma Estrada de Ferro tem essas plantas e fotografias da \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o da estrada de Ferro. Tenho os artigos da Cear\u00e1 Light tamb\u00e9m em meu poder e documentos da antiga Estrada de Ferro de Baturit\u00e9, inclusive o documento original da cess\u00e3o do terreno para a constru\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio central da Estrada de Ferro de Baturit\u00e9. Documento este assinado pelo Imperador D. Pedro II. Esse documento dever\u00e1 ser publicado na revista a ser editada pela dire\u00e7\u00e3o da Rede Ferrovi\u00e1ria Federal, sess\u00e3o do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>L.F. E que finalidade o senhor pretende dar a essa documenta\u00e7\u00e3o t\u00e3o ampla, t\u00e3o importante para as pessoas que se interessam pelo estudo da Hist\u00f3ria, pela preserva\u00e7\u00e3o das coisas nossas?<\/p>\n<p>J.H. O que posso fazer? Esses documentos est\u00e3o em meu poder, est\u00e3o abertos e franqueados a qualquer pesquisador. Apenas eu n\u00e3o penso em fazer doa\u00e7\u00f5es para alguns \u00f3rg\u00e3os, porque eu j\u00e1 vi bibliotecas a\u00ed que s\u00e3o doadas ao estado e acabam sendo comidas pelas tra\u00e7as e baratas. N\u00e3o h\u00e1 interesse pela Hist\u00f3ria, educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e cultura de modo geral. A politica \u00e9 entendida como forma de ganhar o poder, de manobrar cargos e esconder mal feitos.<\/p>\n<p>L.F. Pensa em criar alguma coisa  particular, um arquivo particular, mas um arquivo organizado, alguma coisa que relembre seu pai, que eu acredito  n\u00e3o teve um reconhecimento p\u00fablico do seu valor?<\/p>\n<p>J.H. Esses documentos est\u00e3o um pouco desorganizados, quer dizer, falta de tempo, e mesmo falta de pr\u00e1tica em termos de fazer uma organiza\u00e7\u00e3o, porque meu trabalho b\u00e1sico apenas se preocupa com essa parte de meteorologia. Mas est\u00e3o aqui, conservados, em bom estado, guardados em estantes e com um pouco de ordem.<\/p>\n<p>L.F. E o senhor n\u00e3o considera poss\u00edvel pelo menos conseguir pessoas que fizessem esse trabalho para o senhor, que organizasse pelo menos esse tipo de ajuda o senhor n\u00e3o acha que seria poss\u00edvel conseguir de um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico?<\/p>\n<p>J.H. \u00c9. Uma sa\u00edda essa ajuda. Eu acredito que uma experi\u00eancia de algu\u00e9m especializado em biblioteconomia ou outra ci\u00eancia afim, capaz de fazer a cataloga\u00e7\u00e3o desses documentos seria de vital import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>L.F. Que esfor\u00e7o o senhor j\u00e1 fez nesse sentido?<\/p>\n<p>J.H. At\u00e9 o momento nenhum, porque n\u00e3o tenho relacionamento com o pessoal da Universidade Federal e sou professor da Faculdade Estadual, mas essa faculdade n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es, nem meios, nem pessoal dispon\u00edvel para um trabalho dessa natureza.<\/p>\n<p>L.F. O senhor afirmaria que seu pai morreu desencantado?<\/p>\n<p>J.H. Acho que sim. Entendo que ele sofreu, mas o que \u00e9 mais interessante \u00e9 que foi no testamento dele que ele prova o grande amor que tinha ao Cear\u00e1, e de uma maneira geral ao Brasil. No seu testamento ele pedia que o enterro dele fosse feito da seguinte maneira: queria que nos p\u00e9s fossem amarradas as barras de ferro da Cear\u00e1 Light, que foi o \u00faltimo \u00f3rg\u00e3o que ele dirigiu. Fosse o corpo envolvido na bandeira inglesa como um bom ingl\u00eas, e colocado numa jangada e lan\u00e7ado a tr\u00eas milhas da costa do mar. No epis\u00f3dio da jangada seria do amor que ele tinha ao Cear\u00e1, mas infelizmente na \u00e9poca a pol\u00edcia n\u00e3o consentiu num enterro dessa maneira e ele est\u00e1 enterrado no cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Veja na \u00e9poca, em 1950, seria um neg\u00f3cio absurdo um enterro no mar, a corpo lan\u00e7ado. Acredito tamb\u00e9m que ele queria isso porque o pai dele comandante da Marinha Inglesa deu essa ideia a ele, mas a pol\u00edcia n\u00e3o permitiu.<\/p>\n<p>L.F. Pelo menos o corpo foi envolvido na bandeira inglesa?<\/p>\n<p>J.H. Sim, isso a\u00ed eu vi, o corpo dele de fato, ele foi enterrado com a farda do Ex\u00e9rcito ingl\u00eas e com a bandeira inglesa.<\/p>\n<p>L.F. Bom, eu vi tamb\u00e9m que numa reportagem o senhor diz que ele uma vez afirmou c\u00e1ustico a quem perguntava sobre a nacionalidade dele: \u201csenhor, l\u00e1 em casa, eu e a mulher, o filho, o papagaio e o cachorro somos todos cearenses\u201d. A exig\u00eancia com refer\u00eancia ao corpo envolto com a bandeira inglesa diz que ele foi fiel ao seu Pa\u00eds, n\u00e3o?<\/p>\n<p>J.H. Sim. Porque ele era de fato um ingl\u00eas, independente de como se sentia em termos de simpatia e sentimentos. E ele tinha licen\u00e7a para fazer isso porque ele foi um diplomata Ingl\u00eas e guardava sempre as tradi\u00e7\u00f5es de um bom ingl\u00eas. Um homem que guardava alguns h\u00e1bitos e tradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de um europeu tradicional.<\/p>\n<p>L.F. Voltando ao tema das secas, tem ideia de alguma reminisc\u00eancia dele a respeito das mis\u00e9rias da seca de 1915?<\/p>\n<p>J.H. Eu tenho o trabalho que ele escreveu sobre a seca de 1915, e nesse trabalho ent\u00e3o, ele via a dificuldade, problema de \u00e1gua, afora a fome, a explora\u00e7\u00e3o humana e outras coisas mais. Isso ele documentou num trabalho que escreveu sobre esta seca de 1915.<\/p>\n<p>L.F. O que o senhor diria dessas compara\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas sobre seu pai, como um arremedo do cientista com beato?<\/p>\n<p>J.H. Sinto como filho, mas n\u00e3o me atinge como conhecedor e estudioso da obra dele .O caso dele n\u00e3o tem nada de  caracter\u00edstica de um beato, isto \u00e9 sordidez.. Vamos dizer aqui que n\u00e3o se trata de uma profecia, \u00e9 um trabalho cient\u00edfico, um trabalho s\u00e9rio. Maldade ou pura ignor\u00e2ncia pensar assim, ignor\u00e2ncia tamb\u00e9m se aplica, pois n\u00e3o \u00e9 um posto social ou politico que nos concede o Conhecimento.<\/p>\n<p>J.H. Eu ainda hoje, acredito que ainda se pensa dessa maneira, porque antes do atual governador Adauto Bezerra assumir o governo, ele esteve na minha reparti\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o ele perguntou o que \u00e9 que eu achava do governo dele. Ent\u00e3o eu disse: \u201cGovernador Adauto, o senhor ir\u00e1 enfrentar neste  1976 uma seca no Nordeste\u201d. Ele disse: \u201cBaseado em que\u201d? A\u00ed eu mostrei ent\u00e3o o trabalho do Mr. Hull. Ent\u00e3o, ele achou o trabalho assim meio m\u00edstico, inclusive riu e at\u00e9 comparou: \u201cIsso parece um trabalho do tipo do Roque de Macedo, n\u00e3o \u00e9?\u201d Isso me causou certa m\u00e1goa, mas ele j\u00e1 era um governador e eu n\u00e3o pude dizer nada, n\u00e3o \u00e9? Mas ele est\u00e1 vendo a consequ\u00eancia atual da falta de credibilidade ao meu aviso. O preconceito nunca foi bom conselheiro.<\/p>\n<p>L.F. Bom, ele \u00e9 um governador, mas ele n\u00e3o \u00e9 um cientista, o senhor concorda?<\/p>\n<p>J.H. Exato. Tanto que o problema \u00e9 o seguinte: a Funceme seria um \u00f3rg\u00e3o encarregado de previs\u00e3o. Esse trabalho que eu estou divulgando particularmente, quando eu gostaria de divulgar esse trabalho em nome da Funceme, que foi um \u00f3rg\u00e3o criado somente para isso, mas dada a incompreens\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o posso inclusive estou amea\u00e7ado de puni\u00e7\u00e3o caso eu divulgue que para o ano n\u00f3s teremos uma seca.<\/p>\n<p>L.F. E a atua\u00e7\u00e3o do Dr. C\u00e9sar Cals, n\u00e3o foi ele quem criou a Funceme?<\/p>\n<p>J.H. O C\u00e9sar abriu uma grande frente que foi essa cria\u00e7\u00e3o da Funceme, um \u00f3rg\u00e3o \u00fanico em toda a Am\u00e9rica Latina que hoje j\u00e1 tem proje\u00e7\u00e3o nacional, inclusive a Funceme atuou na Bahia, atuou em Campos, atuou em Pernambuco. Mas, essa incompreens\u00e3o n\u00e3o partiu dele, eu sei., Vem por parte do atual governo, quest\u00e3o  menor, mas mesmo assim , n\u00f3s temos j\u00e1 convites para nos deslocarmos  at\u00e9 a  Bahia. Na Bahia h\u00e1 uma maior valoriza\u00e7\u00e3o do nosso trabalho. L\u00e1 um t\u00e9cnico da Funceme no caso um  professor  e t\u00e9cnico como eu sou  n\u00e3o ganha um sal\u00e1rio de mil cruzeiros, e eles foram convidados para ganhar na faixa de 15 mil, inclusive com casa e autom\u00f3vel, e aos t\u00e9cnicos de tais gabarito foram oferecidas propostas entre 30 a quarenta mil cruzeiros, inclusive com casa e autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>L.F. E sobre o Projeto Gate, o estudo da meteorologia tropical, o que o senhor nos diria?<\/p>\n<p>J.H. O Projeto Gate foi um projeto internacional que visava o estudo da meteorologia nos tr\u00f3picos. Desse projeto participavam cerca de 70 na\u00e7\u00f5es entre as quais o Brasil. O que se pensa \u00e9 que todas as esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas do Brasil foram inclu\u00eddas nesse projeto. Mesmo a Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica da Funceme da qual eu sou o chefe. Ent\u00e3o, eu consegui entrar em contato com o Dr. Peik, coordenador do Senegal, em uma carta dirigida ao Dr. Peik, eu falava da exist\u00eancia de uma esta\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica de primeira classe em Fortaleza, se ele estava interessado nesse trabalho. Ele me respondeu dizendo que eu poderia enviar os trabalhos para o Senegal. Esses trabalhos foram enviados durante todo o desenrolar do Projeto. Mensalmente era enviado tudo a respeito de temperatura, press\u00e3o, velocidade do vento. Meses depois, dias depois, recebo ent\u00e3o uma carta com honra de Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial, em que afirmava que estavam chegando na coordenadoria geral, trabalhos a respeito de uma esta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o estava relacionada entre as esta\u00e7\u00f5es brasileiras, mas que esses trabalhos eram de suma import\u00e2ncia para o Projeto, raz\u00e3o ent\u00e3o porque a organiza\u00e7\u00e3o Geral dirigiu-se ao governo brasileiro, pedindo que fosse inclu\u00eddo na rede brasileira de meteorologia a nossa esta\u00e7\u00e3o, a Esta\u00e7\u00e3o  Meteorol\u00f3gica da Funceme. Ent\u00e3o, n\u00f3s entramos num projeto internacional por porta de travessa, eu acredito que por causa do esfor\u00e7o tremendo que eu fiz.  E, hoje, a Funceme, ou melhor, a Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica da Funceme, \u00e9 reconhecida internacionalmente e seus trabalhos est\u00e3o juntos aos trabalhos de todas as muta\u00e7\u00f5es que participaram do Projeto Gate. Isto deve ajudar mais tarde na formula\u00e7\u00e3o de politicas cientificas para a meteorologia.<\/p>\n<p>L.F. Parab\u00e9ns! Por que n\u00e3o estaria oficialmente reconhecida?<\/p>\n<p>Porque a Funceme \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o estadual e como eu j\u00e1 falei anteriormente, \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o \u00fanico em toda a Am\u00e9rica Latina, e existe no Brasil o chamado Departamento Nacional de Meteorologia, que pertence ao Minist\u00e9rio da Agricultura. Ent\u00e3o, a Funceme n\u00e3o pertence a essa organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o particular do governo, mas eu acredito que seus trabalhos s\u00e3o de tanta import\u00e2ncia como os de qualquer uma das esta\u00e7\u00f5es tanto da rede da SUDENE, como da rede do Departamento Nacional de Meteorologia. Nesse momento, volto a louvar a ideia desenvolvimentista do governo Cesar Cals ao criar este \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>L.F. \u00c9 sabido que SUDENE tem estudos pr\u00f3prios sobre a meteorologia, eu gostaria de saber se esses estudos feitos n\u00e3o mant\u00eam nenhuma liga\u00e7\u00e3o com a Funceme, com a Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica da Funceme. Se esses estudos s\u00e3o feitos isoladamente?<\/p>\n<p>J.H. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s a SUDENE sei que n\u00e3o v\u00ea com bons olhos a cria\u00e7\u00e3o da Funceme. N\u00e3o v\u00ea um n\u00e3o sei que por qual motivo, talvez certo despeito por parte dos t\u00e9cnicos que n\u00e3o acreditavam no nosso trabalho. Mas, atualmente com a atual seca de 1960, a Funceme precisou da SUDENE, no caso de sua rede meteorol\u00f3gica, e a SUDENE mant\u00e9m no Cear\u00e1, eu acho que umas cinco esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas, e n\u00f3s temos uma rede pluviom\u00e9trica de cerca de 150 pluvi\u00f4metros e para avalia\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da atual estiagem, a SUDENE teve que necessitar das nossas informa\u00e7\u00f5es. Virou um trabalho for\u00e7ado de intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L.F. A que o senhor atribui o descr\u00e9dito de tantos \u00e0 meteorologia? Sempre dizem que vai dar o inverso daquilo que est\u00e1 previsto?<\/p>\n<p>J.H. \u00c9 o seguinte: Meteorologia, mesmo nos melhores observat\u00f3rios, a melhor esta\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica do mundo, no caso as dos Estados Unidos e da Europa, \u00e9 uma previs\u00e3o  que n\u00e3o chega a atingir com precis\u00e3o a curto prazo, o \u00edndice de 90%. N\u00f3s aqui na nossa esta\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, n\u00f3s conseguimos j\u00e1 um \u00edndice de acerto de 78%, que eu j\u00e1 acho muita coisa, comparando aos 90% que s\u00e3o atingidos pelos grandes observat\u00f3rios, com tanta aparelhagem sofisticada que eles possuem e n\u00f3s n\u00e3o. Como em todas as ci\u00eancias, os avan\u00e7os s\u00e3o gradativos e requerem estudos, aplica\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o de infraestrutura.<\/p>\n<p>L.F. O senhor acha que este ano de 1976 \u00e9 um ano de repiquete de seca, \u00e9 um ano de seca atenuada, ou \u00e9 um ano verdadeiramente de seca grande?<\/p>\n<p>J.H. Com rela\u00e7\u00e3o ao Estado do Cear\u00e1 n\u00f3s n\u00e3o tivemos uma seca realmente. Quer dizer, o fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico existiu, agora, acredito que tenha sido atenuado devido a Funceme ter realizado cerca de 570 horas de voo sobre todo o Estado. N\u00e3o fora isso, eu acredito que o Cear\u00e1 estaria sofrendo os efeitos de grandes secas como est\u00e1 ocorrendo em parte do Piau\u00ed, na Bahia, no norte de Minas, em Rio grande do Norte, Para\u00edba e Pernambuco. N\u00e3o diria propriamente uma grande seca, a chamada seca total, mas dir\u00edamos que eu considero uma seca parcial no Nordeste.<\/p>\n<p>L.F. Como \u00e9 que se processa a rela\u00e7\u00e3o entre a aplica\u00e7\u00e3o da teoria de Mr. Hull e o n\u00famero de manchas solares?<\/p>\n<p>J.H. Todo o trabalho de Mr. Hull, ele chegou \u00e0 seguinte conclus\u00e3o: que existe uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre as secas do Cear\u00e1 e as \u00e9pocas de n\u00fameros solares. Segunda conclus\u00e3o: o ciclo da frequ\u00eancia em conjunto das manchas solares no Cear\u00e1, deve ser calculado em 11 e 10 anos. H\u00e1 um eixo comum para esse ciclo ou frequ\u00eancias que passa atrav\u00e9s dos anos de 1656, 1667, 1878 e 1909.  O ano de 1878 foi o ano central da grande seca de 1877, 1878 e 1879.  O bi\u00eanio de cada lado desse eixo comum representa um per\u00edodo seco e nos Anais do Cear\u00e1 acusam 44 secas em 243 anos, ou seja, de 1690 a 1933. Ent\u00e3o Mr. Hull concluiu que 33 delas, ou seja, 75%, delas se verificaram dentro desse per\u00edodo seco, que \u00e9 quatro anos, ou nele tiveram in\u00edcio. Ent\u00e3o, atualmente n\u00f3s estamos atravessando um per\u00edodo de n\u00famero solar, e esse per\u00edodo discorrer\u00e1 pelo prazo de quatro anos, raz\u00e3o porque eu acredito que a seca parcial de 76, ter\u00e1 uma extens\u00e3o maior nos anos de 1977, podendo atingir at\u00e9 78 ou 79. N\u00e3o posso precisar bem se a seca ter\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos. Mas eu acredito que em 77, ser\u00e1 um dos piores anos desse per\u00edodo de n\u00famero solar.<\/p>\n<p>L.F. O senhor pretende outra vez alertar as autoridades competentes?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o, nessa entrevista que eu dei para o Globo Rep\u00f3rter aqui no Cear\u00e1 a \u00faltima alerta, se o governo n\u00e3o tomar conhecimento, a alerta foi feita, inclusive desde 1970 quando eu publiquei na Gazeta de Not\u00edcias o seguinte: esse artigo foi publicado na Gazeta no dia 12 de julho de 1970: \u201cAlerto, pois, com anteced\u00eancia \u00e0s autoridades constitu\u00eddas e em particular \u00e0 SUDENE para o per\u00edodo cr\u00edtico de 1976 a 1980. Nesse per\u00edodo poder\u00e1 o Nordeste ser assolado por uma grande seca\u201d. Ent\u00e3o, o que eu quero dizer \u00e9 apenas isso a respeito dela.<\/p>\n<p>L.F. Voltando ao assunto da puni\u00e7\u00e3o. Que pretende fazer, caso se concretize esta puni\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>J.H. Primeiro \u00e9 o seguinte: caso eu seja punido, eu terei o direito de defesa. Inclusive a TV Globo e O Canal 10 me cederam o canal para essa defesa e tamb\u00e9m eu acho que terei alguns colegas e alguns amigos que escrever\u00e3o a meu favor, inclusive artigo meu que j\u00e1 est\u00e1 pronto para ser publicado, em que eu tenho que perguntar por que n\u00e3o se pode divulgar uma teoria cient\u00edfica. N\u00e3o estamos mais na \u00e9poca de Galileu nem de Giordano Bruno, nem na \u00e9poca de Carlos Augusto. Acredito que um trabalho cient\u00edfico deve ser divulgado, inclusive porque esse trabalho agora \u00e9 conhecido e apreciado no exterior.<\/p>\n<p>L.F. De modo pr\u00e1tico, a quem atribuiria \u00e0s proibi\u00e7\u00f5es ou as restri\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o da teoria do seu pai?<\/p>\n<p>JH   Eu atribuo a muitas coisas: A incompet\u00eancia e a inveja dentre outras.<\/p>\n<p>L.F. O senhor n\u00e3o v\u00ea nenhum tipo de liga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou implica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/p>\n<p>J.H. Eu acho que deve haver certa implica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 um ano de elei\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o vejo o porqu\u00ea dessa proibi\u00e7\u00e3o. Inclusive, isso n\u00e3o vai partir do governo federal, sim do governo estadual. Essa puni\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo feita apenas na \u00e1rea da reparti\u00e7\u00e3o que eu trabalho. Inclusive, apenas da parte da Superintend\u00eancia da dire\u00e7\u00e3o da Funceme.<\/p>\n<p>L.F. Ent\u00e3o, o senhor considera que o General Abimael \u00e9 sozinho o respons\u00e1vel para esse tipo de restri\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>J.H. Eu acredito que sim. O resto s\u00e3o conjecturas&#8230;<\/p>\n<p>L.F.Podem acreditar que de alguma maneira colocaria as pessoas apreensivas, ou diminuiria o  ritmo de desenvolvimento do Estado?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o, eu acho que n\u00e3o, porque a seca \u00e9 um fen\u00f4meno f\u00edsico que se reflete no car\u00e1ter social e econ\u00f4mico da regi\u00e3o. Mas no caso de uma previs\u00e3o, essa previs\u00e3o serve de alerta para que  ent\u00e3o as autoridades e o pr\u00f3prio agricultor se acautelem, no caso, esteja prevenido para enfrentar a seca, quando ela poder\u00e1 ser atenuada em seus efeitos. Ent\u00e3o, eu acredito que n\u00e3o haja nenhuma implica\u00e7\u00e3o em termos pol\u00edticos, no caso dessa divulga\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se o caso \u00e9 xxxxxxxxxxxxxxx na Europa, h\u00e1 cientistas divulgando um grande terremoto em Los Angeles em 1977, e outras mais previs\u00f5es como seca na Europa, e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o de se esconder um fen\u00f4meno. Antes, deve-se tentar combater esse fen\u00f4meno nos malef\u00edcios que ele causa \u00e0s popula\u00e7\u00f5es. Quer dizer, ou melhor, atenuar as consequ\u00eancias  desse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>L.F. H\u00e1 tamb\u00e9m uma liga\u00e7\u00e3o entre as secas no Cear\u00e1 e outras partes do mundo, de acordo com a teoria do Mr. Hull?<\/p>\n<p>J.H. \u00c9. O trabalho que fez aqui foi feito tamb\u00e9m noutras regi\u00f5es como eu j\u00e1 falei, nos estados Unidos, que foi feito por Abbot do qual j\u00e1 falamos, o estudo a respeito das secas nos Estados Unidos e a frequ\u00eancia das manchas solares. Trabalho id\u00eantico foi feito por Fegson na \u00cdndia, em que ele fez a correla\u00e7\u00e3o das secas da \u00cdndia com o n\u00famero de manchas. H\u00e1 tamb\u00e9m trabalho feito na regi\u00e3o dos grandes lagos africanos, no lago Mar de Ara\u00fa, Mar C\u00e1spio, e tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura, quer dizer, a diminui\u00e7\u00e3o da cultura de vinho na Fran\u00e7a e em outras regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>L.F.  A ocorr\u00eancia das secas aqui e em outros locais do mundo concomitante.<\/p>\n<p>J.H. \u00c9. Existe realmente isso, essa correla\u00e7\u00e3o, de m\u00ednima solar, muitas secas que se registraram aqui no Nordeste, tamb\u00e9m se registraram na \u00cdndia e se registraram na \u00c1frica.<\/p>\n<p>L.F. O senhor de alguma maneira leu ou estudou, ou levou em considera\u00e7\u00e3o algum estudo do historiador Pompeu Sobrinho?<\/p>\n<p>J.H. Em todo esse meu trabalho na parte hist\u00f3rica, ou seja, vendo as grandes secas passadas eu tenho consultado o Thomaz Pompeu Sobrinho, consultado Joaquim Alves, Hist\u00f3ria das Secas, e at\u00e9 mesmo o pr\u00f3prio&#8230;<\/p>\n<p>L.F. Raja Gabaglia?<\/p>\n<p>J.H. Raja Gabaglia. Tem tamb\u00e9m o trabalho de Euclides da Cunha, Os Sert\u00f5es, em que ele se refere a uma correla\u00e7\u00e3o entre as secas e as manchas solares.<\/p>\n<p>L.F. Quais dos historiadores que o senhor nomeou,  julga que de fato melhor estudou a seca no Cear\u00e1?<\/p>\n<p>J.H. Dos autores, eu acredito que foi o Thomaz Pompeu Sobrinho. O livro tem maior riqueza de dados e tem uma fundamenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da seca.<\/p>\n<p>De todos os livros que eu pesquisei \u00e9 o que tem maior riqueza de dados. E, enquanto que o Joaquim Alves apenas ele estuda mais uma descri\u00e7\u00e3o. E o Thomaz Pompeu foi mais um pesquisador no sentido mais completo. Ele fala sobre a cronologia de Fortaleza, dia a dia, desde 1949. H\u00e1  historiadores, mas eu nunca me aproximei do Instituto Hist\u00f3rico do Ceara.<\/p>\n<p>L.F. Curioso \u00e9 que Mr. Hull, talvez poucos saibam, foi tamb\u00e9m um poeta e um desenhista. O senhor diz o que a respeito desses dois aspectos que a maioria das pessoas desconhece a respeito do seu pai?<\/p>\n<p>J.H.  Gostava, escrevia e \u00e0s vezes lia e recitava uma poesia&#8230; N\u00e3o posso dizer que ele tenha sido um poeta parnasiano, escreveu algumas poesias e no geral nem sempre optando por m\u00e9tricas e rimas. Diria mais, tendendo para o modernismo a escola modernista.  Escrevia poemas sobre assuntos variados e n\u00e3o deixava aflorar a parte sentimental mesmo, ele pouco falava a respeito de amores nas suas poesias. N\u00e3o era um poeta rom\u00e2ntico. Lia muito os poetas parnasianos e modernistas.<\/p>\n<p>L.F. O senhor n\u00e3o sabe nada recitar algum verso, nenhuma poesia dele? Um trecho, uma estrofe  que pudesse nos dizer?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o,  de fato n\u00e3o sei de cor e at\u00e9 as poesias dele n\u00e3o est\u00e3o mais comigo, n\u00e3o  est\u00e3o nos arquivos, aqui no momento n\u00e3o tem n\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel que estejam em algum ma\u00e7o doas arquivos de Cornell dos quis j\u00e1 falamos aqui. Alguma poesia do tio Franklin, como alguns o chamavam.<\/p>\n<p>L.F. Por que ele era chamado tio Frank?<\/p>\n<p>J.H. Porque ele reunia semanalmente \u00e0s ter\u00e7as-feiras na sua casa at\u00e9 na Prainha, os amigos, os membros da sociedade inglesa e os mais ligados ao seu c\u00edrculo de amizade. Ele oferecia uma festinha semanal, em que havia comes e bebes e normalmente era um temperamento muito brincalh\u00e3o, e era conhecido na roda, era chamado carinhosamente de Frank, como hoje se chama tio e tia a outras pessoas mais \u00edntimas.Era uma pessoa simp\u00e1tica e e cativante. A guerra n\u00e3o o endureceu.<\/p>\n<p>L.F. Entao, o seu pai apesar de um cientista, poderia ser visto como um \u201cbon vivant ?\u201d<\/p>\n<p>J.H. \u00c9, meu pai, ele tinha muitos amigos, um c\u00edrculo de amizade  vasto e gostava muito de clube, inclusive foi presidente dos Di\u00e1rios, presidente do Country Club, presidente do Ideal. Gostava muito de se divertir, passear, de festas, isso dado a condi\u00e7\u00f5es que surgiram depois dele abandonar praticamente as guerras, a carreira militar, pois ele dedicou-se \u00e0 diplomacia. Foi um diplomata e eu acho que isso tenha contribu\u00eddo muito para essa viv\u00eancia social.<\/p>\n<p>L.F. Dr. Julian, a revista Veja n\u00famero 193, de 17 de maio de 1972 traz na p\u00e1gina 46 uma reportagem sobre a origem das secas, onde o assunto \u00e9 encerrado de modo a que se pense que a teoria do seu pai seria da sua autoria e do senhor Cl\u00e1udio Pamplona.  Tenho a impress\u00e3o que a conclus\u00e3o seria essa porque as palavras textuais da revista no encerramento da mat\u00e9ria s\u00e3o estas: \u201cCertos de que suas teorias s\u00e3o absolutamente verdadeiras Pamplona e Ferreira Lima apenas esperam que o avan\u00e7o da tecnologia atmosf\u00e9rica e especial venha confirma-las na pr\u00e1tica\u201d. Inicia-se contando que o cearense Julian Ferreira Lima e Cl\u00e1udio Pamplona, professor auxiliar de ensino da cadeira de Geografia Astron\u00f4mica da Faculdade de Filosofia do Cear\u00e1 procura sintetizar uma tese que estudam h\u00e1 vinte anos; a de que as secas e as chuvas do Nordeste brasileiro, do Texas, nos Estados Unidos e em parte da \u00cdndia e da \u00c1frica, est\u00e3o intimamente ligadas \u00e0s atividades solares. A\u00ed vem procurando os demonstrativos gr\u00e1ficos, falando a respeito do excesso de evapora\u00e7\u00e3o, sobre forma\u00e7\u00e3o de chuvas. Diz que o senhor procurou pesquisar o clima dedicando aten\u00e7\u00e3o especial aos per\u00edodos undecenais do sol, no ciclo de 11 anos, nas quais se verificariam aumento e diminui\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o da energia, caracterizados pela maior ou menor apari\u00e7\u00e3o de manchas solares. Se essa teoria \u00e9 do seu pai, porque o nome dele n\u00e3o est\u00e1 mencionado nessa entrevista?<\/p>\n<p>J.H. Essa entrevista da revista Veja foi mal interpretada pelo rep\u00f3rter. Ent\u00e3o, a\u00ed s\u00e3o palavras dele, rep\u00f3rter. A interpreta\u00e7\u00e3o foi do rep\u00f3rter, porque sempre eu tenho afirmado: \u201ca teoria \u00e9 do meu pai, Mr. Hull, apenas o que estou fazendo  \u00e9 atualizar em tempo presente, pelo fato dele haver falecido em 1951. Com rela\u00e7\u00e3o ao Cl\u00e1udio Pamplona, apenas ele teve acesso aos documentos, os gr\u00e1ficos do Mr. Hull e acho que ele n\u00e3o est\u00e1 querendo dizer que a teoria seja dele. Mas a\u00ed foi m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o do rep\u00f3rter da Revista Veja.<\/p>\n<p>L.F. Mas quem forneceu dados para essa entrevista, o senhor Cl\u00e1udio Pamplona?<\/p>\n<p>J.H. Eu forneci os dados e tamb\u00e9m o Cl\u00e1udio Pamplona. Mas, n\u00e3o li o original em que o rep\u00f3rter se refere a isso, a essa entrevista, raz\u00e3o porque eu afirmo que a\u00ed houve m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o do rep\u00f3rter da revista.<\/p>\n<p>L.F. E h\u00e1 alguma liga\u00e7\u00e3o sobre essa mat\u00e9ria e outra publicada na mesma revista em 20 de agosto de 1975? Essa sobre previs\u00e3o de secas onde\u00ed j\u00e1 se diz que h\u00e1 60 anos um pesquisador brit\u00e2nico andou exibindo no Cear\u00e1 diagramas matem\u00e1ticos climatol\u00f3gicos capazes de diagnosticar com d\u00e9cadas de avan\u00e7o previs\u00f5es de seca no Nordeste?<\/p>\n<p>J.H. Sim. Essa entrevista a\u00ed foi dada por mim, inclusive aqui na minha casa, ela traz fotografias, inclusive onde eu exibo as condecora\u00e7\u00f5es recebidas por meu pai, na guerra de1914. Essa a\u00ed foi dada por mim, ent\u00e3o, afirmo que a teoria \u00e9 dele e que est\u00e1 previsto tamb\u00e9m a\u00ed a atual seca de 1976, esta que estamos vivendo.<\/p>\n<p>L.F. E o senhor n\u00e3o tomou nenhuma medida para retificar essa reportagem primeira a que eu me referi?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o, porque essa foi uma das primeiras entrevistas que eu dei para a revista e talvez com a pouca pr\u00e1tica e talvez mesmo n\u00e3o querendo entrar em choque com a revista deixei que assim ficasse, mas que ela foi retificada em outra entrevista posterior na revista Veja e isto \u00e9 que \u00e9 o mais importante.<\/p>\n<p>L.F. O Dr. Cl\u00e1udio Pamplona, \u00e9 astr\u00f4nomo, n\u00e3o \u00e9? Sua opini\u00e3o a respeito da contribui\u00e7\u00e3o que ele possa dar \u00e0 pr\u00f3pria teoria de Mr. Hull, ao seu pr\u00f3prio trabalho.<\/p>\n<p>J.H. Bem, o Cl\u00e1udio \u00e9 um bom profissional. \u00c9 um dos maiores entendidos em astronomia aqui no estado. Cl\u00e1udio Pamplona tem pesquisado a respeito de manchas solares. Eu acredito que o instrumental que ele disp\u00f5e \u00e9 um instrumental elementar. Ele n\u00e3o tem bom telesc\u00f3pio, ent\u00e3o, a raz\u00e3o que ele pode contribuir para o n\u00famero de manchas, inclusive os informes, mas eu prefiro receber esses informes do Observat\u00f3rio Federal de Zurique, na Su\u00ed\u00e7a, que \u00e9 um Observat\u00f3rio especializado no estudo do sol, principalmente relacionado com o ciclo solar. Ci\u00eancia \u00e9 dif\u00edcil de ser feita sem os meios adequados.<\/p>\n<p>L.F. Esta correla\u00e7\u00e3o \u00e9 somente com as manchas solares, ou envolve liga\u00e7\u00e3o com outros fen\u00f4menos como as auroras boreais e as perturba\u00e7\u00f5es magn\u00e9ticas?<\/p>\n<p>J.H. As manchas solares s\u00e3o fen\u00f4menos tempor\u00e1rios da fotosfera do sol e recebem efeitos  das explos\u00f5es violentas que ocorrem no sol, semelhante \u00e0s explos\u00f5es das bombas de hidrog\u00eanio, porque o sol \u00e9 semelhante a uma bomba de hidrog\u00eanio em constante explos\u00e3o. Ent\u00e3o, quando h\u00e1 essas explos\u00f5es do sol elas se apresentam na constela\u00e7\u00e3o com manchas escuras, raz\u00e3o porque s\u00e3o chamadas de manchas e que durante essa explos\u00e3o s\u00e3o enviadas para a Terra part\u00edculas eletromagn\u00e9ticas, e essas part\u00edculas a\u00ed afetam as comunica\u00e7\u00f5es, os ventos, e fazem com que apare\u00e7am as chamadas auroras boreais, e tamb\u00e9m perturbam o geomagnetismo terrestre.<\/p>\n<p>L.F. E o intervalo dessas manchas como \u00e9 que se processa?<\/p>\n<p>J.H. As manchas seguem um ciclo de aproximadamente 11 anos. Nesse per\u00edodo de 11 anos \u00e9 o per\u00edodo em que elas se apresentam no sol, m\u00ednimas de mais ou menos de quatro anos.  E um per\u00edodo de sete anos em que h\u00e1 uma ascend\u00eancia chegando ao m\u00e1ximo de manchas e depois um novo decr\u00e9scimo para chegar novamente no per\u00edodo de m\u00ednima solar que \u00e9 um per\u00edodo em que o sol apresenta menos mancha. Ent\u00e3o, no momento atual, 76, n\u00f3s estamos atravessando um per\u00edodo de m\u00ednimo solar. E, esse per\u00edodo ser\u00e1 de aproximadamente tr\u00eas ou quatro anos. Ent\u00e3o, raz\u00e3o porque eu acredito, de acordo com a teoria de meu pai, esses m\u00ednimos de manchas poder\u00e3o influenciar a meteorologia terrestre e causar uma seca na regi\u00e3o nordestina e em algumas regi\u00f5es do mundo. A raz\u00e3o disso \u00e9 porque est\u00e1 havendo uma modifica\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, acredito que devido \u00e0 polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. Ent\u00e3o, estamos tendo atualmente seca na Europa, seca na Inglaterra, na Holanda e em outros pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>L.F. Qual \u00e9 a conceitua\u00e7\u00e3o, a defini\u00e7\u00e3o pessoal que o senhor d\u00e1 para a palavra repiquete?<\/p>\n<p>J.H. Repiquete, no caso seria uma seca, vamos dizer uma seca de pouca extens\u00e3o, limitada em algumas regi\u00f5es do Nordeste e que segue logo ap\u00f3s uma grande seca. Quer dizer que sempre a seca aparece, quer dizer, s\u00e3o locais. S\u00e3o per\u00edodos em que chove em algumas regi\u00f5es e noutras n\u00e3o chove. Creio que geologicamente uma seca que chamam de \u201cseca verde\u201d, quer dizer, regi\u00f5es em que h\u00e1 boa produ\u00e7\u00e3o e outras regi\u00f5es que s\u00e3o afetadas por estiagens fortes t\u00eam produ\u00e7\u00e3o  m\u00ednima.<\/p>\n<p>L.F. O senhor trabalhou com o professor Jo\u00e3o Ramos?<\/p>\n<p>J.H. O Professor Jo\u00e3o Ramos eu conheci de longos anos e fui convidado a trabalhar com ele em 1960, quando foi criado o Instituto de Meteorologia da Universidade Federal do Cear\u00e1. Eu me afastei do Instituto e logo depois da cria\u00e7\u00e3o da Funceme recebi sua visita em minha casa quando ele me pediu que eu fosse trabalhar novamente com ele, e fui encarregado da montagem da Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica da Funceme. Segui de perto seu trabalho, e atualmente da sua equipe original resta apenas eu e o seu primo, Jos\u00e9 da Costa Irm\u00e3o que tamb\u00e9m trabalha comigo no Instituto, digo na Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Chuvas Artificiais.<\/p>\n<p>L.F. E o que o senhor pensa sobre o trabalho do professor Jo\u00e3o Ramos, sobre a figura dele, pessoalmente como \u00e9 o professor Jo\u00e3o Ramos?<\/p>\n<p>J.H. O professor Jo\u00e3o Ramos para mim sempre foi um verdadeiro cientista, dedicado \u00e0 ci\u00eancia, inclusive arriscou sua pr\u00f3pria vida nos voos iniciais, e atualmente se encontra doente, talvez em consequ\u00eancia da dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho. O trabalho do professor Jo\u00e3o Ramos, seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um trabalho&#8230; o seu m\u00e9todo \u00e9 o \u00fanico no mundo, ele preconizava o uso do cloreto de s\u00f3dio na provoca\u00e7\u00e3o de chuvas, e esse trabalho original foi desenvolvido por ele. Ent\u00e3o, eu acredito que o m\u00e9todo do professor Jo\u00e3o Ramos \u00e9 o \u00fanico no mundo. Atualmente esse m\u00e9todo foi copiado pelos americanos, inclusive no Vietnam foi usada a nuclea\u00e7\u00e3o para provocar arrombamento de represas, inunda\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. Ent\u00e3o seria o caso da chamada chuva meteorol\u00f3gica isso sem que esse processo utilizado pelos americanos no Vietnam, processo usado pelo Pent\u00e1gono foi baseado no m\u00e9todo do Professor Jo\u00e3o Ramos. L\u00e1 eles utilizaram o cloreto de s\u00f3dio porque as nuvens l\u00e1 no Vietnam t\u00eam mais ou menos as mesmas semelhan\u00e7as f\u00edsicas com as nuvens do Nordeste brasileiro. De in\u00edcio utilizou o processo americano desenvolvido nos Estados Unidos durante a \u00faltima guerra, que era baseado no bi\u00f3xido de carbono congelado e no iodeto de prata. Esse processo foi usado mais tarde porque o professor Jo\u00e3o Ramos constatou que o nosso tipo de nuvem, a nossa estrutura f\u00edsica, as nossas nuvens, n\u00e3o se adaptavam ao uso desse processo com o bi\u00f3xido de carbono e o iodeto de prata. Ent\u00e3o, ele partiu para outro m\u00e9todo que foi o emprego do cloreto de s\u00f3dio, vulgarmente conhecido como sal de cozinha.<\/p>\n<p>L.F. \u00c9 verdade que ele foi contestado por um americano que se diz ent\u00e3o o autor, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p>J.H. \u00c9. De fato, n\u00f3s recebemos h\u00e1 um ano a correspond\u00eancia de um engenheiro americano que eu n\u00e3o lembro o nome, no momento, em que o mesmo afirmava que o processo de nuclea\u00e7\u00e3o artificial da atmosfera na base do cloreto de s\u00f3dio, era seu. Quer dizer, o m\u00e9todo era seu. Mas, n\u00f3s temos prova sobeja suficiente para provar que neste processo o primeiro a utilizar cloreto de s\u00f3dio no mundo foi o professor Jo\u00e3o Ramos.<\/p>\n<p>L.F. Mas voc\u00eas de algum modo procuraram contestar essa teoria de maneira s\u00f3lida, deixando isso bem claro?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o. Porque isso, quem poderia fazer a contesta\u00e7\u00e3o era o pr\u00f3prio professor Jo\u00e3o Ramos. Logo depois ele adoeceu e como est\u00e1 h\u00e1 anos acamado n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00e3o de falar, e ent\u00e3o de fazer a sua defesa, mas provavelmente, caso a fam\u00edlia do professor Jo\u00e3o Ramos me autorize, eu poderei fazer essa defesa.<\/p>\n<p>L.F. A doen\u00e7a do professor Jo\u00e3o teria alguma liga\u00e7\u00e3o com esse relato que o senhor termina de fazer, alguma frustra\u00e7\u00e3o ou a falta de reconhecimento p\u00fablico ao trabalho que ele desenvolveu?<\/p>\n<p>J.H. Bom, acredito que n\u00e3o. A doen\u00e7a do Professor Jo\u00e3o Ramos deve-se mais ao tipo de trabalho, excesso de for\u00e7as que ele fazia quando nos primeiros tempos, o que n\u00f3s podemos chamar a fase da experi\u00eancia, onde n\u00f3s vo\u00e1vamos de avi\u00e3o despressurizado, sem oxig\u00eanio a bordo, sempre o Professor Jo\u00e3o Ramos n\u00e3o mereceu ainda o reconhecimento por seu trabalho pioneiro. Foi muito combatido, ningu\u00e9m acreditava no Professor Jo\u00e3o Ramos. Somente o Dr. C\u00e9sar Cals, quando assumiu o governo foi quem teve ent\u00e3o  a ideia luminosa da cria\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos &#8211; FUNCEME, onde poderia esse trabalho ser desenvolvido com maior assist\u00eancia t\u00e9cnica e recursos financeiros. Infelizmente o professor Jo\u00e3o Ramos adoeceu logo ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da Funceme e n\u00e3o p\u00f4de ver de perto o \u00eaxito do seu trabalho. Mas, estamos fazendo o poss\u00edvel para continuar o trabalho dele da maneira como ele desejava.<\/p>\n<p>L.F. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s chuvas artificiais, a SUDENE utiliza os trabalhos da Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos &#8211; FUNCEME, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>J.H. \u00c9 a SUDENE est\u00e1 no momento junto com o Centro Tecnol\u00f3gico e Espacial \u2013 C.T.E, fazendo pesquisas para avaliar a viabilidade econ\u00f4mica do processo, mas que o grupo do CTA n\u00e3o tem o m\u00ednimo interesse de fazer, quer dizer, isso em termo operacional, eles apenas est\u00e3o pesquisando e dentro de mais tr\u00eas anos eles estar\u00e3o com os resultados em m\u00e3o. Acredito tamb\u00e9m, que eles j\u00e1 tinham observado de perto nosso trabalho mesmo em voo, nossos avi\u00f5es que foram seguidos por avi\u00f5es deles e sei que eles comprovaram a efici\u00eancia do processo do professor Jo\u00e3o Ramos.<\/p>\n<p>L.F. O senhor tamb\u00e9m j\u00e1 pensou alguma vez de que a resist\u00eancia, a mudan\u00e7a de processos que levariam a uma solu\u00e7\u00e3o, ou melhor, a uma previs\u00e3o das secas, a pr\u00f3pria resist\u00eancia \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da teoria do Mr. Hull n\u00e3o estaria ligada ao medo do rid\u00edculo, como foi o caso do governador Jo\u00e3o Tom\u00e9, em 1916-1920?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o, porque inclusive eu estou arriscando minha pr\u00f3pria carreira, estou divulgando isso com anteced\u00eancia, eu acredito piamente na previs\u00e3o dele, tanto que h\u00e1 anos atr\u00e1s em 1960, numa entrevista ao jornal O Povo eu afirmava que, baseado, l\u00f3gico, nos trabalhos do Mr. Hull, deveria haver uma seca entre 1976 a 1980.<\/p>\n<p>L.F. Eu diria por parte das autoridades?<\/p>\n<p>J.H. As autoridades n\u00e3o sabem, porque elas ainda n\u00e3o pesquisaram o trabalho, n\u00e3o se interessam pelo fen\u00f4meno em termos d utilizar t\u00e9cnicas de preven\u00e7\u00e3o. Eu acho que muitos pesquisadores desconhecem o trabalho do Mr. Hull, e, inclusive, esse ano tem sido abordado o trabalho dele mais em termos econ\u00f4micos, numa vis\u00e3o de preocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ausente do peso da responsabilidade com o social. Contam sempre com a ajuda do governo federal e n\u00e3o manifestam interesse em impulsionar estudos dessa natureza. \u00c8 uma quest\u00e3o de mentalidade.<\/p>\n<p>L.F. Eu falo tamb\u00e9m com refer\u00eancia ao professor Jo\u00e3o Ramos, com quem o senhor conviveu, porque eu tive a oportunidade de ver na manchete de 07 de fevereiro de 1976, uma reportagem \u201cAs chuvas chegam as asas do homem\u201d em que h\u00e1 inclusive um depoimento do Dr. Mauro Botelho que foi secret\u00e1rio de agricultura aqui no Cear\u00e1, e que ele d\u00e1 tamb\u00e9m um depoimento sobre as chuvas artificiais e eu n\u00e3o vi nenhuma refer\u00eancia ao fato do professor Jo\u00e3o Ramos ser o criador, como o senhor diz a\u00ed. Ele inclusive diz que enviou, quando ele dirigia o Instituto de Pesquisa do Cear\u00e1, em 1947, um agr\u00f4nomo, Atinou Gurgel Gondim foi enviado para a Universidade da Calif\u00f3rnia de onde voltou muito entusiasmado com as experi\u00eancias de chuva artificial nos estados de Utah e Nevada. Ent\u00e3o, a coisa aqui me parece colocada em termos de uma novidade estrangeira, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>J.H. A ideia da nuclea\u00e7\u00e3o artificial partiu, \u00e9 l\u00f3gico, da ideia americana. Mas o processo americano utilizado no caso como eu falei usando iodeto de prata e bi\u00f3xido de carbono congelado ou gelo seco, esse processo foi tentado aqui no Cear\u00e1 pelo professor Jo\u00e3o Ramos e pelos dois elementos a\u00ed citados que tamb\u00e9m fizeram parte da equipe inicia do professor Jo\u00e3o Ramos quando ele iniciou seus trabalhos de nuclea\u00e7\u00e3o nos idos de 1950. Mas que o processo americano foi abandonado porque n\u00e3o surtiu efeito. Ent\u00e3o, o professor Jo\u00e3o Ramos partiu para a ideia original de se utilizar na nuclea\u00e7\u00e3o o cloreto de s\u00f3dio. Ent\u00e3o, a\u00ed \u00e9 onde est\u00e1 o grande m\u00e9rito, porque ele foi o idealizador desse processo da utiliza\u00e7\u00e3o do cloreto de s\u00f3dio na nuclea\u00e7\u00e3o artificial.<\/p>\n<p>L.F. Bom, ent\u00e3o eu estou entendendo, inclusive porque se diz que ele \u00e9 conhecido como o pai da chuva em boa parte do Cear\u00e1. E a atua\u00e7\u00e3o desse engenheiro Agenor Pacheco em Fortaleza, em 1951?<\/p>\n<p>J.H. O Dr. Agenor Pacheco, o processo idealizado por ele \u00e9 apenas a queima de grande quantidade de lenha para provocar a fuligem e criar n\u00facleos de condensa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s sabemos que durante grandes inc\u00eandios em florestas s\u00e3o lan\u00e7ados na atmosfera n\u00facleos de condensa\u00e7\u00e3o, no caso part\u00edculas de fuligem e esses n\u00facleos servem como agentes de condensa\u00e7\u00e3o e podem desencadear chuvas, mas que n\u00e3o \u00e9 um processo racional, em termos de se utilizar isso. E ainda bem, porque n\u00f3s n\u00e3o dispomos de madeira no Cear\u00e1, em quantidade suficiente para isso.<\/p>\n<p>L.F. Bom, inclusive a base A\u00e9rea tamb\u00e9m colaborou, colocando avi\u00f5es em 1951 para fazer a primeira chuva induzida, mas o que eu gostaria ent\u00e3o que ficasse claro e fiquei satisfeita com a sua resposta, foi de que houve de fato uma adequa\u00e7\u00e3o de um modelo importado \u00e0 nossa realidade. E tenho a impress\u00e3o que isso seria sempre o correto e a maneira de coloca\u00e7\u00e3o mais adequada. E com refer\u00eancia ao senhor, na verdade n\u00e3o falamos nada. S\u00f3 que o senhor \u00e9 cearense, \u00e9 ge\u00f3grafo. Como o senhor se empenhou nos estudos voltados para a geografia e a meteorologia, foi voca\u00e7\u00e3o mesmo?<\/p>\n<p>J.H. Eu sempre, desde quando pequeno j\u00e1 tinha tend\u00eancia de seguir a carreira militar e quando eu consegui entrar na Escola  Militar naquela \u00e9poca, porque havia uma proibi\u00e7\u00e3o em termos de est\u00e9tica, cava no p\u00e9. Eu n\u00e3o possu\u00eda cava no p\u00e9. Ent\u00e3o, vendo que estavam fechadas as portas para a carreira militar, ent\u00e3o eu me dediquei ao estudo da geografia e a minha voca\u00e7\u00e3o foi condicionada pelo meu pr\u00f3prio pai, que foi o meu primeiro professor de meteorologia e que me iniciou nos seus trabalhos, inclusive a minha mesada semanal era condicionada pelo trabalho realizado que seria no caso a medi\u00e7\u00e3o da pluviometria, que era feita diariamente na sua casa na Prainha.<\/p>\n<p>L.F. E a mesada quanto era?<\/p>\n<p>J.H. A minha mesada \u00e0quela \u00e9poca, era em 1949, chegava por perto de oitocentos cruzeiros, naquela \u00e9poca oitocentos mil reis, que dava para muita coisa, inclusive para alugar carro no Posto Mazine, para passeio, etc.<\/p>\n<p>L.F. Ent\u00e3o vamos aproveitar deixar gravados alguns dados biogr\u00e1ficos seus.<\/p>\n<p>J.H. Eu nasci em Fortaleza em 31 de julho de 1934. Quando pequeno tive a clav\u00edcula esquerda quebrada pela parteira, raz\u00e3o porque at\u00e9 a idade de oito anos n\u00e3o, digo, at\u00e9 a idade de cinco anos eu trazia sempre o bra\u00e7o preso numa amarra que chamavam \u00e0quela \u00e9poca tipoia, mas que isso mais tarde n\u00e3o trouxe nenhum defeito f\u00edsico. Iniciei meus estudos no Gin\u00e1sio, ali\u00e1s, no Col\u00e9gio Castelo Branco, depois estudei no Gin\u00e1sio Salesiano, em Baturit\u00e9, no Gin\u00e1sio Fortaleza, e finalmente conclui o curso ginasial no Liceu. Matriculei-me depois na Faculdade Estadual de Filosofia, no curso de Geografia, onde conclui em 1964.  Desde o tempo de estudante j\u00e1 trabalhava em meteorologia, no caso, no Instituto de Meteorologia da Universidade Federal do Cear\u00e1. E, depois me dediquei inteiramente a isso e acho que terminarei minha vida como meteorologista, principalmente no que se refere ao problema de previs\u00e3o das secas nordestinas. Casei com a senhora Dalva Ferreira Lima, tamb\u00e9m foi minha colega de Faculdade que muito me ajudou e me incentiva ainda e me incentivar\u00e1 sempre para que eu continue o trabalho, ven\u00e7a essa fase de persegui\u00e7\u00e3o e de inveja, e acredito que ela muito contribuiu e tem contribu\u00eddo para o meu sucesso.<\/p>\n<p>L.F. Sabe que vai haver, patrocinado pela FACIC, um semin\u00e1rio de estudos regionais, acredito que dentro de uns 30 dias, e vir\u00e3o autoridades, especialistas sobre assuntos do Nordeste. Foi convidado a participar?<\/p>\n<p>J.H. N\u00e3o. Atualmente n\u00e3o recebi nenhum convite da FACIC, mas eu acho que tem alguns elementos da FACIC que conhecem meu trabalho, conhecem o trabalho de Mr. Hull e se eles estiverem interessados aceitarei de bom grado o convite para participar, mas at\u00e9 o momento n\u00e3o recebi ainda uma indica\u00e7\u00e3o oficial.<\/p>\n<p>L.F. Existe alguma coisa que o senhor deseje acrescentar a essa entrevista, de Hist\u00f3ria Oral, algum dado?<\/p>\n<p>J.H. S\u00f3 para finalizar a entrevista tem o seguinte: eu gostaria era que o trabalho de Mr. Hull tivesse mais ampla divulga\u00e7\u00e3o, porque foi um trabalho cient\u00edfico, um trabalho ao qual ele dedicou toda a sua vida. Esse problema dele permanecer no esquecimento, e somente o meu esfor\u00e7o para fazer com que ele esteja sendo divulgado, apesar de todos os pesares muito me entristece  .Lamento as limita\u00e7\u00f5es cient\u00edficas do meio.<\/p>\n<p>L.F. Creio que j\u00e1 deve esta cansado dessa conversa pelo menos por hoje. N\u00f3s agradecemos ao senhor Dr. Julian Ferreira Lima pela entrevista que nos concedeu e consideramos da maior validade as informa\u00e7\u00f5es registradas, esperando que na realidade as teorias de Mr. Hull venham a ser mais bem difundidos e melhor aceitos pelos \u00f3rg\u00e3os competentes e respons\u00e1veis pelo desenvolvimento do Nordeste brasileiro e especificamente os do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Luciara Silveira de Arag\u00e3o e Frota.<\/p>\n<p>Fortaleza, 06 de agosto de 1976.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fortaleza, 06 de agosto de 1976. 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