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{"id":117,"date":"2015-06-09T09:44:21","date_gmt":"2015-06-09T09:44:21","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/2015\/06\/09\/a-historia-oral-na-universidade\/"},"modified":"2021-11-04T11:07:21","modified_gmt":"2021-11-04T11:07:21","slug":"trilhas-academicas-uma-vida-construida-nos-rastros-da-historia-oral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2015\/06\/09\/trilhas-academicas-uma-vida-construida-nos-rastros-da-historia-oral\/","title":{"rendered":"Trilhas Acad\u00eamicas \u2013 Uma vida constru\u00edda nos rastros da hist\u00f3ria oral"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Entrevista com a historiadora Luciara de Arag\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D. &#8211; Luciara h\u00e1 muito que eu queria uma oportunidade assim com essa de hoje, com voc\u00ea visitando S\u00e3o Paulo, terra que eu sei que \u00e9 a do seu cora\u00e7\u00e3o, para falarmos um pouco do inicio de sua carreira universit\u00e1ria na Universidade Federal do Cear\u00e1 e dos seus primeiros contatos com a Hist\u00f3ria Oral.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. &#8211; Quando falo do passado \u00e9 que percebo que eu j\u00e1 trilhei muito da estrada, hein? E com certeza o tema central do seu interesse \u00e9 de como o in\u00edcio da minha vida universit\u00e1ria tem uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com esse a hist\u00f3ria oral. De fato, ao prestar concurso para o magist\u00e9rio superior, na \u00e1rea de Hist\u00f3ria, tive entre os meus examinadores o que hoje, \u00a0trazendo o passado at\u00e9 mim diria que se constituiu num dos meus \u00eddolos. Era o Professor Geraldo da Silva Nobre, uma enciclop\u00e9dia viva, um laborat\u00f3rio oral de maravilhosa mem\u00f3ria e de uma bondade e colabora\u00e7\u00e3o inexced\u00edvel. Sempre encontrava um tempo para me estimular e me dar apoio, sugerindo temas para a minha p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na USP, pois vibrava com a ideia de que eu traria como trouxe, para o Cear\u00e1, o primeiro mestrado em Hist\u00f3ria. Foi conversando com esse s\u00e1bio professor que percebi, na pr\u00e1tica, a necessidade de gravar o que ele me dizia. Ia eu quase todas as tardes pesquisar no Instituto do Cear\u00e1 tomando ch\u00e1 de cidreira e me beneficiando, na pr\u00e1tica, com um orientador not\u00e1vel. Assim, quando iniciei a carreira universit\u00e1ria j\u00e1 possu\u00eda o t\u00edtulo de mestre e j\u00e1 tinha feito muitas grava\u00e7\u00f5es com o meu em\u00e9rito professor j\u00e1 \u00a0dos meus tempos de gradua\u00e7\u00e3o na Faculdade de Filosofia.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y .D. &#8211; E voc\u00eas conversavam sobre m\u00e9todos de estudos.? Ele aceitava bem o gravador?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. \u2013 Bom, esqueci-me de dizer que ele era tamb\u00e9m um erudito jornalista que me deixava usar o gravador como melhor me parecesse. Parecia a n\u00f3s dois que isso era f\u00e1cil, pr\u00e1tico e moderno.\u00a0 Eu tamb\u00e9m j\u00e1 escrevia desde os 13-14 anos, pequenos artigos e poemas em jornais locais como o Nordeste e a Gazeta de Not\u00edcias. Achava jornalismo a mais bela profiss\u00e3o do mundo. Ent\u00e3o, para mim era uma doce atribui\u00e7\u00e3o transcrever as fitas e as informa\u00e7\u00f5es para facilitar o meu trabalho. Minha m\u00e3e era a maior incentivadora e, \u00e1s vezes, ouvia as fitas comigo para que a descoberta do mundo das palavras fosse mais r\u00e1pida na apreens\u00e3o do conte\u00fado. Noutros termos, ele ditava pra mim o texto gravado. Enfim, quando j\u00e1 dando aulas no curso de Hist\u00f3ria da UFC, ap\u00f3s minha aprova\u00e7\u00e3o em concurso p\u00fablico, considerei normal o uso do gravador. O Curso de Hist\u00f3ria era pequeno e ainda inexpressivo e creio que possu\u00eda um s\u00f3 professor que se chamava Pedro Alberto de Oliveira Silva. Creio que com ele fomos, na pr\u00e1tica, os reais fundadores do Curso. Bom, mas como eu j\u00e1 possu\u00eda o grau de mestre, fui selecionada, junto com outros colegas, para a instala\u00e7\u00e3o do mestrado em Sociologia do Desenvolvimento, uma id\u00e9ia acalentada por professores como Eduardo Diathay Bezerra de Menezes, Paulo Elp\u00eddio de Menezes Neto e pelo professor H\u00e9lio G\u00f3es de Campos Barros, depois um dos melhores administradores da CAPES. Foi nesse momento, ent\u00e3o que me surgiu uma grande oportunidade de mergulhar no que eu j\u00e1 fazia e que era a Hist\u00f3ria Oral.\u00a0 De gravador em punho eu estava sempre \u00e0s voltas com hist\u00f3rias a resgatar, tinha o interesse em ouvir Cruz Filho, o pr\u00edncipe dos poetas cearenses, Francisco Sadoc Ara\u00fajo, o fundador da Universidade Vale do Acara\u00fa, que levou a \u00a0interioriza\u00e7\u00e3o da Universidade no Cear\u00e1.. E enfim, entrevistar personalidades dentro de temas de interesse coletivo. Agora, como primeira oportunidade de inserir-me entre os percussores da Hist\u00f3ria Oral no Brasil eu creio que precisei de um pouco de sorte. Em primeiro lugar, veio para o Mestrado em Sociologia do Desenvolvimento um convite do Curso de Hist\u00f3ria da Universidade de Bras\u00edlia, convite feito pelo historiador brasileiro, mas com forma\u00e7\u00e3o em universidades norte-americanas, David Gueiros Vieira. Foi uma sorte ser indicada para ir.\u00a0 Muito entusiasmado, o Professor David conseguiu passagens para os convidados com a Funda\u00e7\u00e3o Ford e reuniu na UnB todos os professores brasileiros que j\u00e1 se interessavam pelo uso da Hist\u00f3ria Oral no Brasil, tais como Carlos Humberto Correia e Ondina Bossle da Universidade de Santa Catarina, Cec\u00edlia Vestphalen e Altiva Palheta, da Universidade Federal do Paran\u00e1, o professor Luis Henrique da Bahia &#8230;. Lembro que se lamentou a aus\u00eancia de \u00a0Fernanda Pacca de Almeida Wrigt, que havia sido minha orientadora do mestrado e depois seria do doutorado; \u00a0\u00a0Presentes estavam professores americanos como William Moss, George Brown e iniciou-se, ent\u00e3o ali, pela primeira vez, uma discuss\u00e3o sobre como sentar as bases para a Hist\u00f3ria Oral no Brasil e sobre a sua legitimidade como ferramenta e como fonte de pesquisa. O professor William Moss \u00a0\u00a0falou sobre a linha que pode separar o entrevistador de Hist\u00f3ria Oral da entrevista jornal\u00edstica e sobre o fato de que \u00a0Allen \u00a0Johnson \u00a0dizia \u00a0que \u00a0no\u00a0 caso\u00a0 do\u00a0 chamado\u00a0 jornalismo moderno explora-se algu\u00e9m por uma boa hist\u00f3ria. Afirma\u00e7\u00e3o que me deixou o que pensar&#8230;&#8230; Lembro que fiquei ainda encantada em saber, da palestra do professor David que as grava\u00e7\u00f5es podem ser estudadas por laborat\u00f3rios especializados, o que j\u00e1 era feito nos Estados Unidos transformando a voz em sinais luminosos, podendo estabelecer se a pessoa estava conscientemente dizendo uma mentira ou se acreditava no que dizia. N\u00e3o parava de pensar em como tinha sorte em participar desse grupo. E creio que bendisse o Professor H\u00e9lio Barros por me indicar mesmo sendo eu, ent\u00e3o, muito jovem.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D. &#8211; As discuss\u00f5es ent\u00e3o lhe agu\u00e7avam um senso de uma grande responsabilidade por representar uma Universidade como a Federal do Cear\u00e1, n\u00e3o? Ainda a\u00ed voc\u00ea deve ter percebido que o uso da Hist\u00f3ria Oral era mais al\u00e9m e mais profundo do que s\u00f3 coletar entrevistas gravadas\u00a0 mesmo quando as fazia para publica\u00e7\u00e3o no caderno especial de s\u00e1bado de jornais cearenses com\u00a0 a Tribuna do Cear\u00e1 e da Gazeta como me dizia antes, n\u00e3o \u00e9 certo?\u00a0 Imagino que foi a partir desse encontro o nascimento da id\u00e9ia, que depois se propagou pelo pa\u00eds, da cria\u00e7\u00e3o de requisitos influentes para o uso e a sele\u00e7\u00e3o do material gravado&#8230; Imagino\u00a0 a dist\u00e2ncia percorrida para transforma-la numa documenta\u00e7\u00e3o de relevo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. \u2013 Certamente. Sabe, a partir da\u00ed liguei pontos das conversas s\u00e9rias com o meu mestre Geraldo Nobre, refletindo e compreendendo melhor o que ele dizia sobre caber ao historiador a s\u00edntese do todo social e que ele tamb\u00e9m tem a miss\u00e3o \u00a0de preservar, em \u00faltima an\u00e1lise, sua participa\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria vivida no seu pr\u00f3prio tempo.Mas, como eu dizia antes, tive muita sorte de ir a esse encontro em Bras\u00edlia. Os contatos da lideran\u00e7a desse grupo frutificaram e se transformaram no primeiro \u00a0curso de especializa\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Oral dado no Brasil num conv\u00eanio entre a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas e a Universidade Federal Fluminense coma coordena\u00e7\u00e3o das Professoras Aydil de Carvalho Press e Ism\u00eania Lima. Al\u00e9m de alunos \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0brasileiros, o curso recebeu alunos argentinos, venezuelanos e da Am\u00e9rica Central. Os professores, coordenados pelo Professor George Brown, foram James e Edna Wilkie al\u00e9m da professora mexicana, integrante do Museu Antropol\u00f3gico do M\u00e9xico, Eugenia Mayer. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D. Presumo que o curso teve um desdobramento nas universidades de origem dos participantes, pois os cursos de especializa\u00e7\u00e3o requerem as extensas 360 horas entre trabalhos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos. Em que consistiu a natureza pr\u00e1tica desses trabalhos? Imagino do que foi dito e da nossa experi\u00eancia vivida na PUCSP como \u00e9 cara a implanta\u00e7\u00e3o de um Programa de Hist\u00f3ria Oral se uma Institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o o patrocina. Como se arrumou no Cear\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. &#8211; A Universidade era prestigiada e eu havia recebido bolsa de estudos da <em>Ford Fondation.<\/em> O mestrado em Sociologia tinha credibilidade e eu um projeto sobre as secas no Cear\u00e1. Sempre me causou esp\u00e9cie que o problema das secas pudesse ser um empecilho ao desenvolvimento do Estado, mesmo porque havia \u00f3rg\u00e3os \u00a0bem atuantes como o DNOCS e o Banco do Nordeste. Assim, preparei um projeto onde requeria basicamente gravadores, fitas e material de escrit\u00f3rio que fosse \u00fatil para as transcri\u00e7\u00f5es. Formulei ma listagem de governadores, ex-governadores do Estado,, t\u00e9cnicos, secret\u00e1rios de desenvolvimento e s\u00e1bios como o Dr. Guimar\u00e3es Duque em dos maiores conhecedores das xer\u00f3filas no mundo e o laureado bi\u00f3logo Ruy Sim\u00f5es de Menezes um cr\u00e2nio em quest\u00f5es de a\u00e7udagem e piscicultura, ambos j\u00e1 falecidos.. Antes do in\u00edcio da segunda parte do curso, eu fiz a prova pr\u00e1tica com o diretor do Arquivo Nacional, Dr. Raul Lima e imaginei que ao Arquivo poderia interessar essas Mem\u00f3rias da Secas. A essa \u00e9poca eu j\u00e1 alinhava id\u00e9ias para o doutorado e o tema que me aconselhavam era <em>Seca e Pol\u00edtica no Cear\u00e1<\/em>, tema no qual eu aproveitaria todas as entrevistas feitas. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D. &#8211; Ah! J\u00e1 sei, parte dessas entrevistas est\u00e3o no site do nehscfortaleza, o <a href=\"http:\/\/www.nehscfortaleza.com\/\">www.nehscfortaleza.com<\/a>\u00a0 que voc\u00ea coordena com a janela \u00e0 esquerda da primeira p\u00e1gina do site, Mem\u00f3ria das Secas, n\u00e3o \u00e9 isso? Lembro de haver lido parte de uma entrevista com o ent\u00e3o governador Virgilio T\u00e1vora, fruto de um conveio entre a UFC e o Arquivo Nacional. \u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. &#8211; Boa mem\u00f3ria visual a sua. \u00c9 isso mesmo. Pena que ap\u00f3s tanto tempo, estamos aqui falando dos anos setenta, muita coisa tenha se perdido. De qualquer forma vemos como no plano das secas algumas coisas se modificaram. N\u00e3o sei se \u00e9 poss\u00edvel falar de menos assistencialismo, mas ao menos de uma vis\u00e3o mais objetiva de tratar o problema. Para ser sincera, n\u00e3o creio que a implanta\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria Oral na UFC tenha tido resultados t\u00e3o eficientes como os logrados em Santa Catarina, criado em 1974 dando subs\u00eddios para a hist\u00f3ria e a evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desde 1930, por exemplo. De qualquer modo, representou uma experi\u00eancia positiva e deu-se como dizer, o lan\u00e7amento de uma pedra fundamental para os que trabalhariam com Hist\u00f3ria Oral depois. A grande experi\u00eancia do Curso de Hist\u00f3ria, com as primeiras bolsas concedidas aos alunos veio da Sudec-Superintend\u00eancia de Desenvolvimento Econ\u00f4mico que em conv\u00eanio com a UVA-Universidade Vale do Acara\u00fa, organizou farto levantamento de livros de tombo pecu\u00e1rios na Zona Norte do Cear\u00e1, favorecendo o contato deles com a documenta\u00e7\u00e3o de fonte prim\u00e1ria existente. Voc\u00ea deve est\u00e1 querendo que eu lhe conte como foi o meu ingresso na PUC quando voc\u00ea era a coordenadora do Curso de Hist\u00f3ria, ou seja, como sa\u00ed do Cear\u00e1 e fui implantar a hist\u00f3ria Oral na PUC\/SP.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D. &#8211; Adivinhou meus pensamentos, mo\u00e7a. Sei que fui das primeiras a lhe dar as boas vindas, mas conte para registro. Lembro muito do entusiasmo do Dr. Joel Martins ao receb\u00ea-la, pois havia pedido ao professor H\u00e9lio Barros, ent\u00e3o na coordena\u00e7\u00e3o da CAPES, uma ajudante para o curso de Hist\u00f3ria e para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea j\u00e1 tinha ent\u00e3o conclu\u00eddo os cr\u00e9ditos e a tese de doutorado e aguardava a marca\u00e7\u00e3o da defesa com a Fernanda Paca, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. &#8211; Exatamente isso. Creio que vou lhe nomear minha bi\u00f3grafa.. J\u00e1 estava vindo de uma experi\u00eancia como instrutora na USP tra\u00e7ava planos sobre como iria publicar a tese com tanto material de Hist\u00f3ria Oral nela usado. Havia preparado esses documentos, excelentes fontes orais contempor\u00e2neas com agr\u00f4nomos, jornalistas e t\u00e9cnicos da Sudene, DNOCS e Banco do Nordeste. Depois j\u00e1 vinha estudando sobre entrevistas e a forma como ela \u00e9 trabalhada nos v\u00e1rios ramos de conhecimento. Na pr\u00e1tica, todos n\u00f3s somos entrevistados, seja na escola, na admiss\u00e3o ao emprego ou na anamnese m\u00e9dica. Todos se interessam por entrevistas, sejam antrop\u00f3logos, cientistas sociais ou assistentes sociais. A quest\u00e3o residia, no meu entendimento na cria\u00e7\u00e3o de um documento espont\u00e2neo e ao mesmo tempo confi\u00e1vel para que pudesse ser usado como um documento fonte para a Hist\u00f3ria e que recebesse a aceita\u00e7\u00e3o dos historiadores. Quando queremos produzir ci\u00eancia o mais importante \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o cientifica. N\u00e3o podem, portanto deixar de ser importantes os m\u00e9todos, as t\u00e9cnicas e as formas de sua escolha e emprego. Ora, a primeira mostra sociol\u00f3gica voltada para a hist\u00f3ria de vida \u00e9 se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, de 1918. N\u00e3o tenho d\u00favidas, sobre a import\u00e2ncia dos ensinamentos que recebi nos cursos e treinamentos de Hist\u00f3ria Oral. Creio que me inclinei para isso de forma quase instintiva. Ainda hoje, h\u00e1 uma tend\u00eancia de julgar a Hist\u00f3ria Oral como um registro de atualidades. Olha Yvone, s\u00e3o muitas as categorias no emprego da Hist\u00f3ria Oral para que se fique s\u00f3 perguntando se ela \u00e9 Hist\u00f3ria, se \u00e9 Oral ou se ela \u00e9 um elemento de um contra hist\u00f3ria como quer Paul Thompson. Creio que essas preocupa\u00e7\u00f5es ele as codificou, mas foram todas pensadas por esse grupo gerador da implanta\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria Oral no Brasil do qual fez parte tamb\u00e9m a Tereza Malatian Roy da Universidade de Franca. Lembro muito bem das minuciosas inquisi\u00e7\u00f5es do Professor Manoel Nunes Dias e de como isso podia ser enriquecedor no campo te\u00f3rico do emprego da t\u00e9cnica. Mais tarde, as constantes evolu\u00e7\u00f5es e elabora\u00e7\u00f5es sobre Hist\u00f3ria Oral levaram-na a ser considerada m\u00e9todo levando a polariza\u00e7\u00e3o e disputas das v\u00e1rias \u00e1reas que a utilizam com os nome os mais diversos. S\u00f3 para ilustrar, fui, na pr\u00e1tica afastada de uma banca de doutorado por ter posi\u00e7\u00f5es discordantes da orientadora da tese de uma psic\u00f3loga\u00a0 na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o e usando\u00a0 Historia Oral. Tal fato me remeteu \u00a0\u00a0\u00e0s teorias de Oscar Handlin, da Universidade de Harvard e que nos ensina t\u00e3o bem a ler as evidencias e tudo o que elas significam,\u00a0 quer num livro quer numa palavra.\u00a0 Fugir\u00e1 a Hist\u00f3ria Oral do conceito de evid\u00eancia?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D &#8211; Conhe\u00e7o bem a teoria. Trata-se do livro da Martins Fontes e que ambas traduzimos. Na verdade, os que assim pensam n\u00e3o se detiveram a pensar sobre com essa documenta\u00e7\u00e3o \u00e9 elaborada pelo historiador e nem mesmo se h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o na coparticipa\u00e7\u00e3o de resgate\/cria\u00e7\u00e3o do documento contempor\u00e2neo. Como voc\u00ea diz sempre a maior validade da Hist\u00f3ria Oral, desse conjunto de documenta\u00e7\u00e3o Oral reside na interdisciplinaridade. Isso explica, pelo menos em parte, as suas idas \u00e0 Franca para opinar na confec\u00e7\u00e3o do Estatuto do \u00a0Laborat\u00f3rio\u00a0 de Documenta\u00e7\u00e3o Oral que se seguiu ao da PUC\/SP. Sei que poder\u00edamos falar horas sem fim sobre esse tema que domina bem e que sempre acompanha os seus trabalhos, os seus livros..<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. \u2013 \u00c9 verdade Yvone, aqui mesmo na PUC, o ent\u00e3o meu orientando de Mestrado o Jean Claude Silberfeld me proporcionou uma grande alegria. Ele era ent\u00e3o aluno do Curso de Hist\u00f3ria Oral. Eu estava preparando o livro <em>Empres\u00e1rios e Pol\u00edticos <\/em>na<em> Industrializa\u00e7\u00e3o do Nordeste<\/em> e ele me proporcionou a assessoria necess\u00e1ria no planejamento e confec\u00e7\u00e3o do plano de entrevista. Ainda marcou, acompanhou e coadjuvou a entrevista com o Dr. Jos\u00e9 Mindlim e com Keith Bush da Empresa Alpargatas, muito atuante em Recife. Isto s\u00f3 diz bem do acerto da introdu\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria Oral no Setor de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da PUC\/SP quando era o querido Dr. Joel, presidente da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e voc\u00ea a chefe da Coordena\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria. Tem grande dom\u00ednio do uso da Hist\u00f3ria Oral e sabe aplica-la muito bem na \u00e1rea econ\u00f4mica, Ali\u00e1s, outra vantagem do Curso de Hist\u00f3ria daquela \u00e9poca era a adapta\u00e7\u00e3o do aluno de outras \u00e1reas de conhecimento ao mundo do mestrado em Hist\u00f3ria. Eram aceitos alunos graduados em Economia, Direito, Arquitetura, Filosofia o que era muito enriquecedor. O Curso de Leitura Sistem\u00e1tica voltada \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o do conhecimento e compreens\u00e3o do sentido da Hist\u00f3ria era de muito valor. Muitos deles queriam apresentar seus projetos utilizando a Hist\u00f3ria Oral Lembro-me que o interesse despertado foi tanto que quando apresentei o plano central do CURSO A entrevista nos v\u00e1rios ramos do conhecimento humano, eles mesmos se propuseram\u00a0 entusiasticamente a pesquisar voltando para a sua \u00e1rea de\u00a0 interesse os textos pesquisados. A partir dessas leituras, puderam estabelecer similitudes e diferen\u00e7as no trabalho do historiador ao tratar com as entrevistas orais. Em sua segunda fase, o Curso de Leitura Sistem\u00e1tica tinha tamb\u00e9m a proposta de ajudar o aluno a formular e redigir o seu projeto al\u00e9m de organizar entrevistas para o seu trabalho monogr\u00e1fico. As constantes palestras de advogados como Eduardo Muylaert, Manoel Alceu Afonso Ferreira e Renan Lotufo, ajudaram muito a que aprendessem sobre a import\u00e2ncia de um Programa Oral de uma Institui\u00e7\u00e3o e sobre os direitos de facultar ou n\u00e3o, as entrevistas doadas em sua integralidade. Ali\u00e1s, foi essa interdisciplinaridade do Curso de \u00a0Mestrado de \u00a0ent\u00e3o, a mola propulsora para a cria\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio de Documenta\u00e7\u00e3o Sonora e Gr\u00e1fica da PUC\/SP, englobando todos os alunos da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que fossem utilizar em suas monografias entrevistas orais. Lembro-me muito bem de como o projeto elaborado por mim foi aceito e aprovado pela Comiss\u00e3o de p\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o. O Laborat\u00f3rio proposto tinha u projeto m\u00e3e: a hist\u00f3ria da PUC\/SP. Os alunos de leitura Sistem\u00e1tica adoraram a id\u00e9ia e se tornaram ex\u00edmios colaboradores, lendo e se preparando par fazer entrevistas com professores e funcion\u00e1rios. Formou-se um corpo de entrevistadores incentivados respectivamente, pelas coordena\u00e7\u00f5es de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00a0do Mestrado em Hist\u00f3ria. Professores com Geraldo Pinheiro Machado, Maria do Carmo Guedes, da psicologia. Carmem Junqueira, da antropologia, Maria Luiza da educa\u00e7\u00e3o al\u00e9m de ouros professores como Lucrecia Ferrara da semi\u00f3tica e de tantos outros que nos concederam entrevistas pra o PROJETO.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D. &#8211; Sei perfeitamente da import\u00e2ncia do projeto como um todo aglutinador das mais variadas experi\u00eancias dos v\u00e1rio saberes agregados num programa de p\u00f3s 6 gradua\u00e7\u00e3o. Sei tamb\u00e9m o quanto o Dr. Joel Martins prezava e incentivava esse projeto que foi gerado no come\u00e7o dos anos oitenta sob a inspira\u00e7\u00e3o dele. Sei tamb\u00e9m que ele a convocou j\u00e1 quando reitor para que voc\u00ea retomasse o projeto dentro do projeto maior <em>PUC ANO 2000. <\/em>Infelizmente, o homem p\u00f5e e Deus disp\u00f5e e perdemos, n\u00f3s, um grande amigo, a universidade um grande cientista.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0L. A. &#8211; Pois \u00e9 Yvone, uma l\u00e1stima o que aconteceu e vem acontecendo. Tantas entrevistas feitas com homens como Franco Montoro, Dra.Aniela, Dr. Joel Martins, D. Paulo Evaristo Arns&#8230; Homens e mulheres que ultrapassaram os muros dessa universidade. Trabalho cuidadoso e amoroso de tantos alunos que por aqui passaram. Alguns tamb\u00e9m j\u00e1 se foram como o Jos\u00e9 Carlos, o arquiteto, Naturalmente entrevistas com imperfei\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0s dificuldades de pesquisa, custos onerosos financiados por eles pr\u00f3prios.. Fitas, gravadores, custos das transcri\u00e7\u00f5es.\u00c9 inacredit\u00e1vel que tanto desvelemos e revelamos nesse trabalho, tocando em seus pilares, talvez os seus segredos e ap\u00f3s tantos anos nada se publique&#8230; Pra mim pessoalmente ficou o registro da conviv\u00eancia com seu Lu\u00eds Kubinsk da Biblioteca, o sorriso franco de Pinheiro Machado ou o Dr. Joel a me relembrar que o recurso aos testemunhos orais era antigo. Do tempo de Michelet adiantava. Eu redarguia, pois \u00e9 Dr. Joel, mas quem redescobriu tudo isso foi esse Allan Nevins da Universidade de Columbia, depois da guerra, em 1948. E come\u00e7ava o papo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Y. D. \u2013 Lembro-me bem que fomos entrevistar a reitora de ent\u00e3o, a Dra. Nadir Kfouri que nos contou os detalhes da invas\u00e3o da PUC&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L. A. \u2013 Bem grande \u00e9 a nossa persist\u00eancia para publicar esse trabalho t\u00e3o volumoso de cerca de 400 p\u00e1ginas. Uma hist\u00f3ria contada pelos que fazem, fizeram a PUC e resgatada pelos alunos desse Curso de Hist\u00f3ria Sistem\u00e1tica. Tantos professores, alguns ex-reitores como Severino, Casemiro, Wanderley&#8230; Todos torciam pela publica\u00e7\u00e3o desse trabalho importante na \u00e1rea de Hist\u00f3ria Oral. Seguimos esperando. Gostei de tratar desse assunto. Nem precisa agradecer. Nem sentimos o tempo passar quando fazemos\u00a0 aquilo que gostamos.\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Revista Histo\u0301ria Oral, Julho-Dez\/2011 no 10 pa\u0301g 207<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com a historiadora Luciara de Arag\u00e3o. Y. 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