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{"id":116,"date":"2013-04-03T21:40:02","date_gmt":"2013-04-03T21:40:02","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/2013\/04\/03\/carapinima-a-historia-de-uma-rua-um-bairro-nos-anos-dourados\/"},"modified":"2021-07-06T02:23:45","modified_gmt":"2021-07-06T02:23:45","slug":"carapinima-a-historia-de-uma-rua-um-bairro-nos-anos-dourados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2013\/04\/03\/carapinima-a-historia-de-uma-rua-um-bairro-nos-anos-dourados\/","title":{"rendered":"Carapinima: A Hist\u00f3ria de Uma Rua, Um Bairro nos Anos Dourados"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">Meu entrevistado \u00e9 <strong>Paulo Maria de Arag\u00e3o<\/strong>, advogado e professor universit\u00e1rio, Mestre Pela Universidade S\u00e3o Marcos\u2013SP, especialista em Direito P\u00fablico pela Universidade de Fortaleza\u2013UNIFOR e Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Cear\u00e1\u2013UFC. Professor de Direito do Trabalho e de Deontologia Jur\u00eddica na UNIFOR e de outras faculdades, ministrou, a convite, aulas de Seguran\u00e7a do Trabalho no curso de Medicina da Universidade Federal do Cear\u00e1 \u2013 UFC. Palestrante e conferencista em sua \u00e1rea profissional, dentro e fora do Cear\u00e1 \u00e9 advogado militante. Suas atividades forenses iniciaram-se na Companhia Docas do Cear\u00e1, da qual foi advogado e Diretor. Atuou no Tribunal de \u00c9tica e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil \u2013 Se\u00e7\u00e3o do Estado do Cear\u00e1, como Conselheiro no per\u00edodo de 1997 a 2003. No Ex\u00e9rcito Brasileiro foi Oficial R-2 da 1\u00aa Turma de Artilharia do CPOR de Fortaleza. Cumulou as fun\u00e7\u00f5es de oficial da arma, no antigo 10\u00ba Grupo de Obuses, com as de rela\u00e7\u00f5es-p\u00fablicas da 10\u00aa Regi\u00e3o Militar. Foi eleito presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Oficiais da Reserva\u2013Assores, no tri\u00eanio 1970-1972. Membro da Associa\u00e7\u00e3o Cearense de Imprensa-ACI, escreveu mais de uma centena de artigos para os jornais O Povo, Di\u00e1rio do Nordeste e Gazeta de Not\u00edcias, inclusive a movimentada coluna: O povo pergunta e o advogado Paulo Maria de Arag\u00e3o responde. Pelo jornal Gazeta de Not\u00edcias venceu um concurso de reportagem durante as comemora\u00e7\u00f5es da Semana da Asa , titulada \u201cO v\u00f4o \u00c9 uma Enseada de Felicidade apesar de a gravidade n\u00e3o perdoar\u201d. \u00c9 autor de diversos impressos e do hilariante O Clarim os c\u00e3es e outras Hist\u00f3rias editado pela Imprensa Universit\u00e1ria da UFC (1968), do resumo hist\u00f3rico Mallet, o Patrono da Artilharia, (1980), retrato hist\u00f3rico de uma importante figura do Ex\u00e9rcito Brasileiro e de diversos artigos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos em revistas e sites especializados, al\u00e9m do recente Rua Carapinima Ecos e \u00cdcones editado pela Imprensa Universit\u00e1ria da Universidade Federal do Cear\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Quero agradecer a sua boa vontade em aquiescer a esta entrevista. Sei de perto como os advogados s\u00e3o ocupados&#8230; Gosto muito da express\u00e3o\u201d Anos Dourados\u201d&#8230; O que voc\u00ea chama exatamente de \u201cAnos Dourados\u201d?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Antes de tudo foram anos de inoc\u00eancia passamos pela euforia da redemocratiza\u00e7\u00e3o com a queda de Get\u00falio Vargas, chegando ao entusi\u00e1stico Juscelino Kubistchek modelando o processo de modernidade brasileira. Contudo, n\u00e3o esque\u00e7o os benef\u00edcios feitos por Vargas ao trabalhador brasileiro, a sua luta nacionalista o Petr\u00f3leo \u00e9 nosso e sua resist\u00eancia aos interesses econ\u00f4micos representados, ent\u00e3o, pelos Estados Unidos da Am\u00e9rica. Havia \u00e0 \u00e9poca uma extremada valorizac\u00e3o da cultura e do saber. A educa\u00e7\u00e3o, o ser educado era uma meta perseguida e incutida nas crian\u00e7as pelos pais e educadores. A escola era vista como uma continua\u00e7\u00e3o do lar, os professores eram respeitados pelos alunos, as agremia\u00e7\u00f5es escolares como o Clube Pan-Americano, do excelente Col\u00e9gio Sete de Setembro e o seu Gr\u00eamio Estudantil exercitavam os alunos na lideran\u00e7a, orat\u00f3ria e valoriza\u00e7\u00e3o do Brasil dentro das Am\u00e9ricas. As belas mo\u00e7as de ent\u00e3o n\u00e3o usavam silicone, n\u00e3o tinham preocupa\u00e7\u00f5es com lipoaspira\u00e7\u00e3o nem utilizavam excessiva maquilagem. Os mo\u00e7os de ent\u00e3o usavam um linguajar mais adequado ao vern\u00e1culo e a g\u00edria, quase sempre era banida para os bares e esquinas. O mundo parecia mais doce, sublinhando-se respeito, admira\u00e7\u00e3o e solidariedade para com os humildes. Foram anos que hoje conduzem a uma reflex\u00e3o sobre os espa\u00e7os ocupados pela id\u00e9ia do doce lar, das igrejas e do seu papel religioso tudo sacramentado em todos que viveram esses anos pelo tempo sagrado da inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia. Luzes e bailes, vestidos rodados, cinturas finas, jardins e pra\u00e7as sem viol\u00eancia o exerc\u00edcio do l\u00fadico e os encontros de poesia porque o belo ent\u00e3o eram a prosa e o verso bem escritos. O fundo musical que ainda ecoa em minha mente, tem solo de Ray Connif e das famosas orquestras locais e regionais&#8230;um passeio musical num mundo de lindas melodias ouvindo Johnny Mathis, Tony Bennett, Kenny Rogers e Jos\u00e9 Feliciano, era a \u00e9poca em que se podia dan\u00e7ar de rosto colado, segredando\u2013se rom\u00e2nticas juras de amor. Os que viveram naquela \u00e9poca podem relembrar sucessos rom\u00e2nticos marcantes em suas vidas. A linguagem, o que se queria dizer, podia ser desde dito desde a eloq\u00fc\u00eancia do olhar at\u00e9 as letras de m\u00fasicas escolhidas pelo maestro, \u00e0s vezes incomodado de tantos pedidos. As letras eram aproveitadas para dar recados e fazer declara\u00e7\u00f5es de amor. Para dar um exemplo, posso falar da m\u00fasica Crazy, grande sucesso da carreira de Willie Nelson, e a vers\u00e3o Kenny Rogers em When a men loves a woman. Gosto de Rogers porque ele viveu o romantismo dos dourados anos 50 em temas como Unchained Melody que voltou ao sucesso ap\u00f3s o lan\u00e7amento do Filme Ghost &#8211; do Outro Lado da Vida. Foi ainda o tempo em que namorados andavam de m\u00e3os dadas em que se podia ver Elvis Presley no filme Ama-me com ternura ao som do cl\u00e1ssico Love me Tender. Enfim, o romance, os acordes musicais, as melodias divinas, os filmes rom\u00e2nticos e os grandes faroestes, suspenses, todos made in Hollywood tornaram a \u00e9poca singular&#8230; <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Realmente, o seu conhecimento me fez fazer uma viagem de regresso no tempo&#8230;levou-me a excursionar por Fortaleza , imaginando como seriam essas tert\u00falias e cinemas das tardes de s\u00e1bado e domingo que tanto deve ter alegrado os jovens da cidade&#8230; <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Sem d\u00favida alguma. Um desses dias vi um filme com Christopher Reeves, aquele ator famoso que faleceu em conseq\u00fc\u00eancia de uma queda e fiquei a pensar em como seria bom poder fazer um corte no tempo e viajar ao passado. Ali\u00e1s, vou-me embora pro passado \u00e9 o t\u00edtulo de um e-mail que circula na Internet e que traduz bem algumas das do\u00e7uras dos anos dourados e at\u00e9 de uma \u00e9poca um pouco mais al\u00e9m. Creio, que o seu prop\u00f3sito na elabora\u00e7\u00e3o desta entrevista \u00e9 fazer um pouco de Hist\u00f3ria Oral comigo para utilizar como refer\u00eancia hist\u00f3rica. Acho muito v\u00e1lido e eu pr\u00f3prio me vali desse recurso quando elaborei a minha monografia de mestrado. Fiquei muito emocionado pois \u00e0 medida que colhia as entrevistas, observando o impacto emocional de cada um, obtive a certeza de que essa forma de contar a Hist\u00f3ria, de fazer e recriar a hist\u00f3ria \u00e9 das mais v\u00e1lidas. Agrad\u00e1vel e v\u00e1lida, alias, pois essa aproxima\u00e7\u00e3o me proporcionou o contato e o reencontro com alguns dos meus mais caros amigos. Nos debru\u00e7armos sobre o mesmo tema, tentando buscar e recriar \u00e0quele passado comum a cada um de n\u00f3s, exercitar a mem\u00f3ria para fazer renascer o pequeno mundo da nossa inf\u00e2ncia, meninice e juventude. Tantas lembran\u00e7as v\u00edvidas, ao mesmo tempo t\u00e3o pr\u00f3ximas e t\u00e3o recentes&#8230; Bom, voltando ao assunto do e-mail do qual lhe falava e que me tocou muito \u00e9 que o li com muita aten\u00e7\u00e3o pois se treta de uma revis\u00e3o, uma s\u00famula perfeita de v\u00e1rios aspectos que n\u00e3o podem ser descurados por um estudioso dos costumes de uma \u00e9poca , de uma cidade e das m\u00faltiplas falas ali sintetizadas.. Trata-se de um e-mail evocativo&#8230; vou testar minha mem\u00f3ria para ver o que assimilei&#8230; que trechos mais assimilei&#8230;Vejamos: No passado tem Jer\u00f4nimo, aquele her\u00f3i do sert\u00e3o, tem passeio de lambreta, de Vespa e de lota\u00e7\u00e3o. Tem meninas requebrando e todas elas cheirando a Coty, Royal Briar, saem de saia plissada, vestido tubinho, tecidos de organdi de laise e de tafet\u00e1..Na Tv tinha Bat Masterson, \u201caquele que nasceu no velho Oeste e entre bravos se criou, seu nome em lenda se tornou\u201d,o T\u00fanel do Tempo e o Zorro e os shows de \u00c2ngela Maria, \u201ca sapoti\u201d que vinha para cantar na Cear\u00e1 R\u00e1dio Clube , emissora de Fortaleza e na rec\u00e9m-criada TV Cear\u00e1 , da Hebe Camargo que fez tantos shows em Fortaleza e que, \u00e0 \u00e9poca era morena. Dizia-se que era namorada do radialista, Jo\u00e3o Ramos, uma das mais belas vozes de locutor no Brasil.Acrescento que essa parte da , a da \u00c2ngela Maria e a da Hebe Camargo n\u00e3o est\u00e3o no e-mail, s\u00e3o associa\u00e7\u00f5es mentais minhas&#8230;.O fato \u00e9 que o e-mail referido parece um roteiro do passado. Ele retrata os tempos da radiola de madeira dos assovios de Besame-Mucho da caligrafia para embelezar a letra e do uso da Seleta e da Crestomatia nos exames de admiss\u00e3o ao Gin\u00e1sio.Era o tempo da Revista \u201cO Cruzeiro \u201ccom suas variadas reportagens nacionais e internacionais , como a condena\u00e7\u00e3o dos Rosenberg nos Estados Unidos, acusados de crime de trai\u00e7\u00e3o , dos artigos de Davi Nasser e o tempo dos fabulosos concursos de miss. Tempos de miss com mai\u00f4 de Helanca em concursos patrocinados pelo \u201cLeite de Rosas\u201d&#8230;. e em que as mulheres n\u00e3o eram magricelas&#8230;elas at\u00e9 tinham polegadas a mais, como foi o caso da eterna Marta Rocha diverso da linda cearense Em\u00edlia Correia Lima que, igualmente Miss Brasil, fez um sucesso bem mais discreto, justo porque, como dizia a imprensa, \u201cela n\u00e3o tinha polegadas a mais\u201d.. Tempos em que o uso dos medicamentos era mais restrito e os \u00edndices de mortalidade eram maiores. Usava-se Capilot\u00f4nico para a queda de cabelo e as mulheres usavam Antisardina, Creme de Alface pomada Minancora e leite de col\u00f4nia. As crian\u00e7as bebiam Emuls\u00e3o de Scott e biot\u00f4nico Fontoura, medicamentos que t\u00eam atravessado o tempo&#8230;Tempos de propaganda em caixas de sabonetes e r\u00f3tulos de medicamentos como o xarope que estampava a foto de Olavo Bilac dizendo que ele \u201ccurou-se com Bromil\u201d. Abrindo aqui um par\u00eantese, indago se voc\u00ea, t\u00e3o preocupada com o tema linguagem j\u00e1 leu o soneto \u201cOuvir Estrelas\u201d de Bilac? Diria que ele \u00e9 perfeito e pense: quem ouve estrelas, decerto conversa com elas.. e naquela poeta perfeito a magia dessa fala impl\u00edcita no poema \u00e9 deveras imperd\u00edvel!<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Conhe\u00e7o o poema de Bilac e concordo: \u00e9 de fato muito lindo! Ele se refere \u00e0 Via L\u00e1ctea como um P\u00e1lio aberto, cintila e abre a janela p\u00e1lida de espanto&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Perfeito, perfeito! A poesia \u00e9 uma linguagem rica e completa. Voc\u00ea sabe que nos anos dourados havia clubes de poesia e declama\u00e7\u00e3o aqui em Fortaleza? Lembro o nome de uma das mais famosas declamadoras: Concei\u00e7\u00e3o Weyne. Os versos eram usados, ent\u00e3o como uma forma de comunica\u00e7\u00e3o, de declara\u00e7\u00e3o e at\u00e9 de despedida. As cartas ent\u00e3o escritas quase sempre continham cita\u00e7\u00f5es de escritores e de poetas. Com certeza,o saber era mais restrito e seletivo, n\u00e3o tivemos um alto grau de alfabetiza\u00e7\u00e3o popular, mas bastava que se soubesse ler, mesmo no sert\u00e3o, que os livrinhos dos cancioneiros e cantadores vendidos mesmo nas feiras do interior e nos mercados populares tamb\u00e9m em Fortaleza fossem objeto de desejo e memoriza\u00e7\u00e3o. Nesses \u201croman\u00e7os\u201d como a linguagem popular os designava eram comuns \u00e0s biografias de homens como o celebrado Padre C\u00edcero, Lampi\u00e3o e o seu bando de cangaceiros e hist\u00f3rias como a \u201cPrincesa das Pedras Finas\u201d e outras hist\u00f3rias celebrando as obras do maior indianista brasileiro o nosso Jos\u00e9 de Alencar.Tamb\u00e9m o uso de brilhantinas do tipo \u201cGlostora\u201d, sabonetes Lifeboy, Lever e Eucalol chegava ao interior do Cear\u00e1. Vale observar que a tradi\u00e7\u00e3o dessa literatura de Cordel \u00e9 muito importante na preserva\u00e7\u00e3o da cultura do povo cearense. Quero ressaltar que essas reminisc\u00eancias, todas essas lembran\u00e7as aqui relatadas, integram a realidade dos chamados \u201cAnos Dourados\u201d. Anos que vivi na Rua Carapinima que a prop\u00f3sito bem mereceria o homenageado, Feliciano Jos\u00e9 da Silva Carapinima, que lhe deu o nome, um Cordel que celebrasse a sua bravura na \u00e9pica Confedera\u00e7\u00e3o do Equador em 1824 que tanto desejou a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica no Brasil. O belo Passeio P\u00fablico vivendo hoje um momento de recupera\u00e7\u00e3o foi tinto do seu sangue assim como de outros m\u00e1rtires como Azevedo Bol\u00e3o , Padre Moror\u00f3, Pessoa Anta e Feliciano Jos\u00e9 Ibiapina. A prop\u00f3sito Carapinima era Alferez, oficial da tropa de linha, nasceu em Minas Gerais e era Secret\u00e1rio do Governo de Francisco Alberto Rubim, Governador do Cear\u00e1 Colonial.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Vamos ent\u00e3o falar da Rua Carapinima onde voc\u00ea viveu a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia e que est\u00e1 retratada no seu livro Carapinima Ecos e \u00cdcones. Conforme diz o acad\u00eamico Dimas Macedo a sua linguagem \u00e9 fragment\u00e1ria \u201ccomo as objetivas cinematogr\u00e1ficas\u201d ao mesmo tempo em que \u201cfaz-se estrutural e inventiva na sua unidade sem\u00e2ntica e morfol\u00f3gica\u201d. Ao ler o seu livro eu tamb\u00e9m, como ele, tive a impress\u00e3o de que um livro com componentes como os seus mant\u00e9m-se fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e \u00e9 contempor\u00e2neo de todas as idades.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: A Rua Carapinima de hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma. Principia pelo fato de que longe est\u00e3o de fazer parte do mundo em que hoje vivo, as aventuras ali ocorridas. Quanta felicidade em mim havia por ter visto um ninho no jardim da Professora Dido Fac\u00f3, maravilha da arquitetura do rouxinol, que s\u00f3 foi descoberto pelo pi\u00e1 de seus filhotes sem plumas. A Carapinima de ent\u00e3o tinha casas com jardins de belas flores, volteando entre elas abelhas e borboletas sob o sol dos nossos quentes ver\u00f5es. Era uma rua tal como hoje integrada no bairro do Benfica onde os leil\u00f5es, as novenas de maio, as quermesses instaladas na rua adjacente, a Rua Padre Francisco Pinto, no trecho entre a Igreja dos Rem\u00e9dios e o Dispens\u00e1rio dos Pobres at\u00e9 hoje existentes, eram as grandes atra\u00e7\u00f5es.O Dispens\u00e1rio era uma institui\u00e7\u00e3o Filantr\u00f3pica mantida pela Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s de Caridade de S\u00e3o Vicente de Paulo, voltada para \u00e0 assist\u00eancia aos pobres e aos idosos, al\u00e9m de promover a educa\u00e7\u00e3o para as pessoas carentes. Ali ainda vivem pessoas que conheci, dobradas pelos anos e que talvez lembrem com enlevo o tempo que passou mas n\u00e3o ofuscou as imagens. A minha mem\u00f3ria refaz, com nitidez,as figuras refesteladas nas cadeiras de balan\u00e7o e espregui\u00e7adeiras para animadas conversas em que de tudo se falava: futebol, festas, discos voadores, not\u00edcias da pol\u00edtica e se externava o receio pelos rumos da economia brasileira numa frase \u00fanica:\u201cdessa vez o Brasil cai no buraco!\u201d Originalmente, o bairro do Benfica abrigava os segmentos mais expressivos da sociedade fortalezense que morava em bangal\u00f4s e palacetes. O bairro era muito visitado e nele estava o hip\u00f3dromo do Prado onde se dava a pr\u00e1tica do hipismo isto desde 1920 sendo que hoje este hip\u00f3dromo e campo de futebol \u00e9 a sede da Escola Industrial do Cear\u00e1. No Benfica estavam os clubes Maguari, de onde saiu a Miss Cear\u00e1 e depois Miss Brasil Emilia Correia Lima em 1955; o Gentil\u00e2ndia, Nacional, Ferrovi\u00e1rio e Fortaleza, esses \u00faltimos, agremia\u00e7\u00f5es futebol\u00edsticas, decerto, a escolha do local de constru\u00e7\u00e3o do nosso Est\u00e1dio Presidente Vargas deveu-se \u00e0 proximidade dos clubes mencionados. Muitos diretores e torcedores do Cear\u00e1, outro clube de futebol, freq\u00fcentavam o Benfica, embora o Cear\u00e1 ficasse em Porangabu\u00e7u, bairro vizinho. Mas, a import\u00e2ncia do Benfica refletia-se tamb\u00e9m no elevado n\u00famero de escolas p\u00fablicas e particulares. \u00c0quela \u00e9poca as escolas p\u00fablicas eram mais bem conceituadas e um exemplo disso era o Grupo Escolar Rodolpho The\u00f3philo, grande autor de Liberta\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1; Queda da Oligarquia Acioly onde \u00e9 contada a saga da sua luta pioneira contra a c\u00f3lera e o tifo no estado. O col\u00e9gio religioso mais conceituado era o Santa Cec\u00edlia, de freiras vindas de Garanhuns, em Pernambuco e Damas da Instru\u00e7\u00e3o Crist\u00e3. Outro col\u00e9gio religioso, o de Nossa Senhora das Gra\u00e7as, foi precedido pelo Col\u00e9gio Americano onde estudei quando crian\u00e7a. A Rua Carapinima, modernamente elevada \u00e0 categoria de Avenida, nascia na conflu\u00eancia da Avenida do Imperador com a Avenida Trist\u00e3o Gon\u00e7alves perfazendo cerca de tr\u00eas quil\u00f4metros. Aproximadamente duzentos metros do seu curso margeavam a linha f\u00e9rrea, terminando na Rua Padre C\u00edcero, no mencionado bairro de Porangabu\u00e7u a poucos metros do campo de futebol do Cear\u00e1. A Carapinima, ent\u00e3o uma bela rua, transformou-se, hoje, numa via de tr\u00e1fego intenso com seu antigo cen\u00e1rio quase todo destru\u00eddo. Na verdade, ultrapassando o seu espa\u00e7o f\u00edsico, a Rua Carapinima concentrava em sua \u00f3rbita as ruas e bairros adjacentes como Gentil\u00e2ndia, Granja e o mesmo Porangabu\u00e7u. Morei numa rua que era de fato um s\u00edmbolo do Benfica.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Estou cada vez mais interessada em saber como uma rua, que n\u00e3o era ainda uma avenida importante, pode polarizar tanto as \u00e1reas circunvizinhas&#8230;Voc\u00ea se referiu ao fato de que o bairro era habitado primordialmente por uma classe social mais privilegiada ou existiriam mais raz\u00f5es?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Talvez voc\u00ea interprete as minhas respostas, pelas lentes de um puro saudosismo. Realmente, tudo permanece bem vivo em minhas lembran\u00e7as&#8230; chegamos hoje a tal ponto em que j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil recordar como era antigamente. Saudades vivemos dos anos de 1960 e l\u00e1 bem no fundo indagamos se a velha cultura human\u00edstica ter\u00e1 de fato ido pelos ares&#8230; A Rua Carapinima tinha mesmo era um que de interior e encarnou uma \u00e9poca de amor e fortes relacionamentos humanos. Uma das raz\u00f5es \u00e9 que a Igreja dos Rem\u00e9dios assentada solenemente em 08.12.1878, nasceu de um sonho do portugu\u00eas Jo\u00e3o Antonio de Amaral, devoto de Nossa Senhora. Ele faleceu sem realizar seu sonho e foi a sua esposa Maria Correia do Amaral quem o concretizou cumprindo a sua promessa. A conclus\u00e3o da obra foi feita com a ajuda de Jos\u00e9 Gentil Alves de Carvalho com a primeira missa rezada em 1910. Sei tudo isto porque fui coroinha da igreja e a sua imagem de Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios, \u00e9 uma das mais belas do Brasil. Esta igreja tinha na \u00e9poca um efeito aglutinador. As missas e as novenas bem como os leil\u00f5es eram acontecimentos sociais no bairro, pois bem, os fundos da edifica\u00e7\u00e3o davam justamente para a Rua Carapinima funcionando, na pr\u00e1tica, como uma passagem alternativa para os que n\u00e3o desejavam vir pela Rua Francisco Pinto. Muitas pessoas passavam pela Rua Carapinima tornando-a uma esp\u00e9cie de corredor para dirigir-se aos bairros e ruas circunvizinhas. A rua era tamb\u00e9m o caminho para o Col\u00e9gio Capistrano de Abreu e o Col\u00e9gio Sete de Setembro na Rua do Imperador. Era praxe as fam\u00edlias do bairro estarem integradas aos movimentos sociais de evangeliza\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia. Numa \u00e9poca em que n\u00e3o existiam supermercados muitos iam ao estabelecimento de Sr. Mois\u00e9s, pessoa bondosa e muito querida no bairro. Ele instituiu no bairro a venda por caderneta onde as pessoas pagavam por m\u00eas, na base da confian\u00e7a. Tudo isso passava pela Carapinima. Ainda pela passagem mencionada da Igreja dos Rem\u00e9dios, andavam mo\u00e7as e rapazes que iam se encontrar no patamar da igreja, bem ao lado da \u201cCapelinha de Santa Lidu\u00edna\u201d, em frente \u00e0 \u201cGruta de Lourdes\u201d&#8230; o que posso lhe assegurar que muitos namoros e casamentos come\u00e7aram ali. Tamb\u00e9m bem pr\u00f3xima era a famosa Farm\u00e1cia Arthur de Carvalho que era a \u00fanica do bairro e muito boa. At\u00e9 hoje se usa as Ghottas Arthur de Carvalho, criadas pelo seu propriet\u00e1rio. Era ali que os meninos recebiam os primeiros socorros por conta de brigas e pedradas. Todos tom\u00e1vamos, apesar do medo, inje\u00e7\u00f5es. Ah! E havia ainda a velha Maria Fuma\u00e7a que atraia a crian\u00e7ada toda, arrastando-se como uma cobra nos velhos trilhos, soltando fuma\u00e7a preta e como que cantando uma m\u00fasica que repet\u00edamos aos gritos: \u201ccaf\u00e9 com p\u00e3o, bolacha n\u00e3o&#8230;pi\u00fa\u00fa\u00fa\u00fa\u201d Hoje a velha Maria Fuma\u00e7a foi substitu\u00edda pela m\u00e1quina a diesel e o seu atraente apito deu lugar a uma estridente e inc\u00f4moda buzina, deixando em n\u00f3s a saudade de sua passagem pela nossa rua. Outro motivo de atra\u00e7\u00e3o da rua era a proximidade do chateau da Santa, palavra vinda da influ\u00eancia francesa bem n\u00edtida naquela \u00e9poca, como eram chamados os cabar\u00e9s de luxo. No chateau da Santa, moravam e trabalhavam lind\u00edssimas mulheres, vindas de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Maranh\u00e3o e de outros Estados, dava uma fugida no final da noite para ver o vai e vem dos carros importados no local. Eu era ent\u00e3o um rapazote, tinha mais ou menos uns dez anos, estou falando dos meados dos anos 50. Estou falando de tempos em que as galinhas passavam at\u00e9 de um quintal para o outro&#8230;tempos singelos onde os moradores se integravam. Estava tamb\u00e9m a Carapinima pr\u00f3xima ao REU, Resid\u00eancia dos Estudantes Universit\u00e1rios, onde tanques enormes eram destinados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de peixes. Numa \u00e9poca em que ningu\u00e9m falava da preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente os peixes eram intoc\u00e1veis, as \u00e1rvores eram protegidas e nas escolas todas as crian\u00e7as plantavam uma no dia da \u00e1rvore. Mas, para ser sincero, do ponto de vista da preserva\u00e7\u00e3o dos p\u00e1ssaros, muitos passarinhos eram capturados como rolinhas, galos de campina e at\u00e9 p\u00e1ssaros grandes, todos vendidos na feira do bairro da Gentil\u00e2ndia. Havia ainda o que chamo \u00e1gora, uma esquina da Rua Carapinima, a \u00e1gora Carapiniana fazendo esquina com a Rua Francisco Pinto. Ali tudo se discutiam todos os assuntos e se planejavam alguns namoros. Este ponto tinha um efeito de reunir os jovens da rua. Era um territ\u00f3rio neutro para os debates das lideran\u00e7as radicais ou n\u00e3o. Era tamb\u00e9m um ponto onde se discutia a vida privada, onde se procurava descobrir segredos da vida alheia, enfim, um ponto estrat\u00e9gico de intera\u00e7\u00e3o entre jovens e adultos que vinham de outras ruas como a Dom Jer\u00f4nimo, Joaquim Feij\u00f3, Valderi Uchoa, Jo\u00e3o Gentil e Francisco Pinto, formando um elo entre os rapazes dos bairros pr\u00f3ximos. Esses encontros, marcados por tantas hist\u00f3rias, funcionava em frente a Bodega do Seu Chiquinho. Era um ponto bem sortido sobre uma alta cal\u00e7ada implicando na subida de alguns degraus que serviam de assento principalmente para aqueles que haviam bebido alguma coisa e estavam tontos ou ligeiramente \u00e9brios. Gente de todos os n\u00edveis ali se reunia Jos\u00e9 Brasil, um dos fundadores do Clube Nacional, agremia\u00e7\u00e3o dos Correios e Tel\u00e9grafos, estava sempre por ali fungando e tomando rap\u00e9. E foi um dos descobridores de craques do nosso futebol, como Pacoti, um grande artilheiro do Vasco da Gama&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Creio que s\u00f3 a exist\u00eancia desta \u00e1gora Carapiniana j\u00e1 justifica a atra\u00e7\u00e3o exercida pela rua Carapinima. Posso perfeitamente imaginar esse grupo de jovens todos reunidos de forma ampla e irrestrita. E nos dias chuvosos como se reuniam?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: S\u00f3 havia dispers\u00e3o dos encontros em dias de muita chuva&#8230;Os assuntos principais al\u00e9m da pol\u00edtica, futebol e mexericos, eram m\u00fasica e cinema os temas preferidos. As chanchadas da Atl\u00e2ntida eram imitadas e alguns pretendiam copiar Oscarito e Grande Otelo. Quanto aos filmes de Hollywood, os \u00e9picos religiosos de Cecil B. de Mille com os \u201cDez Mandamentos\u201d e \u201cCle\u00f3patra\u201d. Outro diretor consagrado era o mestre do suspense, Alfred Hitchcock \u201cO Sexto Sentido\u201d e \u201cOs P\u00e1ssaros\u201d. Tamb\u00e9m havia os interessados em m\u00fasica cl\u00e1ssica e gostavam de se destacar pela sua cultura. Adotavam um linguajar exc\u00eantrico e enchiam-se de vaidades para falar de Mozart, Strauus, Beethoven, List e Tchaikovski. Alguns cantavam imitando Mario Lanza. Ali aprendi que Lanza foi o maior tenor popular depois do italiano Caruso, consagrado como o maior cantor de \u00f3pera de todos os tempos. Havia ainda gente fascinada por carros. Discutia-se a qualidade de marcas, mec\u00e2nica e o efeito da maresia sobre os ve\u00edculos. Em Fortaleza j\u00e1 existia a FORMASA revendedora da linha FORD. A sensa\u00e7\u00e3o do final da d\u00e9cada de 60 foi o Ford G\u00e1laxie 500, belo e imponente. Este exemplar, o primeiro modelo de G\u00e1laxie a chegar a Fortaleza, foi recuperado pela fam\u00edlia do empres\u00e1rio Gerardo Matos, propriet\u00e1rio da dita revendedora, e \u00e9 uma rel\u00edquia para exposi\u00e7\u00f5es. O G\u00e1laxie come\u00e7ou a ser fabricado no Brasil na d\u00e9cada de 60, tinha bancos inteiros, ar condicionado e dire\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica. Naquela esquina cada um se sentia importante, um tipo de dono do mundo&#8230; As vezes os transeuntes, mesmo os mais respeit\u00e1veis, n\u00e3o escapavam as s\u00e1tiras. Contudo os freq\u00fcentadores da esquina tinham o m\u00e9rito de exaltar as pessoas do bairro. Era o caso do Sr. Mois\u00e9s Laerte Pinto que eu j\u00e1 mencionei e que por conta de sua atividade religiosa kardesista, exclu\u00eda a id\u00e9ia de ambi\u00e7\u00e3o comercial e o Professor Antonio Viana Filho, professor, poeta e poliglota e um dos homens mais cultos que eu j\u00e1 conheci. Este homem n\u00e3o recebeu o reconhecimento do mundo intelectual e da m\u00eddia, pois mereceria assento na Academia Cearense de Letras. Outro assunto tamb\u00e9m cogitado era falar de Artes. Havia unanimidade com rela\u00e7\u00e3o a obra do cearense Antonio Bandeira, celebridade da pintura internacional que quando vinha de Paris visitava sempre a sua irm\u00e3 Julia que morava em frente a minha casa. Dizia-se que ele era o \u00fanico pintor brasileiro a viver do produto de seu trabalho. Al\u00e9m de se comentar da sua finura e paci\u00eancia no trato. Em 1960 o seu sobrinho Dand\u00e3o, nosso amigo Francisco Ivan, mais tarde, uma v\u00edtima do latroc\u00ednio em nossa Capital, hospedou-se com um amigo na casa do tio na Rua Rep\u00fablica do Peru em Copacabana. Depois de muitos goles, chegaram ao apartamento do pintor onde encontraram muitas telas armadas destinadas \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o do governo em Bras\u00edlia. Bisnagas \u00e0 m\u00e3o, desfiguraram toda a obra do pintor. Mesmo assim, Bandeira manteve alojado o sobrinho em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 irm\u00e3, mas dispensou seu amigo. Podemos desse epis\u00f3dio concluir sobre o car\u00e1ter generoso do grande Bandeira. Infelizmente ainda n\u00e3o mereceu do povo brasileiro o reconhecimento pelo seu ineg\u00e1vel talento art\u00edstico, e sequer seu nome foi indicado na rela\u00e7\u00e3o de Cearense do S\u00e9culo XX pelos nossos pr\u00f3prios conterr\u00e2neos&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Professor Paulo Maria de Arag\u00e3o, sei bem o quanto lhes s\u00e3o gratas as lembran\u00e7as da sua querida Carapinima, contudo particularmente parece e eu percebi isso ao ler seu \u00faltimo livro, que as emo\u00e7\u00f5es lhe invadem ao relembrar os tempos da locomotiva Maria Fuma\u00e7a. Sei tamb\u00e9m que o seu escrito na contra-capa do livro, mereceu da cr\u00edtica os maiores louvores&#8230;Ser\u00e1 que gostaria de registrar esse trecho aqui para n\u00f3s?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Olhe, n\u00e3o me reconhe\u00e7o um t\u00edmido&#8230; At\u00e9 me sinto muito honrado com a sua coloca\u00e7\u00e3o. O que posso fazer \u00e9 ler esse trecho para que o grave e o reproduza depois. Combinado? Vamos l\u00e1, ent\u00e3o: \u201c Ao longe despontava um min\u00fasculo ponto de luz, que se ampliava lentamente. Antes de atingir a parte curvil\u00ednea da via f\u00e9rrea, o possante farol alumiava a rua. Deslizando imponente e m\u00edtica, sobre duas paralelas de a\u00e7o, a Maria Fuma\u00e7a dividia os bairros do Benfica e Porangabu\u00e7u.O barulho cadenciado e sinf\u00f4nico opunha-se ao sil\u00eancio. Um terremoto prazeroso. O apito ecoava. A cortina fum\u00edgena deixava o gostoso cheiro da lenha queimada. Foram-se seus tempos gloriosos. Ficaram as saudades. A velha \u201cMaria\u201d n\u00e3o mais viaja pachorrenta pelos trilhos, mas viaja pelos caminhos da alma sobre os dormentes do cora\u00e7\u00e3o, das lembran\u00e7as, talvez mais reais que a pr\u00f3pria realidade.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Do meu ponto de vista, os cr\u00edticos tem raz\u00e3o, \u00e9 uma prosa que reflete poesia, ali\u00e1s, guardar recorda\u00e7\u00f5es \u00e9 um h\u00e1bito antigo como a pr\u00f3pria exist\u00eancia. Creio que conseguiu retratar a arte do riso e da comicidade como um tra\u00e7o caracter\u00edstico dos jovens da Carapinima. Voc\u00ea quer acrescentar mais alguma coisa sobre a identidade da Carapinima?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Veja, falar da Rua Carapinima \u00e9 mesmo sem querer, registrar o passado e compar\u00e1-lo com o presente. Quando olho a Avenida de hoje em que a pacata Rua Carapinima se transformou, vejo o desaparecimento da maioria das casas de ent\u00e3o, tudo imposto em nome da modernidade nas obras do inacabado metr\u00f4 de Fortaleza. N\u00e3o tive a inten\u00e7\u00e3o de produzir um document\u00e1rio, contudo reconhe\u00e7o que ele deveria existir com a finalidade de preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria urbana da cidade. Gosto de escrever explorando id\u00e9ias e sentimentos. Nas minhas lembran\u00e7as tudo \u00e9 t\u00e3o claro como se fossem vis\u00f5es, mas sou consciente que s\u00f3 posso chegar at\u00e9 o redescobrimento de valores e belezas da vida, aparentemente perdidos no tempo. Espero que algu\u00e9m possa escrever sobre a Rua Carapinima at\u00e9 mesmo um romance nos moldes de \u201cOs Meninos da Rua Paulo\u201d do escritor h\u00fangaro Francisco Moln\u00e1r. Este livro que eu li rapazinho, tomado por empr\u00e9stimo da Biblioteca Circulante do Col\u00e9gio Sete de Setembro na Avenida do Imperador, onde tamb\u00e9m estudei, \u00e9 a saga da meninada dos arrabaldes de Budapeste, em 1889, portanto, no final do s\u00e9culo XIX. Esses meninos lutaram firmemente por um terreno, mas nas palavras do autor \u201cganharam a guerra, mas perderam a terra, porque ali devia subir um arranha-c\u00e9u\u201d. Gosto do registro do cotidiano, parte integrante da hist\u00f3ria humana. Gosto de preservar as tradi\u00e7\u00f5es e os valores do passado, independente de que os fatos tenham contornos diversos e um maior ou menor grau de import\u00e2ncia. Retratar o cotidiano \u00e9 dizer como se comportam os habitantes das cidades. \u00c9 tratar das m\u00faltiplas formas de comunica\u00e7\u00e3o humana, dos rumos e linguagens, neste caso, do meu tempo. Identificar a rua \u00e9 tamb\u00e9m rev\u00ea-la, revisit\u00e1-la&#8230; A identifica\u00e7\u00e3o da \u00e1rea \u00e9 somente uma parte da din\u00e2mica de retorno \u00e0 realidade. Esta din\u00e2mica refor\u00e7a, na forma e no conte\u00fado a fus\u00e3o entre o tempo passado e o tempo presente. Ver uma parte da rua com a morte decretada pelo ritmo da expans\u00e3o urbana, \u00e9 verificar a for\u00e7a dos interesses por um sistema de transporte moderno contudo, n\u00e3o desapareceu o universo em transforma\u00e7\u00e3o, aparentemente soterrados, pois persevera nos seus habitantes, a import\u00e2ncia do humanismo bebido nos nossos lares e escolas e presente na forma\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s. N\u00e3o desapareceu o denominador comum, o reviver em torno da Igreja dos Rem\u00e9dios e da Universidade que tanto modificaria o bairro do Benfica. Igreja e Universidade nortearam as aspira\u00e7\u00f5es dos bons pais em rela\u00e7\u00e3o ao futuro dos seus filhos. Neste momento, a rua aprece um monte de areia e p\u00f3, mas examinada pelos olhos nost\u00e1lgicos da mem\u00f3ria dos que ali moraram ficam evidentes os fundamentos que a tornaram um tra\u00e7o de uni\u00e3o de muitas fam\u00edlias, ligadas tanto geogr\u00e1fica como afetivamente. Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que n\u00e3o interessam os rumos truncados desfeitos e desviados da vida dos moradores da Carapinima. Nenhum desses fatos pode anular a import\u00e2ncia do acontecido. No pr\u00f3prio ato de fazer e refazer continuamente a a\u00e7\u00e3o humana complementando o curso de uma Hist\u00f3ria maior. Extinguiram-se as serenatas e as can\u00e7\u00f5es de amor passaram a ser objeto de contratos. Onde foi parar o romantismo? Tamb\u00e9m se cantava na igreja em homenagem aos noivos e em louva\u00e7\u00e3o ao Senhor&#8230; Essas atividades n\u00e3o passam, hoje, de mais um meio de vida, de sobreviv\u00eancia. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Voc\u00ea falou das pilh\u00e9rias dirigidas a alguns personagens da rua. Isto n\u00e3o tinha a inten\u00e7\u00e3o da ofensa? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: N\u00e3o; de fato n\u00e3o. Acho que voc\u00ea est\u00e1 se referindo a \u201c\u00e1gora\u201d, n\u00e3o? As pilh\u00e9rias dirigidas a alguns personagens que por ali passavam, n\u00e3o tinham a inten\u00e7\u00e3o de ofender. Alguns apelidos dados eram at\u00e9 bem pertinentes e \u00e0s vezes incorporados pelo pr\u00f3prio personagem faziam com que tudo parecesse uma piada. O Ivan, impec\u00e1vel nas suas vestimentas, recebeu o apelido de Ivan Cabe\u00e7\u00e3o e nunca se aborreceu com isso. De fato tinha a cabe\u00e7a grande&#8230;Claro que em alguns casos as pessoas n\u00e3o aceitavam o apelido,era o caso do Sr. Jos\u00e9 Rocha, chamado de Jacar\u00e9. Ao v\u00ea-lo a turma gritava: \u201cjoga o 15 na v\u00edspora ou no bingo porque hoje vai dar Jacar\u00e9\u201d, e o tempo fechava&#8230;De qualquer forma, aquele espa\u00e7o f\u00edsico testemunhou rela\u00e7\u00f5es sociais hoje dispersas, mas mantidas ent\u00e3o mesmo com a influ\u00eancia de padr\u00f5es culturais diferentes. A esquina era o pr\u00f3prio show, substituindo o computador e a influ\u00eancia da tev\u00ea. Ali\u00e1s, falando-se em show, alguns tinham uma bela voz e cantavam no melhor estilo rom\u00e2ntico de Pat Boone, can\u00e7\u00f5es como April Love, Bernardine, Jambalaya. Interpretava ainda can\u00e7\u00f5es de Elvis Presley (It\u2019s Now or Never, Love me Tender), Nat King Cole (Unforgettable, Monalisa), Neil Sedaka (Oh Carol, Bad Girl) e dos Beatles (Twist and Shout, Help). Naquela esquina eram marcados muitos encontros entre os amigos para juntos irem \u00e0s diversas festas de casamentos, anivers\u00e1rios e batizados. Claro que s\u00f3 iam os convidados. Marcadas pela anima\u00e7\u00e3o essas festas aconteciam no contexto familiar, em alguns casos com festa dan\u00e7ante na sala da frente, e uma boa m\u00fasica na radiola. Mais f\u00e1ceis de freq\u00fcentar, eram as festas de bairros como as quermesses e as festas juninas. No caso das quermesses, figura obrigat\u00f3ria era o irradiador, o que hoje chamamos locutor. O interessante a\u00ed eram os recados que ele dava antes de colocar as mensagens sonoras oferecidas por mo\u00e7as e rapazes. Dependendo da situa\u00e7\u00e3o amorosa escolhia-se a m\u00fasica para esse tipo de comunica\u00e7\u00e3o. Nelson Gon\u00e7alves era quase sempre o cantor escolhido e as m\u00fasicas preferidas eram: Boneca de Trapo, Fica Comigo Esta Noite e A Volta do Bo\u00eamio. Tamb\u00e9m Altemar Dutra fazia muito sucesso com Que Queres Tu de Mim, Contigo Aprendi e Brigas. Quando a mo\u00e7a ou o rapaz n\u00e3o queria se identificar, usavam-se as iniciais O.X., ou seja Ontoim Xofer ou ent\u00e3o se usava chamar a aten\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m das iniciais 13-12-4-correspondente \u00e0 quantidade de letras do nome da pessoa para quem a m\u00fasica era destinada. O alto-falante gritava e aumentava a pretens\u00e3o de conquistas e, ao mesmo tempo, proporcionava o retorno de amores perdidos e o reatamento dos amores interrompidos. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Mas que divertido ! Com certeza essas radiadoras a que se refere eram alto-falantes de alta pot\u00eancia e como \u00e9 que eles eram instalados?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Ora, em geral eram instalados tanto nos postes como nos galhos de \u00e1rvores e eram usados n\u00e3o s\u00f3 nas quermesses, mas nos com\u00edcios eleitorais. Tentou-se mesmo colocar alto-falante nas festas do s\u00e1bado de Aleluia quando do animado julgamento do Judas. Dois estudantes de Direito, Expedito e Afonso Nunes de Sena este mais tarde juiz exercitavam-se na orat\u00f3ria. Ao julgamento do Judas, seguiam-se festas no bairro, principalmente na casa de Dona Julia Bandeira e em todas as casa da redondeza havia v\u00e1rias iguarias como tamb\u00e9m acontecia nas festas que homenageavam Santo Antonio, S\u00e3o Jo\u00e3o e S\u00e3o Pedro. Ali\u00e1s a Semana Santa era celebrada com rigor. Na Semana Santa as imagens eram cobertas tal como hoje com tecido roxo. A P\u00e1scoa era sacrossanta. Os pais , em sua maioria mandavam os filhos confessar-se na igreja e o jejum e abstin\u00eancia n\u00e3o podiam ser violados. As r\u00e1dios tocavam m\u00fasicas sacras e a visita\u00e7\u00e3o ao Horto da Igreja dos Rem\u00e9dios, reproduzia as cenas da Paix\u00e3o de Cristo. Fazia-se a Via Sacra recordando-se a Paix\u00e3o de Cristo. Nesta \u00e9poca de pesar n\u00e3o se jogavam peladas na rua e nem havia reuni\u00f5es na \u201c\u00e1gora\u201d. Farra mesmo era o dia de S\u00e1bado de Aleluia, quando se queimava o Judas n\u00e3o sem antes se fazer \u00e0 leitura do seu testamento. A festa do Afonso se realizava num terreno baldio ao lado de sua casa e na leitura do testamento j\u00e1 se sabia que alguns iriam ser atingidos pela rima popular e iriam figurar no rol dos herdeiros. Mesmo com a vigil\u00e2ncia dos pais, sempre se podia provar \u00e0s escondidas um pouco de vinho ou ent\u00e3o um pouco de sangria que era o vinho com \u00e1gua e a\u00e7\u00facar.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Bom, voc\u00ea estava falando das festas juninas. Imagino que faziam fogueiras nas ruas e como voc\u00ea j\u00e1 come\u00e7ou a relatar havia muitas comidas t\u00edpicas. Imagino tamb\u00e9m a anima\u00e7\u00e3o e os ru\u00eddos provocados pela queima de fogos. Calculo que nesta \u00e9poca os bal\u00f5es e fogos eram permitidos, ou n\u00e3o? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: J\u00e1 havia advert\u00eancias sobre o perigo do uso dos bal\u00f5es, contudo eles n\u00e3o eram rigorosamente proibidos at\u00e9 porque n\u00e3o eram t\u00e3o modernos como os de hoje. Por for\u00e7a dos ventos, os bal\u00f5es vinham da Gentil\u00e2ndia e passavam pelos c\u00e9us da Carapinima. Com o c\u00e9u estrelado era um espet\u00e1culo maravilhoso, ainda porque cortar papel de seda colorido e peda\u00e7os de bambu para armar os bal\u00f5es era um acontecimento na vida da meninada, tal qual fazer as bandeirolas para enfeitar os terreiros onde se dan\u00e7ava a quadrilha. Por conta dos ensaios anteriores das quadrilhas, muitas vezes os flertes j\u00e1 se fazia namoro. Em volta da fogueira a festa era armada. Eram montadas com peda\u00e7os de madeiras nas coxias da cal\u00e7ada, e nelas eram assados milhos e batatas doces. Tamb\u00e9m se levava muito a s\u00e9rio, a escolha de padrinhos e madrinhas de fogueira e pelo tempo afora os afilhados tomavam a ben\u00e7\u00e3o aos padrinhos. De fato era uma beleza ver a rua toda iluminada com fogueiras e com as roupas t\u00edpicas e alegres com estampas coloridas. Nessas festas evitava-se o uso de bebidas alco\u00f3licas. Serviam-se sucos, refrigerantes e alu\u00e1 de abacaxi resultado da imers\u00e3o das cascas num pote de barro com \u00e1gua pura por cerca de tr\u00eas dias. Depois de coado podia ser ado\u00e7ado com a\u00e7\u00facar ou rapadura. Em torno da fogueira, cadeiras na cal\u00e7ada a conversa flu\u00eda sem fim&#8230;Comia-se canjica de milho verde, totalmente diferente da servida no Sul do Brasil, o p\u00e9-de-moleque tipo de bolo de massa de mandioca com ovos, manteiga, castanha e a\u00e7\u00facar preto, ficando com uma cor escura. Da\u00ed o seu nome. \u00c0s vezes acontecia um pequeno acidente com os fogos de artif\u00edcios mas eram usados foguetes, traques, estrelinhas e os rabos-de-saia, pois n\u00e3o tinham dire\u00e7\u00e3o certa e soltavam fagulhas. As m\u00fasicas que animavam festas e conversas eram por toda a cidade de Fortaleza os bai\u00f5es, xotes e xaxados inspirados em temas do sert\u00e3o e quase sempre cantados por Luiz Gonzaga, o Rei do Bai\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Creio que voc\u00ea ao falar da Rua Carapinima se d\u00e1 conta da complexidade do espa\u00e7o, marcado pela transitoriedade e das transforma\u00e7\u00f5es acontecidas na cidade de Fortaleza&#8230; <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Claro que sim. Com essa hist\u00f3ria da minha rua e do bairro onde ela se inseria como n\u00facleo polarizador associado \u00e0s peculiaridades da Fortaleza de ent\u00e3o procuro contribuir para a reconstitui\u00e7\u00e3o dos costumes, linguagens e fatos da \u00e9poca. Tempo em que o retrato da namorada guardado na carteira de notas tinha escrito o tradicional \u201cn\u00e3o me esque\u00e7a\u201d. Estou ciente de que muitas coisas n\u00e3o se pode restaurar, mas o meu prop\u00f3sito ao falar da Rua Carapinima \u00e9 falar dos tempos de uma cidade mais segura e de um tempo compartido e dividido entre a casa e a rua. O interessante \u00e9 que nessa rua, nesse bairro conviviam pessoas de v\u00e1rios n\u00edveis intelectuais. Ali viveram a escritora Marta Brasil, autora de livros did\u00e1ticos, a Professora de Canto Dona Guilhermina, o Dr. Antonio Ferreira Antero, um dos engenheiros fiscais da obra do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, o famoso farmac\u00eautico Jos\u00e9 Arthur de Carvalho e Dona Almerinda fundadora do Col\u00e9gio Santa Cec\u00edlia, mais tarde entregue as Damas da Instru\u00e7\u00e3o Crist\u00e3. Isto sem falar do meu pai Luiz Arag\u00e3o contador, professor e autodidata em bot\u00e2nica, al\u00e9m do famoso fil\u00f3sofo Antonio Viana o famoso fot\u00f3grafo Fernando Leit\u00e3o e o erudito ecologista Guimar\u00e3es Duque, um dos maiores estudiosos das xer\u00f3filas em todo o mundo. Tinha tamb\u00e9m o Dr. Carlos Ribeiro, propriet\u00e1rio de grande parte dos terrenos do bairro, av\u00f4 do atual senador e ex-governador do Cear\u00e1, Tasso Jereissati e que era simples, caridoso e generoso. Era um dos tipos mais querido do bairro, chegando a distribuir frutas de seu s\u00edtio com os moradores da rua, havia tamb\u00e9m a Dona Estela, professora que educou muita gente no bairro, irm\u00e3 de um jornalista, o Sr. Murilo que escrevia para o jornal \u201cO Nordeste\u201d. N\u00e3o posso esquecer o tamb\u00e9m jornalista, deputado e presidente do Conselho de Finan\u00e7as do Munic\u00edpio, Antonio de P\u00e1dua Campos que morava num bairro que se confundia com o Benfica que era a Gentil\u00e2ndia. Bastava atravessar a Avenida Visconde do Cau\u00edpe que j\u00e1 estava na Gentil\u00e2ndia. O estudioso de piscicultura Rui Sim\u00f5es de Meneses e sua mulher Mariana, uma grande bi\u00f3loga. O poeta e professor Antonio Dam\u00e1sio da Cunha e o professor Moreira Campos da Academia Cearense de Letras e Conferencista na Universidade de Col\u00f4nia, na Alemanha, sua obra daria um livro. O professor de desenho e trabalhos manuais Jaime Alberto da Silva, pai da folclorista Elzenir Colares. \u00c9 uma lista inumer\u00e1vel falar de tantas pessoas que tiveram sucesso profissional e moraram naquela rua e naquele bairro. Ali viveram tamb\u00e9m, grandes jogadores de futebol como Airton Monte e Jombrega, este v\u00edtima dos fan\u00e1ticos do futebol, ao ser responsabilizado pela derrota da Sele\u00e7\u00e3o Cearense frente \u00e0 do Par\u00e1. Isto sem falar na beleza das mo\u00e7as do bairro culminando com a Miss Brasil, Em\u00edlia Correia Lima. Os concursos de beleza que movimentavam a cidade provocando uma maior venda de jornais, como Rainha do Algod\u00e3o, Glamour Girl, Rainhas de Col\u00e9gios, Rainha dos Jornalistas, os mais belos olhos da cidade, eram sempre ganhos por alguma mo\u00e7a do Benfica. Isto sem falar do Renato Arag\u00e3o que j\u00e1 estudava na Faculdade de Direito, trabalhava na TV Cear\u00e1 e namorava a Marta que era nossa vizinha. Tamb\u00e9m o Tom Cavalcante morou na Carapinima, bem em frente \u00e0 casa da Marta na modesta Vila das Irm\u00e3s. Era filho de Sr. Hugo e sua fam\u00edlia veio de Sobral. O outro comediante Chico An\u00edsio que junto com os outros dois alcan\u00e7ou notoriedade no pa\u00eds, morou na Avenida Jo\u00e3o Pessoa tamb\u00e9m no Benfica. Sua casa dava fundos para a Rua Carapinima, onde funcionava a garagem da empresa de \u00f4nibus do seu pai. N\u00e3o posso esquecer o Dilcimar Oliveira, grande comunicador que atuou no jornalismo local chegando depois a escrever no Le Monde e o inesquec\u00edvel tenor Abel que atuou no filme \u201cLiga\u00e7\u00f5es Perigosas\u201d. Al\u00e9m do m\u00fasico Zezinho que alegra ainda hoje as noites de Fortaleza. Como v\u00ea, uso a mem\u00f3ria para registrar e celebrar todas essas pessoas que com sua linguagem erudita, professoral, escrita e oral contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o de jovens, o deleite de muitos como no caso dos tr\u00eas humoristas mencionados. Discursando, escrevendo substanciosos artigos, poemas, contos e tradu\u00e7\u00f5es dignificaram suas profiss\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Voc\u00ea se referiu aos famosos e intelectuais da rua. Dentre eles citou o jogador Jombrega. Qual era o verdadeiro nome dele? \u00c9 verdade que ele al\u00e9m de ter passado por essa situa\u00e7\u00e3o injusta, ainda perdeu um filho de maneira tr\u00e1gica? Sei que essa trag\u00e9dia foi descrita em versos conforme vi no seu livro&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Vamos por partes, Francisco Jos\u00e9 R\u00f3seo de Oliveira foi conhecido nacionalmente. Casado com uma senhora bel\u00edssima, a dona Cleide. De fato, perdeu o seu filho ca\u00e7ula o Luis Antonio R\u00f3seo que recebeu uma homenagem em poema do meu irm\u00e3o, o cordelista Luis Antonio Arag\u00e3o. Os versos eu sei de cor&#8230; A morte dele comoveu todo o bairro, pois se tratava de uma crian\u00e7a que fazia o curso prim\u00e1rio . Vamos aos versos: Chorar, chorar&#8230; Nas minhas l\u00e1grimas Rolam os sentimentos Por algu\u00e9m que jaz amor. Sem t\u00famulo, sem um abrigo, Entregue aos mist\u00e9rios Do Oceano que levou consigo, Seu corpo e minhas esperan\u00e7as De encontrar meu grande amigo. \u00d3, mar, resolve meu dilema, Porque n\u00e3o vou odiar-te, Pois sei que inspiraste As frases deste poema. Mas livra de teus la\u00e7os, Esta v\u00edtima inocente, E lan\u00e7a nos meigos bra\u00e7os De quem por ele chora e sente. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Realmente era uma rua exemplar e a solidariedade um tra\u00e7o de uni\u00e3o entre todos. A partir de que momento voc\u00ea considera que sofreu profunda modifica\u00e7\u00e3o os usos e costumes n\u00e3o s\u00f3 da rua, mas do bairro do Benfica e como voc\u00ea j\u00e1 explicou o bairro contigo da Gentil\u00e2ndia?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Isto aconteceu com a cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Cear\u00e1 que adquiriu grande parte dos bangal\u00f4s e sobrado do bairro. Muita gente mudou-se para outros locais e o bairro consagrou a fama de \u201cintelectual\u201d. Ficaram famosas as festas do CEU \u2013 Clube dos Estudantes Universit\u00e1rios. \u00c9 claro que a Universidade estimulou a corrida dos jovens ao vestibular e o Conservat\u00f3rio de M\u00fasica recebeu muitos alunos. \u00c9 fora de d\u00favida que a Universidade continua tendo um papel importante em todo o Estado do Cear\u00e1. Mas n\u00e3o se pode negar que ela foi uma das respons\u00e1veis pela descaracteriza\u00e7\u00e3o do Benfica e da Gentil\u00e2ndia por causa da sua pr\u00f3pria expans\u00e3o e em face da constru\u00e7\u00e3o de novos edif\u00edcios. At\u00e9 a maravilhosa fonte que ficava em frente da reitoria da Universidade, antigo solar da fam\u00edlia Gentil, aonde chegou a se hospedar Get\u00falio Vargas, foi retirada dali e hoje est\u00e1 no centro da cidade em frente \u00e0 sede do Banco do Nordeste. Vale acrescentar que o bairro do Benfica, cresceu em import\u00e2ncia com o advento da Universidade. As mulheres passaram a ter a oportunidade de ingressar em outras faculdades e n\u00e3o s\u00f3 na de Filosofia. Algumas vindas do interior e hospedavam-se em casas de parentes, ou ainda nos pensionatos para mo\u00e7as,que passaram a ser comuns naquela \u00e9poca e hoje quase n\u00e3o existem mais. Notadamente, o bairro do Benfica era todo verde parecia um parque ecol\u00f3gico enquanto que hoje, apesar da preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o verde assim. A necessidade de moderniza\u00e7\u00e3o retirou os trilhos dos bondes, ruas foram alargadas e encolheu-se o espa\u00e7o da casa. Hoje ela n\u00e3o vai at\u00e9 a rua. Algumas secretarias foram acrescentadas \u00e0 prefeitura e ao governo do estado. A SUMOV por exemplo, pertinente a Superintend\u00eancia de Urbaniza\u00e7\u00e3o, entre outros \u00f3rg\u00e3os, transformaram ruas em avenidas modificando a paisagem urbana. A viol\u00eancia se reflete em v\u00e1rias facetas. \u00c9 o caso da Igreja dos Rem\u00e9dios hoje protegida por uma infinidade de grades e h\u00e1 aus\u00eancia de cadeiras nas cal\u00e7adas para as longas conversas de outrora. As televis\u00f5es e os computadores, estabelecem um novo tipo de comunica\u00e7\u00e3o. Os debates sobre pol\u00edtica e economia feitos na \u00e1gora foram substitu\u00eddos por conversa f\u00fateis sobre novelas e programas sem nenhum conte\u00fado cultural e s\u00e3o duvidosas produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. O escoamento de g\u00eaneros in natura, faz-se hoje muito mais por caminh\u00e3o. N\u00e3o se ouve mais \u201cl\u00e1 vem o trem\u201d. O trem que antes transportava gente do povo, fardos de algod\u00e3o, mamona, feij\u00e3o, farinha, oiticica e bovinos, eq\u00fcinos e su\u00ednos, vindos de outras cidades cearenses como Cedro, Iguat\u00fa, Senador Pompeu, em vag\u00f5es chamados gaiolas. Observe-se que a moderniza\u00e7\u00e3o do Porto do Mucuripe em Fortaleza e a inaugura\u00e7\u00e3o do Porto do Pec\u00e9m deram novo \u00e2nimo \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es do estado. Virou hist\u00f3ria o in\u00edcio do Porto do Mucuripe quando \u00e0 dist\u00e2ncia se avistava o grande guindaste Tit\u00e3 e da Maria Fuma\u00e7a trazendo as pedras para o porto. N\u00f3s meninos da Rua Carapinima, meninos dos bairros do Benfica e circunvizinhos fomos levados para conhecer o \u201cPassatempo\u201d, prec\u00e1ria esta\u00e7\u00e3o de passageiros, local onde ocorreram os primeiros embarques e desembarques. Na Cia. Docas do Cear\u00e1 empenhei-me muito pelo tombamento do Tit\u00e3 na ponta do quebra-mar e tamb\u00e9m do Passatempo, mas n\u00e3o tive \u00eaxito. Ainda bem que ainda resta a Ponte Met\u00e1lica onde essa opera\u00e7\u00e3o de embarque e desembarque j\u00e1 havia existido entre 1920 e 1952. Claro est\u00e1 que numa cidade banhada pelo mar n\u00e3o se pode esquecer dos passeios na orla. Assim, a crian\u00e7ada toda e os jovens do bairro, eram vez em quando premiados. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: Bom professor Paulo Arag\u00e3o acho que al\u00e9m do Direito o senhor termina se revelar um excelente narrador e contador de hist\u00f3rias. Percebi pelas suas narrativas, o tanto que a cidade foi se modificando com o advento do progresso. Fiquei ciente tamb\u00e9m do quanto essas brincadeiras na casa e na rua favoreceram o processo de socializa\u00e7\u00e3o. Foi muito bom ouvi-lo falar sobre a Rua Carapinima que uniu bairros diferentes, como no caso do bairro de Granja e Porangabu\u00e7u quase n\u00e3o se percebendo a linha de separa\u00e7\u00e3o, exceto uma placa de \u00f4nibus&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">R: Sobre isso, quero dizer que voc\u00eas foram muito felizes na escolha desse tema t\u00e3o amplo e t\u00e3o atraente como Cidades e Linguagens. As pessoas est\u00e3o mais individualistas e mais afastadas umas das outras, mas penso que na ess\u00eancia elas continuam as mesmas. O ad\u00e1gio americano \u201ctempo \u00e9 dinheiro\u201d parece que se incorporou \u00e0 realidade nossa de todo o dia e n\u00e3o nos damos conta do quanto nos faz falta \u00e0 solidariedade, o bate papo, a intera\u00e7\u00e3o com os demais. Tive imenso prazer em lhe conceder esta entrevista. Falar sobre ruas e bairros de nossa cidade \u00e9 colaborar para que n\u00e3o se perca a hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria dela.Fortaleza \u00e9 hoje uma grande cidade e com os problemas que o progresso imp\u00f5e. S\u00e3o muitas as formas de se expressar e de falar e como as pessoas tamb\u00e9m utilizam a linguagem m\u00edmica e gestual bem que fica dif\u00edcil para voc\u00ea obter e registrar fals e sotaques, n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\">P: De certa forma tem toda raz\u00e3o&#8230; Obrigada.<\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\"> &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000; font-family: Tahoma;\"><strong>Regina Stela Ferreira Moreira<\/strong>, formada em Jornalismo pela Faculdade Celso Lisboa \u2013 RJ, correspondente da Publica\u00e7\u00e3o Mensal Bob\u2019s Brazil \u2013 Washington DC. Especialista em Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica, formada pela\u00a0 Escola Universit\u00e1ria de\u00a0 Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica para Cidadania \u2013 UFC.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu entrevistado \u00e9 Paulo Maria de Arag\u00e3o, advogado e professor universit\u00e1rio, Mestre Pela Universidade S\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":1799,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[303,40],"tags":[],"class_list":["post-116","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-entrevistas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=116"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1800,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116\/revisions\/1800"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1799"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}