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{"id":1029,"date":"2015-08-25T23:19:00","date_gmt":"2015-08-25T23:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/nehscfortaleza.com\/home\/?p=1029"},"modified":"2021-02-10T00:01:05","modified_gmt":"2021-02-10T00:01:05","slug":"escravos-e-nordestinos-na-guerra-do-paraguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/2015\/08\/25\/escravos-e-nordestinos-na-guerra-do-paraguai\/","title":{"rendered":"Escravos e Nordestinos na Guerra do Paraguai"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Os epis\u00f3dios relativos \u00e0 Guerra do Paraguai continuam a merecer uma maior aten\u00e7\u00e3o dos historiadores.\u00a0 O tema se vincula, por exemplo, a outros aspectos da vida brasileira como o surgimento das favelas.\u00a0 Ora, o nome foi dado ao morro do portugu\u00eas\u00a0Ant\u00f4nio Favela, no Rio de Janeiro, quando do retorno dos soldados da Guerra do Paraguai. A vasta maioria deles era composta de negros, muitos ainda escravos, que tinham sido permutados pelas fam\u00edlias brancas em lugar de seus filhos, que tinham sido apanhados para o recrutamento da guerra. O governo prometia a esses pretos a liberdade e um peda\u00e7o de terra. Mas quando terminou o conflito, o Brasil estava t\u00e3o quebrado financeiramente,\u00a0 que o custo de manda-los de volta para o Nordeste, notadamente a Bahia e estados long\u00ednquos era tal, que o governo adquiriu, noutras palavras, confiscou o morro do portugu\u00eas Ant\u00f4nio Favela, e os\u00a0colocou l\u00e1.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma quest\u00e3o sempre suscitada quando se fala da Guerra do Paraguai \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o dos escravos e de popula\u00e7\u00f5es menos favorecidas como os nordestinos.. \u00a0Ali\u00e1s, o tema da Guerra do Paraguai ainda n\u00e3o apresenta uma conclus\u00e3o satisfat\u00f3ria, acreditando-se que o perdurar do conflito deveu-se a insist\u00eancia de D. Pedro II em n\u00e3o encerrar o confronto e as pr\u00f3prias medidas estrat\u00e9gicas e insanas tomadas pelo pr\u00f3prio Solano L\u00f3pez, dentro do Paraguai, exaurindo a sua terra e a sua gente. Grande parte, e para alguns estudiosos, a maioria dos soldados brasileiros\u00a0\u00a0naquela guerra eram de origem africana. Isto sempre me era mencionado por alguns dos meus colegas historiadores paraguaios, em Washington.\u00a0 Quase em un\u00edssono afirmavam que no Paraguai, nos quadros retratando cenas sobre aquela guerra, os soldados brasileiros sempre aparecem como negros, e alguns deles me perguntavam a raz\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Naquela \u00e9poca eu ainda n\u00e3o tinha lido\u00a0 sobre\u00a0a liga\u00e7\u00e3o existente entre o recrutamento para a luta contra o Paraguai, a escravid\u00e3o e o morro do Ant\u00f4nio Favela, e n\u00e3o tinha, portanto uma explica\u00e7\u00e3o cab\u00edvel para lhes dar. Tampouco levantei a quest\u00e3o do recrutamento nordestino. \u00a0Depois, lendo a correspond\u00eancia dos mission\u00e1rios presbiterianos, que come\u00e7avam a chegar ao Brasil &#8211;\u00a0depois da guerra civil nos EUA (1860-1865) &#8211;\u00a0 li que as m\u00e3es brasileiras, aterrorizadas com a ideia de os filhos partirem para a guerra, mandavam-nos para as &#8220;montanhas de\u00a0MG e S\u00e3o Paulo, ou para lugares long\u00ednquos&#8221;, onde o ex\u00e9rcito n\u00e3o os poderia encontrar. Na \u00e9poca n\u00e3o havia convoca\u00e7\u00e3o, assim os soldados sa\u00edam pelas ruas, apanhando os jovens, e obrigando-os a se alistarem, de acordo com a correspond\u00eancia que analisei desses mission\u00e1rios americanos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u00a0Especificamente com rela\u00e7\u00e3o ao tipo de contingente para a Guerra da Paraguai, ou seja, a quest\u00e3o do recrutamento, n\u00e3o s\u00f3 os escravos integraram as for\u00e7as brasileiras, mas os nordestinos, principalmente os cearenses. Segundo a historiadora cearense Luciara de Arag\u00e3o (1) j\u00e1 desde as lutas da Cisplatina \u201cpara c\u00famulo dos males que assolaram a prov\u00edncia, a peste das bexigas surge como aliada das secas e do recrutamento no processo de despovoamento do Cear\u00e1.\u201d Ela se refere aos anos de seca de 1824 -1825 e ao tratamento dado ao flagelo no segundo imp\u00e9rio, numa an\u00e1lise do epis\u00f3dio do recrutamento dentro de um quadro administrativo confuso e conturbado onde a seca foi s\u00f3 mais um elemento a gerar dificuldades\u201d.(1) A forma brutal como se dava o recrutamento \u00e9 descrita como um aspecto da arbitrariedade do governo arrancando das suas fam\u00edlias\u201dos homens do Cear\u00e1, \u201cem processo de extin\u00e7\u00e3o.\u201dAinda embarcavam,no caso, sob o\u00a0 comandante de armas da prov\u00edncia Conrado Jacob, sendo presidente da prov\u00edncia Antonio Sales Nunes Beford, em condi\u00e7\u00f5es insatisfat\u00f3rias e com a proibi\u00e7\u00e3o de os vacinar em terra. Nenhuma vacina se efetuou consequentemente. S\u00f3 mais tarde deu-se a devida aten\u00e7\u00e3o ao epis\u00f3dio do recrutamento na prov\u00edncia. Na C\u00e2mara \u201cA queixa do povo do Cear\u00e1 se fez ouvir apesar da falta de garantias e da universalidade apenas te\u00f3rica da Constitui\u00e7\u00e3o\u201d (2).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ainda no Cear\u00e1 quanto a Guerra do Paraguai conta-se do alistamento volunt\u00e1rio dos integrantes das classes mais altas para compor a alta oficialidade, dentro de uma perspectiva, n\u00e3o assegurada, de n\u00e3o lutar no front. A classe m\u00e9dia com os denominados sorteios premiados podia optar pelo suborno do encarregado do servi\u00e7o militar ou apelar para um padrinho poderoso. Quanto\u00a0 aos \u00a0pobres eram recrutados a for\u00e7a &#8211;\u00a0 repetindo-se o \u00a0h\u00e1bito j\u00e1 sacramentado\u00a0 \u00a0nas lutas cisplatinas- \u00a0dando-se em raz\u00e3o disso uma fuga em massa \u00a0para as serras\u00a0 ou adentrando-se mais fundo nos sert\u00f5es.Entretanto, a ideia do voluntariado patriota existia ente alguns jovens. Um exemplo disso foi a atua\u00e7\u00e3o da jovem cearense Jovita Feitosa e na Bahia, a de Maria Quit\u00e9ria. (3) Com certeza esse procedimento padr\u00e3o existia nas v\u00e1rias prov\u00edncias como Pernambuco, Rio Grande do Norte e alimentou todo um ciclo de favores e benef\u00edcios fortalecendo as rela\u00e7\u00f5es de compadrio ainda hoje dif\u00edceis de se extinguirem.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada, sobre os &#8220;volunt\u00e1rios da p\u00e1tria&#8221; &#8211; que sa\u00edram marchando pelas ruas do Rio de Janeiro, aplaudidos pela multid\u00e3o, especialmente mo\u00e7as &#8211;\u00a0quando chegavam ao fim da marcha, encontraram pelot\u00f5es de soldados para alista-los. Ent\u00e3o, sa\u00edam correndo para\u00a0se esconderem. Uma coisa \u00e9 ser &#8220;patriota de araque&#8221;, outra \u00e9 enfrentar a for\u00e7a bruta e o tiroteio. Acredita-se que foi a partir da\u00ed que come\u00e7ou o assunto da permuta de jovens brancos, por escravos africanos.\u00a0Este procedimento era muito caro, pois o pre\u00e7o dos escravos tinha subido tremendamente, depois que a esquadra inglesa barrara o tr\u00e1fico de navios vindos da \u00c1frica trazendo os escravos entregues pelos pr\u00f3prios africanos e comprados para as lavouras no Brasil. Um escravo chegava, ent\u00e3o a valer um conto de reis, o que era muito dinheiro na \u00e9poca mesmo porque, \u00e0s vezes, uma fam\u00edlia chegava a permutar at\u00e9 10 (dez) escravos, pela libera\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 filho. Entretanto, no caso nordestino, o imperador Pedro II manteve-se irredut\u00edvel no desejo de conceder verbas ao Cear\u00e1 assumindo a posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o permitir que morram de fome os habitantes de uma prov\u00edncia. No entanto, apesar das alternativas e da boa vontade imperial num momento de escassez em que o Brasil rec\u00e9m findara a Guerra do Paraguai, terminou-se por implantar a pol\u00edtica de retirada dos cearenses pelo porto de Aracati e pelo porto de fortaleza para regi\u00e3o Norte do pa\u00eds. Observe-se que foram retirados tamb\u00e9m os escravos negros porque representavam bocas para alimentar. Sem d\u00favida um fator contributivo para que o estado se tornasse a \u201cterra da luz\u201d. (4)<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Notas:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>(1)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Luciara Silveira de Arag\u00e3o e Frota, Documenta\u00e7\u00e3o Oral e a Tem\u00e1tica das Secas- Bras\u00edlia: Senado Federal, 1970.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>(2)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Op. cit. A autora discute as provid\u00eancias tomadas no Parlamento onde apenas dois dos oito integrantes da bancada do Cear\u00e1 se manifestaram sobre o assunto, pp.135-141.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>(3)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Guerra do Paraguai: o general Antonio Tiburcio, Ciclo dos Amigos da Hist\u00f3ria, Temas brasileiros UnB. Tema discutido pelos professores doutores Corcino Medeiros dos Santos, Luciara de Arag\u00e3o, Francisco Pinto Cabral, Jo\u00e3o Cabral e David Gueiros Vieira.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>(4) As avultadas despesas com as secas incluem as acusa\u00e7\u00f5es de inc\u00faria administrativa e os ecos dos roubos e da corrup\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 famosa seca de 1877. A corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser um fen\u00f4meno novo.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os epis\u00f3dios relativos \u00e0 Guerra do Paraguai continuam a merecer uma maior aten\u00e7\u00e3o dos historiadores.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":1030,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[279],"tags":[],"class_list":["post-1029","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-cientificos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1029"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1029\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1789,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1029\/revisions\/1789"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1030"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nehscfortaleza.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}